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© Heitor Herculano Dias [email protected] Capa: Wanilde Barreto

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AUSTRÁLIA

© Heitor Herculano Dias [email protected] Capa: Wanilde Barreto

Para Wanilde e Lara Estrela

SUMÁRIO

1. Introdução

2. Como tudo começou 3. O idioma

4. Sydney

5. Trânsito e transportes públicos 6. Aborígenes

7. Imigrantes

8. A casa australiana

9. A família australiana

10. O Dia da Austrália

11, Clima e população

(2)

1) Introdução

Com este pequeno trabalho a

respeito das várias particularidades

concernentes ao modo de ser e viver

do povo australiano, observadas por

mim graças a repetidas e prolongadas

visitas à Austrália, espero brindar o

leitor com informações práticas e

algumas peculiaridades históricas

acerca desta nação-continente, tendo

por base Sydney, sua maior e principal

(3)

cidade.

A partir das fortes restrições ao

ingresso de estrangeiros nos Estados

Unidos da América, a Austrália se

tornou o país preferido por quem

busca principalmente aprimorar o

estudo da língua inglesa, sem contar

aqueles desejosos em obter condições

materiais de vida superiores às

ofertadas por seus países de origem,

notadamente os naturais do chamado

Oriente Médio, África subsaariana,

(4)

Ásia, grande parte da própria Oceania e América Latina, aqui incluídas significantes parcelas de brasileiros.

No que diz respeito ao Oriente Médio, une-se á esperança de ascensão desses imigrantes a fuga dos constantes conflitos bélicos e perseguições de cunho religiosos que vêm assolando intensamente aquela parte do planeta desde o final da II Guerra Mundial.

Além disso o continente é uma

atração para os apreciadores do

(5)

ecoturismo graças às suas belezas naturais proporcionadas, com imensas e bem preservadas áreas verdes, vales esplendorosos e paradisíacas praias, cenários perfeitos para a prática do iatismo e o surf.

Num país cuja população

demonstra um gosto inusitado pela

vida ao ar livre (praias, o tradicional

barbecue – carne grelhada nos

quintais ou nos bem aparelhados

parques, e muita cerveja nos clubes e

(6)

pubs), não é exagero afirmar que o australiano é um hedonista por natureza.

1.1 O nome

Quanto à origem do nome, frise-

se que desde 1788, início de sua

colonização, a Austrália inteira foi

conhecida como New South Wales

(Nova Gales do Sul), nome pelo qual

foi batizado o atual e maior de seus

estados, nos primórdios de sua

colonização praticamente a única

(7)

parcela do continente conhecida de

fato pelos britânicos, desconhecedores

da imensidão de terras que aos poucos

iriam conquistar. Foi o governador de

Nova Gales do Sul, que certamente

com a noção de que havia muito mais

espaço em volta das terras já

possuídas pela matriz britânica,

sugeriu à corte, em 1814, que o nome

latino Terra Australis (Terra do Sul),

empregada aleatoriamente pelo

navegante Matthew Flinders, passasse

(8)

a predominar em todas as referências às terras já conquistadas e a todos os apossamentos de Nova Gales do Sul aonde futuramente viesse tremular a bandeira britânica. Daí que não levou muito tempo para que Terra Australis fosse substituída por Austrália.

2) Como tudo começou

2.1 Os Pommies

Lá por volta dos 50.000 anos

antes de Cristo, povos oriundos do

(9)

norte do planeta iniciaram sua

migração rumo ao lado meridional, e o

continente hoje denominado Austrália

foi um dos pontos de sua fixação, mas

pouco se sabe a respeito daquela

gente, existindo contudo

comprovações arqueológicas de que,

nos 40.000 aC, os aborígenes

australianos deixaram marcas próprias

através de imagens de animais

gravadas na região atualmente

denominada Olary, ao sul do país,

(10)

consideradas as mais antigas obras de arte conhecidas. Esses mesmos nativos alcançaram a Tasmânia uns 5.000 anos depois, época em que a ilha, atualmente um Estado da Federação, ainda não se desprendera do continente, fato que somente veio a ocorrer no ano de 12.000 aC.

A percepção de que no extremo

sul do Oceano Pacífico existia uma

larga porção de terra completamente

ignorada desde os tempos de

(11)

Alexandre Magno e outros grandes conquistadores somente aconteceu no ano de 1422 dC, quando a esquadra chinesa do almirante Hong Bau encontrou o que então foi chamado de

“uma grande ilha a sudeste do Pacífico”.

Depois disso passou-se ainda um

século para que outra visita estrangeira

aportasse no que hoje é a Austrália, e

isso aconteceu em 1523, quando o

navegante português Cristóvão de

(12)

Mendonça chegou à costa sudoeste do país, mapeou-a e denominou-a Grande Java; mas disso não passou o interesse lusitano pelas terras descobertas.

Após a estada portuguesa, que se

prolongou até 1539, foi a vez dos

holandeses, quando em 1606 a nau

Duyfken aportou ao norte do

continente australiano. Mas,

encontrando feroz resistência por parte

dos habitantes da terra (os até hoje

qualificados como Aborígenes), pouco

(13)

tempo eles permaneceram em terra.

Mais consistentes são os relatos

sobre posterior incursão holandesa em

1642 chefiada por Abel Tasman, nessa

oportunidade ocupando a ilha da

Tasmânia, ao sul da Austrália,

atualmente um dos estados da

federação australiana, cujo nome

posteriormente foi herdado daquele

próprio navegante, muito embora

anterior a isso, Abel Tasman tenha

denominado a grande ilha de Terra de

(14)

Van Diemen em honra do governador

da Companhia das Índias Ocidentais

Holandesas. A colonização holandesa

não prosperou face o desinteresse da

matriz europeia pela exploração

comercial da ilha, observadas a vida

rudimentar dos habitantes nativos e a

inexistência de ouro, prata ou qualquer

produto natural cujo aproveitamento

pudesse trazer lucros aos

conquistadores. Outrossim, a

resistência oposta pelos aborígenes

(15)

diante da tentativa holandesa de manutenção da Tasmânia como colônia do reino holandês deu origens a combates em que aqueles europeus, treinados para batalhas nos campos abertos do velho continente, tiveram que amargar sucessivas derrotas em meio a florestas e pântanos, o habitat dos nativos da ilha.

Após tantos descobrimentos e

abandonos, sem qualquer quaisquer

oportunidades de efetivo colonização

(16)

das terras australianas, por parte de chineses, portugueses e holandeses, chegou a vez dos ingleses, que afinal fizeram da Austrália uma de suas colônias e assim a conservaram até o país receber autonomia perante a matriz, para integrar-se à comunidade britânica, como até hoje permanece.

Tudo começou em 1770 quando

o navegante inglês James Cook

regressava de uma viagem destinada à

observação do trânsito de Vênus sobre

(17)

o Taiti, e assim determinar a melhor maneira para o cálculo das longitudes.

Prosseguindo em sua rota, Cook

tomou o rumo da Nova Zelândia,

atingindo então a costa sudeste da

Austrália. O navegante inglês buscou

aportar inicialmente na já conhecida

Tasmânia dos holandeses, e durante

dez dias a nave HMS Bark Endeavour

costeou o litoral das terras avistadas

rumo ao norte, antes de ancorar no

ponto que ao seu comandante pareceu

(18)

o mais protegido contra ventos e

ondas violentas, a sudeste da atual

Sydney, em 19 de abril de 1770. O

local de desembarque mereceu a

denominação de Botany Bay por

sugestão de Joseph Banks , botânico-

chefe da expedição que se admirou da

exuberante flora ali encontrada. Os

descobridores britânicos, após estudos

e mapeamento da região,

denominaram-na New South Wales,

em deferência ao País de Gales, que

(19)

ao lado da Escócia e da Inglaterra

integra a Grã-Bretanha. Tais fatos são

de primordial importância para os

australianos, que têm James Cook

como o autêntico descobridor da

Austrália. No trabalho de observação

das terras descobertas, o capitão Cook

se deparou com uma grande enseada,

intitulando-a Sydney Cove, numa

obediência à prática da época em que

as terras descobertas herdavam nomes

de soberanos ou autoridades a quem

(20)

os navegantes serviam. O

homenageado foi Lord Sydney,

secretário do rei George III, que

futuramente se empenharia junto ao

seu soberano para o envio de gente ao

continente descoberto com o propósito

do estabelecimento de uma colônia

britânica. Em 1783, Mario Matras, ex-

integrante da tripulação de James

Cook e que na volta à Inglaterra

escrevera um livro falando da rica

diversidade da flora e fauna da

(21)

localidade onde o capitão Cook e seus

comandados desembarcaram, muito

apropriadamente denominando-a

Botany Bay (Baía Botânica), dirigiu

uma carta ao governo britânico

sugerindo o aproveitamento do local

para instituição de uma colônia penal

e, concomitantemente, um novo

domicílio onde pudessem se

estabelecer os cidadãos britânicos

desapossados de suas propriedades por

força da independência dos Estados

(22)

Unidos da América. Esse duplo

objetivo mencionado por Matras

estava diretamente ligado à perda,

pelo Reino Unido, das colônias do

outro lado do Oceano Atlântico que se

constituíram nos Estados Unidos da

América, a partir de cuja

independência a coroa britânica se viu

impossibilitada de seguir usando-as

como território de grande exploração e

depositário de mão de obra escrava e

grandes levas de presos comuns.

(23)

É interessante observar que na

segunda metade do século XVIII o

império britânico atravessava uma

época de extremo rigor na punição a

acusados pelos delitos mais

corriqueiros que fossem, de que não

estavam isentas sequer crianças e

adolescentes. Uma criança que se

apoderasse de uma peça de roupa, por

exemplo, mesmo que pertencente a

outra criança, poderia perder a vida

por decisão judicial inapelável, ou na

(24)

melhor das hipóteses ser confinada para o resto da vida em horríveis calabouços. Apesar de tantas execuções, o aumento do número de sentenciados a encarceramento aumentava assustadoramente, e eram muitas as revoltas causadas pela promiscuidade, maus tratos físicos, parca alimentação e falta de espaço.

Um paliativo para tal situação

constrangedora era a aplicação da

pena de degredo, reunindo a coroa

(25)

britânica prisioneiros livrados da pena de morte por indulto a outros sentenciados ao cárcere, com o objetivo de enviá-los a territórios estrangeiros conquistados, entre os quais predominava em importância, por tamanho, riquezas a explorar e valor estratégico a colônia norte- americana.

Enquanto a Inglaterra possuiu

aquelas imensas áreas, conquistadas

mas carentes de ocupação efetiva, a

(26)

expulsão através a pena de degredo foi

mantida como rotina, livrando

Londres e outros centros urbanos dos

problemas gerados pela excessiva

população carcerária, e solidificando a

presença britânica em terras norte-

americanas. Mas em 1776 veio a

Revolução Americana, e com ela o

inevitável abandono da remessa de

degredados para a grande nação que

nascia sob a liderança de George

Washington. Outrossim, a mão-de-

(27)

obra obtida através o tráfico de escravos africanos já esgotara a necessidade do aproveitamento de prisioneiros britânicos, mesmo em outras colônias britânicas; e a América do Sul, por sua vez, já então estava completamente dominada pelo tráfico de escravos por portugueses e espanhóis.

O já referido Lord Sydney foi

quem, em 1786, anunciou a decisão do

Rei George III pelo aproveitamento de

(28)

Botany Bay como o local para onde

deveriam ser enviados os prisioneiros

britânicos condenados ao degredo. A

escolha, apesar de inicialmente

sugerida por Mario Matras, foi

ratificada após ouvido Sir Joseph

Banks, o botânico que procedeu a

estudos da flora local. Além de New

South Wales poder absorver o excesso

de condenados britânicos que tanto

atormentava as autoridades londrinas,

um fator político-estratégico pesou

(29)

favoravelmente na escolha das tão distantes terras, eis que o rei George III se preocupava com a presença francesa ao sul do Pacífico; daí porque também a Ilha de Norfolk foi incluída como possível local para o estabelecimento paralelo de uma colônia penal britânica.

A primeira leva de prisioneiros

foi transportados por uma esquadra de

dez naves sob o comando do almirante

Arthur Phillip, partindo do porto de

(30)

Portsmouth em 13 de maio de 1787 com ordens do primeiro ministro William Pitt e de todo o gabinete do rei George III para a implantação de uma colônia penal em Botany Bay.

Cada embarcação levava não menos

de cem degredados, mas a longa

duração da viagem e as péssimas

condições do transporte aliadas ao uso

de grilhões e o emprego de chibatadas

como punição por eventuais faltas ou

desobediências, do que não estavam

(31)

isentos os próprios marinheiros, reduziu a menos de 800 o número dos prisioneiros desembarcados vivos pela até hoje orgulhosamente lembrada Primeira Esquadra, somados homens, mulheres e crianças.

