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CAPÍTULO III – O Julgado de Panoias: foros e rendas

3.1. Bens agrícolas

Em meados do séc. XIII toda a economia rural estava dominada pelo regime

alimentar, com predomínio dos policultivos, sobretudo, de subsistência745. Naquele

período ocorreram várias transformações político-sociais que conduziram à multiplicação de comunidades locais, pela necessidade de uma mais intensa ocupação e organização do território e à notória valorização das terras, reflexo da aplicação de novas técnicas agrícolas que permitiram um aumento da produção campesina, tão necessário para alimentar uma população em franco crescimento.

A organização do território de Panoias, já referida e documentada com o elevado número de cartas de foral e de povoamento que lhe foram outorgadas, confirma a crescente valorização daquelas terras agrícolas, verificando-se, já em 1258, a existência

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de algumas áreas bem estruturadas e parceladas, como confirma a estreita malha de microtopónimos encontrada nas inquirições daquele ano.

No que respeita especificamente à produção agrícola, as atas das inquirições indicam-nos alguns dos produtos produzidos na região em estudo (Mapa 7), os quais se encontram discriminados nos foros a pagar ao rei. Neles, destaca-se a produção de cereais que, como afirmou Iria Gonçalves, cultivavam-se por toda a parte, sendo a base da alimentação do homem medieval e que, por isso, “acompanhavam todas as instalações

humanas”746

.

No Julgado de Panoias, grande parte dos colonos “ levavõ ende a rraçõ do pã pera El Rej", o que parece corresponder a uma parte alíquota da produção de cereais, após a sua colheita, secagem e limpeza na eira. No entanto, o pão encontrava-se também nos

foros a solver anualmente aos pequenos proprietários, variando entre um747 e cinco748

moios ou entre dois749 e seis750 quarteiros de pão. De um casal que a igreja de S. Martinho

de Mateus tem em Gulpilhares "soija a dar vida ao moordomo j. pã e iij. ovos no ano e

outros foros desse lugar"751, apontando esta situação para um pão já cozido. Os textos não

nomeiam os cereais em causa, referindo apenas o pão e a cevada752. Mas nesta região

cultivava-se, por certo, trigo e centeio que, além de muito nutritivos, são plantas que suportam bem o frio e são pouco exigentes quanto à qualidade do solo, tendo, por isso, acompanhado a colonização de terras altas. Características semelhantes de adaptação tem a cevada que, além de pouco exigente em termos de solo, apresenta muita resistência às mudanças climáticas, o que permitiu a sua ampla difusão por toda a Europa medieval.

A produção vinícola também acompanhava a implantação humana. A vinha encontrava-se disseminada por toda a região e constituía uma parte importante da propriedade agrária, como comprova a descrição feita a uma série de herdades e

reguengos753, bem como o delineamento dos termos das propriedades e respetivas

confrontações. O vinho faz parte das direituras a pagar ao rei, variando entre seis

746 IRIA GONÇALVES, pp.32-42.

747 "…dan j. moijo de pã e outro de vinho e j. morabitino de Portagen…". PMH, Inq., p.1233, c.1. 748

"… v. moyos antre pã e vinho en cas hũn ano e seer serviçal (…) e o Rycomẽ dar a esse homẽ j. manto e jª. garnacha en cada hũn ano…". PMH, Inq., p.1216, c.2.

749 "… dava Bragaa iij quarteiros de pã a El Rey…". PMH, Inq., p.1216, c.2; "… outro Regeẽgo (…) devã a dar a El Rej en cada hũu

ano ij. quarteitos de pã…". PMH, Inq., p.1217, c.1.

750 "…encartado por vj. quarteiros de pã…". PMH, Inq., p.1227, c.2. 751 PMH, Inq., p.1213, c.1.

752 "… soyam a dar (…) vj teigas de cevada…". PMH, Inq., p.1257, c.1.

753 São várias as referências à vinha, enquanto parcela pertencente a uma determinada propriedade. A título de exemplo veja-se: “… o

casal que chamã das Meyadas (…) ora he feita vinha e j. castineiro e casas e chousa…”. PMH, Inq., p.1214, c.2; “… Dom Pero Mendiz (…) fes en esse Regeengo vinhas e devesas e chantados…”. PMH, Inq., p.1227, c.2.

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“puçaes”754

, um755 ou doze756 moios entre pão e vinho.

