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TRIÂNGULO MINEIRO

2. O MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA NA REGIÃO DO TRIÂNGULO MINEIRO

2.7. Uberlândia solidifica-se em centro comercial atacadista.

Por volta dos anos trinta, Uberlândia já se destacava como forte centro atacadista. e solidificou-se como um ativo entreposto, valendo-se da exploração rodoviária, pela Companhia Mineira de Autoviação. A região se firmava no cenário econômico como forte atravessadora dos produtos de Goianos e ponta de lança dos manufaturados Paulistas.

Na década de 50, em Uberlândia, foram criadas duas empresas atacadistas que se transformariam nas maiores do setor na América Latina, o Alô Brasil e o Grupo Martins. Associando a capacidade empreendedora desses segmentos comerciais a uma infra- estrutura que se firmou alimentadora do processo, sem escamotear a bem estruturada articulação político-burguesa na direção e dos interesses mercantis, fatores que fundiram

condições ideais para a afirmação do processo vertiginoso de crescimento.

Os anos 50 para o Triângulo foram decisivos para alavancar o desenvolvimento, em nível nacional ocorreu a mudança do padrão de acumulação, com o estabelecimento definitivo do capitalismo monopolista no País. A política de industrialização, iniciada no governo Getúlio Vargas, teve sua dinâmica ampliada na era jucelinista; com plano de metas, desenvolvimento da indústria automotiva que veio promover as tendências favoráveis de crescimento no Triângulo Mineiro, mais uma vez, pela localização geográfica, que atuou como alimentador do processo de desenvolvimento econômico. A opção por vias de acesso rodoviário e a indústria automobilística que se instalava no País deram o aval para o desenvolvimento capitalista na região, em especial, pela alternativa rodoviária, que se tornou consoante ao projeto de implantação da indústria automobilística.

Nesse momento, no País, a liderança no setor de bens de produção é incontestável, vis a vis os imensos investimentos de infra-estrutura em transporte, armazenagem, energia, comunicação etc. O Estado assume papel preponderante como intermediador e facilitador dos processos de reprodução capitalista, trazendo a reboque as suas contradições inerentes à lógica de exploração da mão de obra.

A construção de Brasília, fortalecendo São Paulo com sua posição de centro dinâmico da economia, valeu-se do Triângulo Mineiro, como ponto próximo para suprir a nova capital. De certa forma, também foram beneficiadas outras cidades triangulinas, como Monte Carmelo, com seu parque cerâmico. Os centros competidores de Goiânia e Anápolis não conseguiram suprir as necessidades demandantes do empreendimento. A experiência e a habilidade do comércio triangulino aproveitaram-se desta situação dando um importante incremento à indústria e comércio local.

No campo das telecomunicações, que, como setor importantíssimo da estratégia de desenvolvimento capitalista, viria ser, nos finais do século XX, a grande cartada da burguesia capitalista nacional para controle de massas; nesse sentido escreveu Vasconcelos sobre o capital vídeo-financeiro:

“Sobre a base eletrônica da dinâmica eleitoral, cumpre ter em mira que a TV hegemônica no mercado se transformou, durante a década de 80, em partido político. Assim a expressão “governo da TV” ganha inegável concretude histórica desde 1965.”9

Em Uberlândia, por volta de 1957, foi instalada uma estação tronco do sistema de micro-ondas de alta capacidade.

“(...) lutou-se para transformar o Triângulo Mineiro numa importante ponte das telecomunicações brasileiras (ou seja, em estação tronco entre Brasília- Rio de Janeiro-São Paulo)” (Brandão1989:123)

No ano de 1958, Uberlândia sediou a implantação de um depósito de oleogases, sendo, na região, o único posto de distribuição de asfalto do interior. Com o incremento da política de transportes priorizando a malha viária, esse empreendimento destacasse como fundamental ao processo de formação de capital pela burguesia, que, direta e indiretamente, participava ativamente da estratégia de desenvolvimento regional.

Os anos 60 foram os anos de consolidação desse modelo, e do golpe militar de 64, que teve a total adesão do empresariado regional, parte ainda da estratégia da geopolítica integrativa da região, tendo um dos seus maiores mentores intelectuais o Gal. Golbery do C. e Silva.

A criação da Universidade Federal em Uberlândia pelo Decreto-Lei 762, em 14 de agosto de 1969, foi, consolidando o processo de incrementar o desenvolvimento regional, além de trazer mais recursos para a cidade, na forma de empregos públicos e na qualificação para mão de obra, pré-requisito fundamental para se consolidar o pólo desenvolvimentista. A Universidade Federal de Uberlândia, a partir da sua fundação, possuiu um orçamento, durante alguns anos, até meados dos anos 80, maior que o do município e teve uma influência política marcante no conjunto de iniciativas da história de Uberlândia. A classe política, que se forjou até esse momento estava em permanente sintonia com o projeto maior de reprodução do capital mercantil local. Nos anos 70, teve um político atuante, Rondon Pacheco, chefe da casa civil do governo Costa e Silva, e de 1971 a 75, esteve à frente do Governo Estadual Mineiro, e o Estado experimentou expressivo crescimento representando o apogeu da expansão industrial mineira.

A crise dos anos 70 marcou para o Brasil o fim dos tempos áureos de dinheiro barato e desenvolvimento em âmbito nacional a taxas até 7% de crescimento. No Triângulo, as taxas chegaram a 11%. A partir de 1974, a economia brasileira apontava para o esgotamento do ciclo iniciado nos fins da década de 60.

Um novo padrão de desenvolvimento estava posto para que a região se ajustasse, de maneira ativa, no plano nacional. A incorporação das terras dos cerrados e a agroindústria eram, então, as vias de encaminhamento das forças produtivas regionais.

Foram programas de destaque, direcionados para a agroindústria:

• Em 1972, o Programa Corredor de Exportação, com o qual o governo federal planejava assentar suporte infra-estrutural na direção das vias agilizadoras de deslocamento das mercadorias provenientes do Centro-Oeste rumo aos portos do sudeste e sul.

• Bases para uma ação integrada na região IV, o BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais) propôs readequar a agricultura local (já bastante tecnificada) ao novo momento das exportações

• Ainda em 1972 o PADAP (Plano Estatal de Assentamento Dirigido) visou à ocupação intensiva dos cerrados apresentando sucesso em alguns municípios mineiros do Alto Paranaíba10 em sua maioria, minifúndios. Foi marcante o caráter nitidamente intervencionista do Estado na questão da distribuição da Terra. Posteriormente, como desdobramento em relativo sucesso alcançado no PADAP , foi criado o POLOCENTRO (Programa de Desenvolvimento dos Cerrados), concebido segundo a Teoria dos Pólos de Desenvolvimento, pela qual caberia à industria motriz as bases da formulação original, no caso da agricultura, à “empresa rural”, que, bem capitalizada e administrada, sob a égide da “ciência administrativa”, favoreceria a agregação de forças visando quebrar a estagnação produtiva das terras da fronteira agrícola do cerrado.

Transformações de infra-estrutura foram exigidas de todos os setores para a adequação ao novo padrão de desenvolvimento ajustando os cerrados ao desenvolvimento industrial, fatores que encontraram no Triângulo a região de maior sintonia com o novo padrão agrícola, assimilando rapidamente as formas industriais de produzir na agricultura, e que, de certa forma, se ligava com os objetivos de estratégia geopolítica de integração do espaço nacional.

As culturas que assumiram o papel de destaque nas pautas de produção foram a soja, o café do cerrado, a cana de açúcar e o algodão, atraindo capitais e investidores de outras partes do País.

“O Triângulo, que era então uma região produtora insignificante até 1975 passa a maior produtora do Estado em 1988 com 70% da produção de Minas Gerais” (Brandão 1989:153). Para nosso estudo não nos deteremos nos desdobramentos que esse período apresentou. É, entretanto, importante deixar o papel de sujeição da agricultura regional à lógica de exportação que se firmou com os CAI (Centros de Agroindústria). A

agricultura transformou-se numa mera componente de um processo da agroindústria enquadrada pela determinante do capital industrial. A tendência era que a região viesse consolidar-se como pólo processador, armazenador e distribuidor de alimentos. A indústria de derivados da soja teve grande crescimento, principalmente depois da compra da Fujiwara (capital japonês), pela ABC Indústria e Comércio de Uberlândia. Outras indústrias de capital local como a Granja Rezende, que incrementou a produção de farelo e torta para sua fábrica de ração, além da chegada do capital estrangeiro pelo Grupo Cargil. O Grupo Daiwa, que, em 1986, estava com a produção de fios em 7000 ton/ano. Empreendimentos situados em Uberlândia recebia o algodão beneficiado de suas processadoras, situadas no Triângulo Mineiro.

“Como não poderia deixar de ser o Triângulo tornou-se entreposto comercial de uma vasta área detendo o controle de corretagem, comissária, exportação (bolsa de mercadorias) da maior parte de todo o Brasil Central.” (Brandão 1989:164)

O papel de pólo armazenador e processador de produtos agropecuários e redistribuidor atacadista foram, indubitavelmente, a marca peculiar que o processo de desenvolvimento gerou em Uberlândia. Até a primeira metade dos anos 80, a cidade viveu sua pujança, principalmente, quando os níveis de desemprego nesse momento ainda estavam em patamares suportáveis alimentados pelos vários postos de trabalho de suas empresas integradas ao modelo de centros agro-indutriais.

O êxito de Uberlândia poderia ser identificado na capilaridade resultante da apropriação do excedente oriundo do grande sertão, nas pequenas vilas do centro-oeste, que foram apropriados por empresários da cidade e por todo o Triângulo Mineiro, seguida de uma rápida e precoce urbanização. Inferimos a assertiva de que o impulso do desenvolvimento da cidade nasceu de um isolamento provocado pelas vias ferroviárias para transporte; fazendo com que seu comércio migrasse para o transporte rodoviário, mais versátil na distribuição de produtos manufaturados e na captação de excedentes primários. Uberlândia ficou isolada, ao sul, pela via férrea Mogiana em Uberaba, e, ao norte, pela Rede Goiana, que fez ponto principal em Araguari.

O Triângulo foi uma rota avançada do capitalismo paulista desde os tempos mais remotos do século XIX, a lendária estrada do Anhangüera não só foi o grande início como continuou mantendo a forte ligação: Campinas-Ribeirão Preto- Triângulo Mineiro

por bom tempo. Depois o caminho para Brasília, na década de 60, foi um grande reforço. Na década de 70, o Triângulo engrenou-se na chamada “incorporação produtiva dos cerrados” com forte crescimento agrícola em fluxos de grãos, que, até então, tinham que passar por estas terras, buscando o porto de Santos, de Tubarão em Vitória e o de Paranaguá. No Centro-Oeste e Norte brasileiros, as possibilidades de escoamento e armazenagem eram poucas para a produção de grãos senão pela rota triangulina, principalmente Uberlândia.

A história desta região é, portanto, a história do ponto de passagem, de comercialização, processamento de produtos agrícolas até os meados da década a de 80.

A partir do segundo lustro dos anos 80, essa trajetória vem se modificando com a consolidação de uma nova geografia econômica no País, a par de outra trajetória no sentido de que este País continental e toda sua história regional e urbana foram baseadas na construção do mercado interno e de uma forte solidariedade econômica de troca com distintas regiões, isto é, mesmo com a industrialização, as relações de compra e venda entre os Estados é muito presente. Conforme citou o sócio-economista polonês Ignacy Sakcs, “80% do PIB brasileiro destina-se ao mercado interno ficando 20% para exportação”11 o que reforça a presença do mercado interno como fator de desenvolvimento em economias mais atrasadas.

