1 DAS RAÍZES DO AMBIENTALISMO À EDUCAÇÃO AMBIENTAL
1.1 Um pouco sobre os primórdios
1.1.4 Clube de Roma e os limites do crescimento
Em abril de 1968 ocorre mais um episódio marcante na construção do ambientalismo moderno. Foi fundado o Clube de Roma pelo industrial italiano
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Aurélio Peccei e pelo químico inglês Alexander King, que agregaram 100 empresários, políticos, cientistas sociais, preocupados com as conseqüências do modelo de desenvolvimento predatório adotado pelos países ricos do ocidente e que rapidamente se espalhava por todo o globo terrestre. Suas contribuições foram determinantes para a elaboração do diagnóstico mais completo até então das condições do globo.
Uma característica marcante do Clube de Roma foi perceber a complexidade dos problemas globais e portanto, a necessidade de uma abordagem multifacetada destes problemas. Tanto que o perfil da equipe do Clube era interdisciplinar. Essa afirmação fica clara ao analisar o livro Cem páginas para o futuro de Aurélio Peccei (1981),publicado anos mais tarde, que aponta por meio de uma representação, a interdependência e a interação dos diversos temas contemporâneos e áreas do conhecimento.
Em decorrência desta compreensão inicial, da interação complexa de variáveis, que o Clube de Roma convidou em 1971 J. W. Forrester, pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT), pioneiro na utilização do computador, para que desenvolvesse um modelo de dinâmica de sistemas para a compreensão integrada dos problemas globais. Em meados de julho o modelo World I, que identificava os componentes específicos do problema e sugeria uma metodologia para sua análise, já havia sido montado por Forrester. Logo a seguir, Forrester desenvolveu mais um modelo, até que por fim organizou uma equipe de cientistas do MIT liderada por Meadows, para fazer uma nova versão do modelo: o World III, cujos resultados foram publicados em Limites do Crescimento (McCormick, 1992 p. 87).
Segundo Rodrigues (1998), o Clube de Roma, foi, sem dúvida, o primeiro a apontar de forma clara os limites ao desenvolvimento ocidental capitalista. Para Corazza (2005), esta obra pode ser considerada a iniciativa mais representativa de uma série de manifestações da preocupação com as perspectivas sobre a continuidade do crescimento econômico e populacional, em que a escassez de recursos naturais e o envenenamento ambiental foram apontados como fatores que limitavam, em termos absolutos, esse crescimento. A publicação recomendou crescimento zero da atividade econômica e da população, como forma de garantir a continuidade da existência da espécie humana do Planeta.
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Limites do Crescimento foi amplamente divulgado na época tendo vendido 30 milhões de exemplares em 30 idiomas, no entanto, não existia naquele momento internet, download e e-mail, sendo o documento impresso a forma mais efetiva de circulação. Portanto, causou enorme impacto da opinião pública internacional, assim como os eventos anteriormente citados, porém, sua contribuição preenchia a lacuna do movimento ambientalista, justamente aquela vinculada às informações técnico- científicas a respeito da problemática ambiental em nível global.
Como era de se esperar, Limites do Crescimento também foi alvo de críticas nos mais variados campos. Entre os teóricos que defendiam as teorias do crescimento tem-se o Prêmio Nobel em Economia, Solow, que criticou com veemência os prognósticos catastróficos do Clube de Roma (Solow, 1974). Houve também críticas nos países em desenvolvimento, pois a proposta do crescimento zero congelava desigualdades, ao propor que as nações estagnassem suas economias, riquezas e a possibilidade de atingirem os mesmos patamares dos paises desenvolvidos.
Embora Limites do Crescimento tenha sido duramente criticado por inclusive por não propor uma redistribuição de riquezas entre os países ricos e pobres e as diferentes camadas da população dentro dos países ricos e pobres, não há como negar a sua importância para aquele momento, pois foi a primeira obra a tratar dos problemas globais e a demonstrar a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento daquela época e presente até o momento. Por fim, o mundo tomava conhecimento, oficialmente, das limitações ambientais ao crescimento econômico.
