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Ementa: Ação ordinária. Fornecimento de medicamento.

Preliminar de ilegitimidade passiva. Rejeição. Pedido consistente em medida protetiva à saúde. Direito funda-realizada por dependente químico para tratamento

de desintoxicação.

A norma constitucional inibe a omissão do ente público, no caso, o Município de Brumadinho, em garantir o efetivo tratamento médico à pessoa portadora de algum tipo de enfermidade.

Dessarte, responsabiliza-se o ente público pelo fornecimento de medicamento na forma como o cidadão necessita, desde que esteja na sua esfera de atribuição definida por normas internas do SUS, órgão máximo responsável pelo atendimento à saúde.

Com efeito, não obstante os direitos sociais visarem atenuar as desigualdades fáticas existentes na socie-dade, garantindo o acesso igualitário à saúde, não se pode perder de vista que a implementação das polí-ticas públicas que farão valer esses direitos impõe pres-tações materiais, tornando a eficácia plena dos direitos fundamentais sujeita às condições econômicas dos entes públicos e à prévia dotação orçamentária, sob pena de se inviabilizar a administração pública.

Esse paradoxo, existente entre o que a doutrina denominada de “Reserva do Possível” (limitação mate-rial do município) e a conhecida como “Mínimo Existen-cial” (demandas sociais infindáveis), deve ser resolvido, segundo o Ministro Celso de Mello, pela presença cumu-lativa de dois elementos: a razoabilidade da pretensão individual/social deduzida em face do Poder Público e a existência de disponibilidade financeira do Poder Público para tornar efetivas as prestações positivas dele reclamadas:

Em resumo: a limitação de recursos existe e é uma contin-gência que não se pode ignorar. O intérprete deverá levá-la em conta ao afirmar que algum bem pode ser exigido judicial-mente, assim como o magistrado, ao determinar seu forneci-mento pelo Estado. Por outro lado, não se pode esquecer que a finalidade do Estado ao obter recursos, para, em seguida, gastá-los sob a forma de obras, prestação de serviços, ou qualquer outra política pública, é exatamente realizar os obje-tivos fundamentais da Constituição. A meta central das Cons-tituições modernas, e da Carta de 1988 em particular, pode ser resumida, como já exposto, na promoção do bem-estar do homem, cujo ponto de partida está em assegurar as condi-ções de sua própria dignidade, que inclui, além da proteção dos direitos individuais, condições materiais mínimas de exis-tência. Ao apurar os elementos fundamentais dessa dignidade (o mínimo existencial), estar-se-ão estabelecendo exatamente os alvos prioritários dos gastos públicos. Apenas depois de atingi-los é que se poderá discutir, relativamente aos recursos remanescentes, em que outros projetos se deverá investir. O mínimo existencial, como se vê, associado ao estabelecimento de prioridades orçamentárias, é capaz de conviver produtiva-mente com a reserva do possível (STF, Medida Cautelar na ADPF 45).

Pois bem.

Em que pese me sensibilizar com a situação do apelante, entendo que razão não lhe assiste.

Isso porque, como bem ressaltou a i. Magistrada de primeiro grau, inexistem provas concretas de que o autor

tenha buscado tratamento da rede municipal ou, ainda, que o mesmo fosse ineficiente, ou que tenha sido negado ao requerente qualquer tipo de auxílio.

Em verdade, de uma análise acurada dos autos, não é possível vislumbrar que o tratamento em rede particular tenha sido recomendado por ser o único hábil, ou por ser superior àqueles fornecidos pelo município, nos quais, diga-se de passagem, o recorrente já havia sido internado.

Ressalte-se, inclusive, que, nesse tipo de doença, não raras vezes, uma única internação não põe fim ao tratamento de dependência química, na medida em que frequentemente os usuários têm recaídas.

Ora, se os recursos públicos são escassos, princi-palmente os municipais, devem ser harmonizados para atendimento de todos os direitos fundamentais sociais.

A função precípua do ente público é racionalizar os seus recursos financeiros, de modo a garantir o acesso de todos às ações e serviços de saúde, não me parecendo justo nem adequado que os parcos recursos destinados ao município pelo SUS sejam utilizados por uma minoria.

Cumpre esclarecer, ademais, que este Relator não está abraçando a tese de que as dificuldades orçamen-tárias públicas para prestar o direito à saúde justificam o impedimento de o particular exigir judicialmente a pres-tação fática, mas, tão somente, que o poder do cidadão contra o Estado, relativamente aos direitos prestacionais, não pode ser exercido de forma ilimitada, sob pena de ferir o princípio da isonomia, dificultando o cumprimento de outro mandamento constitucional, que é a garantia do acesso universal e igualitário à saúde, levando-se em conta a realidade brasileira.

Sendo assim, considero que o autor realizou a sua internação em clínica particular, por opção, razão pelo qual deverá arcar com os custos perante a instituição.

Com essas considerações, nego provimento ao recurso.

Votaram de acordo com o Relator os DESEMBAR-GADORES GERALDO AUGUSTO e VANESSA VERDOLIM HUDSON ANDRADE.

Súmula - NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO.

. . .

TJMG - Jurisprudência Cível que deverá ficar retida no órgão estadual de saúde. Pede,

ainda, o decote da multa diária fixada na sentença para o caso de não cumprimento da decisão. Finalmente, requer a redução dos honorários advocatícios.

Contrarrazões às f. 97/103.

Deixo de remeter os autos à Procuradoria-Geral de Justiça, por entender desnecessária a intervenção do órgão ministerial no presente feito.

Conheço do reexame necessário e do recurso voluntário, por estarem presentes os pressupostos de sua admissibilidade.

Faço o reexame necessário da sentença.

Analiso, inicialmente, a preliminar de ilegitimidade passiva arguida pelo Estado de Minas Gerais.

O Sistema Único de Saúde está alicerçado no prin-cípio da cogestão, pela participação simultânea dos entes estatais dos três níveis, devendo os serviços públicos de saúde integrarem a rede regionalizada e hierarquizada, com direção única em cada esfera de governo, cabendo ao Município e ao Estado, em seu âmbito de atuação, garantir a todos o direito à saúde.

A União, através do Sistema Único de Saúde, descentralizou tais serviços, transferindo recursos para os Estados e Municípios, responsáveis pela concessão de assistências médicas e hospitalares, de acordo com o art. 198, I, da CF. Diante disso, resta patente a legitimi-dade do requerido para o fornecimento do medicamento pleiteado. Nesse sentido:

Reexame necessário. Direito à saúde. Ilegitimidade passiva.

Preliminar afastada. Fornecimento gratuito do medicamento Votrient. Paciente portador de câncer no rim e câncer metas-tásico no pulmão. Gravidade da doença atestada em laudo médico idôneo. Medicação indispensável. Eficácia. Demons-tração. Responsabilidade solidária dos entes da federação.

1 - Havendo responsabilidade concorrente entre a União, Estados e Municípios em relação ao implemento do direito à saúde, constitucionalmente previsto, a parte poderá demandar qualquer dos entes da Federação, o que afasta a preliminar de ilegitimidade passiva arguida pelo Estado de Minas Gerais. 2 - Comprovado por relatório médico subscrito por profissional especialista que o autor necessita do medica-mento Votrient, para tratamedica-mento de câncer no rim e pulmão, com objetivo de aumentar a sobrevida ou melhorar a quali-dade de vida, exsurge o direito ao tratamento custeado pelo Estado. 3 - A mera alegação de existência dos centros espe-cializados, desprovida de qualquer indício real de possibili-dade de fornecimento do fármaco necessário, é incapaz de caracterizar a ausência de interesse processual (Apelação Cível nº 1.0145.12.076093-2/001 - Relatora: Des.ª Sandra Fonseca - j. em 21.01.2014 - DJe de 31.01.2014).

A meu ver, normas previstas em portarias, prevendo a competência da União para fornecimento de medi-camentos através de centros de assistência, não podem se sobrepor às regras constitucionais e infraconstitu-cionais que preveem a competência concorrente dos entes federados.

Rejeito a preliminar.

Passo ao exame do mérito.

mental constitucionalmente assegurado por norma de eficácia imediata. Receita médica atualizada. Necessi-dade. Reforma parcial da sentença.