Todos os momentos de surtos de descentralização das atividades produtivas, de interiorização nesses movimentos e avanços foram fortes, sobrevindo uma crise. Portanto, no início dos anos 80, o País estava passando por um processo de interiorização muito forte, veio a crise de meados de 80 e, naturalmente, houve uma “retração” no entorno que percorre todo o processo.

Hoje, parece haver em marcha uma marcante perspectiva de descentralização das atividades produtivas, com taxas de crescimento pouco otimistas para os próximos anos. Esse projeto de interiorização, com raízes no regime militar, iria tender a não ser tão forte quanto seria se estivéssemos numa economia que tivesse taxas de 5% de crescimento. É neste contexto de nova geografia econômica e de arrefecimento do crescimento econômico que poderemos entender as perspectivas de crescimento econômico do Triângulo Mineiro, partindo, portanto, de uma perspectiva futura não muito otimista.

No Brasil, apesar dos cortes em todas as políticas de infra-estrutura, já existem algumas iniciativas relativamente consolidadas, que mudam os fluxos que estão passando pelo Triângulo. Não é objetivo deste trabalho fazer uma análise dos 42 projetos do “Brasil em Ação”, mas vamos nos ater àqueles que mais nos interessam ao estudo, isto é, aqueles afetam a região, em especial, Uberlândia.

Partindo dos interesses de Minas Gerais para o Governo Federal, teríamos a ferrovia Unaí-Pirapora12, que iria se articular com a área de Goiás, próxima ao Distrito Federal, que, a seu turno, se ligaria com a Ferrovia Centro Atlântica, o que quer dizer que muito do escoamento de grãos do Estado goiano seria dirigido para a ferrovia Unaí – Pirapora seguindo em conexão com a Centro-Atlântica, que está sendo modernizada para receber um aporte de utilização maior em tempo breve com destino aos portos do litoral. Portanto, boa parte dos grãos que normalmente passariam pelo Triângulo Mineiro estarão sendo desviados para essas ferrovias. Outra infra-estrutura muito importante era a chamada “Ferrovia do Olacir” (o maior produtor de soja do País), que passaria pela ponte Rodo-ferroviária e se localizaria bem abaixo do Triângulo Mineiro, tendendo a trazer um forte crescimento para São José do Rio Preto, e uma série de fluxos que passariam por esse canal.

Outra infra-estrutura também importante é o corredor Bauru-Corumbá, que quase dobrou o transporte de grãos antes de ser privatizada, dobrando o embarque de soja também abaixo do Triângulo Mineiro, sem trazer nenhuma contribuição que altere incrementos para a região mineira.

Uma infra-estrutura que está distante, mas que tem sido acompanhada pela imprensa, por ser a obra de maior êxito de infra-estrutura do País e tem uma participação privada de expressão, que é a hidrovia do Madeira, muito importante para o Triângulo Mineiro no sentido de que por ela está sendo escoada a soja da Chapada dos Parecis, onde verificamos praticamente uma inversão de fluxo no sentido da hidrovia do Rio Madeira até Itacoatiara13.

Realmente, esses fluxos, que eram dirigidos até a região triangulina num percurso de aproximadamente 3000 Km em caminhões, estão sendo redirecionados para Porto Velho, depois Itacoatiara14, onde está sendo implantado o projeto no estilo do Grupo MAGGI.15

Há outra infra estrutura ligada ao Triângulo Mineiro, é o gasoduto Brasil-Bolívia, que passa ao norte do Triângulo e sobre o qual sempre estamos ouvindo, na imprensa ufanista regional, a afirmação de que ele irá passar por Uberlândia, ou por Goiânia, mas cujo o tronco principal passa por Mato Grosso do Sul, uma região com muitas perspectivas pelas suas ferrovias.

Percebe-se que o passado do Triângulo Mineiro retrata a história do escoamento, da produção, da infra estrutura, dai então ser o chamado entreposto dos grãos do Centro- Oeste para o Norte e para o Sul, e de produtos manufaturados no sentido Sul-Brasil

Central.