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A produção da mandioca é massificada dentro das famílias e entre as comunidades rurais. As famílias sempre reservam grandes extensões ano após ano, a essa planta. É comum ver que em qualquer pedaço de terra agricultável existe uma plantação de mandioca, constituindo assim a planta mais produzida na província.

Perto dos vilarejos, o cultivo da mandioca pode ser visto em consórcio, como se fosse uma machamba infantil, mas a questão que aí se coloca é a maximização do espaço. Poder-se-ia considerar como um modelo de machamba infantil intermediária ou com outro nome que não

“infantil” ou “da família”, algo como “machamba-piloto”, aquela que não fica em volta de casa, mas mais perto que distante de casa. Na verdade, este hábito é das pessoas que moram nos vilarejos e como não podem ter uma machamba da família, caminham alguma distância fora e acham uma parcela onde podem plantar de tudo. Estas famílias não tem a machamba como principal fonte de sustento, mas sim como um complemento. Isso não é típico ou comum nas zonas rurais onde fiz o meu estudo, portanto não vou me ater a este assunto.

Excetuando-se, então, o tema dessa agricultura próxima aos vilarejos, a mandioca é sempre produzida em monocultivo, estando a ela relacionada a honra do pai e esta com a da família. Grandes extensões plantadas com este monocultivo revelam a importância da planta para a família. Como abordei no capítulo 3, aqui observamos diferença em relação ao que constataram Woortmann e Woortmann (1997) entre os camponeses nordestinos do Brasil. No seu estudo sobre o trabalho da terra, os autores mencionados afirmaram que os camponeses praticavam consorciamento em função do tempo de cada planta, portanto, a lógica do consorciamento obedeceria ao princípio da alternância. A planta de ciclo curto é colocada na mesma parcela com aquela do ciclo longo, para permitir colheitas separadas e bom aproveitamento da terra. Mas, nas comunidades pesquisadas em Nampula, a planta importante é sempre colocada em um espaço separado, para que tenha uma dedicação exclusiva. A verdade é que toda planta importante é colocada separadamente, sem consorciamento. A mandioca é a primeira, depois vem o milho, mapira, amendoim, soja, algodão, cana-de-açúcar, entre outras. Heredia (1979), no seu estudo sobre “A morada da vida”, no Nordeste brasileiro, mostrou que nem todo produto que vem da roça é considerado comida. Apesar da roça ser da responsabilidade do chefe da família, o roçadinho das crianças também pode fornecer comida para o consumo familiar, se for um alimento que participa nas refeições principais. Porém, em Nampula o cenário é que a machamba infantil não fornece comida, por ser da responsabilidade da criança e a produção ser em consórcio. É comum ouvir que uma pessoa foi na sua machamba de milho ou na sua machamba de mandioca. E quando isso acontece, os parentes ou outras pessoas que se relacionam com ela sabem em que lugar se localiza. Por exemplo, quando falam que alguém foi na sua machamba de milho, automaticamente se sabe que ela está localizada na zona tal, ou então nas encostas da serra, se for o caso de mapira, onde frequentemente é plantado, e assim por diante. As machambas não ficam localizadas na mesma zona, quer dizer, não necessariamente uma perto da outra.

A mandioca se adapta em muito tipos de solos e é igualmente tolerante a muitas pragas e doenças. Por isso, constitui a planta que é mais produzida em Nampula, mas que raras vezes é encontrada na machamba infantil: poderia até arriscar dizer que nunca lá se encontra, se baseado somente no meu campo de pesquisa, isto é, nas comunidades e famílias visitadas. Lembro-me sim de ter estado em machambas de mandioca, de milho, de amendoim, todas sob

responsabilidade do pai da família, onde, fazendo parte como um membro da família, fui também ajudar.