APELAÇÃO CÍVEL/REEXAME NECESSÁRIO Nº 1.0517.

13.001540-0/001 - Comarca de Poço Fundo - Remetente:

Juiz de Direito da Comarca de Poço Fundo - Apelante:

Estado de Minas Gerais - Apelado: José Amaro - Relator:

DES. AUDEBERT DELAGE Acórdão

Vistos etc., acorda, em Turma, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em REJEITAR A PRELIMINAR E, EM REEXAME NECESSÁRIO, REFORMAR PARCIALMENTE A SENTENÇA, PREJUDICADO O RECURSO VOLUNTÁRIO.

Belo Horizonte, 9 de setembro de 2014. - Audebert Delage - Relator.

Notas taquigráficas

DES. AUDEBERT DELAGE - Trata-se de reexame necessário e recurso voluntário interposto pelo Estado de Minas Gerais contra a sentença de f. 78/80-v., que, nos autos da ação ordinária, julgou procedente o pedido inicial para determinar ao requerido que forneça ao autor o medicamento Sunitinibe, na dosagem receitada por profissional competente e pelo prazo que se fizer neces-sário para a preservação da sua saúde. Para a hipó-tese de descumprimento da decisão, fixou multa diária no valor de R$200,00 (duzentos reais) até o limite de R$40.000,00 (quarenta mil reais). Condenou o Estado de Minas Gerais no pagamento dos honorários advocatí-cios, arbitrados em R$1.500,00 (mil e quinhentos reais).

O Estado de Minas Gerais interpôs o recurso de f. 82/95. Alega, preliminarmente, sua ilegitimidade para figurar no polo passivo da ação, ao fundamento de que o Programa de Medicamentos Excepcionais, gerenciado pela Secretaria de Estado da Saúde, não inclui o forne-cimento de medicamentos destinados ao tratamento do câncer, os quais foram inseridos no Programa do SUS, que criou a rede hierarquizada de Centros de Alta Complexi-dade em Oncologia - Cacons, a quem compete, através dos hospitais credenciados, o fornecimento dos fármacos aos pacientes portadores da referida doença. Conclui sobre a preliminar dizendo que o financiamento do trata-mento do câncer é da competência do Governo Federal, cabendo aos Estados e Municípios estabelecer os fluxos e referências para o atendimento aos pacientes. No mérito, afirma que a condenação do Estado de Minas Gerais no fornecimento do medicamento representa interferência do Poder Judiciário na Administração Pública, ferindo o prin-cípio da separação dos Poderes. Pede, na eventualidade de se manter a sentença, que se condicione o forneci-mento do fármaco à apresentação de receita atualizada,

vez que assegura o fornecimento do fármaco apenas pelo período necessário ao tratamento.

Portanto, a sentença merece reforma nesse aspecto, para que se determine a apresentação de receita médica atualizada trimestralmente, que deverá ficar retida.

No que diz respeito à multa cominatória, considero que foi fixada em valor adequado, razão pela qual não há que se falar em necessidade de reforma da decisão nesse ponto, sobretudo tendo-se em consideração a relevância do direito fundamental envolvido na espécie. Nessa linha de entendimento, o col. Superior Tribunal de Justiça:

Processual civil. Antecipação de tutela. Fornecimento dos medicamentos. Imposição das astreintes pelo seu descum-primento. Legalidade. Decisão fundamentada. 1. É lícito ao magistrado fixar astreintes contra a Fazenda Pública com o objetivo de assegurar o adimplemento da obrigação de fazer consistente no fornecimento de medicamentos [...] (REsp 700.873/RS - Relator: Ministro João Otávio de Noronha - Segunda Turma - j. em 27.02.2007 - DJ de 16.03.2007, p. 337).

No mesmo sentido é a jurisprudência que se formou neste Tribunal de Justiça, a exemplo do precedente que menciono:

Agravo de instrumento. Ação civil pública. Fornecimento gratuito de medicamento. Liminar. Presença dos requisitos.

