CAPÍTULO 1 - Habitação social no Brasil: moradia como um bem de consumo ou um
1.3. Bem de consumo e serviço: algumas definições
Figura 1. Classificação dos produtos. Fonte: SERRALVO (1993) com alterações feitas pela autora.
Para a economia, os bens de consumo são todos os produtos a serem consumidos por indivíduos ou famílias, relacionados à satisfação das necessidades da população. Além da sua visão utilitária e mercadológica, carregam e comunicam significado cultural (DOUGLAS e ISHERWOOD, 1978; SAHLINS, 1976). Segundo McCracken (2007), o significado reside em três localizações: o mundo culturalmente constituído, o bem de consumo e o consumidor. Esses três componentes podem provocar uma variedade de transformação no comportamento da utilização dos bens de consumo pela sociedade.
Os consumidores são muitas vezes manipulados e entram no “mundo culturalmente constituído” por meio das campanhas publicitárias que usam de vários tipos de artifícios para persuadir o consumidor a comprar determinado bem (BAUDRILLARD, 2009). Nessa visão, a publicidade é capaz de moldar a sociedade, criando produtos e condições na qual, mesmo sem a necessidade de consumo, o indivíduo passa a acreditar que realmente precisa de determinado produto - bem ou serviço.
No processo das políticas habitacionais praticadas no Brasil a propaganda foi utilizada tanto no segmento público quanto no privado. Foi realizada de forma a comunicar o que estava sendo desenvolvido pelos governos ao mesmo tempo que foi capaz de interferir nas relações econômicas e no modo de pensar da sociedade. Alguns exemplos de propaganda sobre moradias podem ser vistos na figura 2.
Figura 2. Exemplos de propagandas sobre moradia realizadas pelo governo ou por empresas privadas.
A conquista da moradia por meio da casa própria no Brasil pode ser entendida como um bem de consumo. A cultura do consumo tem como premissa a expansão da produção capitalista de mercadorias, que deu origem a uma vasta acumulação de cultura material na forma de bens e locais de compra e consumo (FEATHERSTONE, 1995).
O fenômeno do consumo não pode ser entendido considerando apenas a visão econômica, onde é abordado predominantemente numa ótica que privilegia a produção. A sua leitura tem sido objeto de grande atenção em diversos campos interdisciplinares que perpassam
por áreas como a antropologia, a sociologia, o marketing, a psicologia, a geografia humana contemporânea32, dentre outras.
Na economia clássica, Marx (1867) trata do consumo produtivo com a visão de reprodução do capital, mas sem excluir a percepção da dimensão simbólica que os processos de consumo envolvem e, portanto, a sua relação com a dimensão cultural da sociedade. Para a antropologia o consumo é definido como o conjunto de processos socioculturais nos quais os produtos, a partir do ato de querer, desejar, experimentar, são apropriados de forma a atender as necessidades humanas, passando a sustentar a economia mundial.
Já na visão da sociologia, as pessoas utilizam as mercadorias de forma a criar vínculos ou estabelecer distinções sociais. O consumo é central no processo de reprodução social de qualquer sociedade, ou seja, todo e qualquer ato de consumo é essencialmente cultural e a sociedade moderna é caracterizada como uma sociedade de consumo. Isto significa admitir que o consumo está preenchendo, entre nós, uma função acima e além daquela de satisfação de necessidades materiais e de reprodução comum a todos os demais grupos sociais (BARBOSA, 2010).
Para o geógrafo David Harvey (2013), nas relações sociais do capitalismo, todos os produtos assumem uma forma de mercadoria. Algumas mercadorias desempenham, dentro do consumo, um papel semelhante àquele exercido no processo de produção pelo capital fixo33. As mercadorias não são consumidas diretamente, mas servem como instrumento de consumo (como: refrigeradores, televisores, casas) e podem ser agrupadas sob o título de bens de consumo. A distinção entre capital fixo e bens de consumo é baseada no uso das mercadorias e se diferem tanto com relação ao tempo de vida física quanto econômica, onde, alguns itens funcionam simultaneamente como meios de produção e como meios de consumo.
Quando ocorre a sobreacumulação34 na produção de bens de consumo (circuito primário), o capital tende a se deslocar para a produção do espaço ou ambiente construído (capital fixo – circuito secundário), permitindo, assim, uma possível recuperação da
32 Geografia crítica.
33 Capital fixo consiste no capital físico que é consumido durante um ciclo de produção. Para Harvey (2013), ele é imóvel no espaço, no sentido de que o valor nele incorporado não pode se mover sem ser destruído. Exemplo:
edifícios, máquinas e equipamentos.
34 É um conceito da economia Marxiana que define a situação através da que os investidores, ao não ter a expectativa de obter uma taxa de lucro que consideram suficiente, optam por deixar de reinvestir o seu capital e a mais valia, acumulando-os sem fins produtivos (MARX, 1987).
lucratividade (HARVEY, 2013). Assim, observa-se que, “o produto do processo produtivo é usado pela sociedade de duas formas: consumo e excedente” (CASTELLS, 2006, p. 49).
A extensão da lógica do capital fixo (circuito secundário) permitiu a introdução do conceito de ambiente construído, um sistema no qual compreende valores de uso incorporados na paisagem física que pode ser utilizado para a produção, a troca e o consumo. Harvey (2013) buscou compreender o funcionamento e a dinâmica espacial do sistema capitalista e sua função nas relações sociais contemporâneas e desenvolveu, a partir do pensamento de Lefebvre (2000), o que denominou de circuito secundário: a produção do espaço-mercadoria, o ajuste espacial como solução à superacumulação do capital. A produção do espaço com a importância do investimento imobiliário se consolida, assim, como um dos ramos de significativa importância para a reprodução da sociedade capitalista. Entende-se cada vez mais que o espaço, e especificamente o espaço urbano, realiza-se como mercadoria, emergindo como alternativa, também, para realização de capitais privados.
Nessa visão, o capital circula por meio dos bens de consumo e, à medida que o bem é vendido, retorna para o produtor na forma de moeda, os instrumentos de consumo assumem a forma de capital de mercadoria armazenado. Nesse caso, a circulação do capital muda um pouco devido a outros fatores, como: alugar ao invés de vender, pegar empréstimos com pagamento de juros, etc., como é o caso da moradia/casa. Por a casa possuir um alto valor de compra, na maioria das vezes, torna-se necessária a intervenção do proprietário junto ao sistema de crédito e/ou do Estado, a fim de viabilizar o acesso ao capital. Nesse caso, a aquisição dos bens de consumo via hipoteca ou crédito ao consumidor torna-se dependente de recursos financeiros.
Atenta-se, ainda, que a moradia ou aluguel a baixos custos, assim como o pagamento de juros, beneficia o capital.
A moradia como um produto de consumo possui características especiais e complexas, com implicações sobre a forma na qual ocorre a sua produção, seu consumo e sua inserção na estrutura urbana, tais quais: (i) demanda um lugar no espaço urbano, necessitando dos serviços disponíveis na cidade e ao mesmo tempo demanda a implantação desses serviços; (ii) possui alto valor agregado, preço elevado e tempo longo de produção; (iii) produção inelástica, sendo a oferta limitada em curto prazo; (iv) envolve grande número de agentes em sua produção – regulação, normas legais, financiamento, agentes públicos e privados; (v) produção pró-cíclica, sofre interferências quando ocorre mudanças bruscas nas condições econômicas e políticas, dificultando a sua comercialização, também se aplicando ao financiamento habitacional; (vi)
baixa liquidez, muda de mãos com pouca frequência; e (vii) consumo da habitação é indivisível, não pode ser consumido por partes (AZEVEDO, 1987; VALENÇA, 2003).
Decorre, dessas características, a dificuldade de acesso à habitação por grande parte da população, sendo esse ingresso fator de diferenciação social. Apesar da moradia ser necessidade imprescindível e direito de todos, ela não é acessível via mercado à maioria da população brasileira, devido à baixa renda e aos altos juros das taxas de financiamento (BARBOSA, 1998).
A dificuldade do processo de conquista da casa própria se dá pelo fato das políticas públicas de habitação tratarem a moradia como um produto econômico, passando a enxergá-lo como uma nova expansão do capital financeiro em detrimento de uma política social do Estado.
Considerando os serviços, observa-se que eles são atividades econômicas que criam valor e fornecem benefícios para clientes em tempos e lugares específicos de acordo com a mudança desejada ou de acordo com a necessidade do destinatário do serviço (LOVELOCK e WRIGHT, 2001). Compreende-se, também, a partir das ideias de Harvey (2013), que os instrumentos de consumo assumem o papel de mercadoria e a circulação do capital se dá por meio das locações, ao invés da venda.
Na visão dos economistas (clássicos35 e contemporâneos), os serviços sempre foram tratados como sendo um trabalho e o seu papel relacionado ao processo de geração de valor na economia (MEIRELLES, 2006). Os serviços são a essência do processo produtivo e por meio deles é que se criam produtos (SAY, 1803). Abarca-se assim que o serviço, sendo aplicado em toda atividade que realize trabalho, pode ser integrado como parte ativa dos processos produtivos. Para Lovelock e Wright (2001), os serviços atuam como atividade econômica, fornecendo benefícios específicos.
Apesar do amplo leque de interpretações sobre o serviço na visão econômica, todos fixam na característica que o serviço é diferente de um bem ou de um produto. Ele é um trabalho em processo, e não o resultado da ação do trabalho, sendo a sua existência o que garante a reprodução do capital, permitindo tratá-lo de forma integrada ao sistema econômico (MEIRELLES, 2006). Assim, alguns autores enveredam para as características de produção, e outros para as de consumo.
Para eles, são atributos do serviço: (a) simultaneidade: com a relação de produção e consumo simultânea no tempo e no espaço; (b) intangibilidade: que possuem valor econômico,
35 Autores clássicos (da metade do século XVIII até o século XIX): Adam Smith (1776), Jean Baptiste Say (1803), John Stuar Mill (1848), Karl Marx (1867) e Leon Walras (1874).
mas são desprovidos de substância física; (c) interatividade: com o vínculo entre prestadores e usuários durante o período de tempo necessário para a execução do serviço. Considera-se que os serviços são processos de trabalho que se estruturam numa relação contratual entre uma parte demandante e outra parte prestadora, fornecendo um valor agregado em formas que representam essencialmente interesses intangíveis como: diversão, conforto, saúde, etc. do seu comprador; e (d) inestocabilidade: resultando em um “produto” inestocável e irreversível, com seu consumo de forma simultânea à sua realização (GERSHUNY e MILES, 1983;
MARSHALL e WOOD, 1995; THOMAS, 1967).
Para Meirelles (2006), confundir serviço com produto final ou com os insumos utilizados nos meios de produção é um erro na compreensão da sua dinâmica econômica, pois impede a identificação da característica do serviço, que é a realização de trabalho. Para a autora, grande parte das atividades consideradas como serviço, como no caso de aluguéis de imóveis, pode ser atividades apenas baseadas na exploração de renda de um trabalho já realizado em processos produtivos anteriores.
Considerando a ideia de Marx (1867), a atividade de locação de imóveis, por se dar em uma base capitalista de produção, produz a atividade de moradia para famílias ou pessoas que não possuem renda suficiente para adquirir o bem produzido. Assim, a atividade de locação de imóveis, pode ser vista como um serviço que gera renda para o proprietário do bem adquirido anteriormente.
A locação de imóveis como serviço também pode ser entendida, pelo pensamento contemporâneo da economia, quando o bem alugado gera utilidade para o novo usuário produzindo riqueza. Sendo assim, neste trabalho a locação social é considerada um serviço a ser praticado pelo Estado.
Por fim, a habitação é um bem de consumo, ou uma mercadoria, e pode ser provida como um bem ou como um serviço onde, respectivamente, um leva para a construção de moradias próprias e o outro leva para o aluguel de moradias. Ambos devem ser utilizados em uma sociedade, se somando e se complementando no provimento habitacional e atendendo aos mais variados grupos e famílias, a depender das suas necessidades e viabilidade econômica.
1.4. Síntese das políticas habitacionais adotadas no Brasil: provisão da habitação como