De 1º a 13 de setembro de 1968, ocorre em Paris a Conferência da Biosfera, cujo nome oficial era Conferência Inter-governamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para o uso e Conservação Racionais dos Recursos da Biosfera. Organizada pela UNESCO, este foi o último grande evento antes de Estocolmo. De acordo com Duarte (2002), ela foi mais direcionada para aspectos científicos da conservação da biosfera e pesquisas em ecologia. Geralmente é dada pouca importância à Conferência da Biosfera, principalmente por que a Conferência de Estocolmo foi um marco e portanto um divisor de águas no ambientalismo mundial, pois causou enorme impacto público e político. Contudo, como afirma McCormick (1992):
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algumas iniciativas atribuídas a Estocolmo foram, em alguns casos, somente expansão de temas levantados em Paris. Alguns dos fundamentos intelectuais de Estocolmo refletiam os de Paris e algumas dentre as recomendações eram comuns a ambas as conferências. A diferença real reside no fato de que, enquanto Paris se voltou para os aspectos científicos dos problemas ambientais, Estocolmo se preocupou com questões políticas, sociais e econômicas mais amplas (McCormick, 1992, p.99).
Portanto, a Conferência da Biosfera produziu vinte recomendações sendo que algumas delas foram melhor trabalhadas e amadurecidas nos anos que antecederam Estocolmo, dentre elas, destacamos as de número 9 a 13 por tratarem exclusivamente da educação ambiental. (9) Treinamento para escolas primárias e secundárias, (10) Ensino de Ecologia em nível universitário, (11) Criação de Centros de Formação e Pesquisa em Conservação e Uso Racional dos Recursos da Biosfera, (12) Educação Ambiental não formal para Jovens e Adultos, (13) Criação de Agência Internacional de Coordenação em Educação Ambiental.
Em julho de 1968, período entre a criação do Clube de Roma (abril) e a realização da Conferência da Biosfera (setembro), Sverker Astrom, Embaixador da Suécia na ONU – encorajado pelo seu país, principalmente em decorrência dos problemas com poluição atmosférica que os atingia – apresentou, por meio de uma Resolução ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, uma proposta de realização de uma Conferência Internacional sobre o meio ambiente humano. A proposta ganhou força, pois foi observado, entre os demais representantes dos países, que o uso e conservação racionais do meio ambiente humano, dependiam tanto das questões científicas (abordadas logo depois em Paris), quanto das questões sociais, políticas e econômicas (ainda não tratadas em escala planetária) além de ampla cooperação internacional.
Os quatro anos seguintes a aprovação da proposta da Conferência foram marcados por eventos de preparação e muitos debates, sendo que algumas das bases para discussão em Estocolmo foram inicialmente tratadas na Conferência da Biosfera. Dois eventos marcaram essa fase preparatória: a mesa redonda de especialistas em desenvolvimento e meio ambiente – Founex na Suíça; e o grupo de trabalho do Comitê Científico de Problemas Ambientais – Canberra na Austrália.
A reunião preparatória de Founex, 4 a 12 de junho 1971, “estabeleceu um caminho intermediário entre o pessimismo da advertência dos malthusianos a respeito
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do esgotamento dos recursos e o otimismo da fé dos cornucopianos a respeito dos remédios da tecnologia” (Sachs, 1993: 29). Tenta assegurar aos países menos desenvolvidos que a proteção do meio ambiente não entraria em conflito com seus interesses desenvolvimentistas, não afetaria sua posição no comércio internacional e que seu desenvolvimento industrial poderia ser mantido, no entanto sem cometer os mesmos erros dos países já industrializados (McCormick, 1992: 101). Enquanto a reunião de Founex tratou dos problemas ambientais dos ricos, a reunião de Canberra, 24 de agosto a 3 de setembro, priorizou suas discussões nos problemas ambientais dos países pobres.
O sucesso de Estocolmo ocorreu em grande parte por causa dos eventos preparatórios, onde foram discutidos temas polêmicos e que de alguma forma poderiam inviabilizar a busca dos consensos. Do total de Estados participantes, oitenta encaminharam relatórios técnicos contribuindo para a construção de um panorama das questões ambientais e também a capacidade de cada um dos países para o seu enfrentamento. As discussões foram pautadas no resultado destes relatórios e principalmente nas discussões oriundas dos eventos preparatórios e da Conferência da Biosfera.