Fixação de multa cominatória contra o Poder Público. Possi-bilidade. Recurso provido. A saúde é uma garantia constitu-cional do cidadão a cargo de todas as esferas governamen-tais. Constatada a presença dos requisitos indissociáveis da fumaça do bom direito e do perigo na demora, que, a um só tempo, revelam a plausibilidade aparente da pretensão aviada e o perigo fundado de dano à parte, torna-se impe-riosa a concessão da liminar. O STJ já firmou entendimento no sentido da possibilidade de fixar multa cominatória em desfavor do Poder Público como meio coercitivo para o cumprimento de obrigação de fazer ou entregar coisa (Agravo de Instrumento nº 1.0480.14.002585-3/001 - Relator: Des.

Edilson Fernandes - Data do julgamento: 15.07.2014 - DJe de 25.07.2014).

Por fim, no tocante à fixação de honorários advo-catícios, entendo que a quantia arbitrada pela sentença, qual seja R$1.500,00 (mil e quinhentos reais), se mostra condizente com os serviços desempenhados no caso em tela, observados os critérios das alíneas do art. 20, § 3º, do CPC, às quais faz menção o § 4º do mesmo dispositivo (grau de zelo profissional, lugar da prestação de serviços, natureza e importância da causa, trabalho realizado pelo advogado e tempo exigido para seu serviço), devendo a verba honorária, no caso, ser mantida no patamar fixado na 1ª instância.

Ante tais considerações, rejeito a preliminar e, em reexame necessário, reformo parcialmente a sentença apenas para determinar a apresentação trimestral de receita médica atualizada, que deverá ficar retida, nos termos deste voto. Julgo prejudicado o recurso voluntário.

A Constituição Federal, em seu art. 6º, estabe-lece que: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assis-tência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

Dispõe, ainda, em seu art. 196:

A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Conforme demonstrado pelo conjunto probatório dos autos, através dos documentos de f. 19/21, veri-fica-se que o autor é portador de “carcinoma de células renais, apresentando metástases pulmonares” e deverá fazer uso do medicamento Sunitinibe, na dose de 01 comprimido de 50mg.

Consta, ainda, do documento de f. 21, que o medi-camento não é disponibilizado pelos Cacons e que não há medicação substituta na rede pública, sendo que o atraso ou o não uso do fármaco implica risco à vida do paciente.

O Estado de Minas Gerais, como gestor do SUS, possui responsabilidade em fornecer os medicamentos necessários para a garantia da saúde, devendo atuar independentemente da previsão em listas.

Não merece guarida a substituição dos medica-mentos pretendidos pelas alternativas terapêuticas ofer-tadas pelo SUS, com vistas ao tratamento do autor. Tal medida configuraria questionamento da capacidade e conhecimento do seu médico, o qual atestou ser o medi-camento por ele indicado aquele correto e eficaz ao caso. Assim, somente aos médicos cabe avaliar a troca de um remédio por outro, não sendo possível ao Poder Judiciário analisar a possibilidade de substituição de um tipo de medicamento por qualquer outro eventualmente sugerido pelo ente público. Além disso, aludida discussão afastaria o foco do presente feito consistente na responsa-bilidade do Estado em fornecer os medicamentos neces-sários ao tratamento de saúde de todos, sejam eles de caráter excepcional ou não.

Assim, o pedido formulado consiste em medida protetiva à saúde, fundando-se em normas e direitos fundamentais de eficácia imediata, resguardados e asse-gurados na Constituição Federal. Os arts. 6º e 196 da CF atribuem ao Estado o dever de propiciar ao cidadão o exercício de seu direito à saúde, atendendo a um dos pilares da República Federativa do Brasil, qual seja a dignidade da pessoa humana.

Com relação à retenção do receituário médico, tenho entendido que a medida é necessária, pois repre-senta uma forma de controle pela Administração, uma

TJMG - Jurisprudência Cível Votaram de acordo com os DESEMBARGADORES

EDILSON FERNANDES e SANDRA FONSECA.

Súmula - REJEITARAM A PRELIMINAR E, EM REEXAME NECESSÁRIO, REFORMARAM PARCIALMENTE A SENTENÇA. PREJUDICADO O RECURSO VOLUNTÁRIO.

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