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Beco das Garrafas: Reduto da Bossa Nova e do Sambajazz

CAPÍTULO 1: BIOGRAFIA

1.2 Bossa Nova e Sambajazz

1.2.2 Beco das Garrafas: Reduto da Bossa Nova e do Sambajazz

O Beco das Garrafas (Figura 2) surgiu em meados dos anos 50 na cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Copacabana, localizado numa rua sem saída - um beco propriamente dito - entre os números 21 e 37 da Rua Duvivier. Sobre a origem do nome, não se tem a plena certeza, mas existe a história comentada pelo escritor Ruy Castro em seu livro Chega de Saudade (Castro, 1990, p.285) que relaciona o barulho produzido pela música dos bares e dos frequentadores na madrugada, com o protesto dos moradores da vizinhança que jogavam garrafas do alto dos edifícios, e, talvez seja por essa razão que Sérgio Porto27 apelidou de

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Sérgio Marcus Rangel Porto (11 de janeiro, 1923 em Rio de Janeiro - 30 de setembro de 1968) foi um colunista brasileiro, escritor, radialista e compositor. Ele era mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. Sergio começou sua carreira jornalística no final de 1940, trabalhando em publicações como revistas e jornais Sombra e Manchete Hora, Tribuna da Imprensa e Diário Carioca. No mesmo período, Tomás Santa Rosa também atuou em vários jornais e boletins informativos como um ilustrador. Foi então que o personagem Stanislaw Ponte Preta e suas crônicas satíricas e críticas nasceu, uma criação de Sergio juntamente com Santa Rosa – primeiro ilustrador do personagem – inspirado pelo personagem Serafim Ponte Grande por Andrade. O Porto também contribuiu para a produção de publicações musicais e escreveu espetáculos musicais para

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“Beco das Garrafadas”, depois abreviado para Beco das Garrafas. Os bares estavam literalmente alocados um ao lado do outro, e sem muito espaço, as quatro casas que compunham o Beco das Garrafas se estabeleceram em apenas 100 metros. Havia o bar Ma Griffe, chamado de inferninho, o único que no início havia prostituição; o bar Bottle's e Baccarat, templos da Bossa Nova (onde Dolores Duran cantava e foi ouvida pela cantora americana Ella Fitzgerald em sua passagem pelo Brasil); e o Little Club, o pioneiro dos chamados pocket shows28, sob o comando da produção da jovem dupla Miéle e Bôscoli29. O Bottle´s e o Little Club eram propriedades de dois irmãos italianos, Alberico e Giovanni Campana que também trabalhavam de garçom do próprio estabelecimento (CASTRO, 1990, p. 285).

Figura 2. Beco das Garrafas - Fonte: <https://jornalggn.com.br/blog/jota-a-botelho/o-beco-das-garrafas-e-a- bossa-nova-por-jota-a-botelho>. Acesso em 6/02/2017

discotecas, além de compor a música "Samba do Crioulo Doido" para teatro de revistas. Disponível em: < http://dicionariompb.com.br/sergio-porto/dados-artisticos>. Acesso em 03/05/2018.

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Apesar de não ter limite de tempo, definimos Pocket Show como uma apresentação curta, em média 40 a 60 minutos, ou, em caso de bandas com muitos membros, uma apresentação com número reduzido de músicos ou mesmo um ensaio aberto para convidados.

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Shows de curta duração produzidos pela dupla Miéle e Bôscoli no Little Club. Eles introduziram no Brasil um novo conceito de show: o da pobreza de luxe (CASTRO, 1990, p. 285).

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O baterista Chico Batera, em entrevista concedida ao autor, comentou que o Beco das Garrafas foi realmente um polo musical de intenso trabalho da noite carioca dos anos 50 e 60, e que essa época foi realmente o único período em que a música exercida em boates no Rio de Janeiro deu algum dinheiro digno para os músicos. No começo, apenas a boate Ma Grife oferecia música ao vivo, as outras duas casas vizinhas eram bares comuns e uma delas, o Little Club se destacou dentro do Beco nos anos seguintes, oferecendo uma programação musical de distinta qualidade. Seus proprietários, os irmãos Alberico e Geovani Campana foram percebendo que aos domingos, no fim de tarde, acontecia uma jam session ali em frente aos bares, no calçadão, e que a rua parava por conta disso. Esses encontros eram frequentados em sua maioria por músicos amadores e alguns profissionais. Percebendo toda essa grande movimentação de amantes da música e de músicos, e na possibilidade de um ganho financeiro maior, os dois irmãos italianos decidiram ampliar os negócios e compraram o bar ao lado do já existente Little Club, inaugurando rapidamente o Bottle’s bar. O Tamba Trio, em início de carreira com Bebeto, Hélcio Milito e Luizinho Eça, foi a atração principal durante algum tempo no Little Club. Dom Um Romão começava, nesse momento, a tocar no bar ao lado, o Bottle’s, com o seu Copa Trio (CHICO BATERA, 2016).

Raffaelli também comenta acerca do cenário musical que se estabelecia ali no Beco das Garrafas nos anos 60, comparando-o com a Rua 52 em Nova Iorque, onde uma espécie de polo musical efervescente reunia os grandes músicos de jazz que se apresentavam diariamente:

Enquanto isso, as noites no lendário Beco das Garrafas, em Copacabana, atraíam plateias de jovens ávidos em ouvir a nova música. Os quatro clubes daquele logradouro (Little Club, Bottle's, Bacará e Ma Griffe) lotavam todas as noites. Nesse particular, o Beco das Garrafas foi à versão nacional da Rua 52, em Nova Iorque, que nos anos 40 foi o polo efervescente onde tocavam os grandes jazz mens da época. Toda a noite acontecia algo novo no Beco, fosse uma nova composição, um arranjo mais elaborado, o aparecimento de um músico ou cantor de talento, e o ambiente fervilhava até alta madrugada (RAFFAELLI, 2008).

A história de Dom Um Romão nos anos 60 se confunde em parte com a própria história do Beco das Garrafas. Romão era uma espécie de “capitão” desse logradouro, tinha

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influência nos trabalhos, e lançou com o seu Copa Trio, cantores como Elis Regina, Flora Purim, Jorge Ben; acompanhou grupos vocais como o Quarteto em Cy, enfim, Romão contribuiu de forma direta na programação musical que acontecia no Beco das Garrafas. O Copa Trio, seu grupo inicial, mais tarde se transformou em Copa 5 com o ingresso de Pedro Paulo no trompete e de J.T. Meirelles, saxofonista tenorista e arranjador, que passou então a dirigir musicalmente o quinteto. Chico Batera também comentou essa fase, contextualizando e apontando Romão como um músico de “proa” da música da bossa nova e do sambajazz:

Eu o conheci no Beco Das Garrafas, ele namorava a Flora Purim, ele já era líder no Botlle´s, um bar no Beco, o “cabeça” era ele, ouvia-se sempre falar no trio do Dom Um Romão. Eu sei que ali no Beco, mesmo que não fosse o nome dele no grupo, era ele que ajeitava as coisas. Negócio de grana, discussões, enfim, essas coisas, têm muita coisa para cuidar, eu me lembro do Dom Um Romão ser sempre uma figura de proa. O Edison Machado, já era um cara tão considerado quanto ele, o Milton Banana também, já tinha fama internacional, já tinham gravado bastante (CHICO BATERA, 2016).

Segundo Chico Batera, Romão agregava em sua personalidade características de liderança, era uma pessoa inquieta, e tinha uma visão de negócios, conforme já comentado anteriormente, ele era próximo do milionário Jorge Guinle30, amizade feita na boate Vogue

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Filho de Carlos e Gilda, Jorginho Guinle pertenceu à poderosa família Guinle. A fortuna colossal dos Guinle teve como origem os lucros advindos de um armazém de produtos importados fundado pelo patriarca (seu avó), Eduardo Palassin Guinle (1846-1912), no centro do Rio, em 1870. Do comércio batizado como Aux Tuileries, administrado por Eduardo em parceria com seu sócio, Candido Gaffrée (1844-1919), os negócios se ramificaram na construção de estradas e ferrovias e no setor imobiliário. Em 1888, a dupla de empresários deu o passo que os tornaria fabulosamente ricos: conseguiu a concessão para reformar e administrar o Porto de Santos, a caminho de se transformar no escoadouro de toda a produção de café do país. . Durante 92 anos, a família abasteceu seus cofres com o dinheiro advindo da exploração comercial do porto. Além do Palácio Laranjeiras, a família Guinle legou à cidade monumentos como a sede do Parque da Cidade, na Gávea, o casarão da Ilha de Brocoió, na Baía de Guanabara, o Hospital Gaffrée e Guinle na Tijuca, e o mais emblemático de todos os hotéis Copacabana Palace que foi construído em 1923. Era considerado um playboy na melhor essência do termo, ou seja, um homem culto, requintado, bem relacionado e que se orgulhava de nunca ter trabalhado na vida. Além de ter sido um dos playboys mais famosos da história, Jorginho era um grande estudioso de jazz e, em 1953, publicou Jazz Panorama, o primeiro livro sobre jazz escrito no Brasil e reeditado pela editora José Olympio. Em 1997, publicou pela editora Globo Um século de boa vida, contendo suas memórias. Morreu aos 88 anos no Rio de Janeiro na suíte 153 do hotel Copacabana Palace, - onde morou por vários anos após perder todo o seu patrimônio -, decorrente de um aneurisma na veia aorta. Morrer no Copacabana Palace foi o último desejo

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em Copacabana. Com isso o baterista ajudou a trazer para o Beco das Garrafas a presença de pessoas da alta sociedade carioca que valorizaram a frequência do lugar.

Outro músico importante na carreira de Dom Um Romão foi o pianista e arranjador de Niterói, Sérgio Mendes. Com Mendes, Romão gravou em 1961 o disco Dance Moderno pela gravadora Philips, além da participação no II Festival Sul-Americano de Jazz, em Punta Del Leste, Uruguai, integrando o Sexteto Bossa Rio (Figura 3), formado por Paulo Moura (sax), Pedro Paulo (trompete), Octávio Bailly Jr. (contrabaixo), Dom Um Romão (bateria) e Durval Ferreira (violão).

Figura 3. Sexteto Bossa Rio no Bottle’s no Beco das Garrafas

esq. para dir.: Dom Um Romão, Sergio Mendes, Paulo Moura, Durval Ferreira e Pedro Paulo Fonte: <https://jornalggn.com.br/blog/jota-a-botelho/o-beco-das-garrafas-e-a-bossa-nova-por-jota-a-botelho>.

Acesso em 6/02/2017

daquele que foi considerado o último playboy brasileiro. Disponível em <https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,jorginho-guinle-morre-no-rio,20040305p693>, e <https://vejario.abril.com.br/cidades/a-ascensao-queda-imperio-familia-guinle>. Acesso em 17/03/2018.

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O Sexteto Bossa Rio com esta formação mencionada fez residência no Beco das Garrafas, possibilitando o entrosamento necessário para o que seria o auge do grupo: a participação ao lado de um time de músicos brasileiros no importante Festival da Bossa Nova no Carnegie Hall em Nova Iorque no ano de 1962, onde a bossa nova foi apresentada oficialmente pela primeira vez nos EUA, com uma grande repercussão da imprensa americana. Muitos músicos brasileiros permaneceram nos Estados Unidos após o grande sucesso do festival, gravando discos e fazendo shows. Alguns voltaram ao Brasil, mas o evento serviu de trampolim para que músicos como: Tom Jobim, João Gilberto, Sergio Mendes, Milton Banana, Luiz Bonfá, Luiz Henrique, e o próprio Dom Um Romão, abrissem um mercado nos Estados Unidos. O Beco das Garrafas sentiria mais adiante o desfalque desses grandes músicos em sua programação, mesmo que grande parte deles tenha voltado ao Brasil, as suas carreiras já estavam traçadas na conquista do mercado estrangeiro, e o Beco não seria mais o mesmo sem as suas principais atrações que o consagraram.

O clima festivo do Beco das Garrafas não durou por muito tempo e foram vários os fatores que contribuíram para o seu fim em 1966, dentre eles o mencionado desfalque de suas principais atrações; a atenção voltada para o espetáculo de protesto: Show Opinião31 em dezembro de 1964; o surgimento de novos bares como o Zicartola32; o programa de televisão O Fino da Bossa; os festivais da canção no Maracanãzinho, e por fim a abertura do Canecão, que comportava num dia só muito mais gente que todos os bares do Beco das Garrafas juntos durante uma semana inteira de bom movimento33. Em 1964, quando Elis Regina fez sua estreia no Beco das Garrafas com o Copa Trio a convite de Dom Um Romão, com uma

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O Show Opinião foi uma grande inovação em termos de espetáculo musical e teatral para a época (1965) e causou grande impacto, tanto artístico quanto político, como forma de protestar contra a situação política do país (Klafke, Mariana Figueiró, 2013).

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O Zicartola foi um restaurante aberto na cidade do Rio de Janeiro pelo compositor e sambista Angenor de Oliveira, o Cartola, e sua mulher Euzébia Silva do Nascimento, a Dona Zica. Foi ponto de encontro de sambistas de destaque na cultura brasileira, como Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e Aracy de Almeida, e grandes nomes da bossa nova, como Carlos Lyra e Nara Leão. Também foi palco do lançamento de Paulinho da Viola. https://pt.wikipedia.org/wiki/Zicartola. Acesso em 2/02/2018.

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Informação proveniente da coluna de Renan França para o jornal o Globo em matéria: “Depois de 40 anos fechado, Beco das Garrafas renasce em Copacabana”. Leia mais em: < https://oglobo.globo.com/rio/depois-de- 40-anos-fechado-beco-das-garrafas-renasce-emcopacabana-14511353#ixzz4gdwL7wsJ>. Acesso em 10/05/2017.

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extensa temporada no Little Club, vários artistas que se apresentavam no Beco já não estavam mais por lá. A própria Elis, após seu sucesso no Beco das Garrafas, quando conquistou um público assíduo, foi levada pelo empresário Marcos Lázaro para São Paulo34 a fim de assinar um contrário milionário com a TV Record.

Entre os instrumentistas que tocaram no Beco das Garrafas podemos destacar: Airto Moreira (1941), Baden Powell (1937-200), Bebeto Castilho (1939), Chico Batera (1943), Dom Salvador (1938), Dom Um Romão (1925-2005), Durval Ferreira (1935-2007), Edison Machado (1934-1990), João Palma (1941-2016), Hélcio Milito (1931-2014), Luís Carlos Vinhas (1949-2001), Mauricio Einhorn (1932), Manuel Gusmão (1934-2006), Milton Banana (1935-1998), Paulo Moura (1932-2010), Pedro Paulo (1939), Sergio Mendes (1941), Tenório Jr (1941-1976), Tião Neto (1931-2001), Wilson das Neves (1936-2017). Entre os cantores estão Alaíde Costa (1935), Elis Regina (1945-1982), Claudette Soares (1937), Dolores Duran (1930-1959), Dóris Monteiro (1934), Johnny Alf (1929-2010), Jorge Ben (1942), Leny Andrade (1943), Marisa Gata Mansa (1938-2003), Pery Ribeiro (1937-2012), Sylvia Telles (1934-1966) e Wilson Simonal (1939-200).

Além de representar o grande palco de lançamento e consolidação das carreiras de grandes nomes da música brasileira, da bossa nova e do sambajazz, vale ressaltar o último e importante aspecto a considerar sobre “O Beco das Garrafas”: foi nele que nasceram os pocket shows da dupla Miéle & Bôscoli e também do dançarino, coreógrafo e cantor Lennie Dale, que foram uma espécie de movimento precursor dos “musicais” na cidade do Rio de Janeiro. Veja a citação abaixo trazida do livro Chega de Saudade (1990) de Ruy Castro em que o autor enaltece a importância do Beco das Garrafas para a música carioca e descreve o pioneirismo das atividades da dupla Miéle & Bôscoli:

Em 1961, de dentro do Beco para fora, essas boates eram, pela ordem, o Little Club, o

Baccara, o Bottle´s Bar e o Ma Griffe. Dos quatro, só o Ma Griffe se dedicava

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Informação proveniente do Blog do Luis Nassif Online, em matéria feita por J.A. Botelho: O Beco das Garrafas e a Bossa Nova. Disponível em: <http://jornalggn.com.br/blog/jota-a botelho/o-beco-das-garrafas-e-a- bossa-nova-por-jota-a-botelho>. Acesso em 10/05/2017.

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primordialmente a prostituição, embora também contivesse um piano que, no passado

recente, chegara a estar a cargo de Newton Mendonça. As outras três apresentavam simplesmente a melhor música que se podia ouvir ao sul da baia de Guanabara. Duas delas Little Club e Bottle´s eram dos mesmos proprietários, os italianos Giovanni e

Alberico Campana, sempre dispostos a patrocinar jovens talentos, desde que eles

mantivessem as suas casas cheias, o que não era nada difícil. As duas boates comportavam, estourando, sessenta pessoas cada uma, se estas não usassem paletós com ombreiras e havia muito mais gente do que isso interessada em ver, todas as noites, os pocket shows produzidos pela nova dupla Miéle e Bôscoli. Eles introduziram no Brasil um novo conceito de show: o de pobreza de luxe. Assim como Miéle, que, dois anos antes, tinha apenas uma calça, mas era uma calça de smoking, os shows do Beco tinham grande música, a cargo de artistas que brevemente o dinheiro não poderia comprar, mas todo o resto era de marré deci. A começar pela produção. Miéle e Bôscoli criavam o show, arregimentavam os artistas, escreviam o roteiro, faziam a iluminação (com um único spot e canudos de papel higiénico), projetavam os slides, cuidavam do som (com a ajuda de Chico Pereira) e dirigiam o espetáculo — sem receber por isso e ainda achando ótimo (CASTRO, 1990, p. 285).

A seguir pontuaremos os principais eventos histórico-musicais que envolveram o importante festival da bossa nova em Nova Iorque nos EUA em 1962, realizado no prestigiado espaço dedicado à música de qualidade da época, o Carnegie Hall, e que Dom Um Romão marcou a sua presença com o grupo do pianista Sergio Mendes, fazendo parte desse importante acontecimento musical que significou uma espécie de abertura do mercado americano para a bossa nova brasileira.