Se o chefe da família, pequeno agricultor, tem a responsabilidade de prover a subsistência do seu grupo doméstico isto não quer dizer que faça só a partir de suas próprias atividades. Ao contrário, é organizando as tarefas desenvolvidas pelos membros da sua família no roçado que desempenha o seu papel. Como é o produto do roçado que abastece a casa, são as atividades do roçado designadas por trabalho. (GARCIA JUNIOR, 1983, p. 101)

O que Garcia Jr. constatou em Pernambuco (Brasil), no estudo “Terra de trabalho:

trabalho familiar de pequenos produtores”, também se verifica em Moçambique. Porém nos três estudos que envolvem esta discussão do roçado e roçadinho, nomeadamente o de Heredia (1979), o de Garcia Jr. (1983) e o presente trabalho, existe algo comum e algo diferente. Algo comum está nas funções do roçado ou machamba da família, que uma vez chefiada pelo pai de família constitui o sustento para o consumo familiar, dando honra ao pai e por isso mesmo sendo as atividades nela desenvolvidas classificadas como trabalho. A honra não vai para os membros que ajudam.

O que difere no estudo de Garcia Jr. (1983) é que o pai ajuda de vez em quando na machamba infantil, no roçadinho. Por exemplo, quando o filho ou a filha não consegue destroncar uma árvore que esteja impedindo a plantação, o pai vai cortar para ajudar o filho, embora a honra da tarefa seja dada ao próprio filho, como se fosse ele que tivesse cortado a árvore. Heredia (1979) afirma que o pai somente ajuda quando o filho estiver ausente ou doente, o que também constatei em Moçambique, porém, vezes há em que a machamba infantil, quando não é limpa, significa que o casal não tem filhos, ou que se ausentaram ou mesmo estão doentes, portanto é um sinal, como ilustra a conversa que segue:

Senhor Muapa: para onde foi o teu filho?

Senhor Muhussi: ele foi ver a avó que está doente.

Senhor Muapa: hummm, é que vi que a machamba dele está ficando suja...

Senhor Muhussi: humm, é verdade, eu ainda não tirei tempo para lhe ajudar, a minha mandioca precisa de mim.

Como demonstra essa conversa de saudação entre vizinhos, o senhor Muapa ficou desconfiado da ausência do filho do vizinho, senhor Muhussi, quando viu a machamba sendo preenchida por capim, isto é, sem ser limpa. O pai ainda não tinha tido tempo para ajudar, porque o trabalho na machamba de mandioca era prioritário. A machamba de mandioca precisava ser

limpa, pois isso sim é considerado trabalho. Ao contrário, se o senhor Muhussi fosse visto limpando a machamba do filho a pergunta seria idêntica: para onde foi o teu filho?

De todas estas machambas que tive oportunidade de ajudar, quando vivia com as famílias, constatei que a machamba de mandioca foi sempre a maior dentre outras. Pode-se afirmar que sua produção em quantidade proporciona honra ao pai e, por sua vez, à família que ele dirige. Garcia Jr. (1983, p. 124) constatou o hábito de se chamar a roça pelo nome do produto plantado. Salienta que a mandioca também é conhecida por roça, ou roça é o nome atribuído a uma área em que a mandioca é cultivada, a roça coincide, por vezes, com o próprio roçado.

Entretanto, o pai não faz sozinho o trabalho na machamba, os outros membros da família ajudam. Ao mesmo tempo em que se trata de ajuda, é uma obrigação moral, por isso não é um trabalho remunerado. É obrigação moral porque cabe ao chefe prover o sustento da família, cuidar e fazer com que cada membro da sua família viva bem, dentro dos padrões culturais do grupo. Então, como chefe, tem obrigação de cuidar da sua família sem remuneração, enquanto que os demais membros da família têm o dever de ajudar, também sem remuneração.

Quando a mandioca fica pronta para ser colhida, as famílias da comunidade se reúnem e, juntas, distribuem as tarefas a serem realizadas, por sexo e idade65. O grupo de homens dedica-se ao trabalho de organizar o lugar de processamento, montando um alpendre ou fazendo improviso na varanda da família, cavando ou retirando a mandioca do solo com enxada, e transportando-a da machamba para o lugar onde as pessoas vão reunir-se para o descascamento.

