• Nenhum resultado encontrado

2. MÉTODO Os caminhos trilhados no estudo

3.5 Classificação dos bilhetes sobre conflitos

3.5.5 Bilhetes sobre conflitos envolvendo pares

Foram poucos os bilhetes que abordavam conflitos “envolvendo pares”. Destaca-se que dos 429 bilhetes, somente em 8 foram identificadas mensagens com esse conteúdo, todos na amostra da escola privada. Ao analisá-los, consideramos três aspectos.

No primeiro deles, foi analisado se o olhar da escola para o conflito entre os alunos estava no fato de romperem a ordem estabelecida no ambiente escolar. O exemplo a seguir informa sobre uma ocorrência envolvendo dois colegas por meio de um modelo padrão de advertência,

xerocada com as lacunas, para que a orientadora completasse com os dados do aluno e o motivo (trecho sublinhado).

(8º ano_PA)

Srs Pais/ Responsáveis,

Comunicamos-lhes que seu filho CAI, no. 10, aluno do 8º ano do Ensino Fundamental II, foi nesta data advertido por brincadeira inadequada: chutou o colega ‘sem motivo’ durante a ‘troca’ de aula em 8/05.

De acordo com as normas internas, uma próxima ocorrência em relação à postura do aluno no Colégio, implicará em sua suspensão.

Nome da Orientadora Educacional

O segundo aspecto era se o enfoque estava na atitude dos envolvidos, ou seja, se demonstrava uma preocupação com o fato de estarem usando estratégias impulsivas, agressivas ou desrespeitosas para lidar com seus conflitos. Não foi encontrado nenhum bilhete que pudesse ser classificado nesse grupo.

O terceiro aspecto dizia respeito ao bilhete que parecia ter sido escrito principalmente para dar satisfação aos pais sobre conflitos ocorridos na escola em que seus filhos estavam envolvidos, a fim de evitar situações embaraçosas posteriormente. Em alguns casos, o professor enviava resposta a problemas que tinham acontecido anteriormente na escola, mas que só tinha tomado conhecimento do ocorrido quando informado pelos familiares por meio de um bilhete ou telefonema. Isso acontecia, pois as crianças somente contavam em casa algo que havia acontecido na escola, mas que o professor desconhecia, uma vez que os envolvidos não relatavam nada para ele no momento da ocorrência. A seguir é apresentado um bilhete em que a professora dá satisfação à família pelo fato de o aluno retornar da aula com uma marca no pescoço.

(5º ano_PA) Nome da mãe

Hoje o FRA se envolveu em uma brincadeira no parque e enrolou o pescoço em um elástico, machucando-o.

Tomamos as providências e conversamos com as crianças envolvidas. Atenciosamente Professora

No quadro a seguir, está o resumo dos aspectos observados no conteúdo dos bilhetes sobre conflitos “envolvendo pares”.

Quadro 10 – Descrição das classes da subcategoria “Conflitos envolvendo pares”.

Subcategoria: “Conflitos envolvendo pares”

Classes Descrição

Rompimento da ordem Conflito que perturba a ordem estabelecida no ambiente escolar. Ex.: Esconder o material do outro.

Atitudes desrespeitosas Os envolvidos empregam atos impulsivos, agressivos ou desrespeitosos em situações de conflito.

Ex.: Um aluno responde a uma provocação com um soco e a escola informa que este resolveu tal problema usando de agressão no lugar de diálogo.

Satisfação aos pais São dadas satisfações aos pais sobre determinado conflito ocorrido na escola envolvendo seu filho visando evitar situações embaraçosas.

Ex.: Avisar que, após receber um empurrão de algum colega, o aluno caiu fazendo um hematoma, além de informar as providências tomadas pelo adulto.

Dos 8 bilhetes, 5 se referiam à satisfação aos pais e 3 demonstravam que o conflito perturbou a ordem, evidenciando que o enfoque estava em quebrar o “equilíbrio” do ambiente. Assim, duas interpretações para os “conflitos envolvendo pares” foram identificadas nos bilhetes para a família. A primeira tratava mais de um ato de esclarecimento sobre um fato que poderia desagradar aos pais e, na segunda, ficava evidente que o problema do conflito residia principalmente na ruptura do equilíbrio.

Os bilhetes sobre conflitos “envolvendo pares” foram observados de acordo com a série a que pertenciam. No 2º e no 5º ano tivemos 5 bilhetes que versavam sobre dar uma satisfação aos pais sobre ocorrências entre colegas na escola, principalmente quando a criança ficou com alguma marca física (machucado), evitando possíveis complicações. Parecia haver uma preocupação desses professores em informar os pais antes que a criança chegasse a sua casa e contasse o fato a partir de sua perspectiva.

Os demais bilhetes “envolvendo pares” do 8º ano (3) tinham como foco o “rompimento da ordem” e a busca por seu restabelecimento. Nessa turma, formada por adolescentes, o enfoque da escola muda quanto a esse tipo de problema, pois eles perturbam a ordem e a rotina escolar, o que deve ser evitado. Por esse motivo, pareceu-nos que as famílias são informadas para que tomem medidas em casa que auxiliem a evitar que voltem a acontecer. Mesmo em casos de agressão física que pudessem machucar os envolvidos, o foco não estava na relação, nas atitudes ou na preocupação de dar satisfação aos pais, mas sim em restabelecer e manter o equilíbrio rompido.

Diante de alguns desentendimentos entre os pares, era comum que os professores deixassem que fossem resolvidos pelos próprios sujeitos, a não ser quando havia alguma consequência mais séria, o que não ocorria quando o problema era com a autoridade. O relato apresentado a seguir, extraído dos protocolos de observação do 5º ano_PU, ilustra essa constatação.

As crianças começaram a entrar na sala após o final do horário de recreio. A agitação era constante, pois falavam alto, brincavam, faziam gracinhas umas com as outras. Eu estava sentada no fundo da classe fotografando os bilhetes no caderno quando alguns meninos se dirigiram em minha direção, pois se sentavam nas carteiras a minha frente. Começaram a brincar “peitando” um ao outro, ou seja, estufavam o peito abrindo os ombros e se encaravam como se quisessem demonstrar o quanto eram “fortes”. Logo houve contato físico e o que era brincadeira, deu origem ao conflito. Quando um deles se afastou e sentou em seu lugar, o outro empurrou rapidamente a mesa para que prensasse o colega na cadeira, que começou a chorar. Como todos estavam na classe a professora entrou. Ao ver que o garoto chorava, levantou a voz dando uma bronca dizendo que nem queria saber o motivo. Mandou que engolisse o choro. Censurou oralmente também o agressor, dizendo-lhe que não era nenhum “santo” e mandando que sentasse sem demora. Em seguida, voltou a colocar o ponto na lousa retomando a atividade que tinha iniciado antes do lanche.

Verificou-se, portanto, que todos os dados eram da mesma escola corroborando com a ideia de que na instituição privada havia grande preocupação em manter os pais informados sobre qualquer situação fora da rotina que acontecesse envolvendo seu filho. O mesmo não aconteceu na outra, onde geralmente os conflitos envolvendo os pares poucas vezes eram levados em conta pelos educadores. Parece-nos que o foco da escola não está na possibilidade de favorecer o desenvolvimento da autonomia por meio da cooperação e da reciprocidade.

A última categoria de classificação dos bilhetes se refere aos que abordavam as “regras convencionais” da escola, cujos dados serão apresentados nesse próximo item.