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UNIDADE 1 – O CÓDIGO CIVIL: PARTE GERAL

2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA

2.3. DOS BENS

Já estudamos os sujeitos de direito, que são as pessoas naturais e as pessoas jurídicas. Agora, vamos estudar os bens, que podem ser objetos de direito.

Os bens estão disciplinados nos artigos de 79 a 103 do Código Civil. Podem ser definidos como objetos das relações jurídicas estabelecidas entre as pessoas, sobre as quais recaem seus direitos.

Trata-se de tudo aquilo que interessa e tem utilidade para o ser humano, com valoração econômica e com aptidão para ser objeto de uma relação jurídica.

Na parte especial, o Código Civil, no Livro III, regulamenta os bens sob a denominação Direito das Coisas. A doutrina diferencia bem de coisa. No entanto, para o legislador civil, bem

equivale à coisa, já que no texto da legislação ele utiliza os dois termos sem fazer qualquer distinção (BRASIL, 2002).

Classificação dos bens

A necessidade de se classificar as várias espécies de bens decorre do fato de que não se pode aplicar as mesmas normas a todos. A classificação advém da própria legislação.

No Código Civil, temos a seguinte divisão:

• os bens considerados em si mesmos;

• os bens reciprocamente considerados;

• os bens considerados em relação ao titular do domínio (BRASIL, 2002).

Bens considerados em si mesmos

Vamos iniciar a análise pelos bens considerados em si mesmos, que são divididos, de acordo com o Código Civil (BRASIL, 2002), da seguinte forma:

1) Bens imóveis e bens móveis

Imóveis: são os bens que não podem ser transportados de um local para o outro, sob pena de destruição da sua substância. Se a remoção vier a ocorrer, certamente haverá a destruição do bem. Por exemplo: não consigo transportar um imóvel residencial de um local para outro sem destruir sua substância.

Móveis: são os bens que podem ser removidos de um lugar para outro, por força própria ou alheia. Os que se movem por força própria são os animais, conhecidos como "semoventes". Os que se movem por força alheia são carro, moto, computador, avião etc.

2) Bens fungíveis e bens infungíveis

Fungíveis: são os bens que podem ser substituídos por outros do mesmo gênero, qualidade e quantidade. Em regra, são bens móveis. Exemplo: cereais, peças de máquinas, dinheiro etc.

Infungíveis: são as coisas que não podem ser substituídas por outras. Em geral, são os bens imóveis.

Como exemplo, podemos citar um quadro de Portinari, uma escultura ou obra de arte, um imóvel residencial etc.

3) Bens consumíveis e bens inconsumíveis

Consumíveis: são os bens móveis cujo uso causa destruição imediata da própria substância; são as coisas que se exaurem em um só ato, com o primeiro uso, sendo também assim considerados os bens destinados à alienação, isto é, colocados à venda. Como exemplo, temos os alimentos, o dinheiro. Esses bens, depois de usados ou consumidos, acabam. Um livro guardado em sua casa é considerado inconsumível, mas disponível à venda numa prateleira de uma loja é considerado consumível.

Inconsumíveis: são os bens que proporcionam reiterada utilização ao homem, sem destruição da sua substância.

Isto significa que, ao contrário dos bens consumíveis, poderão ser usados reiteradas vezes. Como exemplo, podemos citar as roupas, os sapatos, os veículos etc.

4) Bens divisíveis e bens indivisíveis

Divisíveis: são as coisas que se podem repartir em frações distintas, de tal modo que mesmo divididas mantenham a mesma utilidade do todo. Cada parte

deve ser autônoma e conservar a mesma qualidade do todo. Exemplo: se repartimos uma saca de café, cada metade conservará as qualidades do produto, podendo ter a mesma utilização do todo, pois não ocorrerá alteração da substância.

Indivisíveis: são as coisas que não podem ser fracionadas sem alteração de sua substância, pois, se o forem, ter-se-á dano, uma vez que perderão sua identidade e seu valor econômico. Como exemplo de bem indivisível, podemos citar o cavalo de raça, que, obviamente, não pode ser dividido.

5) Bens singulares e bens coletivos

Singulares: são as coisas que, embora reunidas, se consideram por si só, independentemente das demais.

São consideradas em sua individualidade. As árvores de um jardim podem ser consideradas por si só, individualmente. Podem também ser consideradas coletivamente (o conjunto de árvores de um jardim).

Coletivos: são as coisas que, sendo compostas de várias coisas singulares, se consideram em conjunto, formando um todo. Dividem-se em universalidades de fato ou universalidades de direito. Universalidade de fato é o conjunto de bens singulares, corpóreos e homogêneos, com destinação unitária. Esses bens podem ser objetos de relação jurídica própria e independente. Como exemplo, podemos citar a biblioteca, o rebanho, o jardim, o estabelecimento empresarial, a galeria de quadros, entre outros. Nota-se que os bens dados como exemplo podem ser vendidos como um todo. Todavia, cada bem singular que compõe o bem coletivo pode ser objeto de relação jurídica própria e independente.

Universalidade de direito são bens singulares, corpóreos e heterogêneos, vistos coletivamente. Os bens que compõem a universalidade de direito podem também ser vistos de forma individual. Como exemplo, podemos citar o patrimônio, a massa falida e a herança.

Terminamos os bens considerados em si mesmos. Agora, veremos os bens reciprocamente considerados.

Bens reciprocamente considerados

Os bens reciprocamente considerados dividem se em:

1) Bens principais e acessórios

Principais: são as coisas que existem sobre si, abstrata ou concretamente. Essa coisa funciona por si só, exerce sua função e funcionalidade sem depender de outra.

Acessórios: são as coisas cuja existência supõe a da principal. Para existir e ter funcionalidade precisa do principal. O solo é o principal. O acessório é tudo o que nele se incorporar, como, por exemplo, uma árvore plantada. Os bens acessórios subdividem-se em:

benfeitorias, frutos e produtos. Benfeitorias são as obras ou despesas que se fazem em bem móvel ou imóvel para conservá-lo, melhorá-lo ou embelezá-lo. Subdividem-se, pois, em necessárias, úteis ou voluptuárias. Frutos são as utilidades produzidas periodicamente pela coisa;

podem ser naturais (produzidas organicamente pelas coisas principais naturais, como, por exemplo, a laranja);

industriais, decorrentes da atividade do homem sobre a natureza, como, por exemplo, a produção de uma fábrica, e civis, que são as rendas provenientes da utilização de um bem que uma pessoa concede a outra, como, por

exemplo, o aluguel. Produtos são as utilidades que se retiram da coisa, diminuindo-lhe a quantidade, como, por exemplo, o ouro retirado da mina. Ressalta-se que os produtos não se reproduzem periodicamente.

Após a análise dos bens reciprocamente considerados, passaremos àúltima classificação, que tratará dos bens considerados em relação ao titular do domínio.

Bens considerados em relação ao titular do domínio Esses bens subdividem-se em bens:

Públicos: são os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno. Nessa espécie, temos: bens de uso comum do povo, bens de uso especial e bens dominicais.

Particulares: são todos os outros bens que não se enquadram como públicos.

Bem de família

É impenhorável, nos termos da Lei n. 8.009/1990 (BRASIL, 1990). Existem dois regimes legais disciplinando o bem de família.

Regime do Código Civil: previsto nos artigos de 1.711 a 1.722 (BRASIL, 2002)

O regime do Código Civil exige a lavratura de uma escritura pública ou de um testamento instituindo um bem como sendo de família e o registro desses documentos. Destina-se até 1/3 do patrimônio como bem de família. Este regime é aplicado quando a pessoa tem como patrimônio mais de um imóvel.

Regime da Lei n. 8.009/1990 (BRASIL, 1990)

O regime da Lei n. 8.009/90 protege as pessoas que são proprietárias de um imóvel, utilizado como residência da família, além dos bens que guarnecem a residência.

Para que um bem seja considerado bem de família e seja insuscetível de penhora, é necessário que as dívidas que geraram a penhora sejam anteriores à instituição do bem de família. Exemplo: se eu estou devendo e, após, adquiro um imóvel residencial, este não será protegido. Porém, se primeiro comprei o imóvel residencial e depois adquiri as dívidas, meu imóvel estará protegido.

A Lei n. 8.009/90 (BRASIL, 1990) prevê exceções à impenhorabilidade. São elas: a penhora por dívidas relativas ao próprio imóvel e a possibilidade de penhora do único bem imóvel daquele que figurar como fiador em contrato de locação.

No documento NOÇÕES DE DIREITO CIVIL E PROCESSO CIVIL (páginas 42-48)