As mulheres e crianças ficam esperando o final do trabalho dos homens, mas algumas, consideradas mais ativas, ajudam no transporte. Depois de acumulada a mandioca, vem o processo de descascar, para depois deixá-la ao sol. Todos descascam, homens, mulheres e crianças.

65 É necessário mobilizar muita gente porque cada família faz o máximo que puder para ter a maior porção de mandioca plantada, produção que a família sozinha não daria conta para colher, por isso a comunidade se une em ajuda mútua, isto é, troca de trabalho por trabalho, que em língua local se chama de okhalihana. Depois que todos ajudam uma determinada família, seguem para outra, em sequência, até que, na comunidade, não haja mais ninguém reclamando por não conseguir colher.

Figura 11: Colheita de mandioca Figura 12: Processamento da mandioca Parte das mulheres é indicada para preparar uma bebida alcoólica tradicional, à base de mandioca, que irá animando as pessoas no trabalho de descascamento. A otheka, como se chama localmente, é feita a partir da decantação. A mandioca fresca é triturada e posta em um vaso com água durante uns minutos. Depois de coar, ferve-se a solução e mistura-se com algumas folhas de ervas localmente conhecidas como phunhu66 ou miropo67, para acelerar a fermentação. O mel é usado nesse processo, como catalisador. Outra parte das mulheres se responsabiliza pelo preparo da refeição, que, normalmente, se constitui de farinha de mandioca seca, vulgarmente chamada de caracata em língua macua, que é a língua tradicional local, com folhas de mandioca. Podem existir outros pratos, mas este é básico e significativo: simboliza que a terra e o céu se encontram e, juntos, convivem alegremente. A terra, que suportou a mandioca, e o céu, que cuidou das chuvas, estão em festa. Mas, ao mesmo tempo em que a parte de baixo e a parte de cima se encontram, este prato pode ser considerado humilde ou de pobre, se for o único a ser servido para as pessoas que estão trabalhando. Desenvolverei este assunto mais adiante no capítulo 6, quando estiver tratando do significado da batata-doce de polpa alaranjada nos distritos de Murrupula e Mogincual.

Enquanto parte das mulheres estão ocupadas com as tarefas da refeição, as restantes estão junto com os homens, no descascamento. O interessante é que as crianças somente ficam nos momentos iniciais. Elas estão ali para buscar alguma coisa que faltar em casa ou na

66 Erva trepadeira com folhas semelhantes às da aboboreira. As folhas são colhidas e em seguida colocadas na panela para fermentação.

67 Erva trepadeira com folhas semelhantes às de milho. As folhas são colhidas e em seguida trituradas um pouco antes de serem colocadas na panela para fermentação.

machamba. Pode ter sido o caso de alguém esquecer-se do seu isqueiro em casa, da sua faca na machamba ou de alguma mulher precisar de sal ou de sua vestimenta, tudo isso a criança é que faz. Depois que comem, as crianças imediatamente voltam para casa, para cuidar da porta, já que os pais estão trabalhando no vizinho. Mas, para animá-las, vez por outra as mulheres separam um pouco da bebida na hora de catalisar a fermentação, colocam mais mel em um recipiente e pouco em outro. O que tem pouco mel é para fermentar e tornar-se otheka. E o que tem mais mel será dado às crianças, para tomarem em casa. Esta bebida, chamada de nssissima, é considerada de criança porque nunca chega a fermentar.

Nós fazemos isso cada ano, facilmente terminamos a colheita na comunidade, de todos, enquanto é tempo e secamos ela para comer como xima [...] A otheka serve para nos animar para continuarmos a trabalhar, por isso fazemos isso, porque serve como um encontro entre as famílias. (Yahaia)

As crianças precisam de estar longe, porque depois que a gente bebe, vai ficando grosso e podemos falar palavrões que elas não podem ouvir, por isso fazemos aquele arranjo de nssissima, porque também elas fazem parte das nossas famílias, temos que cuidá-las, senão os espíritos se zangam porque elas são as mais preferidas e são ouvidas quando reclamam com razão. (Manhepa)

É um verdadeiro ritual, todos vão cantando animados, comendo e bebendo alegremente e assim o trabalho vai sendo terminado. Se naquele dia não terminarem, no dia seguinte será continuado e assim por diante, até que a mandioca seja colhida, descascada e deixada ao sol para secar. As crianças aprendem enquanto ajudam. Levam sua nssissima para casa, para cuidar da porta na ausência dos pais, mas também cuidam das visitas que podem chegar de longe trazendo recados. A sua saída precoce significa que elas precisam ser preservadas para que, na hora em que os pais ficarem animados, não ouçam palavrões, que só os adultos68 podem falar e ouvir.