Parte de muitos outros produtos agrícolas, resultantes da exploração direta da terra ou da sua transformação, era absorvida pelos foros e pelas direituras a pagar ao senhor da

terra, por vezes em diferentes épocas do ano757. Além do pão e do vinho, pelas terras de

Panoias encontramos castanhas758, ovos759 e galinhas760, capões761, manteiga762,

cabrito763, leitão, carneiros764, lenha765, peles de coelho766 e fibras têxteis767. Esta

enumeração demonstra bem que os animais, tanto domésticos como selvagens, faziam

parte da vivência campesina e da alimentação das famílias mais abastecidas, sendo certo

queestes agricultores tinham o seu pequeno rebanho misto.

Outros produtos que faziam parte da alimentação do homem medieval eram as leguminosas que os agricultores cultivavam nas parcelas agrícolas mais próximas da sua residência, em espécies variadas, estando estas livres da punção senhorial. Efetivamente, a nossa fonte não regista a entrada de leguminosas nos foros a pagar, talvez porque os legumes não tinham entrada privilegiada na mesa do rei ou porque estes produtos eram rapidamente perecíveis. Do mesmo modo, muitas frutas que cresciam nas árvores em redor da habitação rural não são referidas na nossa documentação. Porém, os termos de uma povoação ou propriedade são muitas vezes definidos pelas árvores de fruto

espalhadas pelas várias parcelas, como o “Castinheiro da Corredoira”768

e a “Cerdeira

velha”769, nos termos de Roalde; a “nogeyra”770

que está sobre as casas de Rui Vasques, contra Abaças; a “Aveleira” e o “castinheiro que esta na cabeça de Lamares”, nos termos

de Ceides771.

Também a toponímia da região nos dá indicações muito relevantes da presença de determinadas espécies arbóreas na paisagem, designadamente, cerejeira, pereira,

754 "… soija a dar vj. puçaes de vinho…". PMH, Inq., p.1221, c.2.

755 "…dan j. moijo de pã e outro de vinho e j. morabitino de Portagen…". PMH, Inq., p.1233, c.1; "… dan de regeego que hj a j. moijo

de pã e i. moijo de vinho e j. Morabitino…". PMH, Inq., p.1236, c.1.

756 "… v. moyos antre pã e vinho en cas hũn ano …". PMH, Inq., p.1216, c.2; "… tijnha xij. moijos antre pan e vinho e ix. marcos de

derecturas en cada hũu ano…". PMH, Inq., p.1229, c.2.

757 De um casal de Sanfins davam " j cabrito per entruido". PMH, Inq., p.1231, c.1e2.

758 "…nõ lhi dan as meijas das dereituras nem do vinho nen das castanhas…". PMH, Inq., p.1231, c.2; "… dá a terça das castanhas e no

na há das outras cousas…". PMH, Inq., p.1233, c.1; "…derõ a raçõ do pã (…) e que venderon ende ia a el as castanhas…". PMH, Inq., p.1253, c.2. A castanha era imprescindível no alimento das populações, em especial as mais carenciadas. IRIA GONÇALVES, p.21.

759 "…soija a dar vida ao moordomo j. pã e iij. ovos …". PMH, Inq., p.1213, c.1. 760 "… davam ende en cada hũu ano cc. galinhas…". PMH, Inq., p.1229, c.1. 761 "… dava por esse regeego ij. moyos e ij. capões…".PMH, Inq., p.1252, c.1. 762

"… davã ende j. almude de manteiga…". PMH, Inq., p.1247, c.1.

763 "… j cabrito per entruido por condoijto ou j leitõ ou jª galinha qual deles tever...". PMH, Inq., p.1231, c.1e2. 764 "…davã (…) xx. moijos e ij. Carneiros e x. morabitinos dentrada…". PMH, Inq., p.1229, c.1.

765 "…deve a levar j. feixe de lenha quando pousar jª vez no ano na feijra a cozinha do ricomẽm…". PMH, Inq., p.1220, c.1. 766 "… soyam a dar (…) e vj. peles de coelhos …". PMH, Inq., p.1257, c.1.

767 "… sojia a dar en cada hũn ano iij varas e meija de Bragal a El Reij…". PMH, Inq., p.1216, c.2. 768 PMH, Inq., p.1236, c.2.

