Ementa: Apelação cível. Administrativo. Indenização.
Danos materiais e morais. Ausência de fornecimento de energia elétrica. Responsabilidade objetiva. Perda de carne de animais abatidos. Dano e nexo de causalidade comprovados. Dever de reparar. Sentença confirmada.
- Em se tratando de responsabilidade objetiva, há o dever de indenizar independentemente da existência de culpa da concessionária do serviço de distribuição de energia elétrica, consoante determinação expressa do art. 37,
§ 6º, da CR/88.
- A interrupção de fornecimento de energia, devido à sobrecarga causada por chuvas, trovoada e/ou descargas atmosféricas, não constitui excludente de responsabili-dade, pois se trata de risco inerente à atividade empre-sarial desenvolvida pela distribuidora de energia elétrica.
- Comprovados o nexo de causalidade entre a conduta da concessionária de serviço público (interrupção por prazo prolongado da distribuição de energia elétrica) e o dano (perda de carne de animais abatidos), mostra--se inequívoca a responsabilidade civil, cabendo à
presta-3 - Conclusão.
Fundado nessas razões, dou provimento parcial ao segundo apelo para reformar, em parte, a sentença e conservar a validade das doações feitas pelo autor à ré, haja vista a consumação da decadência.
Em consequência, fica prejudicada a análise do primeiro apelo, porquanto se reconhecem como válidos os atos de liberalidade praticados entre as partes.
Por fim, ficou caracterizada a sucumbência recí-proca, e, assim, atribuo dois terços das custas processuais à ré e o restante ao autor, observada somente a justiça gratuita em relação à ré. Fixo os honorários advocatícios no mesmo valor da sentença, observada a proporção de 70% para a ré e 30% para o autor, autorizada a compen-sação e a gratuidade de justiça quanto àquela (Súmula nº 306 do STJ).
Votaram de acordo com o Relator os DESEMBARGA-DORES EDUARDO ANDRADE e GERALDO AUGUSTO.
Súmula - DERAM PROVIMENTO PARCIAL AO SEGUNDO APELO, PREJUDICADO O PRIMEIRO.
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do fornecimento de energia elétrica) é inequívoca, tendo sido reconhecida pela própria ré/apelante em sua contes-tação (f. 32), ressaltando que:
[...] houve a interrupção do fornecimento de energia que durou 5:30h e 6:55h, respectivamente, sendo que em relação à primeira interrupção a Concessionária realizou a inspeção na rede elétrica e não encontrou nenhuma causa para o desli-gamento, e quanto à segunda, esta foi causada por descarga atmosférica na rede da Cemig [...].
Ora, em se tratando de empresa concessionária de serviço público, impõe-se a aplicação da responsabili-dade objetiva, segundo a qual há o dever de indenizar independentemente da existência de culpa da prestadora de serviço público, consoante determina o art. 37, § 6º, da CR/88, que assim dispõe:
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impes-soalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
[...]
§ 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o respon-sável nos casos de dolo ou culpa.
No que tange à responsabilidade objetiva, atente-se para a lição de Hely Lopes Meirelles e Sérgio Cavalieri Filho, respectivamente:
[...] o exame desse dispositivo revela que o constituinte esta-beleceu para todas as entidades estatais e seus desmem-bramentos administrativos a obrigação de indenizar o dano causado a terceiros por seus servidores, independente-mente da prova de culpa no cometimento da lesão. Firmou, assim, o princípio objetivo da responsabilidade sem culpa pela atuação lesiva dos agentes públicos e seus delegados (MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 28.
ed. Malheiros, p. 627).
Na busca de um fundamento para a responsabilidade obje-tiva, os juristas, principalmente na França, conceberam a teoria do risco, justamente no final do século XIX, quando o desenvolvimento industrial agitava o problema da repa-ração dos acidentes de trabalho. Risco é perigo, é problema da reparação dos acidentes de trabalho. Risco é perigo, é probabilidade de dano, importando, isso, dizer que aquele que exerce uma atividade perigosa deve-lhe assumir os riscos e reparar o dano dela decorrente. A doutrina do risco pode ser, então, assim, resumida: todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou, independente-mente de ter ou não agido com culpa. Resolve-se o problema na relação de causalidade, dispensável qualquer juízo de valor sobre a culpa do responsável, que é aquele que mate-rialmente causou o dano (CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de Responsabilidade Civil. 2. ed. Malheiros, p. 143 - grifos nossos).