Na chegada a Botany Bay, os

planos de Phillip tiveram que ser

alterados quanto ao desembarque de

sua carga humana, pois ali poucas

probabilidades de sobrevivência

material existiriam para os integrantes

(32)

da esquadra, além de os navios não

obterem a necessária proteção em uma

enseada cheia de dunas e varrida pelos

ventos. Aquele comandante percebeu

então que os conselhos do botânico

Joseph Banks não poderiam ser

seguidos ao pé da letra, e por isso

buscou outro local de desembarque,

guiado pelo mapeamento de James

Cook, até achar a enseada denominada

Sydney Cove, quando então se deu a

ancoragem dos navios e posterior

(33)

desembarque.

Era o dia 26 de janeiro do ano de

1788, e naquela data a Union Jack

(bandeira britânica) pôde afinal ser

hasteada. Não distante do local, hoje

conhecido por The Rocks, encontra-se

o símbolo-maior da cidade de Sydney,

que é o grande e original complexo

arquitetônico do Opera House, cujo

desenho aparece em qualquer postal,

flâmula, camiseta ou objeto que

busque representar a cidade.

(34)

Mas o uso das terras australianas

para a implantação de colônias penais

não se esgotou com a decantada First

Fleet de 1788, pois outros

carregamentos de homens, mulheres e

crianças se sucederam, neles incluído

o da nave Lady Juliana, utilizado para

o transporte de 250 mulheres, em sua

grande maioria prostitutas de Londres,

cujo envolvimento com a tripulação e

convictos do sexo masculino durante a

longa viagem legou ao navio a

(35)

alcunha de The Floating Brothel (O

Bordel flutuante); e tampouco Sydney

foi a única metrópole da Austrália

nascida de uma colônia penal

britânica, pois a mais importante das

cidades do estado de Queensland,

Brisbane, também teve sua fundação,

que se deu em 1825, justificada para o

acolhimento de convictos, estes

considerados mais rebeldes do que os

anteriormente desembarcados em

Sydney Cove.

(36)

Dois anos após o

estabelecimento da colônia penal em

Sydney Cove, outra esquadra britânica

aportou em Sydney com a

incumbência de transportar mais

prisioneiros e, ao mesmo tempo,

prover de alimentos tanto os posseiros

quanto os convictos vindos com a

Primeira Esquadra, pois as provisões

vindas da Ilha Norfolk escasseavam

assustadoramente. No ano seguinte,

com a terceira esquadra, chegaram

(37)

mais de 2.000 condenados,

engrossando substancialmente a

população dentro da estratégia

estabelecida pelos colonizadores; e em

dezembro de 1799 já 862

descendentes de convictos formavam

a primeira geração de australianos

natos, rapidamente aumentada em

consequência das usuais uniões de

fato, não apenas entre convictos como

também entre mulheres condenadas e

homens livres, daí porque no ano de

(38)

1807 os filhos legalmente tidos como ilegítimos somavam 60% da colônia britânica.

O transporte de prisioneiros ingleses com a determinação de povoarem a Austrália somente terminou oitenta anos depois, com a chegada de 159.000 deportados para Fremantle, Western Australia, em 1868.

Entre o desembarque dos

primeiros convictos vindos na

(39)

Primeira Esquadra e o último

“carregamento” de homens, mulheres

e crianças, 159.000 prisioneiros

britânicos chegaram ao país, número

que razoavelmente sustenta a

afirmativa de que pelo menos a

maioria dos anglo-australianos

descende de condenados vindos da

Inglaterra. Mas isso de maneira

alguma traz constrangimento a seus

assumidos descendentes, e sim pelo

contrário, pois descender de um

(40)

convicto chegado à Austrália é considerado motivo de orgulho para todo fair dinkum aussie, “australiano de boa cepa” na tradução mais apropriada. Segundo David Dale (Who We Are – A Miscellany of the New Australia, 2006, edição de Allen &

Unwin), somente após cinco anos do

desembarque dos convictos trazidos

pela esquadra de Arthur Phillip

chegaram os primeiros colonos livres

à Austrália, procedentes de Londres.

(41)

2.2 Os carneiros

Depois do estabelecimento dos ingleses, chamados pejorativamente pommies por australianos e neozelandeses, segundo o Conciso Dicionário da Língua Inglesa (editado na Austrália por G.A.Wilkes &

W.A.Krebs) foi a vez dos carneiros,

especificamente os da raça merino,

contribuírem para o acelerado

crescimento econômico do país com a

grande expansão da cultivo da lã e o

(42)

estabelecimento do consumo da carne ovina em todo o país, em igualdade de condições com a carne bovina, elevando a Austrália à posição de um dos maiores produtores de lã do mundo.

Antes do consumo da carne de

carneiro implantado pelos ingleses no

país, seus habitantes originais, os

aborígenes, alimentavam-se

primordialmente de peixe e carne de

canguru, esse marsupial, um símbolo

(43)

marcante da Austrália em todo o mundo.

3. O Idioma

Se você imagina que vai

desembarcar em Sydney utilizando

com desenvoltura aqueles seus

conhecimentos de inglês aprendidos

em cursos que propagam ensinar nas

corretas pronúncias norte-americana

ou britânica, ou se sente estruturado

através o consumo maciço da música

pop e diálogos de filmes

hollywoodianos, pode ter muitas

decepções e ficar olhando para as

paredes enquanto lhe perguntam

insistentemente - “Sorry…?”- ou

(44)

“Pardon…?”-, pois o idioma praticado na Austrália carece, para muitos turistas e principalmente os candidatos à imigração, de um aprendizado que em alguns casos deverá começar do zero.

Fonéticos britânicos e

australianos têm dividido a pronúncia

do inglês usado na Austrália em três

faixas, a saber: o Cultivated

Australian, falado por não mais de dez

por cento da população; o Broad

Australian, usado por uns trinta por

cento dos australianos; e o General

Australian, abrangendo o restante e

consequentemente o grosso da

(45)

população do país, esta parcela herdada do chamado sotaque cockney, comum a Londres e leste da Inglaterra.

Já foi dito que possivelmente políticos e administradores públicos, apesar de supostamente escolados no Cultivated Australian ou no tradicional inglês norte-americano, preferem se expressar em público no General Australian como parte de uma estratégia política populista.

