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APÊNDICE
Na íntegra: Carta elaborada por um colaborador da Eletronuclear disponibilizada por este na intranet da empresa e entregue a pesquisadora por um dos entrevistados.
Presidente, não vou me identificar e não vou informar a Usina em que estou trabalhando. Não é por covardia, mas por prevenção. Mas quem sabe um dia eu aprenda a confiar?
Sou um dos novos e acho que essa é a única empresa onde um funcionário com dez anos de casa e às vezes mais, continua sendo considerado um novato. Passei num concurso e estou esperando ser chamado. Só que enquanto não acontece vou ficando e fazendo o meu trabalho do jeito que posso.
Por que sou novato é que quero sair. Sabe? Salário de novato é muito baixo e na Eletro é que não vai subir. Muitos companheiros já sacaram isso e foram embora. Muitos mesmo ainda vão sair. Mas se a coisa fosse só salário, até que eu ficaria.
Essa carta é para mostrar ao presidente que a empresa não é o que parece. Esse papo de missão e meta e ética, é tudo para inglês ver. Na prática, só os da política é que se dão bem. Começa com a distribuição insana da mão de obra. Tem gente que trabalha por dez e tem gente que não faz nada o tempo inteiro. Se for engenheiro, aí é que é acobertado mesmo. No controle de ponto tudo bem, mas na prática, se quiser se esconder do funcionário, é só entrar na sala dele. Em Angra 1 então a coisa é feia.
Uma outra coisa que ta derrubando a empresa é a falta de preparo da gerência. É a maior máfia onde não importa a capacidade de cada um. Exemplo, tem um desses chefes que nem consegue completar frases e é absolutamente obtuso. Não consegue conversar com o homem, mas como é amigo do diretor e tem veleiro também, todo mundo finge que tudo está bem. Só a chefia se faz de morta, mas os funcionários sabem como o homem é. Mas vai falar contra o peixe do Pedrão.
Agora a empresa trouxe essa palestra sobre assédio. O que mais acontece é chefe humilhando funcionário em público. Nas duas usinas acontece isso e já virou rotina e a coisa é tão comum que eu acho que eles nem se tocam para o que está acontecendo. Comigo ainda não aconteceu, mas a maioria dos companheiros que saíram já passaram por isso. Parece que essa doença é contagiosa, porque os encarregados, supervisores, gerentes estão contaminados. Todo mundo comenta que é imitação. Aprenderam com o Diretor, e com os três superintendentes. Os chefes morrem de medo do Diretor. Ele é quem manda na empresa. A idéia que a gente tem como funcionário é que além desses quatros, os outros chefes são simbólicos. Ganham como chefes, parecem chefes, mas na hora de resolver as coisas é só sim senhor e não senhor. Senão perde o cargo.
Em Angra dois a coisa é pior, porque o super, quase não fala com ninguém, como se diz, tem o rei na barriga. Passa pelas pessoas e não vê, principalmente se o nível do funcionário for baixo. Deve achar que é vergonhoso falar com peão. Aliás, só vê quando quer humilhar ou cobrar alguma coisa. Chegou sem saber nada e vai ficar sem saber porque a turma não vai passar informação e nem ajudar. Por causa do nariz em pé. Já o segundo dele é gente boa. Em Angra I, a coisa também não é boa porque o super brinca com todo mundo e com a mesma facilidade ferra o peão. Pouca gente confia nele. Muita gente acha o homem perigoso. O segundo dele também não fica atrás.
Então, sabe quem tem padrinho, não existe regra para ele, porque as regras são todas alteradas de acordo com as conveniências de cada chefe. Isso vale para promoção, moradia, cursos, abonos. Quem é peixe tem tudo e quem não é peixe se afoga.
O presidente não precisa acreditar. Deve investigar. O câncer na Eletro e o poder exagerado na mão de uns poucos chefes.
Se der certo a minha saída, eu sei que agora vou ganhando menos,mas vou pra uma empresa que dá perspectiva e demonstra respeito. Sei que lá também tem problema, mas as coisas funcionam porque as regras são pra valer. Mas pelo menos é uma empresa só e não várias com o mesmo nome como acontece na ETN.
Ex: A Internet em Angra é liberada uma hora/dia. Na sede o tempo todo. Nas usinas o horário é super controlado e na sede, é só passar pela correntinha e ficar o dia todo fazendo compras, e o pior é que os chefes fingem que não estão vendo.
Lendo o código de ética e conduta da Eletro a gente acha que essa empresa é de primeiro mundo. Quem compara o que lê com a prática, vê que a Eletro está na Idade da Pedra e desse jeito vai afundar. É IN pra todo lado, mas na prática é tudo como a chefia quer. Nesse ponto a empresa é igual em qualquer gerência. Outra coisa, os chefes são bonecos na mão do diretor. Eles tem muita pose mas não tem poder, quer dizer, pra quem tá por baixo, eles fazem questão de mostrar que tem, acho que é auto-afirmação.
Boa sorte presidente. A Eletro tem quase tudo pra dar certo, falta só respeito aos funcionários e chefes que entendam isso.
MATERIAL CEDIDO PELO DIRETOR DE COMUNICAÇÃO DA EMPRESA,