Frise-se que a aplicação da responsabilidade obje-tiva à Cemig não implica, por si só, o reconhecimento da ilícito; e, ainda, que, inexistindo ilicitude, não há dever de
indenizar.
Requer o provimento do recurso, com a reforma da sentença, julgando improcedentes os pedidos e redistri-buindo os ônus da sucumbência.
Preparo recolhido (f. 125/126).
Contrarrazões ofertadas (f. 128/133).
Sem a oitiva da d. PGJ (Rec. CNMP nº 16/2010).
É o relatório.
Conheço do recurso, presentes os requisitos para superação do juízo de admissibilidade.
De chofre, cumpre destacar que a análise do presente recurso cinge-se à apuração da existência dos requisitos da responsabilidade civil ensejadores do dever de reparação da ré Cemig pelos supostos danos materiais e morais causados à parte autora, em virtude da perda de carnes (bovina e suína) em abatedouro, provocada pela interrupção no fornecimento de energia elétrica.
Saliente-se ainda que a parte autora é microem-presa. Assim sendo, como utiliza a energia elétrica para refrigeração, proporcionando temperatura e umidade propícias à manutenção da qualidade dos animais abatidos, não pode ser reconhecida como consumidora, uma vez que essa utilização ocorre como insumo de sua produção comercial. Portanto, ao caso não se aplicam as regras consumeristas.
A responsabilidade civil e o dever de indenizar encontram previsão expressa no art. 927 do CC/02;
senão, vejamos:
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, inde-pendentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.
Em comentário acerca desse parágrafo único, Rui Stoco leciona:
Considerando que o ato ilícito, no âmbito civil, traduz-se em comportamento antijurídico e culpável, a regra é da respon-sabilidade subjetiva [...]. Contudo, o parágrafo único trouxe acréscimo antes inexistente [...].
Como se verifica, mantém-se o princípio da responsabilidade com fundamento na culpa (teoria da culpa), mas abre-se a exceção para admitir a responsabilidade independentemente de culpa ‘nos casos especificados em lei’ [...].
Era escusado ao legislador repetir o óbvio, pois nosso orde-namento jurídico abriga inúmeras leis anteriores ao novo Código Civil, que adotam a teoria da responsabilidade obje-tiva, como, por exemplo, a responsabilidade das pessoas jurídicas de direito público e direito privado, prestadoras de serviços públicos, estabelecida na Constituição Federal (art. 37, § 6º) (STOCO, Rui. Tratado de Responsabilidade Civil. 6. ed. Revista dos Tribunais, p.164 - grifos nossos).
In casu, insta frisar que a ocorrência do evento fatí-dico (interrupção, nos dias 04.07.2007 e 30.10.2007,
TJMG - Jurisprudência Cível nante, a causa eficiente, ensejadora da perda das carnes.
Em decorrência, inadmissível a configuração da concor-rência de culpas. Nem sequer há falar em excludente do dever de reparar.
Rui Stoco e José Aguiar Dias, respectivamente, assim nos ensinam:
Para nós a questão se resume em verificar a causa eficiente do fato danoso e se resolve apenas e tão-somente no plano da causalidade material, de modo que, ainda que a vítima tenha agido com culpa, dever-se-á verificar se sua atuação interferiu no resultado e contribuiu para a sua ocorrência.
Inexistindo esse liame, a causa eficiente do resultado danoso terá sido outra e outro o responsável único pela reparação (STOCO, Rui. Tratado de Responsabilidade Civil. 5. ed.
Revista dos Tribunais, p. 99-100).
Consideramos em culpa quem teve não a last chance, mas a melhor oportunidade e não a utilizou. Isso é exatamente uma consagração da causalidade adequada, porque se alguém tem a melhor oportunidade de evitar o evento e não a apro-veita, torna o fato do outro protagonista irrelevante para sua produção. Estamos de pleno acordo com a lição de Wilson Melo da Silva. O que se deve indagar é, pois, qual dos atos imprudentes fez com que o outro, que não teria consequên-cias, de si só, determinasse, completado por ele, o acidente.