O inglês-australiano vem sendo

aprimorado e modificado durante os

pouco mais de duzentos anos de

existência da Austrália, contados da

chegada da Primeira Esquadra em

(46)

1788, pois a fala inicialmente praticada na colônia britânica calcou- se basicamente no jargão dos prisioneiros trazidos nas embarcações comandadas pelo almirante Phillip, termos comuns a prostitutas, larápios, cáftens, trapaceiros, assassinos e todo o tipo de gente da então considerada ralé inglesa, aos quais foram juntados alguns poucos jamaicanos e africanos.

Paulatinamente, a linguagem do dia-a-

dia praticada na colônia penal foi

sendo mesclada com palavras

pertencentes ao dialeto dos nativos

locais (os Aborígines, como até hoje

são referidos), principalmente quando

(47)

nomes indicativos das fauna e flora locais, ou artefatos e termos próprios dos primitivos habitantes do continente não encontravam correspondência dentro do idioma inglês. entre os mais divulgados.

Com a saída de homens para

lutar durante a I Guerra Mundial

integrando as forças inglesas -

abrindo-se aqui um parêntesis para

lembrar que naquela época (1914-

1918) a Austrália ainda não existia

como nação autônoma -, houve a

assimilação de novos termos ao

linguajar dos soldados enquanto

estiveram na Europa e durante o

(48)

tempo em que, mesmo em solo australiano, mantiveram contato com estrangeiros empenhados num mesmo objetivo político.

A corrida do ouro de 1851,

provocada pela divulgação de Edward

Hargraves sobre a existência desse

preciosíssimo metal a oeste de Blue

Mountains, dentro de New South

Wales, provocou a vinda de muita

gente alienígena, principalmente

chineses, incrementada logo após em

razão da descoberta de outras

nascentes auríferas a noroeste da atual

cidade de Melbourne; daí sendo o

linguajar australiano pulverizado de

(49)

termos chineses. Para aqueles que eventualmente se interessarem num aprofundamento das origens e causas das diferenças básicas entre o inglês falado na Austrália e seu homônimo europeu, aconselhável é o trabalho de Arthur Delbridge inserido na antologia intitulada New Literary History of Australia, editada por Laurie Hergenham para publicação por Penguim Books Australia Ltd.

4) Sydney

Sydney é o pulmão e o coração

da Austrália, com mais de um quinto

da população de todo o país — 5,23

(50)

milhões para 24,6 milhões de habitantes — daí que as grandes vantagens e as poucas desvantagens dessa nação podem ser vistas e entendidas naquela grande metrópole.

Falar em Austrália é pensar em

sua mais populosa e principal cidade,

Sydney, tal qual falar nos Estados

Unidos da América é ter em mente

Nova Iorque, como pensar em Paris

quando a palavra é França, ou dizer

Brasil e vislumbrar paisagens do Rio

(51)

de Janeiro.

5) Trânsito e transportes públicos

Causa estranheza a quem visita a

Austrália o sistema de transportes

públicos, notadamente quando o

recém-chegado ingressa em um

ônibus, onde acima de tudo imperam a

calma e, por que não dizer, uma certa

lerdeza da parte dos passageiros no

embarcar e desembarcar, tudo bastante

diferente do usual em outras partes do

mundo onde existe a pressa e

comumente o desrespeito mútuo entre

motoristas e passageiros. Bem

diferente do canguru, o saltitante e

(52)

veloz marsupial cuja imagem está

ligada à Austrália em todo o mundo,

os ônibus circulam neste país de uma

maneira mais apropriada à

comparação com uma tartaruga, sem

contar que os intervalos entre um

carro e outro da mesma linha podem

alcançar vinte minutos ou até mais,

espaço de tempo que pode ser

abreviado em algumas linhas nas

horas do rush. Convém entretanto uma

palavra de elogio quanto à maior

segurança que a pouca velocidade

proporciona aos usuários,

notadamente os idosos, habituados a

ingressar lentamente nos coletivos,

(53)

sacar da carteira o dinheiro da

passagem para a compra do ticket

especial dos aposentados, e

pachorrentamente buscar assento, tudo

isso sem uma palavra de protesto,

tanto dos demais passageiros quanto

dos habituadíssimos motoristas. Os

horários dos ônibus são afixados nos

pontos de embarque, disponíveis

também em folhetos encontrados em

algumas farmácias, bancas de jornal e

postos especiais montados para sua

distribuição gratuita. A maioria dos

pontos de ônibus dispõe de bancos de

espera, alguns deles protegidos contra

sol e chuva. Existem ônibus dotados

(54)

de portas com plataformas móveis, prontas para serem baixadas até o nível do meio-fio a fim de permitir o embarque e desembarque dos carrinhos de bebês e cadeiras de rodas para deficientes físicos; constando informado nas tabelas de horário as horas de chegada desses veículos especiais, que desafortunadamente para os usuários carecedores de tal vantagem ainda são minoria dentro de toda a frota.

Detalhe que não pode passar em

branco a respeito dos ônibus é o alto

espírito de solidariedade e utilidade

pública demonstrado pelos motoristas,

(55)

que na eventualidade de algum enguiço na máquina de registro e venda dos tickets, permitem que os passageiros ingressem no veículo e sigam até seus destinos sem desembolsar um centavo, predominando pois a filosofia de que o cidadão precisa viajar e não lhe cabe culpa se por um defeito mecânico a passagem não lhe pode ser vendida.

Outra característica dos

condutores desses coletivos está na

boa vontade geral para esclarecer ao

passageiro a respeito de alguma

dúvida quanto ao itinerário do

coletivo, ou recomendar-lhe o melhor

(56)

ponto de desembarque.

Os trens de passageiros são

compostos de comboios de seis ou

oito vagões, todos com dois andares,

alguns dispondo de ar condicionado,

mas ao contrário dos ônibus não

podem ser aquinhoados com elogios

quanto à segurança física e

tranquilidade dos passageiros,

notadamente em viagens noturnas,

quando nunca é desprezível a hipótese

de o passageiro ser agredido por

bêbados ou, em se tratando de uma

passageira, sofrer uma tentativa de

agressão sexual, panorama

infelizmente predominante nas

(57)

grandes cidades de qualquer país do mundo, pelo qual a Austrália não merece condenação antecipada; até porque todos os trens contam com a vigilância de um fiscal postado à porta de um dos vagões. A esse funcionário cabe a tarefa de vigiar, à noite, o embarque e o desembarque de pessoas em atitudes suspeitas, vigorando a recomendação do sistema responsável pelo tráfico ferroviário de os passageiros noturnos darem preferência ao vagão onde o vigia se encontra, indicado por uma lâmpada azul afixada sobre a respectiva porta.

Entretanto, em matéria de rapidez, é o

(58)

meio de transporte preferido por quem

trabalha e tem compromisso de

horário, e em todas as estações

funciona com eficiência um quadro

eletrônico onde são informadas as

paradas de cada comboio e a hora de

chegada do próximo trem. As estações

ferroviárias de maior afluência de

público dispõem de máquinas

opcionais para a venda de passagens, o

que permite aos usuários, nas horas de

maior procura, utilizá-los para evitar

as filas junto aos guichês. Quanto ao

tráfego nas principais vias de acesso

ao centro da cidade de Sydney e

demais áreas urbanas de grandes

(59)

concentrações comerciais e

industriais, os automobilistas ainda

não conhecem os quilométricos

engarrafamentos bastante comuns nas

grandes metrópoles do exterior. É

interessante assinalar que nas ruas,

avenidas e estradas australianas não

existem guardas de trânsito, ausência

que de maneira alguma torna difícil a

solução de um ou outro problema

ocasionado por acidentes ou enguiços

repentinos de veículos. Na hipótese de

algum acidente grave, ou mesmo

incidentes por desacordo entre

motoristas, a chegada de uma viatura

policial nunca se faz tardar. É notável

(60)

a desenvoltura com que pessoas idosas se põem atrás de um volante para dirigir pelas vias urbanas e rodovias australianas, onde muito raramente aparecem motoristas viciados em mudar de faixa de rolamento, dando as chamadas “cortadas”, principais causadoras de graves acidentes de trânsito; e para um motorista familiarizado com a indisciplina imperante em outros lugares, pode até parecer coisa de ingênuo a expressa obrigatoriedade do acionamento das luzes indicadoras de conversão de rumo do veículo, mesmo em vias de

pouco movimento, cujo

(61)

descumprimento é punível com multa e perda de pontos na carteira de habilitação. Mesmo os ciclistas são obrigados a essa sinalização, neste caso manual.

Detalhe importantíssimo concernente às bicicletas é a obrigatoriedade do uso de capacete, da qual não estão isentas as crianças, até mesmo quando montando velocípedes.

Nas encruzilhadas sujeitas a grande

movimento de tráfego estão os

roundabouts, procedimento copiado

do trânsito inglês que consiste na

colocação de ilhas levemente

superiores ao nível da pavimentação,

(62)

algumas como se fossem jardins

redondos, adornados com flores da

estação e forçando os motoristas a

contorná-las para evitar os tão

perigosos choques em vias

perpendiculares. Quanto aos pedestres,

em todos os cruzamentos existem

sinalizadores mecânicos colocados nos

poste e ao alcance da mão, para que o

pedestre aperte um botão e assim faça

funcionar a luz verde a seu favor, no

devido tempo. Tal recurso permite aos

deficientes visuais conhecer a hora

exata da travessia, pois enquanto

transcorrem os segundos necessários

para que o sinal seja aberto a seu

(63)

favor, o aparelho colocado permanece

emitindo impulsos intermitentes, e

quando a luz verde é acesa o som

mecânico muda de intensidade, em

ritmo acelerado, com isso avisando ao

pedestre que chegou a sua vez de

efetuar a travessia. Em ruas e avenidas

onde não existem tais sinais

mecânicos, estão postadas faixas

próprias para travessia, as pedestrian

crossing, inclusive nas vias

suburbanas de pouco tráfego,

devidamente assinaladas e precedidas

dezenas de metros adiante de avisos

sobre a existência de cada uma delas,

a fim de prevenir os motoristas de que

(64)

devem ir diminuindo a velocidade a

tempo de evitar freadas bruscas; e nas

cercanias de algumas escolas a

sinalização costuma ser reforçada por

um funcionário do council (órgão

administrativo regional) postado junto

ao meio-fio, a exibir uma placa com o

aviso de existência de escola nas

proximidades. Infelizmente, como

falhas humanas podem acontecer até

diante dos mais rígidos e vigilantes

sistemas de controle do procedimento

humano, acidentes com crianças

durante a travessia de ruas podem

acontecer, mas quando isso ocorre a

opinião pública é presa de grande

(65)

comoção, propalada com destaque pela imprensa, o que acima de tudo comprova que a segurança das crianças é tomada verdadeiramente a sério pelos australianos.

A orientação para quem necessita atingir qualquer logradouro público, seja de ônibus ou de trem, ou até mesmo conjugando esses dois meios de transporte coletivo, pode ser tomada pela consulta a mapas onde estão informados os itinerários em cores distintas das diversas linhas, e a localização das estações de trens;

sendo que em Sydney esse apoio é

aprimorado por um serviço de

(66)

utilidade pública disponível as 24 horas do dia (Infoline), pronto para informar o melhor meio de ser atingido determinado endereço, ainda que seja uma ruazinha não servida diretamente por qualquer transporte público.

O observação da adequada mão

de direção ocorre até nas escadas

(comuns ou rolantes), corredores e

quaisquer outras passagens para

pedestres, devendo ser obedecida a

chamada “mão inglesa”, sob pena de o

infrator ter que ouvir reclamações, às

vezes bem iradas, ainda que

antecedidas pelo usual “excuse me!”.

(67)

Nas escadas ou esteiras rolantes existentes nas estações ferroviárias sujeitas a grande afluência de público, essa norma de o lado direito ficar desimpedido é de capital importância, o que permite aos passageiros mais apressados subir ou descer livremente e independentes da condução mecânica.

6) Aborígenes

Segundo The Encyclopaedia of

Aboriginal Australia, publicada pela

Aboriginal Studies Press para o

Australian Institute of Aboriginal and

Torres Strait Islander Institute (1994)

sob a edição geral de David Horton, os

(68)

aborígenes da Austrália habitam-na

“há mais de 18 milhões de dias”, e sua

convivência com a população não-

indígena tem sido assaz traumática, a

contar desde o desembarque dos

primeiros europeus no continente

australiano. Mas a desigualdade de

forças em armamentos nunca impediu

que os primitivos habitantes

enfrentassem os invasores desejosos

de se apossar do que aparentava ser

um prolongamento da América do Sul,

para eles quiçá o caminho de terra

firme rumo ao tão sonhado El Dorado,

erro explicável pelas precárias cartas

marítimas de que dispunham os

(69)

navegantes à época.

No dizer de Deborah Bird Rose, incluído em elucidativa coletânea editada por Bain Attwood &

S.G.Foster (Frontier Conflict – The

Australian Experience) “ao vencedor

pertencem os despojos, e um dos

despojos da guerra é a narrativa; e se

os vencedores optam por erradicar

histórias outras que não as de si

próprios, frequentemente eles têm

força para tanto”. Esse poder a que se

refere a autora pode ser facilmente

constatado quando o visitante procura

alguma placa comemorativa sobre

Pemulwuy, por exemplo, o nativo cujo

(70)

nome foi dado a um pequeno parque

situado em Redfern, subúrbio onde

vive o grosso da população aborígene

de Sydney; eis que na verdade o

triunfo britânico sobre a resistência

dos primitivos habitantes do

continente australiano praticamente

raspou da memória do país a figura

daquele que é considerado, entre o

povo aborígene da Austrália, um

lutador pela liberdade das tribos que

desde os primórdios da raça humana

viveram no que foi Gondwana, a

grande massa de terras de 40.000 anos

AC, de onde se desprenderam a

Austrália e a Nova Zelândia, somente

(71)

visitadas por alienígenas nos primórdios do século XV DC.

Mas ainda com apoio em

Deborah Bird Rose, vale salientar suas

próprias palavras — “contudo, a

própria História é um exercício sábio

que pode se opor ao poder erradicante

da memória” —, visto que alguns

fatos da resistência ferrenha de

Pemulwuy e seus liderados

ultrapassaram, através principalmente

as memórias e narrativas de seu

próprio povo, as barreiras éticas,

políticas e imperialistas dos

conquistadores britânicos; sendo hoje

sabido que apenas por falta de maior

(72)

comunicação entre os governadores da

colônia e a coroa britânica o intento

inglês em manter a Austrália em seu

império não foi abandonado, pois as

sucessivas derrotas sofridas pelos

conquistadores frente aos aborígenes

liderados por Pemulwuy atingiram

graus de desmoralização para os

conquistadores. Tamanha era a ira e o

desespero dos britânicos que até

mesmo tentadoras ofertas de

recompensa para quem capturasse o

líder nativo foram oferecidas, como

exemplifica David Dale em The 100

things everyone needs to know about

Australia, transcrevendo uma das

(73)

notícias propaladas por um dos governadores de New South Wales com o objetivo de atrair a cobiça de quem se dispusesse a caçar o guerrilheiro aborígene – “20 galões de aguardente, dois trajes novos para um homem livre, e para quem já estiver em livramento condicional, perdão total e recomendação de uma passagem para a Inglaterra”.

Pemulwuy foi afinal morto em

1802, quando liderava mais um ataque

contra os colonizadores, e teve a

cabeça decepada a golpes de sabre,

conservada em álcool e

posteriormente remetida em um jarro

(74)

para o botânico Joseph Banks, em

Londres, com a inscrição de tratar-se

de um espécimen da “fauna” local. Foi

certamente a maneira mais apropriada

surgida para os conquistadores de se

vingarem por tantas derrotas e, ao

mesmo tempo, extravasarem seus

sentimentos racistas em relação

àqueles seres que tão tenazmente a

eles se opunham. A maior batalha

entre os aborígenes comandados por

Pemulwuy e as forças britânicas

aconteceu em Parramata, New South

Wales, junto ao rio do mesmo nome,

mas nenhuma indicação ou placa

existe no local, exatamente porque ao

(75)

vencedor pertence o direito de

escrever a sua história. A memória dos

choques entre os colonizadores

britânicos e os aborígenes australianos

possui exemplos significantes de

sangue, violência e aberrações

praticadas contra cadáveres de nativos

mortos. Keith Windschuttle (The

Fabrication of Aboriginal History,

vol. I, Macleay Press, 2002, Sydney)

reproduz o primeiro parágrafo da

reportagem assinada por dois

jornalistas do Wall Street Journal de

21 de agosto de 2000, ano em que a

Austrália sediou os vigésimos-sétimos

Jogos Olímpicos. Narrou aquele jornal

(76)

norte-americano o episódio sucedido

na Tasmânia em 1804, denominado de

O Massacre de Risdon Cove pelos

jornalistas; nele, um grupo de nativos,

incluídas mulheres e crianças, quando

perseguiam alguns cangurus, deparou-

se com soldados ingleses, que não

tiveram dúvidas em disparar tiros de

canhão contra os aborígenes, causando

aproximadamente umas 50 mortes,

sendo os corpos recolhidos e salgados

para estudos antropológicos no Reino

Unido. O citado autor, claramente

contrário a versões como a do Wall

Street Journal, ataca-as de exageradas,

as quais em seu bojo ocultariam

(77)

provocações de cunho político

destinadas a desacreditar a democracia

australiana durante as Olimpíadas de

2000, enquanto autores de renome

aludem ao incidente como o sinal

primeiro para o extermínio dos

aborígenes da Tasmânia. Oficialmente,

os aborígenes somam dois e meio por

cento da população australiana,

número certamente passível de

ampliação se acrescido dos

denominados half-caste (mestiços),

termo inglês largamente utilizado na

Austrália em referência às pessoas de

ascendência anglo-australiana

mesclada à aborígene. Abordar

(78)

aspectos da vida, origem e participação dos aborígenes na construção do país exige, antes de tudo, apurado tato para que antigos mas ainda vivos preconceitos e mágoas não venham inesperadamente à tona, causando assim dissabores ou mesmo rejeições ao incauto inquiridor.

Historiadores se dividem no levantamento de fatos e aspectos relacionados com a conquista do território australiano pelos britânicos;

alguns comparam a atuação desses

europeus diante da resistência nativa

ao modo genocida de Hernán Cortez

no México e Francisco Pizarro no

(79)

Peru, outros rechaçam com firmeza tais argumentos com a tese de que, dos embates entre ingleses e nativos australianos, ferimentos e mortes ocorreram em ambos os lados, e que explorações de cunhos filosófico e/ou político sempre buscaram exagerar a necessária firmeza dos colonizadores no cumprimento das ordens reais para a implantação da colônia.

O mencionado episódio de

Risdon Cove é apenas uma dos muitas

histórias de massacres perpetrados

pelos colonizadores contra os nativos

australianos ventiladas em acadêmicos

compêndios que têm como tema a

(80)

formação da Austrália, a maioria

desses fatos tendo por cena a

Tasmânia à época do apossamento

britânico em 1803, não faltando quem

coloque os ingleses como autores de

um genocídio equivalente aos dos

judeus durante a II Guerra Mundial,

ou ao do povo cambojano sob o

regime de Pol Pot na década de 1970,

entre outros de memória mais recente,

além dos já falados conquistadores

espanhóis do México e Peru. Vozes

contrárias, outrossim, colocam-se

radicalmente contra essa posição,

acusando os historiadores

denunciantes dessas mortes praticadas

(81)

por posseiros e militares britânicos de propalarem teses bizarras e absurdas.

Contudo, aqueles outros tenebrosos

acontecimentos passados ao correr da

História e por terras e nações as mais

diversas tiveram, por via de regra, a

violência de um povo contra outro

povo, finda a qual os beligerantes se

apartaram atrás de fronteiras quando

os genocidas esgotaram suas forças ou

foram compelidos à retirada diante de

pressões internacionais e/ou se viram

derrotados em campos de batalha por

interventores mais poderosos, como

sucedeu com os sérvios face os

bombardeios punitivos da OTAN,

(82)

quando afinal abdicaram da matança

dos albaneses de Kosovo. Com os

aborígenes da Austrália, porém, ocorre

um fato ímpar, já que, tenha ou não

havido massacres no passado colonial,

eles fazem parte do povo australiano e

coabitam com os descendentes

daqueles que, em compasso com

documentos, relatos e depoimentos

que datam do início da consolidação

da colônia, além de filmagens e

fotografias de épocas mais recentes,

teriam lhes infligido sofrimentos

morais e físicos ao ponto de reduzi-los

a uma pequena e paupérrima parcela

da população de um país considerado

(83)

de primeira grandeza. Vencedores e vencidos são assim, no caso australiano, compelidos a conviver em um mesmo território – repita-se: de modo contrário ao ocorrido nas diversas tragédias de natureza étnica do passado.

Enquanto Keith Windschuttle

rechaça categoricamente as versões

em torno de massacres de nativos

pelos colonizadores britânicos, no

outro extremo aparecem não menos

prestigiados historiadores cujas obras

mencionam fatos com detalhes acerca

de morticínios perpetrados pelos

ingleses, militares ou não, contra os

(84)

primitivos habitantes da Austrália, sobressaindo Henry Reynolds, autor de não menos que dez trabalhos versando sobre a causa aborígene- australiana, entre elas “Por que não nos contaram? Uma busca pessoal para a verdade de nossa história”

(1999, edição de Viking, Ringwood).

São estas as palavras de Reynolds:

“Quanto mais eu leio, mais claro fica

que, entre 1900 e 1960, os aborígenes

foram virtualmente apagados da

História Australiana. O ‘Grande

Silêncio Australiano’ foi aplicado à

nova nação após a Federação e assim

permaneceu por mais de meio século”.

(85)

Lucy Hughes Turnbull, em

Sydney – Biography of a City,

publicado por Random House

Australia em 1990, dá-nos as

seguintes e pungentes palavras a

respeito dos nativos australianos: “A

sorte dos aborígenes australianos

desde 1788 é uma questão sobre a qual

muitos australianos não-aborígenes

sentem uma grande dose de

responsabilidade coletiva, ainda que,

individualmente, não tenham tido um

papel direto na ação ou omissão que

levou à quase total destruição da

população e cultura indígenas. Outros

negam os menos heroicos elementos

(86)

da história australiana e ignoram a extensão que o passado traz até o presente. Os aborígenes estão hoje, qualquer que seja o teste, em condições muito piores do que os outros australianos: eles morrem mais jovens, são mais pobres, encontram-se mais propensos a enveredar no crime, no álcool e nas drogas, e estão desproporcionalmente representados na população carcerária”.

Não cabe a um mero visitante,

nestas notas cujo objetivo é apenas

tecer comentários em torno dos

principais aspectos da existência do

povo australiano, vestir a toga

(87)

julgadora e apontar para que lado

tende a verdade, ou ao menos uma

parcela da verdade; mas o que salta

aos olhos de quem vem à Austrália é o

testemunho da precariedade das

condições físicas e morais dos seus

aborígenes, presa que se encontra o

grosso dessa pequeníssima parcela da

população do país do álcool, das

drogas e da violência familiar. É

impossível apagar literalmente da

história da Austrália a existência de

sua população indígena, até porque,

paradoxalmente e ao contrário da

maioria dos países em que as tradições

culturais (música, artes visuais,

(88)

artesanato, lendas) são diversificadas

segundo suas regiões, ascendências e

influências exógenas, este país não é

farto em características exportáveis

culturalmente senão o que ele possui

em termos de representatividade

ligado aos seus aborígenes. As lojas de

souvenirs estão fartas de trabalhos

manuais dos nativos, a começar pelo

conhecidíssimo bumerangue e o

didjeridu, que é um instrumento

musical feito de um longo tronco de

árvore tornado oco, por motivo de

fogo ou corroído por formigas, do qual

os aborígenes extraem sons musicais

de apreciável originalidade. Além

(89)

desses artefatos, existem as telas

pintadas pelos nativos, com

predominância do negro, amarelo e

vermelho, invariavelmente

sublinhadas por inúmeros pontos

brancos, todas transbordantes em

ingenuidade e lamentos pela história

de um povo sofrido e sem

perspectivas. Pode-se afirmar, sem

sobra de dúvidas, que tais telas

constituem a primordial característica,

para não dizer a única e atual arte

figurativa da Austrália. Nas

festividades escolares, os professores

não têm nada além da apresentação de

cânticos e danças dos aborígenes para

(90)

fazer tocar nos corações infanto- juvenis algo próprio do que a nação tem de mais seu, ainda que os pais e familiares anglo-australianos dessas mesmas crianças intimamente possam discordar.

A existência de uma bandeira

nas cores preto e vermelho, com um

círculo amarelo ao centro, hasteada ao

lado das representações da Austrália e

do respectivo estado da federação, faz

ver ao visitante que a memória

aborígene é pelos menos suportada

pelas autoridades, enquanto prossegue

nos meios políticos a discussão em

torno da necessidade e de como

(91)

poderá ser feita a sonhada Reconciliação, em outras palavras o esquecimento das lutas do passado entre aborígenes e não-aborígenes, e a cura das sequelas deixadas, estas últimas, como é fácil constatar, pesando exclusivamente sobre a parte mais fraca em representatividade política, escolaridade e saúde.

7) Imigrantes

A história da imigração na

Austrália está perfeitamente escrita e

documentada para mostrar que antes

de 1901, ano em que a Austrália foi

declarada uma federação (ou

comunidade de estados), a entrada e a

(92)

vida no país era um fator de plena

insegurança para qualquer imigrante

não-oriundo do Reino Unido. No dizer

de Marie de Lepervanche, autora do

brilhante ensaio Immigrants and

Ethnic Groups, inserido na antologia

publicada por Longman Cheshire Pty

Ltd. (1984, Austrália) Australian

Society, “A celebração da etnicidade e

a promoção da identidade étnica são

episódios relativamente recentes na

história da Austrália”. A aceitação do

ingresso de estrangeiros na Austrália

foi um processo efetivado em escala

ascendente quanto às inúmeras etnias

que se propunham a emigrar para o

(93)

país, sendo o portão aberto primeira e

unicamente para os considerados

brancos de origem anglo-saxônica,

para depois deles, paulatinamente,

ingressarem os imigrantes originários

do sul da Europa, mesmo assim

sujeitos a severas medidas de controle,

hoje reconhecidas pela opinião pública

australiana como de bases racistas,

como informa a referida Marie de

Lepervanche: “Hoje, reconhecemos

que a retórica da Austrália Branca era

racista, e que as noções de assimilação

a um modo de vida anglo-australiano

constituía pura ideologia”- pg. 172. Os

asiáticos em geral, com predominância

(94)

dos chineses, que iniciaram sua

migração para a Austrália por volta de

1851 durante a chamada Corrida do

Ouro, foram certamente a etnia que

maiores obstáculos e rejeições

encontrou por parte da política de

prevalência dos herdeiros diretos da

colonização britânica; e apenas os

aborígenes os suplantam em matéria

de marginalização calcada em valores

raciais, posto que aos últimos faltou a

docilidade asiática no trato com os

anglo-australianos, daí sua conhecida

história de quase total aniquilamento

físico. Um parêntesis, contudo, precisa

ser feito quando o assunto é aceitação

(95)

e entrosamento mútuo entre australianos natos e imigrantes provenientes do Oriente Médio e, mais recentemente, do Afeganistão, posto que a face externa desses estrangeiros na Austrália tem sido pintada com tintas nada favoráveis a partir dos atentados de setembro de 2001 em Nova Iorque. A generalização, ou o nivelamento por baixo que põe os

“libaneses” (como os australianos

qualificam todos os nacionais dos

países árabes, incluindo até mesmo os

não árabes, como turcos, egípcios e

iranianos) e os afegãos para arderem

na caldeira reaquecida pelas brasas

(96)

ainda não extintas do rancor xenófobo e racista modelado pela Austrália Branca do One Nation Party, o partido político ultra direitista, vem claramente enodoando a imagem de paraíso multirracial que a Austrália logrou manter por certo tempo, imagem esta que sofreu um profundo e bastante lamentável arranhão quando da ocorrência do que ficou rotulado como o Incidente do Tampa.

Sucedeu que em plena

efervescência de eleições nacionais

para a indicação do nome de quem

ocuparia o mais alto cargo público

australiano, o de Primeiro Ministro, do

(97)

qual John Howard já então figurava

como titular efetivo e dono de

reeleições anteriores, um cargueiro de

bandeira norueguesa, o Tampa, após

ter recolhido em alto mar mais de duas

centenas de refugiados de

nacionalidades diversas,

predominantemente asiáticos e

indonésios, sobreviventes do

naufrágio de uma frágil embarcação

onde os famigerados traficantes de

gente os amontoaram com a

promessas de levá-los a terras onde

ficassem livres de perseguições por

motivos políticos, raciais ou

religiosos, viu-se militarmente

(98)

impedido de ingressar em águas australianas.

Dando um retrocesso no

cumprimento da Convenção Relativa à

Condição de Refugiados de 1951,

ratificada pelo Protocolo Relativo à

Condição de Refugiados de 1967

estipulada pela ONU, ambos os

tratados assinados pela Austrália, o

ministro e candidato à reeleição para o

novo mandato a ter início em 2002

pautou seus discursos e comunicados à

imprensa em afirmações de que o

desembarque daqueles refugiados

representaria um absoluto e iminente

perigo de o país sofrer graves

(99)

violações em sua segurança nacional e

o povo australiano ver-se solapado em

suas mais indisponíveis tradições e

liberdades individuais, apesar de o

Tampa, um transportador de

containers, não estar preparado para

acomodar mais de 50 homens e haver,

entre os refugiados recolhidos do

oceano, inúmeros casos de

desidratação e sequelas outras

provenientes da precariedade do barco

em que viajaram. Militares

australianos das forças especiais

conhecidas pela sigla SAS invadiram

o cargueiro e constrangeram seu

comandante a mudar a rota do Tampa,

(100)

sendo todos os pormenores dessa operação filmados desde helicópteros e utilizados na televisão com o propósito de fazer convencer a parcela da população mais consternada com o drama dos refugiados de que o recebimento da carga humana do navio norueguês poderia representar um precedente para que mais e mais gente de outras etnias viesse a inundar ainda mais o país, desbotando a Austrália em sua nacionalidade própria.

Com essa estratégia, amparada

com entusiasmo pelos simpatizantes

de um sentimento nacionalista

(101)

exacerbado, subliminarmente injetado

na mente da parcela australiana ainda

não etnicamente miscigenada, John

Howard logrou a condução a mais um

mandato de primeiro ministro,

deixando perplexa a opinião pública

internacional, para a qual a aceitação

pela Austrália de milhares de

refugiados vietnamitas após o término

da Guerra do Vietnã e durante os

conflitos concomitantes que se

estenderam aos vizinhos Cambodia e

Laos durante a década de 1970 teria

representado um exemplar ato de

solidariedade humana e fiel

cumprimento de um signatário da

(102)

Convenção e do Protocolo concernentes a refugiados.

O atentado contra as torres

gêmeas do World Trade Center de

Nova Iorque em 11 de setembro de

2001 e a represália norte-americana

com a invasão do Iraque sob a

desculpa de destronar o ditador

Saddam Hussein e destruir alegados

depósitos de armas químicas, mais as

incursões armadas dentro do

Afeganistão para caçar terroristas

diretamente envolvidos naquele

tenebroso ataque à população civil da

mais moderna e rica cidade da mais

poderosa nação do mundo, às quais se

(103)

associaram militarmente a Austrália e a Grã-Bretanha, contribuíram para elevar ainda mais a temperatura de rejeição e suspeição contra os genericamente denominados

“libaneses” por parte de setores do governo e da mídia australiana.

Diferente e mais abrangente em

relação à recusa ao desembarque dos

boat peoples recolhidos pelo navio

Tampa, o estudado afastamento físico

e cultural empregado contra as etnias

do Oriente Médio e afegãos se faz

atuante não apenas contra aqueles que

buscam entrar na Austrália sem um

visto imigratório, mas também contra

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