• Nenhum resultado encontrado

2 MODERNIDADE, COLONIALIDADE E DESENVOLVIMENTO

2.1 O GRUPO MODERNIDADE/COLONIALIDADE E A CONSOLIDAÇÃO DO

2.1.1 O novo padrão mundial do poder: a colonialidade do poder

A colonialidade do poder, originalmente desenvolvida por Aníbal Quijano, no início da década de 1990, remete ao padrão de poder instituído pela modernidade/colonialidade. Configurando um dos pilares sobre o qual se assentam as contribuições do Grupo Modernidade/Colonialidade, mas também uma das principais teorias desenvolvidas em solo latino-americano, faz-se necessário um aprofundamento acerca dessa perspectiva (SEGATO, 2013).

O padrão mundial de poder emergido da colonialidade do poder é caracterizado pela imposição de uma classificação racial da população mundial, que opera nas dimensões materiais e subjetivas da existência cotidiana dos indivíduos (QUIJANO, 2014). Embora forjada durante o período colonial, a “estrutura colonial do poder” não desapareceu com o término do colonialismo. Na América Latina, a perspectiva eurocêntrica foi adotada pelos grupos dominantes como própria e levou-os a impor o modelo europeu de formação do Estado-nação para estruturas de poder organizadas em torno de relações coloniais (QUIJANO, 2005). Ballestrin (2013) destaca que a colonialidade do poder possui dois objetivos: a) denunciar a continuidade das formas coloniais de dominação, mesmo com o fim do colonialismo; b) apresentar uma capacidade explicativa que atualize os processos que teriam sido apagados, invisibilizados ou assimilados pela modernidade.

O artigo de Quijano publicado em 1992, “Colonialidad y Modernidad/Racionalidad”, foi onde pela primeira vez apareceu a ideia de colonialidade de poder, embora ainda não houvesse sido cunhado o termo (RESTREPO; ROJAS, 2010). No texto, o autor desenvolve o conceito de colonialidade cultural para ressaltar que a relação entre a cultura europeia e as demais permaneceu como uma relação de dominação colonial. A colonialidade cultural se manifesta em dois âmbitos: a) na repressão dos padrões de expressões, de conhecimento e de significação dos dominados; b) na imposição dos dominadores de seus padrões de expressão, suas crenças e imagens sobre o natural (QUIJANO, 1992; RESTREPO; ROJAS, 2010).

Quijano (1992) ressalta que a consolidação da dominação colonial deu origem ao complexo cultural conhecido como racionalidade/modernidade europeia, o qual se estabeleceu como um paradigma universal de conhecimento e de relação entre a Europa e o

resto do mundo. Como características desse paradigma destacam-se a ideia do sujeito cartesiano como um indivíduo isolado que nega a intersubjetividade e a totalidade social como produto do conhecimento; a suposição de um objeto de conhecimento com uma identidade diferente do sujeito e estabelecida à margem das relações que o constitui; e a exterioridade absoluta das relações entre sujeito e objeto – derivado destas noções, posteriormente seria desenvolvido o conceito de colonialidade do saber, como veremos a seguir.

O termo “colonialidade do poder” apareceu pela primeira vez no artigo lançado por Quijano, em 1998, intitulado “Colonialidad del poder, cultura y conocimiento en América Latina”. A principal diferença em relação ao texto de 1992 refere-se à importância dedicada à questão da raça. Conforme o autor, a raça foi a primeira classificação social universal da população mundial e a primeira característica da colonialidade do poder, ou seja, a base sobre a qual se estabeleceu o padrão de dominação entre colonizadores e colonizados (RESTREPO; ROJAS, 2010). A racialização do conceito de colonialidade do poder aponta para a adoção de discursos de ordem biológica para justificar a existência de desigualdades entre populações. Tal característica resulta na criação de identidades negativas para as populações colonizadas e legitima as relações de dominação e o caráter eurocêntrico do poder mundial.

Ao elemento fundador do novo sistema de dominação social, a ideia de raça, vincularam-se as noções de trabalho e gênero – três linhas principais de classificação que levaram a formação do capitalismo (QUIJANO, 2005). O impacto da criação da raça na força do trabalho fez com que, já em meados do século XVI, a divisão do trabalho expressasse a classificação racial da população – o trabalho não pago ou não assalariado era associado às raças dominadas porque estas eram consideradas inferiores (SEGATO, 2013). No tocante ao comportamento sexual, a classificação racial garantiu o acesso dos homens brancos às mulheres negras e indígenas a revelia das suas vontades (QUIJANO, 2014).

Assim, no modelo de ordem social, patriarcal, vertical e autoritária, do qual os conquistadores ibéricos eram portadores, todo homem era, por definição, superior a toda mulher. Mas a partir da imposição e legitimação da ideia de raça, toda mulher de raça superior tornou-se imediatamente superior, por definição, a todo homem de raça inferior. Desse modo, a colonialidade das relações entre sexos se reconfigurou em dependência da colonialidade das relações entre raças. (QUIJANO, 2005, p. 18).

Para Quijano (2014), o poder consiste em um espaço de redes de relações sociais de exploração, dominação e/ou conflito articuladas em torno das questões de raça, trabalho e gênero. O poder refere-se à articulação estrutural de elementos históricos heterogêneos

marcados por relações de descontinuidade, incoerência e conflitualidade entre si – elementos estes invisibilizados pela modernidade (RESTREPO; ROJAS, 2010).

A noção de poder proposta por Quijano vai de encontro à noção de totalidade decorrente do eurocentrismo. Para a perspectiva eurocêntrica, a totalidade tem primazia absoluta e determinante sobre todas e cada uma das partes. Isso faz com que as variantes existentes nas partes se tornem secundárias e sem efeito sobre o todo, sendo reduzidas a particularidades da lógica geral a que pertencem. Quijano (2014) não nega a existência de uma totalidade, entretanto, destaca que esta concepção leva a uma homogeneização da experiência, resultando em uma distorção da realidade. O autor busca integrar as múltiplas hierarquias de poder do capitalismo como parte de um processo histórico-estrutural heterogêneo (CASTRO-GÓMEZ; GROSFOGUEL, 2007).

Uma totalidade histórico-social é um campo de relações estruturado pela articulação heterogênea e descontínua de diversos âmbitos de existência social, cada um deles estruturado com elementos historicamente heterogêneos, descontínuos no tempo e conflitantes. [...] Cada elemento de uma totalidade histórica é uma particularidade e, ao mesmo tempo, uma especificidade, inclusive, eventualmente, uma singularidade. Todos se movem dentro da tendência geral do todo, mas têm ou podem ter uma autonomia relativa que pode ser, ou chegar a ser conflitiva com a do conjunto. (QUIJANO, 2014, p. 298-299).

A partir de debates entre os membros do Grupo M/C acerca das implicações da colonialidade do poder em diferentes áreas da sociedade, esta se expandiu dando origem à colonialidade do saber e do ser. Ao se referir à esfera do conhecimento no novo padrão de poder mundial, a colonialidade do saber busca evidenciar o controle hegemônico da Europa sob todas as demais formas de cultura, de conhecimento e de produção de conhecimento (QUIJANO, 2005).

A colonialidade do saber se refere a duas dimensões da colonialidade do poder: (1) a eliminação de outras formas de conhecimento existentes em substituição a uma única e verdadeira forma de conhecer fornecida pela racionalidade científica e (2) a constituição das ciências humanas no século XVIII, que contribuíram (e contribuem) decisivamente para a reprodução da colonialidade (CASTRO-GÓMEZ, 2005). A ciência (moderna), ao ser compreendida como ponto de chegada da história da humanidade, negou a racionalidade e invisibilizou uma multiplicidade de conhecimentos outros que não correspondem à produção de conhecimento ocidental (WALSH, 2005).

Conforme Mignolo (2004, p. 670), a revolução científica “foi concebida como um triunfo da modernidade na perspectiva da modernidade, uma autocelebração que ocorreu em paralelo com a crença emergente na supremacia da ‘raça branca’”. Quando o colonialismo

resultou na destruição da estrutura social, as populações locais ficaram despojadas de seus saberes e seus meios de expressão, sendo desprezadas e reduzidas à condição de pessoas iletradas (QUIJANO, 2014). Portanto, a colonialidade do saber questiona a geopolítica dominante do conhecimento e o estabelecimento do conhecimento científico como universal e como a única forma válida de produção de “verdades” (WALSH, 2005).

Para Castro-Gómez (2005), disciplinas como a Sociologia e a Antropologia fornecem categorias de análise que servem como instrumento para a consolidação da modernidade e de um conhecimento que se apresenta como superior aos demais. Ao ser categorizada pela disciplinarização do conhecimento e pela hierarquização da estrutura universitária, a constituição das ciências humanas deu origem a um modelo epistêmico moderno/colonial denominado “hybris del punto cero”.

A “hybris del punto cero” representa a postura adotada por cientistas e filósofos que entendem que podem adquirir um ponto de vista neutro e absoluto sobre a realidade a que se referem, concedendo à linguagem científica ares de pura e universal. A principal consequência do “punto cero” consiste na invisibilização de lugares particulares que são transformados em lugares universais. Os saberes passam a ser regidos por uma escala de prestígio, concomitantemente a uma hierarquia decorrente do observador sobre o seu objeto que resulta na disciplinarização do saber (SEGATO, 2013). Embora com pretensões científicas, a “hybris del punto cero” remete à formação da primeira modernidade e à conquista da América, momento em que a coexistência de diversos conhecimentos exigiu a hierarquização dos seres e dos saberes (CASTRO-GÓMEZ, 2005). Conforme Castro-Gómez (2005, p. 42), as ciências humanas

[...] se apropriam do modelo da física para criar seu objeto desde um ponto de observação imparcial e asséptico, que tenho denominado hybris del punto cero. [...] uma vez instaladas no ponto zero, as ciências do homem constroem um discurso sobre a história e a natureza humana em que os povos colonizados pela Europa aparecem no nível mais baixo da escala do desenvolvimento, enquanto que a economia de mercado, a nova ciência e as instituições políticas modernas são apresentadas, respectivamente, como o objetivo final da evolução social, cognitiva e moral da humanidade.

A colonialidade do saber demonstra que para criticarmos o poder colonial é necessário um questionamento acerca do modo como a produção de conhecimento legitimou os saberes europeus e os tornou com pretensões de validade universal (CASTRO-GÓMEZ, 2005). A emergência do diálogo entre diferentes saberes só é possível ao se tornar evidente o lugar desde o qual estes foram produzidos. Ademais, devemos considerar o observador não como alguém neutro, mas como parte integrante da sua observação. Portanto, destruir a

colonialidade do saber significa decolonizar as instituições produtoras de conhecimento, ou seja, tornar visíveis os valores e os interesses que as movem.

Completando a tripla dimensão da colonialidade, desenvolveu-se a noção de colonialidade do ser. Mignolo foi o primeiro intelectual a elaborar o conceito, embora ultimamente tenha despertado maior atenção do filósofo porto-riquenho Nelson Maldonado- Torres26 (MALDONADO-TORRES, 2007). A colonialidade do ser refere-se à dimensão ontológica da colonialidade do poder. Seu objetivo é demonstrar como a experiência vivida pela colonialidade inferioriza e desumaniza, total ou parcialmente, determinadas populações. A colonialidade do ser busca captar o modo como o sistema-mundo moderno/colonial se apresenta aos sujeitos na linguagem e na experiência vivida.

Invisibilização e desumanização de determinados povos são expressões primárias da colonialidade do ser. O seu ponto extremo pode resultar inclusive na ideia de ausência de racionalidade e de “ser” (MALDONADO-TORRES, 2007).

Tomado conjuntamente com a classificação racial da colonialidade do poder e a perspectiva eurocêntrica do conhecimento presente na colonialidade do saber, a colonialidade do ser serve como força maior pelo simples fato de que historicamente tem negado a certos grupos, especificamente os povos afrodescendentes e, em menor medida, também os povos indígenas, o status e a consideração como gente, uma negação que apresenta problemas reais em termos de liberdade e libertação. (WALSH, 2005, p. 22-23).

A importância da colonialidade (do poder, saber e ser) reside na atualização das estruturas surgidas no colonialismo, demonstrando a sua capacidade de ser tomada como própria pelas populações subjugadas. Entretanto, deve-se ressaltar que os atores sociais não são simples reprodutores de noções incutidas pelo estabelecimento de relações desiguais entre colonizador e colonizado, eles também resistem e constroem pensamentos e práticas alternativas à modernidade.