769 PMH, Inq., p.1238, c.2. 770 PMH, Inq., p.1242, c.1. 771 PMH, Inq., p.1248, c.1.

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macieira, figueira, castanheiro, azinheira e carvalho. Nos limites do Julgado de Panoias

encontra-se, a norte, a vila de Cerdeira772; na freguesia de Louredo encontramos “hũn

campo que iaz en Carvalhaes”773

; nos termos de Cativelos está a “Carvalha da Cruz”774;

em Mouçós “hu chamã Pereira avia El Reij jª peça regeẽga”; na freguesia de Alvações do

Corgo encontra-se o monte da Azinheira775; a “Ermida de San Salvador de Figueira”776,

que é sufragânea da igreja de S. Lourenço; os lugares de “Souto Royo”777

, Souto Meão778,

Souto de Ascarão779, Souto Queimado780, “Souto Fradinho”781, Souto de Telões782 e a vila

de Souto Maior783; a localidade de “portela de Maceeijra”784, atualmente integrada no

concelho de Mondim de Basto. De todas estas espécies os homens colhiam os seus frutos. O mel e a cera eram duas substâncias que ocupavam um papel preponderante na Idade Média, cada uma delas nas funções que lhe competia desempenhar. A presença da abelha no território ficou expressa também na toponímica da região, com o lugar de

“Abelheira”785

, na freguesia de Torre do Pinhão, e na cera que os homens de Vila Chã

davam ao arcebispo de Braga786.

O linho era também um dos produtos cultivados nas diversas freguesias do julgado, sendo a Fossadeira, contribuição anual que incidia sobre a propriedade vilã, normalmente paga num determinado número de varas de tela de linho grosseiro, ou em

“bragais”. Em Panoias este tributo oscilava entre "j. bragal"787

e "iij varas e meija de

Bragal"788, por ano. O plantio deste produto obedecia a algumas exigências em termos de

humidade do solo, devendo localizar-se nas proximidades dos veios fluviais. Tais características determinavam o uso específico e a denominação de parcelas agrárias, como comprovam as inquirições ao denunciarem que de um casal, localizado na “Magoira”, “El Rej nihil ha ende das direituras nẽ dos conchousos nẽ de casas nẽ de linhares nẽ de vinhas”. 772 PMH, Inq., p.1229, c.1. 773 PMH, Inq., p.1227, c.1. 774 PMH, Inq., p.1257, c.1. 775 PMH, Inq., p.1227, c.1. 776 PMH, Inq., p.1259, c.1. 777 PMH, Inq., p.1263, c.2. 778 PMH, Inq., p.1215, c.1. 779 PMH, Inq., p.1257, c.2. 780 PMH, Inq., p.1242, c.2. 781 PMH, Inq., p.1240, c.1. 782 PMH, Inq., p.1229, c.1. 783 PMH, Inq., p.1231, c.1. 784 PMH, Inq., p.1216, c.1 785 PMH, Inq., p.1248, c,1.

786 Os homens de Vila Chã davam "cada ano vj quarteiros antre pã e vinho e j bragal por cera e a terça de mortura". PMH, Inq., p.1261,

c.2.

787 PMH, Inq., pp.1229, c.2; 1231, c.1e2. 788 PMH, Inq., p.1216, c.2.

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Os espaços silvestres e os bosques possuíam também um importante valor económico naquela época, tanto a nível da recolha de frutos silvestres e madeira, como da caça e pesca. Todo o território era atravessado por uma apertada malha de cursos de água e em todos se pescava. As inquirições de Panoias não nos informam das características do pescado existente na região, mas sabemos que muitos colonos eram obrigados a ir à

introviscada, normalmente uma vez por ano789, tratando-se de um serviço a prestar ao rei

ou ao senhor da terra790, quando este se entregava ao exercício da pesca. Os textos em

análise referem que “davam prividiva ao ricomẽ os homeẽs de Raoaldi do pescado que hj

matava”791

, sendo, ao que parece, um tributo que incidia sobre o pescado.

A caça constituía também um setor económico e social de reconhecido valor no Portugal medieval. A carne dos animais e aves fazia parte da alimentação, tendo lugar de relevo na mesa dos grupos privilegiados e a atividade cinegética proporcionava momentos de lazer entre camponeses e nobres. Muitos dos homens eram obrigados a

acompanhar o rei ou o senhor quando estes quisessem “correr monte”792

, de acordo com o costume vigente nas suas respetivas terras. Uma importância semelhante teriam as aves de rapina que habitavam os cimos montanhosos ou os terrenos mais planos, como águias, açores, falcões, milhafres, gaviões e abutres. Na documentação em análise existem indícios seguros da primazia e nobreza do açor, pois sabemos que o rei deu um casal ao

pai do capelão da igreja de S. Martinho de Anta “por j. cavalo e jª açor”793

. Isto leva-nos a concluir que, tal como o cavalo dotado de um inquestionável valor, as aves de caça eram bem preciosas e a sua posse e utilização eram um sinal distintivo de poder e de prestígio social.