Há uma conhecida música portuguesa que, salvo engano quanto a uma ou outra rima, diz mais ou menos assim: “Um São José de azulejo, um cheirinho de alecrim, uma promessa de beijos, dois braços à minha espera,
é uma casa portuguesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa!”. O autor desses versos buscou reproduzir em poesia o que para ele seria um simples mas típico lar português, onde habitariam a conhecida religiosidade ibérica, a limpeza representada pelo suave aroma do alecrim e o carinho da mulher à espera de seu companheiro.
Ao australiano comum faltaria muito desse romantismo, por que não dizer uma forte dose de sensibilidade, e até mesmo aquela tristeza que transborda dos mais marcantes versos e canções criados não apenas pelos portugueses, mas também oriundos dos
cancioneiros espanhol e hispano-americano, sem falar na riqueza da música brasileira quando o tema é o lar simples temperado com amor.
Exigir que pelas veias de um povo cujo arcabouço social foi cimentado pela mágoa e o rancor de europeus anglo-saxões arrancados das masmorras do século dezoito e lançados em um continente árido e de população inóspita, corra uma considerável porção de sensibilidade capaz de propiciar que o australiano comum teça versos para descrever o seu próprio lar é sem sombra de dúvidas uma temeridade.
Na casa australiana não se encontra qualquer São José de azulejo, como na canção portuguesa, tampouco de madeira, cerâmica ou outro material apropriado ao fabrico de imagens, dado que a religiosidade não transparece como atributo primordial dos aussies, timidamente divididos entre as igrejas Anglicana e Católica, não ultrapassando a casa dos 48% da população segundo David Dale em Who We Are (edição de 2006 de Allen
& Unwin). Afora tal tíbio percentual, é possível contabilizar, ainda escudado em Dale, uns 4 a 5% englobando budistas, judeus e muçulmanos, fator
que na verdade não serve para engordar a parcela maior em termos das religiões seguidas na Austrália porque diz mais respeito a etnias vindas de fora e estabelecidas no país.
Portanto, afastada a possibilidade da casa australiana ser poeticamente pintada em tons amorosos e religiosos, três utensílios de inegável importância e que certamente constituem a marca registrada de uma habitação no país são a jarra elétrica, o micro-ondas e o secador de roupas em forma de guarda-chuvas giratório. Se alguém porventura avistar esta última das três
maiores utilidades domésticas australianas em um filme, por exemplo, poderá afirmar com certeza absoluta de que se trata de uma cena passada na Austrália. A jarra elétrica, que arremessa para as memórias dos tempos antigos a conhecidíssima chaleira aquecível no fogão, tem o seu lugar de honra em qualquer cozinha, por mais simples que seja a habitação, principalmente quando se trata do preparo de um cup of tea, xícara de chá, foneticamente reduzido ao simples “câpati”, normalmente servida com um pouco de leite O terceiro elemento indisponível em um lar
australiano é o microwave, ainda considerado supérfluo em alguns países, mesmo aqueles onde o
consumo de aparelhos
eletrodomésticos e eletrônicos esteja em ascensão.
Reunidas essas três figuras, ainda que eliminado o secador de roupas giratório quando o lar australiano for um apartamento, está feito o cenário da casa australiana;
devendo ser acrescentado – e este detalhe depende de espaço disponível – um grande fogareiro para o barbecue, uma das mais fortes tradições do país, que é o churrasco
grelhado de carne de boi, porco ou carneiro, podendo ser acrescentada a linguiça feita de carne de porco.
Diferente do churrasco usual dos gaúchos, incluídos os brasileiros meridionais, os argentinos e os uruguaios, feito em grandes pedaços de carne que são transpassados por longos espetos semelhantes a finas espadas e postos para assar ao calor das brasas, o churrasco australiano é praticado com a carne posta sobre uma grelha. De acordo com a área disponível e a disponibilidade financeira, o fogareiro poderá ser substituído por apetrechos maiores e
mais sofisticados, alguns adaptados para o uso de gás em botijão.
Organizado o barbecue com os amigos, e bastante cerveja na geladeira (sempre bebida na garrafa, tipo long neck, nunca em copos) está completa a reunião social do australiano, ocasionalmente tendo como pano de fundo sons e imagens da televisão a transmitir uma partida de cricket, rugby ou football associativo.
