4. O PROGRAMA NACIONAL DE PRODUÇÃO E USO DO BIODIESEL
4.3. AS VANTAGENS DO BIODIESEL PARA O BRASIL
4.4.4. O biodiesel e o mercado de carbono
Inúmeras são as oportunidades para o Brasil de desenvolvimento de novos mercados ligados à implantação de fontes mais limpas de energia, com ampliações de renda, empregos e divisas que levariam ao desenvolvimento regional sustentável, fundamental para o crescimento da economia brasileira.
O impulso para o crescimento e busca por fontes de energia renováveis e limpas resulta principalmente das instabilidades relacionadas ao fornecimento de petróleo, e ao cumprimento de tratados/acordos internacionais de redução/abolição de gases de efeito estufa (GEE); exigências legais; e obrigação moral de promoção do Desenvolvimento Sustentável, visto que tais recursos energéticos apresentam potencialidade em agregar benefícios sociais, ambientais e econômicos.
Há, basicamente, duas estratégias para lidar com a mudança climática: mitigação da mudança climática, pela redução das emissões de GEE ou pelo aumento dos estoques de carbono, e adaptação aos impactos das mudanças climáticas.
Os desafios da mitigação e adaptação são muito diferentes, pois a mitigação ataca a causa da mudança climática e a adaptação os efeitos; a mitigação é focalizada nos emissores de GEE e a adaptação é focalizada nos impactos e na sensibilidade setorial ou local; a mitigação tem um efeito global, sobre um bem público global, a atmosfera, enquanto a adaptação tem um efeito local; os benefícios da mitigação são demorados, distinto de alguns benefícios da adaptação que podem ser imediatos.
Por outro lado, as medidas de adaptação e mitigação podem mostrar importante relacionamento entre elas, incluindo possíveis interações e complementaridades A sinergia ou integração entre estratégias de adaptação e mitigação às mudanças climática são criadas quando a adoção de medidas de redução das emissões de GEE ou o aumento de sumidouros também reduzem os efeitos adversos da mudança climática, ou vice-versa.
Um exemplo ilustrativo são as práticas agrícolas que promovem a conservação do solo e da água, como o cultivo mínimo e o plantio direto. Essas práticas reduzem as emissões de GEE tanto do solo - redução da emissão do carbono orgânico (matéria orgânica) - quanto em relação ao menor uso de mecanização (combustível fósseis) e fertilizantes (emissão de N2O) Por outro lado, estas técnicas aumentam a adaptação desses sistemas às mudanças climáticas e tendem a aumentar a produtividade agrícola, podendo, em algumas regiões, contribuir para a segurança alimentar, diminuindo a vulnerabilidade de determinada população rural.
No Brasil, a produção de biodiesel pode envolver as comunidades agrícolas, especialmente, as mais enfraquecidas pelos processos de desenvolvimento vigentes e, ao mesmo tempo, permitir a inclusão social dessa população rural, reduzindo sua vulnerabilidade aos impactos de mudança climática.
Cabe ressaltar que em comparação aos outros setores da economia, o setor agrícola é uma atividade extremamente vulnerável à mudança climática, uma vez que o clima é o fator mais importante na determinação da sustentabilidade de sistemas de produção agrícolas. As comunidades que dependem dos recursos naturais para sua sobrevivência estão entre as mais duramente afetadas pelas mudanças climáticas. Além disso, quando as plantações de biomassa para fins energéticos são bem localizadas, planejadas e manejadas, podem gerar serviços ambientais adicionais, como a redução de nutriente lixiviado pela erosão, o acumulo de
carbono no solo, conduzir à melhora de fertilidade de terra e contribuir para o fomento da diversificação de cultivos adaptados as condições climáticas atuais e futuras.
De acordo com as regras determinadas pelos artigos 2 e 3 do Protocolo de Kyoto apresentadas no Brasil pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, os países ou partes listados em seu Anexo 1 devem cumprir seus compromissos de redução de emissões de GEE, minimizando os impactos adversos ambientais, sociais e econômicos, a fim de promover o desenvolvimento sustentável. Estas reduções devem ser obtidas a partir de modificações de suas atividades antrópicas. Porém, frente às dificuldades tecnológicas, econômicas, físicas, entre outras, são permitidos mecanismos de flexibilização. Os artigos 6 e 12 do tratado definem como mecanismos de flexibilização a transferência de Unidades de Redução de Emissões (URE) entre as partes signatárias, sendo cada unidade medida em tonelada de CO2 equivalente (CO2eq).
Existem três tipos de mecanismos de flexibilização: Comércio de Emissões, Implementação Conjunta e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Os dois primeiros são aplicados para transferência de URE apenas entre países do Anexo 1 do Protocolo. Já o MDL estabelece as regras para a transferência de URE de signatários não Anexo 1 para signatários do Anexo 1. As unidades de redução de emissões decorrentes de flexibilização do tipo MDL são denominadas Certificados de Emissões Reduzidas (CER).
Sendo o Brasil um país signatário do Protocolo de Kyoto e não constante do Anexo 1, o procedimento para MDL é a melhor opção de comercialização de Créditos de Carbono, e as regras para implantação de MDL são: a participação das partes envolvidas deve ser voluntária; os CER devem ser mensuráveis, reais e de longo prazo; as reduções de emissões
devem ser adicionais àquelas que ocorreriam sem MDL; e, minimização dos impactos adversos ambientais, sociais e econômicos, e promoção do desenvolvimento sustentável.
Para posicionarmos o cenário de produção e consumo de biodiesel no Brasil dentro do contexto do Protocolo de Kyoto, devemos analisar o panorama brasileiro, tanto para produção, como para consumo deste combustível.
Os projetos de MDL podem ser classificados em três tipos básicos. Primeiro, os projetos de seqüestro ou fixação de carbono (florestamento e reflorestamento) que resultam da formação de estoques dinâmicos de carbono fixado em formações florestais. O segundo tipo é conhecido como de eficiência energética, resultante de ações de redução de consumo de energia ou prevenção de emissões geradas por fontes não-renováveis (como a substituição do consumo de energia elétrica produzida em usinas termelétricas por unidades eólicas ou solares). Um terceiro tipo é a redução de emissões de carbono pela redução no consumo de combustíveis fósseis por uso de fontes renováveis, como no caso do biodiesel.
Dessa forma a substituição de um combustível fóssil por um renovável (biodiesel), para utilização no setor de transporte, ou na geração de energia, pode ser objeto de uma atividade de projeto MDL. No entanto, como comentado acima e estabelecido no Artigo 12 do Protocolo de Kyoto, para ser elegível como projeto MDL, as reduções de emissões devem ser adicionais às que ocorreriam na ausência da atividade certificada de projeto.
Para estabelecer o que se define como redução adicional, deve-se considerar um cenário de referência (Linha de Base) e a redução deve ser adicional a essa Linha de Base. Já no que tange à definição de adicionalidade, para que um projeto de substituição parcial ou total de combustível fóssil por biodiesel no setor de transporte seja adicional, é necessário
considerar, a partir de 2008, como cenário de referência (Linha de Base) as adições obrigatórias (de biodiesel ao diesel) previstas em Lei no Brasil (Hoje a mistura de 4%).
O governo brasileiro elaborou o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) que tem por objetivo implementar a produção de biodiesel de forma sustentável, tanto técnica, como economicamente, com enfoque na inclusão social e no desenvolvimento regional, via geração de emprego e renda. Observa-se ainda que o programa exige a utilização de terras inadequadas para o plantio de gêneros alimentícios.
Os processos produtivo do biodiesel mais utilizados no país são de transesterificação pela rota metílica ou etílica, que utiliza como matérias-primas ácidos graxos (óleo vegetal ou gordura), catalisador (normalmente NaOH ou KOH).
A produção de biodiesel via utilização de Etanol proveniente de biomassa faz com que este tipo de biodiesel seja um combustível mais renovável, quando comparado ao proveniente de aplicação de Metanol.
A Lei nº. 11.097, de 13 de janeiro de 2005, permite a adição de um percentual mínimo de biodiesel ao óleo diesel mineral comercializado, em qualquer parte do território nacional.
A cadeia de biodiesel portanto apresenta-se plausível à obtenção de CER’s, visto que: o país apresenta grande potencial para produção de oleaginosas em várias regiões do país; a organização de pequenos produtores de oleaginosas para obtenção do óleo vegetal demonstra a responsabilidade social do projeto, pois gera empregos no setor primário, e reduz o êxodo rural; a substituição parcial ou total do diesel mineral por biodiesel atende ao quesito de sustentabilidade ambiental; o biodiesel pode ser produzido a partir da rota etílica, uma vez que o país já apresenta a tecnologia necessária e possui planos de expansão de produção de cana-
de-açúcar, caracterizando-o ainda mais como um combustível renovável; e a utilização de biodiesel pode estimular o país a investir cada vez mais em pesquisas relacionadas aos recursos energéticos renováveis.