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BIBLIOTECA ESCOLAR COMO EQUIPAMENTO SOCIAL E LUGAR

2. AS BIBLIOTECAS ESCOLARES NO BRASIL: UMA HISTÓRIA A SER

2.4. BIBLIOTECA ESCOLAR COMO EQUIPAMENTO SOCIAL E LUGAR

Feira de Santana, cidade sertaneja com quase um século e meio de existência37, atualmente com população estimada de 612.000 habitantes, segundo dados do IBGE 2014, reuniu muitas histórias até ascender a tal posto. Cravada no sertão baiano, teve sua origem marcada pela reunião de tropeiros, vaqueiros,

37Segundo Morais (2004, p.20) “as origens, pode-se dizer que a população da região de Feira de

Santana data do primeiro quartel do século XVII”. No entanto, tomamos neste texto a existência a partir da sua denominação de cidade (1873).

viajantes que por ali passavam com destino para inúmeros outros roteiros, como Cachoeira, São Amaro, Salvador, e que encontravam nas terras de Santana as condições para pernoitar. Surge como feira, ou melhor, como lugar de trocas, comercialização de animais, produtos agrícolas e, aos poucos, ganha status de vila. Só passou a posto de cidade em 1873, quando recebeu o nome de Cidade Comercial de Feira de Santana. Nas primeiras décadas do século XX, mais precisamente em 1938, essa denominação foi simplificada para Feira de Santana.

Seu processo de desenvolvimento como cidade traz fortes marcas das raízes comerciais, e ainda nos dias atuais, mantem o comércio como sua principal fonte de arrecadação. Como segunda maior cidade do Estado da Bahia, perdendo apenas para a capital, Feira de Santana possui hoje, como fonte de renda, além do comércio, a pecuária, a indústria e a prestação de serviços. Segundo Freitas (2010, p.06)

A expansão do setor terciário faz com que Feira de Santana garanta sua presença marcante no Estado, consolidando a incontestável capacidade de atender à demanda regional/local de prestação de serviços, especialmente nas áreas de educação, saúde, produtos alimentícios, vestuário, eletrodomésticos etc.

No tocante ao cenário educacional, a cidade possui 374 escolas envolvendo as três redes (estadual, municipal e particular), que oferecem o Ensino Fundamental, e 70 que ofertam o Ensino Médio38. Sobre os dados envolvendo o Ensino Superior, a cidade dispõe de uma universidade estadual – Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS; um campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB; um campus do Instituto Federal da Bahia - IFBA e mais de três dezenas de faculdades particulares39.

A UEFS é a instituição de ensino superior mais antiga da cidade40. Surgiu no cenário feirense ainda em 1968 como Faculdade de Educação de Feira de Santana, com sede nas instalações da antiga Escola Normal de Feira, hoje abrigando o

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Não é possível afirmar que o total de escolas entre Ensino Fundamental e Médio seria 444, pois algumas oferecem tanto fundamental quanto médio.

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A UEFS está instalada em Feira de Santana desde 1976, a UFRB desde 2014, o IFBA desde 2013, e as demais faculdades particulares surgem no cenário da expansão do ensino superior apregoado pós a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, lei n. 9.394/96.

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Para aprofundar a história da UEFS, ver: SANTOS, Ana Maria Fontes dos. Uma aventura

universitária no sertão baiano: da Faculdade de Educação à Universidade Estadual de Feira de

Centro Universitário de Cultura e Artes (CUCA). Em 1969 passa a Fundação Universidade de Feira de Santana e em 1976 assume a denominação atual. Ao longo de seus 41 anos, a instituição vem cumprindo um importante papel social, político e educacional na formação de profissionais nas diversas áreas do saber. Seu papel relevante não se circunscreve apenas à região de Feira de Santana, mas a todo o Estado e ao território brasileiro. A UEFS, desde quando foi criada, teve, e ainda hoje mantem, uma forte vocação para o ensino. Atualmente oferece 27 (vinte e sete) cursos regulares de graduação, sendo 14 (catorze) bacharelados e 13 (treze) licenciaturas, em diversas áreas do conhecimento. Além dos cursos de latu sensu e strictu sensu.

A expansão significativa, tanto territorial quanto sócio cultural que a cidade sofreu ao longo da sua história, foi publicizada por Ramos (2007, p.15) quando afirma que

Feira de Santana das primeiras décadas do século XX sofre pressões por parte da elite local no sentido de que fossem operadas mudanças na sua configuração através do uso de determinadas estratégias para a administração da diversidade urbana. A fim de adequar o seu perfil, as mudanças que foram paulatinamente “impostas” iam desde a forma de construção das moradias, até comportamentos, brincadeiras, atitudes e hábitos cotidianos nos costumes da população (RAMOS, 2007, p. 15).

A cidade de Feira de Santana tem sua história contada e cantada em prosas e versos por poetas, cancioneiros, músicos e artistas plásticos, além de muitos estudiosos e pesquisadores que desbravam suas memórias, seus rastros, suas marcas e descortinam histórias de uma cidade que não para de crescer nem de se tecer a cada nova urdidura41.

A cidade nasceu com e do movimento de tropeiros, mas logo almejou ser uma princesa, conforme intitula o escritor Ruy Barbosa, quando visitou a cidade e, mesmo localizada no agreste baiano, dá-lhe a alcunha de "Princesa do Sertão". Segundo Gama (2012), professor aposentado da UEFS e estudioso do município, afirma que em uma conferência realizada na cidade em dezembro de 1919, Ruy Barbosa declarou que a localidade mereceria receber o título de “Princesa do

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Para conhecer mais e aprofundar sobre a história de Feira de Santana ver: Oliveira, 2000; Ramos, 2007; Simões, 2007; Oliveira, 2011, entre outros. Sobre a história da educação do/no município algumas pesquisas são importantes como: Sousa, 1999; Oliveira, 2013; Carneiro, 2009; Cruz, 2008, entre outras.

Sertão”, pois a dinâmica local dava ao município o posto de cidade mais importante do interior do Estado, o que corresponderia a uma espécie de segunda capital da Bahia. E para isso não se furta aos encantos e seduções de um contexto de modernização, que, segundo Giddens (1991, p.11), “emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência”.

Em todos os cantos e recantos da cidade as demandas vão se impondo, quer seja na ampliação e melhoramento das ruas, prédios e construções, quer seja nas posturas e comportamentos da população (OLIVEIRA, 2011; RAMOS, 2007). Buscando oferecer à cidade um status de progresso, o então prefeito municipal da época, Dr. Theodulo Carvalho, lança o Código de Posturas, por meio do Decreto-Lei N. 1, de 29 de dezembro de 1937.

Considerando que o Código Municipal em vigor, datado de 1893, não satisfaz as necessidades reclamadas pelo progresso da cidade; Considerando que a technica moderna favorece as cidades com, elementos inteiramente novos, para os quaes, faz-se mister crear legislação adequada;

Considerando que a pratica, nas grandes cidades, vem orientando as respectivas Municipalidades no sentido de adoptarem novos Códigos, compatíveis com a época presente;

Considerando que o actual Código Municipal, e os decretos que crearam novos direitos e deveres aos munícipes, não correspondem às aspirações do momento;

Considerando ainda, que a municipalidade de Feira, não pode ficar por mais tempo, na falta de um Código que a resguarde das faltas que sua legislação actual, omissa como é, oferece;

Considerando finalmente, que é imperiosa a necessidade de se outorgar à Cidade de Feira, um Código compatível com as exigências do seu progresso. (CÓDIGO DE POSTURAS, 1937, p.3- 4) (Grifo nosso)

Esse mesmo Código de Posturas foi alterado em 18 de janeiro de 1963, apenas no que se refere aos valores das multas previstas. Em 1967, outra versão é aprovada, agora sendo Lei n. 518 de 06 de janeiro de 1967. Na sua última versão, em seu Art. 1.º, Das Disposições Preliminares, anuncia que

Êste Código contém medidas de polícia administrativa a cargo do Município em matéria de higiene, ordem pública e funcionamento dos estabelecimentos comerciais e industriais, estatuindo as necessárias relações entre o poder público local e os munícipes.

Numa leitura desses materiais, com intuito de investigar o que havia sobre as instituições escolares e sobre a biblioteca municipal, uma vez que esta última havia sido fundada em 1890, e sendo um órgão importante no cenário de progresso e de oferta de novas práticas de sociabilidades, ressaltamos que não foi encontrada nenhuma referência no documento acerca do uso e usufruto desse equipamento social pela comunidade.

A omissão pelo Código de Posturas sobre a Biblioteca Municipal e demais estabelecimentos de ensino soa aos nossos ouvidos como certa indiferença ao papel que estas instituições exerciam no cenário feirense, mais especificamente a Biblioteca Municipal. Ela foi criada em 1890, e passa a ter nova sede42 em 08 de abril de 1962 e, na época de sua inauguração, é considerada “a melhor já construída desse gênero no Interior” (Histórico da Biblioteca Municipal Arnold Silva, p. 04). Portanto, um Código de Posturas publicado em 1967, apenas cinco anos após a sua inauguração, não se referir à biblioteca, nem ao menos inclui-la no Capítulo II - Dos Divertimentos Públicos, quando este se refere, em seu Art. 66, – “Divertimentos públicos, para efeitos dêste Código, são os que se realizarem nas vias públicas, ou em recintos fechados de livre acesso ao público”, soa, no mínimo, estranho.

A lacuna percebida sobre a citação da Biblioteca Municipal no Código de Posturas dá-se por entender que esse era um importante órgão público que oferecia à comunidade, além das tradicionais Seções de Periódicos, Referência; Infanto- juvenil e Circulante, um auditório para reuniões com 180 lugares. Logo, um espaço que poderia agregar, desde conferências, palestras, como também pequenas peças de teatro. Desse modo, sua construção moderna, projetada pelo arquiteto baiano Aurelino Teles, sem dúvida, deve ter atendido aos requisitos previstos e instituídos pelo Código de Posturas.

Permaneço mais um pouco na mesma linha de conhecer mais sobre o lugar da Biblioteca Municipal na configuração e cenário feirense, e assim compreender a contribuição desta na construção de novas práticas de sociabilidades e formação leitora.

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Até essa data a Biblioteca Municipal funcionava em um prédio localizado na Praça João Pedreira, hoje Avenida Sr. dos Passos em cruzamento com a Avenida Getúlio Vargas.

2.5 NOTAS SOBRE AS BIBLIOTECAS NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO