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CAPÍTULO 1: BIOGRAFIA

1.2 Bossa Nova e Sambajazz

1.2.3 Festival da Bossa Nova no Carnegie Hall (1962)

Em 1961, dois fatos importantes deram um impulso à música brasileira nos EUA: o primeiro acontecimento está relacionado com os conjuntos American Jazz Festival e o com o trompetista Dizzy Gillespie e seu quarteto. Os músicos americanos já com carreira estabelecida, quando na ocasião tocaram no Brasil, conheceram a bossa nova, e, ao retornarem aos Estados Unidos, Gillespie, o trombonista Curtis Fuller, os saxofonistas Coleman Hawkins e Zoot Sims, o flautista Herbie Mann e o pianista Lalo Schifrin, influenciados pelo o que viram e ouviram, gravaram seus respectivos novos álbuns solos com temas em padrões rítmicos de bossa nova. A segunda circunstância que também contribuiu significativamente para o aumento do interesse do mercado americano na música brasileira está relacionada com a grande repercussão do disco Jazz Samba (1962) do saxofonista Stan Getz, trabalho que foi registrado em março de 1962, junto ao quarteto do guitarrista Charlie

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Byrd, e que na época vendeu um milhão e seiscentas mil cópias na primeira semana (RAFFAELLI, 2008).

Foi nesse contexto musical, onde o interesse pela música brasileira (bossa nova) era crescente nos EUA, que no dia 21 de novembro do ano de 1962, Sidney Frey, então presidente da gravadora americana Audio Fidelity35, organizou um concerto trazendo a bossa nova para solo americano em parceira com o governo brasileiro (através do Itamaraty), realizado no templo cultural americano da música em Nova Iorque, o Carnegie Hall (Figura 4).

Figura 4. Sergio Mendes com o Sexteto Bossa Rio no Festival da Bossa Nova no Carnegie Hall - Nova Iorque (1962) - esq./dir.: Sergio Mendes, Octavio Bailly, Durval Ferreira, Pedro Paulo e Paulo Moura. Fonte: < http://cincomeiasete.blogspot.com/2013/05/bossa-nova-desafinou-nos-eua.html>. Acesso em 6/02/2017

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Fundada em aproximadamente em 1955 por Sidney Frey, a gravadora lançou o seu primeiro disco comercial estereofônico em novembro de 1957, muito antes de qualquer grande gravadora da época. A Audio Fidelity tornou-se parte da Audio Fidelity Records, Inc. em 1964 e da Audiofidelity Enterprises, Inc.em 1970. Os últimos lançamentos conhecidos da empresa foram em 1984. Em 1997 ela foi comprada pela Colliers Media, que por sua vez foi adquirida pela Margate Enterprises LLC em 2005. O nome Audio Fidelity Records foi licenciado para a Morada Enterprises, que atualmente lança CDs sob o rótulo de Audio Fidelity. O catálogo histórico da Audio Fidelity está sendo lançado pela gravadora da Margate Entertainment, Max Cat Records. Informação proveniente do site: <https://www.discogs.com/label/11611-Audio-Fidelity>. Acesso em 09/08/2017.

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O Festival da Bossa Nova no Carnegie Hall começou a ser planejado alguns meses antes, quando então Frey veio ao Brasil e conheceu de perto o Beco das Garrafas e os seus principais artistas que por lá se apresentavam. Sua ideia inicial era apenas a apresentação de Tom Jobim e João Gilberto, entretanto o chefe da gravadora Audio Fidelity acabou reunindo um time de músicos bem diversificado, aumentando significativamente o tamanho do evento.

Figura 5. Músicos no embarque para o Festival da Bossa Nova no Carnegie Hall (1962) – na frente, esq. p/dir.: Agostinho dos Santos, Sergio Mendes, Vinícius de Moraes, Pedro Paulo, Dom Um Romão e Normando Santos;

atrás, esq. p/dir.: Paulo Moura, Durval Ferreira, Octavio Bailly Jr, Roberto Menescal e Chico Feitosa (atrás de Dom Um Romão) Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/galeria/fotos/1960-1970. Acesso em

6/02/2017

Os músicos brasileiros selecionados para se apresentarem no Carnegie Hall (Figura 5) na época com pouco mais de vinte anos de idade, estavam quase todos em início de suas carreiras, exceto alguns que já possuíam algum prestígio, como Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá, Oscar Castro Neves, Dom Um Romão, Milton Banana e Sergio Mendes, outros ainda eram totalmente desconhecidos do público americano como: Agostinho dos Santos, Ana Lúcia, Bola Sete, Carlos Lyra, Carmen Santos, Chico Feitosa, Normando Santos, Roberto Menescal e Sérgio Ricardo. A despeito da maior ou menor representatividade em suas respectivas carreiras, todos os artistas tiveram uma boa participação no evento.

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Na plateia do Carnegie Hall, que foi tomada por mais de três mil pessoas, alguns músicos americanos de destaque do cenário do jazz americano marcaram a sua presença. Vale citar o cantor Tony Bennett, os trompetistas Dizzy Gillespie e Miles Davis, os saxofonistas Gerry Mulligan e Cannonball Adderley e o flautista Herbie Mann, que logo após o festival lançaram no mercado trabalhos com a participação de músicos brasileiros.

O álbum Bossa Nova at Carnegie Hall foi lançado no Brasil pela gravadora americana Audio Fidelity em 1962, e relançado em 1974 pela gravadora Chantecler. No repertório, vale destacar algumas músicas que se tornariam clássicos do repertório brasileiro de bossa nova: Samba de Uma Nota Só, tocada no festival em versão instrumental pelo sexteto de Sérgio Mendes; Carlos Lyra com Influência do Jazz; Agostinho dos Santos e Luiz Bonfá com Manhã de Carnaval e A Felicidade e Roberto Menescal com O Barquinho. Todos os cantores citados foram acompanhados pelo quarteto do violonista, arranjador e compositor Oscar Castro Neves, que teve uma participação intensa no festival, atuando com a sua banda como base musical para os diversos artistas que ali se apresentaram, à exceção da apresentação de um dos criadores da bossa nova, o baiano João Gilberto que interpretou a canção Outra Vez de Tom Jobim, com o seu violão, acompanhado por Milton Banana na bateria. Infelizmente não houve registro do áudio de Tom Jobim nesse álbum, embora sua participação tenha sido muito importante, tanto no aspecto musical, quanto na parte executiva do festival36.

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Informações disponíveis em: < http://laplayamusic.blogspot.com/2014/07/bossa-nova-at-carnegie-hall- 1962.html>. Acesso em 10/12/2017.

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Figura 6. Capa do álbum: Bossa Nova at Carnegie Hall (1962) lançado pela gravadora Audio Fidelity Fonte:< www.discogs.com>. Acesso em 6/02/2017

Encontramos na contracapa desse álbum - Bossa Nova at Carnegie Hall - (Figura 6) a resenha dos dois únicos jornalistas brasileiros que estiveram presentes naquela noite no Carnegie Hall: Walter Silva (Picapau) pela radio Bandeirantes de São Paulo e Sylvio Tullio Cardoso do jornal carioca O Globo. Vale destacar as considerações de Cardoso sobre o show em que o jornalista, mesmo que de uma forma breve, traça um panorama preciso das performances dos brasileiros, destacando a atuação de Luiz Bonfá e de Agostinho dos Santos:

O grande sucesso da noite foi sem dúvida a dupla Agostinho dos Santos & Luiz Bonfá, que "roubaram" literalmente a noite com seu pot-pourri de temas de "Orfeu do Carnaval". É verdade que ao lado de Agostinho, Bonfá, Sérgio Mendes, Cláudio Miranda, João Gilberto, Sérgio Ricardo e Oscar Castro Neves atuaram vários artistas, que eram, na época, praticamente amadores. Mas separar profissionais de sem i- amadores seria abalar o espírito deste disco, que é preliminarmente um documentário. Trata-se sem dúvida dum LP histórico, um microssulco onde está registrada a estreia da moderna música brasileira - a música que, segundo Paul Winter, é uma das poucas que evolui e se renova atualmente numa das mais famosas salas de concerto do mundo. Como documento, "Bossa Nova at Carnegie Hall" é, sem dúvida, um lançamento único. A nosso ver, sua edição - que demorou, mas veio - era absolutamente indispensável, porque só com ela vamos poder provar que o show, ao contrário do que muitos propalaram, foi um magnífico, um enorme sucesso (CARDOSO, 1962).

Após o festival da bossa nova no Carnegie Hall (1962), ainda no mesmo ano, sob o efeito da excelente repercussão do evento, o pianista Sergio Mendes recebeu o convite do

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saxofonista Cannonball Adderley para gravar o álbum Cannonball Adderley with Sergio Mendes & The Bossa Rio Sextet, e contou com Dom Um Romão na bateria. O mercado americano nesse momento se expandia como nunca antes para a música brasileira, Tom Jobim, Oscar Castro Neves e João Gilberto aproveitaram esse momento e também construíram suas respectivas carreiras nos EUA.

Sergio Mendes, em especial, com o seu grupo Brasil 65, conseguiu se estabelecer consistentemente em solo americano e na remontagem de seu trabalho, um ano mais tarde, mudando então o nome para Brasil 66, contou com Dom Um Romão na bateria.

O supracitado jornalista e crítico musical, José Domingos Rafaelli (1936-2014) em seu artigo A História do Sambajazz (2008), reitera a importância do festival da bossa nova realizado no Carnegie Hall, destacando a participação de músicos brasileiros que conforme comentamos acima, se estabeleceram nos EUA, registrando seus próprios álbuns e participando também em gravações com músicos americanos de destaque na época:

Vários músicos, cantores e conjuntos brasileiros apresentaram-se no evento, aumentando o interesse dos americanos pela bossa nova. O concerto foi registrado pela gravadora Audio Fidelity no disco Bossa Nova at Carnegie Hall (1962). As emissoras de rádio americanas começaram a produzir discos de bossa nova initerruptamente. Começa a partir de então uma abertura não oficial de um mercado internacional de trabalho para nossos músicos e cantores em terras americanas. Paralelamente, músicos e cantores americanos gravaram uma enxurrada de discos de bossa nova, vários com participações de artistas brasileiros, incluindo: Sérgio Mendes, Tião Neto, Hélcio Milito, Dom Um Romão, Chico Batera entre outros (ibidem).

Passado a euforia do festival da bossa nova no Carnegie Hall, a vida musical seguiu como antes para os músicos e artistas que após o evento retornaram ao Brasil, mais especificamente para aqueles que já tinham suas carreiras iniciadas e que costumavam se apresentar habitualmente no Beco das Garrafas e nas outras casas do bairro de Copacabana no Rio de Janeiro. A atividade musical do Beco não era mais a mesma observada entre o fim da década de 50 até bem pouco tempo antes da realização do festival (1962), conforme já comentamos anteriormente no subcapítulo que tratou brevemente de sua história. Houve um considerável desfalque na programação musical do Beco das Garrafas; suas grandes estrelas,

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como Sergio Mendes, Luiz Bonfá, Tom Jobim entre outros que ficaram nos EUA não estavam mais por lá, entretanto a bossa nova, o sambajazz, enfim, a música de qualidade carioca ainda era ouvida naquele logradouro, e foi justamente lá, através do convite de Dom Um Romão com o seu Copa Trio, que Elis Regina deu os seus primeiros passos de sua carreira musical na noite carioca, passando a cantar no Bottle´s, fato que se repetiu com a namorada de Romão na época, a cantora Flora Purim, culminando inclusive com a gravação de seu primeiro álbum solo com a ajuda de Romão nesse processo, participando intensamente do álbum Flora é MPM (1965), como músico e produtor executivo.

A seguir, pontuaremos brevemente os relatos musicais acerca dos principais acontecimentos que envolveram essa parte da história de Dom Um Romão ligado a Elis Regina e a Flora Purim.