Pensamos que sempre que seja possível estabelecer inocui-dade de um ato, ainda que imprudente, não se deve falar em concorrência de culpa. Noutras palavras: a culpa grave necessária e suficiente para o dano exclui a concorrência de culpa, isto é, a culpa sem a qual o dano não se teria produ-zido (DIAS, José Aguiar. Da responsabilidade civil. 9. ed.
Forense, v. 2, p. 695).
Insta destacar que compete à concessionária prestar o serviço de fornecimento de energia elétrica com eficiência, efetividade e qualidade, envidando esforços para evitar as falhas no sistema de distribuição da energia ou, quando verificadas, saná-las prontamente.
Por outro lado, não é razoável exigir daquele que utiliza a energia elétrica que presuma a ineficiência dos serviços da concessionária e efetue gastos para, em casos de falha no fornecimento, ter fontes alternativas de produção de energia elétrica, suprindo ônus que cabe, evidentemente, à empresa distribuidora.
Iniludível, portanto, que foi a conduta da ré (inter-rupção do fornecimento de energia elétrica por mais de cinco horas) a causa eficiente ou determinante do dano experimentado pela autora (perda de carne de animais abatidos), sendo este, pois, o exclusivo nexo causal.
Inequívoca a interrupção do fornecimento de energia elétrica no abatedouro, conforme reconhecido pela própria ré/apelante, e comprovado que o dano ocorreu em virtude da falta de energia elétrica, mani-festo o dever indenizatório, impondo-se a manutenção da sentença.
Mutatis mutandis, eis a jurisprudência desta Corte:
A responsabilização da Cemig, por se tratar de prestadora de serviço essencial, por dano causado às pessoas, inde-pende da demonstração de culpa, pela adoção da teoria do procedência do pleito indenizatório e tampouco evidencia
a sua responsabilidade pelos supostos danos sofridos pela parte autora.
É que a responsabilidade da empresa prestadora de serviço público, apesar de prescindir da análise da culpa, não tem caráter absoluto, podendo ser afastada quando comprovadas hipóteses excludentes da responsabilidade, tais como culpa exclusiva do ofendido ou de terceiro, caso fortuito ou força maior.
Dessarte, em se tratando de responsabilidade obje-tiva, necessária tão somente a verificação da ocorrência de conduta da concessionária de serviço público e do nexo de causalidade entre esta e o dano.
Impende frisar, a interrupção de fornecimento de energia, devido à sobrecarga causada por chuvas, trovoada e/ou descargas atmosféricas, não constitui excludente de responsabilidade, pois se trata de risco inerente à atividade empresarial desenvolvida pela distri-buidora de energia elétrica.
Nesse sentido, confira-se:
Responsabilidade civil. Concessionária de energia elétrica (Cemig). Interrupção do fornecimento de energia elétrica.
Sobrecarga decorrente de raio. Prejuízos a consumidor.
Responsabilidade objetiva. Inaplicabilidade da exclusão do risco por caso fortuito ou força maior. Apelação desprovida.
Sentença confirmada. [...] Sobrecarga decorrente de raio, embora seja fato inesperado, faz parte do risco empresário da distribuidora do serviço de energia elétrica e, desta forma, não é fato excludente da responsabilidade pelo dano causado a terceiro (AC nº 1.0684.05.930478-3/001, 8ª Câmara Cível/TJMG, Rel. Des. Fernando Bráulio, DJ de 26.07.2006 - ementa parcial, destaquei).
Acrescente-se ainda que, em relação ao dia 04.07.2007, a ré reconheceu a interrupção do forneci-mento de energia elétrica pelo período de cinco horas e meia e não comprovou excludente do dever de reparar.
Limitou-se a dizer que não encontrou causa para o desli-gamento. Tal assertiva, por si só, não a exime do dever de reparar, pois não comprovado fato impeditivo do direito da parte autora, mormente quando confessada a ausência do fornecimento de energia por várias horas.
Consoante alhures salientado, não há dúvidas acerca da falta de fornecimento de energia elétrica nos dias 04.07.2007 e 30.10.2007, por período superior a cinco horas, nem de que tal fato ocasionou a perda de carne de animais abatidos (conforme atestam os documentos de f. 15 e 18/19, subscritos por médica vete-rinária integrante da Vigilância Sanitária).
Constata-se que, por conta da incontroversa inter-rupção no fornecimento de energia elétrica que competia à ré, houve a perda de 900 kg de carne suína e de 1.400 kg de carne bovina.