Nestes eventos são preparados vários pratos de mandioca, além de farinha e folhas de mandioca. A própria mandioca pode ser consumida crua e isso é o que observei com maior frequência. Pode ser feita caracata, como mencionei acima, consumida fervida fresca ou depois que seca, ou na forma de epuaatica. Este último prato tanto pode ser feito com mandioca fresca quanto seca. Consiste em ferver a mandioca e misturar com algum tipo de feijão, com tempero de amendoim ou coco69.

68 Aqueles que passaram pela instrução de imwali ou alukhu.

69 Coqueiro (Cocos nucifera L.). É uma planta de crescimento vertical maior, sem ramificação, mas somente com folhas compostas dispostas alternadamente e que produz fruto-coco nos seus entrenós.

Este evento não acontece na época de plantar a estaca da mandioca, porque é mais fácil do que no momento de colher. Se alguém precisar de ajuda para o plantio, normalmente um vizinho é suficiente para trabalhar. Todos consomem a mandioca em qualquer lugar e hora, nas suas mais variadas formas. Por isso a mandioca é a identidade alimentar daquele povo e daquela região. Como já havia referido no capítulo em que tratei da metodologia, esta é uma zona de mandioca. Remetendo à discussão sobre as razões e o lugar da mandioca na socioalimentação das famílias de Nampula, podemos recorrer ao estudo de Garine (1987), sobre alimentação, culturas e sociedades, em que o autor salienta que o que mais as pessoas procuram para seu consumo é um alimento que proporcione sensação de saciedade. De acordo com esse autor, esta saciedade só é conseguida quando se consome um alimento que não vai contra os seus princípios biológicos e culturais, garantindo, desta forma, a sua reprodução social. Assim como a xima de mandioca ou a caracata pode ser acompanhada de molho feito de folhas de mandioca, também pode ser com as suas outras várias formas, crua, assada, cozida, ou epuaatica70.Dentre esses pratos, vou descrever a caracata, pela importância dada pelas famílias a este prato em relação a outros.

Figura 13: Mandioca seca Figura 14: Caracata em bolinhas no prato A caracata é feita com a farinha de mandioca seca, que é extraída no processo de trituração em equipamento tradicional local. O seu preparo envolve, primeiro, a fervura da água em uma panela no fogo, depois é colocada a farinha e em seguida mexida, até que fique cozida. É uma massa muito dura e densa, de consistência aderente e plástica. É consumida geralmente com as mãos, e isso exige que a pessoa tenha unhas ou as pontas dos dedos muito firmes para poder

70 Este último prato tanto pode ser feito com mandioca fresca quanto seca. Consiste em ferver a mandioca e misturar com algum tipo de feijão, com tempero de amendoim ou coco.

cortar, enrolar na palma da mão como uma pequena bola, mergulhar em um molho feito (que pode ser de carne, verdura, peixe) e engolir sem mastigar. A pessoa que come deve conhecer a abertura da sua garganta, para poder fazer um bolinho que consiga engolir sem mastigar. A carne, o peixe ou qualquer outro alimento é mastigado, exceto a bolinha de caracata, que tem que ser engolida da maneira que estiver formada na palma da mão. Mastigar bolinha de caracata pode significar falta de respeito para com a mulher que a preparou. Lembro-me que na primeira vez que comi, fiquei minutos tentando desfazer a bolinha na minha boca e então o chefe da família soltou uma gargalhada. Quando perguntei por que, ele me respondeu o seguinte:

Jone: pai71, por que está se rindo de mim?

Pai: [gargalhadas] Eu não estou rindo de você, mas do que você está a fazer! Nós não mastigamos a bolinha de caracata, porque ela é feita para ser consumida sem mastigar, apenas engolindo as bolas ou bolinhas da massa [risos].

Jone: hummm, eu não sabia. E como já fiz, o que devo fazer?

Pai: nada, apenas continuar tentando até que consiga engolir sem mastigar. Mastiga tudo menos a bolinha ou tenta fazê-la muito pequena de modo a poder engolir.

Jone: me explica direitinho, pai...

Pai: você deve cortar a massa ao nível da abertura da sua garganta para que ela seja apenas engolida sem mastigar. É assim que se come, é muito simples, não custa nada [risos].

Jone: humm, mas por que não pode ser consumida de outra forma?

Pai: isso você faz quando não gosta da mulher que fez a caracata, é uma ofensa, porque mostra que estais desconfiando dela ter colocado alguma coisa dentro.

A ação de consumir caracata obedece a um ritual, não deve ser apenas consumida, existem regras a observar. É preciso saber colocar os dedos na massa para somente conseguir cortar o pedacinho com que se faz a bolinha na mão. Cortar muita massa e daí decidir reduzir também infringe o regulamento, significa o mesmo que quando a pessoa mastiga. No meu caso, descrito acima, estaria ofendendo a minha mãe72, que me abrigou, estaria desconfiando dela, e por ser casada estaria automaticamente desonrando o marido que lhe representa. Fazendo isso, mexeria com o respeito e a cultura segundo a qual a mulher é sagrada, digna de confiança, aquela que deve ser preservada de todo trabalho de risco e pesado, assim como aquela a quem se deve dar o devido respeito e proteção. Ao marido, estaria dizendo que ele se casou com uma mulher que não sabe fazer bem a comida, uma traiçoeira que pode envenená-lo, e isso seria uma grande acusação, quer para a família dele, quer para a família da mulher, porque os casamentos são

71 A palavra pai significa respeito. Eu tratei-o por pai, porque ao me apresentar a sua família ele me chamou de meu filho. E a partir daquele instante passei a chamá-lo de pai. As pessoas não se tratam pelo nome, mas sim pela relação parental.

72 Esposa do meu pai, por respeito à família onde eu estava hospedado.

dirigidos e organizados entre famílias próximas, na base de confiança, que também foi o caso deste casal. Então eu estaria em uma situação muito delicada, apenas por não saber comer corretamente caracata. A ideia é que quem mastiga desconfia que algo pode estar na massa e, por isso, mastiga para descobrir antes de engolir. E quem corta e reduz devolvendo para o prato ou não, pode estar agindo com o intuito de procurar descobrir algo, e isso se equipara à desconfiança e ofensa.

Fischler (1995), em seu livro El (h)omnívoro: El gusto, la cocina y el cuerpo, ao abordar a questão do princípio da incorporação, relaciona-o a:

[...] el movimiento por el cual hacemos traspasar al alimento la frontera entre el mundo y nuestro cuerpo, lo de fuera y lo de dentro. Este gesto es a la vez trivial y portador de consecuencias potencialmente irreversibles. Incorporar un alimento es, tanto en el plano real como en el plano imaginário, incorporar todo o parte de sus propiedades: llegamos a ser lo que comemos. La incorporación funda la identidad. (FISCHLER, 1995, p. 65-66)

Consubstanciando-nos com as palavras do autor, ao se consumir caracata, fazendo-a atravessar a fronteira entre o mundo e o nosso corpo, temos que assumir as consequências potencialmente irreversíveis. Não se pode desconfiar de uma mulher – é uma premissa cultural –, mas se, por algum engano, entrar na comida algo estranho, o perigo é real e irreversível. Temos que imaginar e confiar que a mulher, dona de casa, sempre quer o bem dos seus membros e como ela é paciente e cuidadosa “por natureza”, nada disso vai acontecer em nenhum momento.

Cararata é um alimento que, quando se tem algo decisivo para realizar, se come para

Cararata é um alimento que, quando se tem algo decisivo para realizar, se come para