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No período em que me envolvi com gestão e questões ligadas à esta-bilização de redes sociotécnicas no Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA),6 no Estado do Amazonas, a apreciação cuidadosa do desempenho dos laboratórios nos aspectos de manutenção, conformidade e seguran-ça era incessante. A lógica orientadora dos critérios de seleção e escolha de modelos de equipamentos/fabricantes, padrões funcionais de opera-ção, custo/benefício, política de manutenção/pós-venda e conhecimento prévio de utilização/treinamento em laboratórios associados era coligada a dois motivos gerais de procedimento técnico: eficiência na geração de dados experimentais e garantia de validade/acurácia dos equipamentos na publicação dos resultados.7 Os periódicos referenciais da área têm uma po-lítica editorial clara quanto à relação entre vida útil e acreditação dos equi-pamentos utilizados em experimentos, padronização de modelos de siste-mas no mercado científico e instalações certificadas por organizações com atestação internacional. Antes de, ou concomitante a, discussões sobre de-senho experimental, métodos e técnicas de pesquisa, existem preocupações sobre as exigências rotineiras acerca dos equipamentos laboratoriais. Os métodos de pesquisa estavam condicionados a isso. Uma proposta de arti-go na área de biotecnologia que não tenha uma base de equipamentos em conformidade com exigências do campo ou da zona de influência de um periódico, como tratado anteriormente, reduz suas chances de publicação.

Nas constantes trocas de informações gerenciais entre as instituições financiadoras e gestoras do CBA (Fundação Amazônica de Defesa da 6 O CBA é um típico programa de pesquisa básica orientado por demandas sociais e tecnoló-gicas e não apenas pela pesquisa em si ou pela curiosidade acadêmica. Parte da discussão deste tópico é fruto de resultados da pesquisa “Consolidação e integração de redes sociotécnicas no Estado do Amazonas: o caso do Centro de Biotecnologia da Amazônia”, financiada pelo CNPq, processo n. 483539/2012-0.

7 Junto com a retórica, peso institucional, experiência e prestígio da equipe de pesquisa no cam-po de atuação, a qualidade da estrutura de equipamentos era evidente para o fechamento de uma potencial controvérsia científica, seguindo o princípio da flexibilidade interpretativa do Programa Empírico do Relativismo (Collins, 1981).

Biosfera – FDB, Superintendência da Zona Franca de Manaus – Suframa e Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços – MDIC, prin-cipalmente), a centralidade das ações em relação à infraestrutura era evi-dente. O conjunto de artefatos do Centro formava uma rede de relações inseparáveis – pois constituidoras – do ambiente social e cognitivo das pesquisas. A constituição dos sentidos da realidade no laboratório – como a bioprospecção, o isolamento, a síntese e testes de moléculas de interesse da biota amazônica – era orientada, em grande parte, para a formação de consensos sobre eficácia e segurança farmacológica, por exemplo, dada pela capacidade de mobilização em torno dos equipamentos e animais de biotério. Sem essas tecnologias materiais, embora não suficientes em si (Shapin; Schaffer, 2005), a exposição de fatos derivados de medições, testes, experimentos e simulações seria impossível.

Apenas para se ter uma ideia do que seria apenas uma seção do CBA, e para ficarmos com o núcleo principal de equipamentos que formavam sua infraestrutura científica experimental, cito a Central Analítica. Essa era constituída por cromatógrafo a gás-espectrômetro de massas, espectro-fotômetro de absorção atômica, espectrômetro de ressonância magnética nuclear, espectrômetro de massas de alta resolução. Além da computação envolvida, insumos e toda a “infraestrutura secundária”, seu funciona-mento dependia das agendas experimentais e relações com outros labo-ratórios do Centro. A independência funcional de um laboratório não o livrava de uma paralisação sem a coordenação precisa e o funcionamento ordenado dos equipamentos (e agenda de pesquisa) dos demais.

Embora não seja o âmago do meu argumento, é impossível separar esta coordenação entre humanos e não humanos. O relevo dado à infra-estrutura é apenas estratégia de apelo para lembrar-nos de questões ge-ralmente secundarizadas nas análises CTS.8 É inevitável perceber o papel condicionador das tecnologias na geração dos dados científicos e como o contexto social e político para a manutenção de uma infraestrutura mate-rial estável é inescapável. Esse tipo de descrição e discussão não é novidade para cientistas experientes e gestores de projetos na área. Talvez sua impor-tância resida num flanco de discussão aberto para os estudos em CTS e seu transbordamento para a área de políticas públicas em ciência e tecnologia. As particularidades da gestão de laboratórios e infraestruturas correlatas 8 A sigla para estudos sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) será utilizada aqui como sinônimo dos Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias (ESCT).

