Figura 15: Batata-doce de polpa alaranjada
Conforme vimos no subcapítulo anterior, poderíamos, grosso modo, comparar a batata-doce de polpa alaranjada como um alimento estrangeiro, se considerarmos que cativo é uma categoria intermediária entre aquilo que é local-nativo e aquilo que é de fora-estrangeiro.
Debruçando-nos sobre as três plantas envolvidas nesta pesquisa, a mandioca, a batata-doce de
polpa branca e a de polpa alaranjada, poderíamos, a partir da observação das percepções das famílias rurais estudadas, enquadrá-las nessas categorias, pois, à semelhança das pessoas que por vários motivos se ausentam da comunidade, transformando-se em cativos, assim é também com as plantas. A estrangeira seria aquela que não pertence àquela comunidade e que existe em outro lugar, está ali de passagem, por isso nunca merece confiança, enquanto que se pode contar com a cativa, mas não na totalidade, ou não confiar nela para assuntos básicos e sérios, porque ela está maculada. Segundo as comunidades, em termos de preferência alimentar, entre estes dois tipos de batata-doce, as pessoas preferem a de polpa branca. A batata-doce de polpa alaranjada se enquadraria, então, na categoria de estrangeira, aquilo que não sendo da comunidade existe em outro lugar e veio entrar em contato, portanto ninguém conhece. As pessoas estranham e desconfiam de tudo, do seu cheiro, da cor, do sabor, da forma de produzir e preparar e, embora seja semelhante a outro tipo de batata, ela se torna estranha, estrangeira, por isso se vende e não se consome.
Olhando para aquilo que Comaroff e Comaroff (2001) falam a respeito, no seu trabalho
“Naturalizando a Nação: estrangeiros, apocalipse e o estado pós-colonial”, no qual discutem como plantas estrangeiras foram consideradas culpadas nas queimadas na província do Cabo e enchentes na província de Mpumalanga, ambos os casos verificados na África do Sul, encontramos situações parecidas com as vistas em Nampula. Os autores relatam que a opinião que mais se ouviu na tentativa de explicar as causas desses desastres foi a de que o fogo atingiu proporções tão calamitosas apenas devido à presença de plantas estrangeiras invasoras, que queimam mais facilmente do que a flora nativa. E, no caso das enchentes em Mpumalanga, culparam-se “enormes áreas cobertas por plantas invasoras estrangeiras”, os vastos reflorestamentos de poderosas madeireiras, por impedirem a capacidade de plantas nativas de atuar como “esponjas naturais”.
Portanto, quer no caso de Moçambique, quer no caso da África do Sul, encontramos que, se planta estrangeira constitui, a priori, uma vulnerabilidade de opinião negativa quanto a aquilo que pode ser a sua contribuição naquele local, lembrando que, estes não são casos isolados no mundo. Se a batata-doce de polpa alaranjada é estrangeira em Nampula, então não merece confiança, visto que pode ser a causa de todo mal, à semelhança das plantas exóticas na África do Sul.
Tomando como base as percepções das famílias em Nampula, fica assim estabelecida a categoria de cativa para a batata-doce de polpa branca, porque, apesar de ela estar maculada, se estabelece com ela alguma relação, como, por exemplo, a de instrução familiar das crianças no makhazi, que não é considerado uma festa comunitária, apesar de reunir também os pais. Ela pode ser aceita, mas a sua aceitação ou inserção não a torna confiável. Como tudo que não é confiável é tratado com desprezo, assim também é com esta batata, cuja produção e consumo ficaram relegados às crianças, por isso ela não é considerada comida para adulto e sua produção sequer constitui trabalho.
A planta da mandioca tem, historicamente, a mesma trajetória da batata-doce de polpa branca, ambos tubérculos e originários da América Latina. Mas a mandioca foi introduzida relativamente antes da batata-doce e, então, naturalizou-se como uma planta nativa. Nessa época, as famílias, estruturadas em comunidades com um régulo e mais tarde em impérios, sempre fizeram suas festas com mandioca, alimentando-se dela, que desde então não encontra qualquer rejeição no âmbito cultural ou no biológico. Os ancestrais fizeram assim e os novos também o fazem, e a mandioca continua com seu papel de alimentar e manter aquele povo. É a mandioca que faz o nome daquelas famílias, define se estão bem ou não em termos de produção e comida.
Com todas estas categorias estabelecidas pela comunidade, ficam evidentes as dificuldades encontradas pelos técnicos disseminadores de mensagens para a produção e consumo de batata-doce de polpa alaranjada com a finalidade de melhorar a nutrição, porque ela é estrangeira, não merece confiança, existe em outro lugar e não é daquela comunidade. Os professores, assim como os estrangeiros e técnicos da agricultura, tentam fazer seu papel de mediadores nesse processo, sendo que, segundo Neves,
Os mediadores sociais advogam esta posição por se considerarem portadores da função (ou missão) pedagógica destinada a mudar comportamentos e visões de mundo. Em consequência o sistema de crenças que viabiliza a agregação de segmentos diversos na construção de um projeto para a mudança de posições da sociedade, incorpora múltiplos domínios e diferenciados discursos. (NEVES, 1998, p. 153)
A nova condição precisa trazer incorporada nela outras posições diversas e até antigas, de modo que a multiplicidade de discursos entre em coerência. Os técnicos têm sua mensagem, os nativos têm sua mensagem e os cativos obviamente também terão sua mensagem. As mensagens disseminadoras de produção e consumo não trazem informações ou relações entre a batata-doce de polpa alaranjada com outra batata ou com a mandioca, que é uma planta naturalizada.
Menasche (2005), analisando o trabalho realizado pela mídia na construção de representações sociais sobre os cultivos de alimentos transgênicos no Rio Grande do Sul, Brasil, afirma que a mídia produzia falta de consenso entre vários grupos envolvidos nos debates.
Salienta que a polêmica sobre os organismos geneticamente modificados era multifacetada, envolvendo mais que aspectos científicos, mas também econômicos, sociais, ambientais, sanitários e, especialmente, políticos. Então temos aqui mais uma situação cujo centro das controvérsias são plantas estrangeiras, os transgênicos, que, por não serem nativas, não são devidamente conhecidas, e a mídia entra como elemento-chave nesse campo de disputas.
Enquanto uns defendiam a manutenção dos campos experimentais, o governo defendia a destruição das lavouras. Mais adiante, a autora fala que na cidade de Cachoeirinha pés de arroz transgênico foram queimados pelo governo, e na história contada pela mídia, a imagem construída do governo gaúcho seria a de que era um agente implacável na fiscalização e destruição de áreas cultivadas ilegalmente com sementes transgênicas. Essa história que aconteceu no Brasil lembra o caso de Nampula, em que cada uma das partes envolvidas procura fazer valer sua verdade através de mensagens estrategicamente construídas e, embora não haja ainda conflitos físicos, os verbais não são uma raridade nessa zona, o que torna a mídia um importante meio usado pelas instituições ligadas à produção e consumo de batata-doce de polpa alaranjada como veículo de persuasão, e as escolas locais fazem parte dessa campanha.
Contudo, como vimos ao longo deste texto, as famílias agem estrategicamente de modo a não tornar suas vidas reféns do desconhecido; isto é, das coisas exóticas, que não são da comunidade e, ao mesmo tempo em que culturalmente explicam as crises sociais como sendo causadas pela batata-doce de polpa alaranjada, procuram não ser consideradas desobedientes, aceitando a produção e consumo dessa batata, mas de uma forma estratégica. Essa atitude de duplo comportamento é motivada pelo campo de disputa construído entre o nativo e o exótico, que a seguir iremos detalhar.