7.2 Imwali
São festas especificamente dirigidas e realizadas por mulheres. É um momento de euforia feminina na comunidade quando se organizam e se conduzem esse tipo de festa cerimonial. Pois é nessa festa que uma ou mais moças ascendem a mais um escalão de maturidade, as mais velhas já passam a contar com mais uma no grupo das mulheres que podem opinar ou conduzir um bom lar, e será um exemplo para a família se ela assim assimilar corretamente todos os valores transmitidos durante a instrução. É um ritual que consiste em submeter as moças a uma escola cultural. Desde o início da primeira menstruação, ela estará contando mais duas fases importantes na sua vida, isto é, esta atividade é feita na vida da moça
pelo menos antes que ela se case e forme um lar. A primeira vez é realizada quando a moça entra na primeira menstruação. Ela é submetida a um período de dois a três dias para ser esclarecida sobre a aparição daquele fenômeno e quais são os cuidados a ter, desde a higiene, gravidez indesejada, que é indecente para ela e a família, os tipos de brincadeiras a considerar e com que grupo de pessoas podem ser feitas. É explicado a ela o tratamento antes e depois da menstruação, as limpezas corporais e o modo de esconder os próximos casos de menstruação.
A gravidez indesejada não é bem-vinda na família, podendo levar a moça a ser deserdada e até amaldiçoada, pois não merece a honra de pertencer à família, significa desrespeito, deslealdade para com os pais, os parentes e as mestras de cerimônias. O mesmo não acontece com o moço que a engravidou, visto que, culturalmente, a responsabilidade é atribuída à moça. Wedig (2009) observou situação semelhante, quando descreve que a partir da
“naturalização” dos papéis atribuídos a homens e mulheres operam-se, segundo a autora, desigualdades que, em muitos casos, têm significado a subordinação das mulheres. Para este caso, conforme manifestação de entrevistados, a ideia é que “o homem não vale nada”, cabe à mulher proteger-se, dada sua “natureza fraca” e pelo papel cultural e social que ela representa na geração da família. Nessa fase, a moça já deixa de brincar de qualquer maneira, pois já está ascendendo à maturidade, só deve brincar com moças da sua faixa etária, nunca com homens e nem com criancinhas, porque já não faz parte desse grupo. Deve brincar também com as mais velhas, para ir assimilando as regras da sociedade e da cultura em que está inserida e é instruída a obedecê-las como sinônimo de grandeza e de vida. Quem obedece às instruções terá maior longevidade e quem desobedece fica infeliz, por causa da maldição, e pode reduzir o seu tempo de vida. A ideia é que as mais velhas conhecem as origens e os espíritos dos ancestrais instruem-nas durante o sono sobre o que fazer e como as mais novas devem proceder, por isso sua desobediência tem consequências graves, porque não é apenas a uma pessoa que se estará desrespeitando, mas sim a todo o grupo de seus ancestrais. Na verdade, o dever de obediência aos mais idosos é básico para jovens de ambos os sexos.
Na segunda fase, depois que comece a namorar, que por regra é com o consentimento dos pais, a moça, juntamente com o rapaz, são submetidos a outro ritual, também de dois a três dias, no qual a instrução concentra-se sobre o lar que, possivelmente, no futuro irão formar. Não importa se o marido já tenha passado pelo alukhu, que veremos mais adiante, isto vale para os dois, se estiverem namorando. Mas a moça pode ser submetida sozinha a esta fase, se ela não
estiver namorando. É tratado, sobretudo, o que diz respeito à relação entre o homem e sua mulher, os cuidados e responsabilidades distribuídos para ambos, as crianças e as relações com os vizinhos e familiares. É uma fase em que tudo é bastante aprofundado e exemplificado na prática, de modo que ela ou os dois, em caso de necessidade, não estraguem ou façam mal o que foi ensinado, o que pode constituir motivo de divórcio, de serem criticados e envergonharem os pais e familiares, inclusive as mestres de cerimônias da adolescente. Se isso acontecer, pode-lhe custar repetir a sessão, desta vez tudo acrescido de punições, que vão desde o aumento do tempo de instrução ao trabalho considerado “pesado” ou de “risco”, próprio aos homens. Na terceira fase, ela é instruída sobre aspectos que dizem respeito à morte, gestão de conflitos na família e na comunidade, seu papel enquanto mulher dentro da família e seu papel no processo de tomada de decisão. Esta fase, por norma, dura de um a dois dias, se ela for bem educada e não tiver transgredido nenhuma regra desde a primeira fase. Normalmente o tempo que leva entre a primeira e a segunda etapa varia de 5 a 10 anos, condicionado pelo aparecimento de algum homem interessado para o casamento. A passagem da segunda para a terceira fase é realizada depois de muitos anos, por regra geral depois da mulher ter tido filhos, e se for uma filha, que já tenha passado pelo menos pela primeira fase do imwali, e se for um filho, deverá ter passado pela cerimônia de alukhu. Uma mulher que não passar por estas etapas não é digna de se expressar no meio das pessoas, de casar-se e de realizar tudo que diz respeito a uma mulher, exatamente por ser considerada ainda uma criança. Passar por todas essas etapas condiciona a participação da moça nas instruções dos parentes vindouros, ninguém participa nem assiste enquanto não completou as fases e somente participam mulheres, os homens não podem aproximar-se durante a realização destas festas.
