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uma análise de oportunidades

4.“TIRANDO LEITE DE PEDRA”

4.1 AVALIANDO LEVANTAMENTOS

Como assistente social, procuramos subsidiar informações que clareassem a forma mais empreendedora para que essas pessoas pudessem se organizar em projetos de geração de renda. Inicialmente, o grupo apresentou características profissionais heterogêneas, portanto, de difícil articulação em torno de um projeto comum como uma cooperativa de trabalhadores, assim como desejava o líder comunitário local.

O que foi identificado, nesse momento, foram os projetos que eles desejavam implementar. Os projetos eram assentados sobre habilidades individuais, que variavam do artesanato, pequenos comércios do tipo Lojinhas de 1,99, produção de salgados para vender em bares, montagem de sorveteria, creche “particular”, e da busca por capacitação profissional. O grupo entendeu que necessitava de procurar uma alternativa que fosse executável com chances de sucesso.

Não houve avanços de expressão na primeira experiência do grupo de referência, muitos dos empreendimentos que as pessoas deste primeiro contato na comunidade aspiravam, esbarravam em pontos marcantes, tais como: a falta de meios de financiar o empreendimento. Um dos fatores mais presentes, para a efetivação de um projeto de geração de renda foi a ausência de suporte financeiro; Muhammad Yunus9, fala- nos das pilhas de papéis que os órgãos governamentais e internacionais geram na sua burocracia, criam extensos diagnósticos que inviabilizam ações concretas de micro crédito para pessoas pobres. Esse é um fator impeditivo presente nas nossas instituições de fomento ao desenvolvimento – a burocracia brasileira. Outros foram os fatores impeditivos: as exigências de legislação; desconhecimento de processos técnicos; e, o mais difícil, essas pessoas não poderiam deixar os “bicos”10, maneira encontrada de se manter, mesmo que precarizada, para dedicar-se a outras atividades de trabalho a tentar algo que, nem mesmo tinham condições de avaliar o possível sucesso: - o fantasma da incerteza.

Havia, porém, uma vontade de sair da condição de indigência social, uma aspiração à cidadania natural e inerente a qualquer pessoa. É importante lembrar que Rawls não se refere nem à condição absoluta de miséria, nem à da abundância como momentos

propícios à definição do que seja um sistema de distribuição justa. Para a miséria não há distribuição justa, pois ela é a ausência absoluta de bens.(Felipe,1997:44). Uma distribuição de benefícios é justa, quando coloca o montante dos bens disponíveis à disposição daqueles cuja expectativa do recebimento é considerada válida, e o faz de modo tal que possa receber o consentimento de todos os cidadãos.

Durante o processo iniciado no Seringueiras, outras pessoas foram atraídas pela atividade que desenvolvíamos na comunidade, o grupo foi crescendo. Os trabalhadores da construção civil, desejavam em qualificação profissional, foram encaminhados a contatos que mantivemos junto ao SINE-Sistema Nacional de Empregos. Assim, foi conseguido o curso de qualificação para pedreiro, bombeiro e armador. A partir desse mesmo grupo, em fevereiro de 2000, iniciamos outra etapa de qualificação, que foi o curso de Habilidades de Gestão e Assessoria Técnica. A perspectiva era que eles progredissem na idéia de montagem de uma cooperativa de prestação de serviços. Outros grupos se matricularam ao curso. Surgiram os grupos de: lingüiça defumada, lavanderia Comunitária para o bairro Aclimação, confeitos e biscoito, todos despertados no curso oferecido no Seringueiras.

A primeira experiência, na tentativa de articular esses trabalhadores em torno de suas capacidades e projetos de renda, impulsionou-nos na busca de parcerias na sociedade, entre instituições que, tradicionalmente, promovem o emprego, ou estabelecem processos para qualificação e gestão de empreendimentos. Vimos-nos diante um quadro complexo e de intricadas dificuldades. Por um lado, os trabalhadores do grupo tinham objetivos que nasciam da reunião de suas experiências de vida, com indicador de desestímulo: baixa escolaridade na lista dos impedimentos mais interferentes, a maioria deles semi-alfabetizados, com um conhecimento insuficiente para avaliar suas aspirações, desconhecendo os processos mínimos de organização empreendedorística para a montagem de uma unidade geradora de renda.

Como o serviço social poderia intervir num quadro de tamanhas dificuldades? Em Minas Gerais, usamos a expressão “retirar leite de pedra” para qualificar situações de difícil operacionalização. Eis aí a matéria prima do Serviço social, que se torna objeto de construção da nossa materialidade profissional – a problemática das injustiças humanas, no contexto histórico da sociedade, instigando-nos à desvendamentos e respostas.

Nosso aparecimento na comunidade católica do Seringueiras ocorreu após o convite dos moradores, porque souberam que estávamos interessados em realizar projetos de geração de renda. A estratégia metodológica de intervenção adotou o grupo inicial (conforme mostramos no capítulo III) como uma base de intervenção local - o loteamento Seringueiras e o grupo de interessados -, o qual estabelecemos contato com o cotidiano dos trabalhadores, objetivando a intervenção, que, por sua vez, nos remeteu a uma segunda fase de investigação, quando estivemos avaliando as estruturas de geração de renda e qualificação de mão de obra do município para atender à demanda das pessoas do grupo de referência, mesclando necessidade com sonho, verdade com utopia. O resultado desse interagir foi a intervenção profissional que investigou respostas das estruturas oficiais de promoção do emprego11 no município. Agora, estaremos avaliando o significado das respostas oficiais dos órgãos pesquisados promotores do emprego e geração de renda a que os trabalhadores do grupo (nossos interatores) poderiam ter acesso. Essa avaliação é a proposta deste capítulo.

Para facilitar a compreensão da forma como estruturamos a investigação, identificamos o primeiro contato no grupo como Estudo Preliminar12, em que avaliamos as possibilidades de geração de renda e o potencial individual de cada interessado, em conjunto com os projetos propostos individualmente. Procuramos conhecer os projetos dos interessados e identificar os possíveis recursos na própria região urbana onde eles residiam e que, a partir de um estudo de viabilidade de empreendimento fossem capazes de alavancar alguma forma de geração de renda, nosso objeto de intervenção.

A partir dos contatos, paralelamente, aproveitamos um espaço com as crianças, que apareciam nas reuniões noturnas, procurando estabelecer vínculos que se desdobraram na criação de um “Clubinho de Ciências”, um espaço onde pudemos trabalhar as generalidades do conhecimento que estimulassem a curiosidade das crianças em torno de campos onde mais tem crescido o emprego: matemática, biologia, meio-ambiente, física, química, informática, política e astronomia. Contamos com o apoio de um engenheiro de telecomunicações, voluntário no projeto. O objetivo do Clubinho era incentivar as crianças a desenvolver interesse por áreas do conhecimento que estão oferecendo mais oportunidades no mercado de trabalho atualmente, seguindo a filosofia de intervenção em rede.

“O clubinho para a gente é um lugar para entendermos melhor o mundo

do trabalho e onde podemos conhecer as coisas que acontecem e a gente não sabe por que” (Luz Divina, uma adolescente membro do Clubinho )