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para pesquisas eram temas que pairavam no ar em relação à necessária formação profissional específica, tanto na administração pública, como na privada, nos corredores do Centro.

Os maiores “problemas de comunicação” não estavam apenas entre financiadores e parceiros externos, mas “dentro do Centro” ou do pro-jeto CBA, já que este nunca conseguiu autonomizar-se. Formalmente, era uma espécie de departamento da Suframa. Este formato institucional representa um importante sinal de sérios problemas no Brasil para orga-nizar juridicamente instituições públicas de pesquisa em áreas estratégicas do conhecimento. De alguma forma, esses problemas de comunicação são diferenças de ação no mundo da vida, não baseadas simplesmente em divergências de linguagem. É algo mais profundo, pois implica, além de questões ligadas à formação profissional, modos de organização da ciência e, mais profundamente, condicionamentos da linguagem na construção do mundo, impossibilitando encontro de interesses pelas formas de ação das áreas funcionais (técnico-administrativo e propriamente finalística/ investigativa) no sistema de trabalho científico.

Para reforçar o exemplo do CBA em relação à importância da estabi-lidade da rede sociotécnica em torno de sua infraestrutura, reproduzo a lógica de manutenção trivial de equipamentos: reparo e troca de bomba a vácuo do espectrômetro de massas Micro Q-TOF, troca de óleo das bombas a vácuo, abastecimento de gases liquefeitos no espectrômetro de ressonância magnética nuclear; ar sintético, hélio e hidrogênio no cro-matógrafo a gás-espectrômetro de massas e no espectrômetro de massas de alta resolução. É importante indicar que para cada manutenção dos equipamentos era necessário contratar o serviço de calibração dos mes-mos para manter seu desempenho e fidedignidade dos resultados. Se, por alguma razão, os espectrômetros pararem de funcionar por falta de manu-tenção adequada (gases, por exemplo), seus custos de operação aumentam excessivamente. Ou seja, o fluxo de custeio e manutenção não pode ter períodos em que se pode desligar um equipamento desse tipo como se fosse uma televisão ou eletrodoméstico.

O Biotério do CBA é um caso interessante, pois, apesar de não ter equipamentos sofisticados em uma disposição clássica de laboratório, ele é em si um grande sistema técnico – praticamente uma sala limpa com um alto nível de controle para manutenção da biossegurança e bem-estar dos

animais. Essa seção do Centro chega a ser intrigante, pois representa o me-lhor exemplo da sensibilidade e influência exercida em toda coordenação administrativa e técnica pelas infraestruturas materiais para pesquisa. O nível de comprometimento com a funcionalidade do sistema de controle de suporte à vida dos animais não era trivial. As exigências internacionais e legislação específica de animais certificados para testes de fármacos acar-reta um fluxo de responsabilidades legais para qualquer quebra de parâme-tros mínimos da atividade do biotério.

Para a finalidade do CBA, os testes de fármacos em animais era um ponto incontornável. A hipótese de um colapso dos sistemas vitais do Bio-tério era da ordem das opções remotas. Como ouvi em uma conversa, res-guardadas as devidas diferenças e grau de responsabilidade, era da “ordem de um desligamento de usina nuclear”. Ou seja, salvo por um conjunto de erros ou algo totalmente fora do controle humano, o desligamento do Biotério só poderia ser controlado (primeira etapa), com a prévia auto-rização para sacrificar todos os animais (eutanásia), de várias instâncias e instituições. Se, nos outros sistemas, uma quebra de equipamento ou desligamento não programado por falta de manutenção ou ruptura de alguma etapa da infraestrutura secundária (energia elétrica, por exemplo) acarretava prejuízos materiais, no Biotério, além disso, a vida dos animais estava em jogo. E essas vidas dependiam de uma infraestrutura peculiar, com sistemas de filtros e condicionadores de ar altamente especializados. Para isso não acontecer, o grau de planejamento, revisão, sistemas reservas e disponibilidade financeira/técnica para emergências era exemplar. Mes-mo assim, por falta de fluxo de repasses e devido a impasses institucionais ligados, inclusive, a alterações de prioridades da política científica e tecno-lógica nacional, o Biotério chegou a ser desativado.

Infraestrutura de pesquisa e mudanças ambientais