O serviço de chefes, da cozinha, de sentinelas ou seguranças é todo feito por mulheres, os homens não têm nenhum papel, a não ser o de permitir que suas esposas passem o tempo todo e participem nessas festas. É um momento em que o ser feminino fala ainda mais alto, esse tempo merece e deve ser usado exclusivamente por ela. Os alimentos priorizados são, com frequência, os mais rápidos de se cozinhar, como arroz, caracata, verduras e carnes de animais domésticos, pois elas não querem perder tempo procurando comida nem cozinhando. Nas refeições, sob o risco de estragar tudo, não pode e nem deve ser incluída a batata-doce de polpa branca nem a alaranjada, ainda que seja um alimento de fácil preparo e cozimento.
As mulheres organizam-se de tal modo que cada uma ou o grupo delas sabe o que tem que fazer e quando, funcionando como um sistema, todas têm em mente suas responsabilidades e concorrem para o sucesso da festa de imwali. As mestras de cerimônia são as pivôs do saber, no sentido que elas conhecem cada estilo de moça – por meio das atitudes ou comportamentos descritos ou observados antes de entrar no ritual, o que proporciona a montagem de estratégias e metodologias de como lidar com cada caso. Sardan (1995), no seu trabalho intitulado
“Anthropologie et développement – essai en socio-anthropologie du changement social”, observa que os conhecimentos são recursos para a ação, quem tem conhecimento pode fazer e desfazer o que quiser, pois os conhecimentos lhe dão o poder de explicar-se de forma tal que o que faz parece lógico e certo. Por isso as mestres de cerimônias nunca são questionadas sobre o seu trabalho ou as formas como deveriam conduzir o ritual, elas detêm total autonomia para decidir tudo sobre a condução de imwali. Isso vai ao encontro d o que diz Neves (1998), no seu trabalho
“Para pensar outra agricultura”, que saber é poder, portanto, quem sabe detém um certo poder e autonomia para fazer o que achar melhor, pois os outros não sabem.
Neste caso específico, as mestras de cerimônia mandam em tudo e em todos, deverão ser obedecidas em seja lá o que for, são como um líder em sua comunidade, que por ser mais idoso detém o conhecimento que o torna experiente, e por isso é considerado a pessoa mais importante para lidar com as adversidades da vida local. As mestras de cerimônia são as formadoras, instrutoras ajudadas muitas vezes pelas avós das moças. As tias diretas e a mãe responsabilizam-se por cozinhar, enquanto que as demais parentas e vizinhas convidadas participam respondendo às canções entoadas, ajudando nas danças e em alguns conselhos, se for uma experiência específica e nenhuma das mestres de cerimônia estiver melhor habilitada para conduzir ou falar. Os pais, tias e parentes diretos é que descrevem as características da moça que vão ditar a forma ou a metodologia a ser seguida na instrução, e várias são as vezes em que a moça pode ser indiciada por falta de respeito ou desobediência e isso requer que as mestres de cerimônia concentrem-se mais nesses pontos levantados pela família. Esta festa não tem um período específico para acontecer, basta que, na comunidade, exista uma moça com as condições exigidas, e a família parte de imediato para a organização do evento.