1 DAS RAÍZES DO AMBIENTALISMO À EDUCAÇÃO AMBIENTAL
1.3 Atualidade, o meio ambiente no contexto global
Ao refletir sobre o nascedouro do ambientalismo e sua evolução, percebemos em sua história momentos de fluxos e refluxos de forma desigual em todo território nacional. Os fluxos e refluxos ocorrem por influência de vários fatores. Como acidentes ambientais e grandes eventos internacionais (fluxo), e mudança de regime político em uma certa sociedade e a limitação de direitos civis (refluxo).
Todavia, temos outros exemplos de fatos que marcaram e intensificaram o ativismo ambiental no mundo. Tratarei aqui de dois acontecimentos que ocorreram
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Ministério do Meio Ambiente. Disponível em
<http://www.mma.gov.br/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=8&idConteudo=928#2001> Acessado em 3 de dezembro de 2007.
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em épocas distintas, porém com enorme similaridade tanto no impacto quanto nas críticas que receberam. Trata-se da publicação do livro de Rachel Carson, Primavera Silenciosa, em 1962 e do livro de Al Gore, Uma verdade Inconveniente, em 2006.
Primavera Silenciosa apresentou os riscos da utilização dos agrotóxicos para o meio ambiente e a saúde em um momento onde vivia-se a revolução verde, alicerçada entre outros pelo uso dos agrotóxicos, sobretudo nos países em desenvolvimento. O livro tratou de um assunto extremamente técnico e distante para a maioria das pessoas, entretanto com sua linguagem e abordagem jornalística e peculiar, rapidamente tornou-se um best seller. Cabe destacar que na década de 1960 não existiam os recursos de tecnologia da informação que dispomos hoje. Por isso o livro de Rachel Carson foi um ícone do ambientalismo sendo considerado um importante catalisador para a luta ambiental planetária.
Nas décadas de 1950 e 1960 existiam vários problemas ambientais que assolavam as sociedades, porém os que conseguiam penetração na mídia eram os relativos a poluição. Atualmente, o cardápio de problemas ambientais é ainda mais extenso, sobretudo pela intensificação do modo de produção e consumo que nos pós-guerra era menos voraz. No entanto, nos últimos anos principalmente nos últimos 24 meses o tema das mudanças climáticas e aquecimento global ganharam repercussão mundial. Não estamos tratando de algo novo, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas foi criado em 1988 pela ONU reunindo cientista de vários países e desde sua criação vem apresentando trabalhos sobre o clima. Na Rio-92, um dos grandes eventos foi à Conferência do Clima. Em 1997 é assinado o Protocolo de Quioto. Porém, em nenhum destes momentos o tema do clima conseguiu penetração na mídia e nem nos governos ficando restrito às discussões técnico-cientificas.
Fato semelhante ao fenômeno Primavera Silenciosa ocorreu em 2006 quando Al Gore, ex-senador pelo estado norte americano do Tennessee (1985-1993), ex- vice presidente dos Estados Unidos na gestão do democrata Bill Clinton (1993-2001) e candidato “quase eleito” à presidência nas eleições de 2000, lança o livro Uma Verdade Inconveniente. Assim como Rachel Carson havia escrito livros anteriormente, porém sem a repercussão de Primavera Silenciosa (escreveu The sea Arond Us e On the Edge of the Sea, relacionados ao mar), Al Gore escreveu A
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Terra em Balanço – ecologia e o espírito humano em 1993, mas também sem a mesma repercussão de Uma Verdade Inconveniente.
Pouco depois do lançamento do livro, foi produzido e lançado o documentário Uma Verdade Inconveniente contando com todos os recursos de mídia da atualidade, ao contrário do que ocorreu com o livro Primavera Silenciosa. O livro e documentário foram criticados por apresentarem dados e informações que ainda não haviam sido comprovadas, assim como Primavera Silenciosa. Entretanto, assim como em 1962, a informação transmitida por Al Gore por meio do livro, documentário e sitios na internet, alcançaram milhões de pessoas em todo o mundo, trazendo novamente o tema meio ambiente (neste caso focando nas alterações do clima) para o centro da mídia de massa. A informação, ainda difusa e sem um adensamento conceitual necessário, chegou no cidadão comum e portanto gerou demanda para os governos.
O sucesso de Al Gore tem relação com a inquestionável qualidade do material e principalmente pela sua trajetória política. Nas eleições presidenciais norte- americanas de 2000, o mundo acompanhou o drama da apuração dos votos, ficando o estado da Flórida por último devido a problemas. A Florida era governada por Jeb Bush, irmão de George Bush o candidato republicano. As apurações se arrastaram por dias e as dúvidas quanto à legitimidade do resultado forçaram a recontagem dos votos, entretanto, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou a suspensão da recontagem e declarou George Bush eleito, porém, Al Gore se tornaria o vencedor moral daquelas eleições. A partir dali, ele retoma seus trabalhos com meio ambiente e mudanças climáticas, iniciado ainda na década de 1980.
Assim como aconteceu com a obra de Rachel Carson ao receber a chancela do governo sobre a qualidade e veracidade de suas informações, Uma Verdade Inconveniente recebe, indiretamente, a chancela do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC da ONU ao publicar uma série de relatórios apresentando a real situação do planeta, os riscos das mudanças do clima, inclusive para a economia e as ações necessárias para mitigação e adaptação da sociedade global. Os relatórios do IPCC deram legitimidade e ampliaram à mensagem transmitida por Al Gore, além de suscitar uma série de debates, matérias e reportagens na mídia de massa.
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Em 25 de fevereiro de 2007, Uma Verdade Inconveniente, sob a direção de Davis Guggenheim vence o Oscar da Academia de Cinema de Hollywood na categoria melhor documentário em longa-metragem, o que o torna ainda mais comentado e popular. No entanto, o grande momento de Al Gore e seu ativismo na causa ambiental foi a indicação para o Prêmio Nobel da Paz. O anúncio da premiação, principalmente o da Paz, é aguardado todos os anos pela comunidade internacional e divulgado pela maioria dos veículos de comunicação. Aqui no Brasil isso ocorre inclusive nos jornais de cidades pequenas e no interior do país. Em novembro de 2007, Al Gore e os cientistas do IPCC são proclamados vencedores do Nobel da Paz pela luta em prol da humanidade. Esse prêmio é um reconhecimento da atuação dos vencedores e sobretudo um reconhecimento da real situação do globo e portanto, da emergência necessária para a tomada de providências.
Desta forma, a humanidade vive novamente um daqueles momentos de intensa atividade ambiental. A mídia de massa tem contribuído ao noticiar os acontecimentos, principalmente aqueles alarmistas, porém a abordagem ainda é rasa, pouco adensada, incapaz de levar o informado a uma reflexão sobre as causas das transformações ambientais e suas conexões com as demais áreas, os demais saberes e suas possibilidades de ação individual e/ou coletiva. Para o real enfrentamento das mudanças do clima e de toda problemática socioambiental, são necessárias transformações na nossa sociedade, neste sentido a educação ambiental deve integrar o conjunto de ferramentas necessárias às transformações, sendo sua contribuição a formação de sujeitos críticos, capazes de lerem seu mundo, perceber sua realidade, as incoerências e problemas, as formas de enfrentamento.