E por falar em cerveja, dizem os australianos que apesar da fama de grandes bebedores, perdem para os companheiros de copo da República
Tcheca, Irlanda e Alemanha.
Um fator que pesa sensivelmente a favor da organização da casa australiana é o incomparável espírito de iniciativa e criatividade da população quando o assunto é modificar ou fazer adaptações, sejam no interior da habitação ou no quintal.
A mão-de-obra de um carpinteiro, pedreiro ou pintor, por exemplo, é dispendiosa, posto que no país não vigora o costume de tarefas de estrita execução manual estarem a cargo de meros curiosos que, à falta de uma política nacional de conscientização e preparo técnico para o exercício de
profissões não elitizadas, oferecem sua força de trabalho para qualquer serviço.
Conforme foi comentado no item 3.1, o australiano está habituado a atribuir idêntico valor a qualquer ocupação profissional, longe da tradição latino-americana de aos diplomados por universidade ser concedido um melhor grau de colocação na escala social; daí que tanto o bombeiro hidráulico como o dentista, por exemplo, são tidos como profissionais qualificados cujos ganhos podem em alguns casos ficar equiparados. Como consequência
desse tipo de cultura, são comuns na televisão, por exemplo, programas de ensino e incentivo para que a própria dona-de-casa faça um armário, modifique o jardim, mude as cores das paredes, e coisas tais. É bastante comum a existência de um conjunto de ferramentas e apetrechos diversos necessários para tarefas de carpintaria, jardinagem e pintura, entre outras, em um lar australiano. Jornais e revistas habitualmente publicam anúncios de promoções na venda de tudo que é equipamento necessário para uma reforma no interior da casa, desde os mais variados tipos de serra até
furadeiras e máquinas similares apropriadas à colocação de parafusos, estas últimas demonstrando que as tradicionais chaves-de-fenda manuais são coisas do passado naquele país. As escadas de madeira, outrossim, foram totalmente substituídas por similares em alumínio, um detalhe que elimina o perigo do risco de uma queda perigosa para quem está habituado a subir em degraus sujeitos a apodrecimento.
A dona de casa australiana está habituada ao uso de água quente na pia da cozinha e no banheiro, não existindo aquela limitação desse
conforto unicamente para as classes abastadas, conforme acontece em muitos países onde o uso e a instalação dos cognominados boilers são dispendiosos. Muito embora esse aquecimento de toda a água utilizada no lar seja refletido na conta de gás, trata-se de uma despesa já absorvida pelo povo, até porque a utilização do aquecimento em si está imune ao risco de determinados acidentes que soem ocorrer em casas onde existe a necessidade de riscar um fósforo para fazer funcionar o aquecedor do banheiro.
É entretanto original a técnica de
construção de habitações na Austrália.
As casas de até dois pavimentos têm seu arcabouço feito em madeira, assim considerados os quatro ângulos onde as paredes se encontrarão, os portais e caixilhos para as janelas, mais os caibros e a cumeeira; tudo parecendo de início uma brincadeira de criança, vindo em seguida os dutos para a condução de luz e força, e a canalização de água e gás. Só após o término desse esqueleto as paredes são colocadas, sempre obedecendo a tradição inglesa do uso de pesados tijolos compactos, montados um a um, sem revestimento em argamassa.
Segundo especialistas, trata-se de um sistema absolutamente seguro, porém dispendioso, considerados o alto preço da madeira no país e a necessidade de uma perfeita disposição dos tijolos, que devem obedecer a um nivelamento perfeito, disso resultando níveis elevados para o valor das moradias australianas em razão direta do alto custo da mão-de-obra dos pedreiros e demais executores.
Já foi apontada no item 3.1 a absoluta falta de pudores classistas do australiano para desempenhar tarefas manuais, em outras nações tidas como mais apropriadas a pessoas de baixa
condição social e pouquíssimo estudo;
e por isso que a construção civil é considerada um atraente mercado de trabalho por sua excelente remuneração, absorvendo tanto australianos quanto imigrantes, para estes últimos o modo mais rentável de obter um padrão de vida infinitamente superior ao possuído em seu país de origem.
9) A família australiana