Fique certo, se não houvesse falta de energia, todo o processo de abate e respectivo resfriamento da carne ocorreria sem percalços, o que torna inevitável a conclusão de que a falta de energia foi o evento
determi-A energia constitui-se em bem essencial à comunidade, não podendo haver interrupção no fornecimento sem que haja um relevante interesse coletivo em risco, bem como uma causa justa para corroborá-la. Uma vez constatada a suspensão indevida do fornecimento de energia elétrica e o dano sofrido pela ausência de um serviço essencial à mínima qualidade de vida do ser humano, é possível reconhecer a responsa-bilidade da concessionária, fixando-se indenização em valor adequado ao grau dos prejuízos efetivamente compro-vados (AC nº 1.0194.12.000572-4/001, 1ª Câmara Cível/
TJMG, Rel.ª Des.ª Vanessa Verdolim Hudson Andrade, DJ de 12.09.2013).
Isso posto, nego provimento à apelação.
Custas recursais, pela apelante.
É como vota a relatoria.
Votaram de acordo com o Relator os DESEMBAR-GADORES OLIVEIRA FIRMO e WASHINGTON FERREIRA.
Súmula - NEGARAM PROVIMENTO.
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risco administrativo. Evidenciado o dano material suportado pelo autor, em virtude do rompimento de energia elétrica, impõe-se o julgamento da procedência do pedido de sua indenização (AC nº 1.0702.07.405893-5/001, 4ª Câmara Cível/TJMG, Rel. Des. Dárcio Lopardi Mendes, DJe de 19.02.2010 - ementa parcial).
Deve ser confirmada a sentença monocrática que condenou a Cemig a ressarcir produtor de hortaliças hidropônicas, pelos prejuízos materiais por ele sofridos, em virtude de inter-rupção do fornecimento de energia elétrica em prazo supe-rior ao razoável, tendo em vista sua responsabilidade objetiva (AC nº 1.0382.03.028068-1/001, 5ª Câmara Cível/TJMG, Rel. Des. Dorival Guimarães Pereira, DJ de 02.08.2005 - ementa parcial)
É evidente o decréscimo patrimonial e a frustração das expectativas de lucro, pois inviabilizado o abate e a comercialização das carnes.
No que diz respeito à definição dos danos materiais, em que pese tenha a ré efetivamente se insurgido em sua contestação contra o montante apresentado na inicial, fato é que a parte autora se desincumbiu do ônus imposto pelo art. 333, I, do CPC, pois coligiu aos autos cópia dos boletins de ocorrência, laudos subscritos por médicas veterinárias integrantes da Vigilância Sanitária, atestando a quantidade de carne imprópria para a comercialização, valor do quilo da carne (f. 22).
Como se sabe:
O dano material exige prova bastante de sua ocorrência, e a fixação da indenização a ele correspondente deverá ser feita com base nos elementos trazidos aos autos acerca da extensão dos prejuízos sofridos (AC nº 1.0105.06.189335-7/001, 17ª Câmara Cível/TJMG, Rel. Des. Luciano Pinto, DJ de 17.04.2008 - ementa parcial).
Quanto à fixação dos danos morais, Caio Mário da Silva destaca que há de preponderar:
[...] um jogo duplo de noções: a - de um lado, a ideia de punição ao infrator, que não pode ofender em vão a esfera jurídica alheia [...]; b - de outro lado, proporcionar à vítima uma compensação pelo dano suportado, pondo-lhe o ofensor nas mãos uma soma que não é o pretium doloris, porém uma ensancha de reparação da afronta [...] (SILVA, Caio Mário da.
Instituições de direito civil. 7. ed. Forense, v. 2, p. 235).
E acrescenta que:
[...] na ausência de um padrão ou de uma contraprestação que dê o correspectivo da mágoa, o que prevalece é o critério de atribuir ao juiz o arbitramento da indenização [...] (SILVA, Caio Mário da. Instituições de direito civil. 7. ed. Forense, v. 2, p. 316).
Seguindo esse entendimento, in casu, tenho que o valor arbitrado (R$5.000,00) se mostra compatível com princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, bem como com a finalidade punitivo-pedagógica da indeni-zação, tendo em vista a situação fática descrita nos autos.
Já decidiu este eg. TJMG: