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Bem-Estar Espiritual como Variável Mediadora

Capítulo VI – Análise e Discussão de Resultados

6.6. Bem-Estar Espiritual como Variável Mediadora

Para terminar a análise e discussão de dados, passar-se-á agora à análise da mediação do bem-estar espiritual na relação entre a liderança espiritual e a felicidade. Optou-se foi realizar um teste de mediação por duas razões: primeiro, porque o modelo analítico utilizado parecia indicar a existência de uma variável mediadora; e segundo, porque se verificou em alguns artigos (que utilizavam o mesmo modelo) a realização de um teste de mediação (Fry et al., 2017; Yang & Fry, 2018). No entanto, note-se que a mediação não é um teste que normalmente resulta de comprovação teórica, muitas vezes a opção de realizar uma mediação é consequência dos resultados empíricos.

A mediação implica uma relação entre todas as variáveis existentes. No entanto, quando agregada uma variável mediadora à equação, a magnitude presente da relação entre a variável independente e dependente diminui ou fica neutralizada. Nesta investigação pretende-se verificar se a relação entre a liderança espiritual e a felicidade é nula ou fica enfraquecida na presença do bem-estar espiritual (Vieira, 2009).

As equações demonstradas em seguida permitem definir as condições necessárias para a existência da mediação, sendo que representa a constante de cada equação e 𝜇 simboliza o valor dos resíduos.

83 𝑪 𝒅𝒊çã : 𝑌 = + 𝜃 + 𝜇 = 𝑖 𝑖 𝑎 = + 𝜃 + 𝜇 𝑪 𝒅𝒊çã : 14= + + 𝜇 = − 𝑎 𝑖 𝑖 𝑎 = + + 𝜇 𝑪 𝒅𝒊çã : 𝑌 = + + 𝜇 = 𝑖 𝑖 𝑎 = + + 𝜇

No entanto, antes de efetuar a análise da mediação importa observar se se verificam os pressupostos necessários à mediação (Vieira, 2009). Estes pressupostos verificam-se através da análise de uma regressão linear onde a variável dependente é a felicidade e as variáveis independentes são a liderança espiritual e o bem-estar espiritual.

O primeiro pressuposto que tem de ser cumprido é o da independência dos resíduos que pode ser verificado pelo valor do Durbin-Watson que, neste caso, assumiu o valor de 2,018. Field (2005) disse que se os valores para o Durbin-Watson se encontrarem entre 0 e aproximadamente 2, então pode-se considerar os resíduos são independentes e, como tal, os erros existentes devem-se ao próprio modelo. O segundo pressuposto pede que não existam outliers. Pressupõe-se não existência de outliers se os valores se encontrarem aproximadamente entre -3 e 3 (Pallant, 2011). O valor do resíduo mínimo tem o valor de -2,158 e máximo de 0,744, como tal, não existem outliers nesta regressão.

O terceiro pressuposto é o da multicolinearidade, isto é, as variáveis não podem estar excessivamente correlacionadas entre si por poderem tornar os resultados pouco confiáveis. Isto acontece porque

14 M – Variável Mediadora = Bem-Estar Espiritual

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elevadas correlações fazem com que os preditores se confundam entre si e na capacidade que têm em predizer a variável dependente. Entende-se por excessivamente correlacionadas, correlações superiores a 0,90. Para verificar o princípio da multicolinearidade, e tal como já foi mencionado, os valores de tolerância devem ser superiores a 0,10 e os do VIF inferiores a 10, condições verificadas nesta regressão (Pallant, 2011).

O quarto pressuposto é o da homocedasticidade e implica que os resíduos sigam mais ou menos uma distribuição linear e organizada. Desta forma, verifica-se o princípio da homocedasticidade dos resíduos padronizados (Field, 2005).

O último pressuposto é o da normalidade, isto é, a regressão deve seguir aproximadamente uma distribuição normal. Pelo teste do Kolmogorov-Smirnov a distribuição é aproximadamente normal com um coeficiente de significância de 0,009 (p˂0,05). Sendo possível verificar que a média é de 0,000 e o desvio padrão de 0,997.

Tendo sido cumpridos todos os pressupostos é possível passar agora à análise e discussão da mediação do bem-estar espiritual. De modo a perceber se existe ou não mediação, quatro condições têm de ser cumpridas.

A primeira condição diz que a relação entre a liderança espiritual e a felicidade tem de ser estatisticamente significativa (Vieira, 2009). Os dados revelam que a primeira condição é cumprida, podendo dizer-se que a relação entre as variáveis mencionadas é positiva e estatisticamente significativa para um intervalo de confiança a 95% (c = 0,38; t(149) = 4,70; p ˂ 0,000*). Além disso, verificou-se que o

Rquadrado teve um valor de 0,13, o que significa que 13% da felicidade é explicada pela liderança espiritual.

𝑖 𝑖 𝑎 = , + ,

A segunda condição pede que a relação entre a liderança espiritual e o bem-estar espiritual também seja estatisticamente significativa (Vieira, 2009). O modelo permite verificar o cumprimento da segunda

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condição sendo a relação positiva e estatisticamente significativa (c = 0,76; t(149) = 16,82; p ˂ 0,000*).

Segundo esta condição, a liderança espiritual é capaz de explicar 66% da variável bem-estar espiritual. − 𝑎 𝑖 𝑖 𝑎 = , + ,

A terceira condição assume que a correlação entre o bem-estar espiritual e a felicidade é, novamente, estatisticamente significativa (Vieira, 2009). Os dados permitem verificar, também, este pressuposto. Segundo estes, o bem-estar espiritual tem capacidade para explicar 17% da felicidade dos indivíduos e existe, entre eles, uma relação positiva e estatisticamente significativa (c = 0,37; t(148) = 2,57; p = 0,011*).

𝑖 𝑖 𝑎 = , + ,

Para terminar, a última condição para existir mediação é a existência de uma relação entre a liderança espiritual e a felicidade que não seja estatisticamente significativa na presença da variável mediadora, ou seja, na presença do bem-estar espiritual (Vieira, 2009). Analisando os dados é possível dizer que a relação entre a liderança espiritual e a felicidade, na presença do bem-estar espiritual não é estatisticamente significativa (c = 0,10; t(148) = 0,74; p = 0,46). Mais se adianta que não só o bem-estar

espiritual é variável mediadora como medeia completamente a relação entre a variável independente e dependente. A mediação completa verifica-se, não só pelo cumprimento das quatro condições, mas também por existir um efeito indireto que é demonstrado no valor mínimo e máximo do intervalo de confiança a 95% (- 0,17 e 0,36). O efeito indireto existe porque entre o mínimo e máximo do intervalo de confiança encontra-se o valor zero (Vieira, 2009).

Tabela 20: Mediação Total do Bem-Estar Espiritual

Condição Coef. Se IC 95% Teste-t15 p value Teste-f16 p value Rquadrado

1 0,38 0,08 0,22 - 0,53 4,7 p˂ 0,000* 22,14 p˂ 0,000* 0,13 2 0,76 0,04 0,67 - 0,85 16,82 p˂ 0,000* 283,07 p˂ 0,000* 0,66 3 0,37 0,14 0,08 - 0,65 2,57 p = 0,011* 14,78 p˂ 0,000* 0,17 4 0,1 0,13 -0,53 0,74 p = 0,4623 14,78 p˂ 0,000* 0,17 * p˂0,05

Os resultados permitem aceitar a quarta e última hipótese formulada, isto é, que o bem-estar espiritual medeia a relação entre a liderança espiritual e a felicidade dos indivíduos. Além disso, permite não só aceitar a hipótese como afirmar que a mediação do bem-estar espiritual é pura ou completa. Perante estes resultados, confirma-se o que alguns autores já diziam relativamente à relação positiva existente entre a liderança espiritual e o bem-estar espiritual ser capaz de gerar resultados positivos, quer

15 O teste-t permite avaliar a qualidade de cada preditor existente na mediação. 16 O teste-f permite avaliar se o modelo utilizado é o melhor.

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individuais, quer organizacionais (Yang & Fry, 2018). A liderança espiritual influencia o sentido de chamamento e associação e permite a satisfação das necessidades espirituais dos indivíduos. Posteriormente, a satisfação destas necessidades permite um aumento da saúde mental e da felicidade, tanto dos líderes como dos seus seguidores (Sweeney & Fry, 2012).