3 CINEMA E MODA
3.2 BLADE RUNNER: O CAÇADOR DE ANDROIDES
O filme estadunidense Blade Runner, em português intitulado Blade Runner: O Caçador de Androides, foi lançado em 1982 e abriu o caminho para diversas inovações e ideias que foram se instalando no público.
O filme, ambientado no ano de 2019, retrata o ex-policial Rick Deckard atrás de replicantes fugitivos. Tais replicantes são tecnologias inventadas e usadas nas colônias fora do Planeta Terra: são androides que agem e se parecem com humanos, com exceção da posse de um intelecto emocional. Os replicantes vivem a serviço dos humanos e possuem datas de expiração, no entanto, um grupo se rebela e se esconde na cidade de Los Angeles, o que leva Deckard a ser acionado para exterminá-los.
Blade Runner tem no seu papel principal Harrison Ford – que então tinha recentemente participado do episódio quatro de Star Wars, uma das franquias mais consumidas de todos os tempos - como Rick Deckard, Sean Young como Racheal, Rutger Hauer como Roy e Daryl Hannah como Pris. A direção é de Ridley Scott, que depois direcionaria outros filmes de sucesso como Thelma & Louise e Perdido Em Marte.
O filme inicialmente não fez sucesso. Segundo dados retirados do site IMDB, Além dos críticos constantemente escreverem coisas negativas sobre ele, também foi exibido nos cinemas ao mesmo tempo que o filme E.T., de Steven Spielberg, que dominou as bilheterias da época. Isso fez com que fossem liberadas diversas versões diferentes do filme, com cenas cortadas ou acrescentadas, narrações dos
produtores, finais alternativos. Foi só então que, de alguma maneira, o filme se tornou um clássico e uma das maiores inspirações do gênero de ficção científica.
Blade Runner é aclamado como uma das obras de ficção científica mais talentosa de todos os tempos e com grandes realizações. Ao longo dos anos, alcançou o status de um clássico filme cult, e é considerado profundo, existencial e poético. Ele vem inspirando muitos desde o seu lançamento, e a sua popularidade, prestígio e fama nunca pararam de crescer, considerando que, quando foi lançado, concorreu à dois Academy Awards, prêmio de grande reputação, e a sua estima levou a produção de uma sequência de alto custo e investimento, feita em 2017 e estrelada por Ryan Gosling, ator de muito reconhecimento.
O futuro, sempre causando muita curiosidade e muitas dúvidas e questões no público geral, muitas vezes é explorado no cinema. Antes de Blade Runner, outro filme de grande sucesso, 2001: Uma Odisseia No Espaço, também explorou o futuro e o que este traria. Apesar de muito evidentemente não ter acertado, em sua maioria, suas previsões e concepções sobre o futuro, Blade Runner influenciou muito diversos setores da cultura da época e continua a fazer isso até hoje.
O filme retrata 2019 de uma maneira melancólica, a cidade no qual é ambientado, Los Angeles, deixa de ser colorida e ensolarada e se torna visualmente estranha e confusa. A arte do filme é um trabalho a ser parabenizado a parte: os cenários e os takes são obras de arte por si próprios. A distópica Los Angeles é representada bem monocromática, o que acrescenta luz e rouba a atenção dos espectadores são as luzes e as placas neon espalhadas pela cidade. A cidade havia se tornado uma metrópole superpopulosa com uma arquitetura moderna mais ao mesmo tempo claramente decadente. O filme traz características e visuais futuristas-retrô, e foi inspirado nos filmes noir da década de 50, como um dos filmes mais conhecidos e clássicos da ficção científica, Metrópolis, de Fritz Lang.
Uma cena do filme Blade Runner, na qual é possível ver a extravagância de cores com as luzes neon.
Disponível em:
https://2.bp.blogspot.com/JlqxVbl9iOc/VGPQpPY5AwI/AAAAAAAAUfs/btuT_NOwL1U/s16 00/Newspaper.jpg. Acesso: 22/09/2020
Ao representar o futuro, Blade Runner apresenta as vestimentas muito coerentes com o estilo de vida da cidade e da época retratada. O filme inovou ao revelar suas versões de roupas futurísticas que viriam a inspirar e admirar muitos. As roupas mostradas no filme são muito características e inegavelmente “roupas futurísticas”, mas ainda assim trazem uma singularidade e rastros do molde pelas quais foram feitas pelos criadores.
Blade Runner é considerado, pela curadora Lou Stoppard, no jornal Financial Times, o filme que viu o futuro da moda. Foi de extrema importância e influência para os contextos sociais da época e está constantemente sendo reconhecido pelo mundo da moda pelo seu legado. Blade Runner inovou ao representar os vestuários do futuro de forma extravagante e revolucionária, ao contrário do que era conhecido anteriormente, pois as roupas utilizadas nas representações do futuro eram sempre simples e minimalistas. Ao ousar e renovar as ideias sobre e moda do futuro, Blade Runner mudou para sempre a indústria.
Cena do filme Blade Runner que exemplifica a moda mostrada nele.
Disponível em: https://lh3.googleusercontent.com/proxy/u-
svSj90qgrwzBHOvlyxCElpwgXzKgVFkDQSW-buAADnCirF2Wv_relfpHZfFdI8bA2NngT3iqVtAODEMi6zYnWV4Dyrq370cvybIn1d9sgSpw 55cvj58mLdQSpzQQ. Acesso: 22/09/20.
Cena do filme Blade Runner que exemplifica a moda mostrada nele.
Disponível em: https://www.highsnobiety.com/p/blade-runner-style/. Acesso: 22/09/20.
Disponível em:
https://static.wikia.nocookie.net/bladerunner/images/4/41/Zhora.jpg/revision/latest/top-crop/width/360/height/360?cb=20171028221610 e
https://64.media.tumblr.com/36b960d9af295e224a8e120ff0dfcd82/tumblr_owwsf1VHAz1u rf4tmo1_400.jpg. Acesso: 22/09/20.
Cena do filme Blade Runner que exemplifica a moda mostrada nele.
Disponível em: https://www.highsnobiety.com/p/blade-runner-style/ Acesso: 22/09/20.
Blade Runner continua trazendo noções e princípios da época do cinema noir por meio da caracterização seu protagonista, Rick Deckard. O policial interpretado por Harrison Ford foi desenvolvido com base em narrativas de detetives noir, e a sua paramentação deriva da de atores de renome como Orson Welles, James Cagney e Humphrey Bogart.
Na esquerda, o ator Humphrey Bogart, e na direita, o personagem Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford.
Disponível em:
https://i.pinimg.com/564x/3c/a8/3d/3ca83d16e443353aa26adfc9dcffcdc7.jpg Disponível em: https://www.highsnobiety.com/p/blade-runner-style/
Acesso: 23/09/20
A moda do filme é composta por diversos elementos de tendências na época pouco conhecidas, tais como o cyberpunk e o futurismo-retrô. Além das tendências atuais e emergentes, o vestuário do filme também lidou com modas dos anos 40 e 50 que já haviam caído no desuso. Essas tendências podem ser muito vistas na personagem Rachael, a ser analisada em seguida.
Marcas do futurismo-retrô na moda: a primeira fazia parte da edição de agosto de 1965 da revista Vogue e a segunda é uma edição da revista Vogue de dezembro de 1964.
Disponível em: https://www.vogue.com/article/1960s-beauty-retro-futurism-courreges-paco-rabanne-vogue-archives
Acesso: 22/09/20
Como antes mencionado, o cyberpunk e o futurismo-retrô então foram dados muita mais importância e muito mais procurados pelos consumidores, e os estilos e tendências estabelecidos por estes, e representados no filme Blade Runner foram sendo adotados pela população que era cada vez mais influenciada. O progresso e o desenvolvimento do estilo musical New Wave também fazem referência aos gêneros mencionados e a moda apresentada no título. Os visuais futuristas do filme inspiraram muito a moda da época e foram se tornando aos poucos referências da moda dos anos 80 de tão populares que se tornaram. Apesar de terem marcado tal década, esses modismos e tendências continuam sendo usadas, renovadas e reconstruídas até os dias de hoje.
Disponível em: http://www.osovictoria.com/2013/04/lately-i-have-been-silver-fabrics.html Acesso: 22/09/20
Daryl Hannah, ao representar a rebelde replicante Pris, traz para a personagem um estilo punk com influências góticas e muito inovadoras, adicionando mais camadas à representação do filme de uma subclasse esquecida e incompreendida. A personagem faz uso de tendências óbvias da moda punk como o uso constante do couro, tachas, e coleiras de cachorro, além de inovar ao usar collants e maiôs. Seu corte e cor de cabelo e sua maquiagem completamente preta em volta dos olhos que remete à uma máscara também lembram os movimentos da moda e cultura mencionados anteriormente.
Personagem Pris.
Disponível em: https://www.ft.com/content/803687a8-9a22-11e7-b83c-9588e51488a0 e https://i.pinimg.com/originals/b5/48/0f/b5480ff4ceb3dc93c31881705767dda0.jpg. Acesso:
22/09/20.
Góticos nos anos 80, com um estilo semelhante ao da personagem Pris.
Disponível em: https://post-punk.com/oldschool-gothic-a-gallery-of-80s-goth-and-deathrock-culture/
Por outro lado, a heroína do filme, Rachael, interpretada por Sean Young, traz consigo diversas camadas que a fazem uma personagem extremamente complexa e atípica, e as suas vestimentas adicionam a este mistério carregado por ela. Rachael é o melhor exemplo da mistura do que então era futurista com aquilo que já era retrô apresentada em Blade Runner. Sean Young, portanto, passou a representar uma personagem que vive no futuro, porém está sempre trazendo e revivendo elementos do passado.
Tal passado, um passado noir, foi uma das maiores inspirações para o figurino da personagem Rachael. Ela foi modelada a partir de estrelas dos filmes noir dos anos 40 e 50, e isso se concretiza em seu vestuário. A sua aparência no filme relembra os Anos de Ouro de Hollywood, especificamente a atriz Joan Crawford, que usava figurinos assinados pelo designer Adrian Adolph Greenberg, o qual serviu de inspiração para os próprios figurinistas de Blade Runner. Racheal recorda muito Joan Crawford em suas maneiras de se vestirem. Estas, portanto, fazem muito o uso de elementos da moda dos anos 40, as ombreiras, principalmente. Ademais, outros fundamentos desta época foram utilizados no figurino de Rachael: quadris estreitos, cabelo enrolado, ombros quadrados, ternos feitos sob medida e saias que terminavam logo abaixo do joelho.
Atriz renomada Joan Crawford.
A mágica então feita pelos figurinistas do filme foi a mistura desta silhueta feminina dos anos 40 com uma silhueta dos anos 80, influenciada pelos padrões futuristas. Logo, foram adicionados ao seu vestuário tecidos com aparência de látex e couro, luxuosas peles falsas e ombros estruturados, e à mistura foram acrescentados ângulos exagerados e afiados. Por fim, foi criado então o semblante icônico de Rachael, uma personagem que inova e eterniza a moda por meio de suas peças de roupas que fazem ousadas afirmações.
Personagem Rachael
Disponível em:
https://static.rogerebert.com/redactor_assets/pictures/54038931cd3b56bbca000211/blader unner-1-sean-young-as-rachel.jpg e https://www.highsnobiety.com/p/blade-runner-style/.
Acesso: 22/09/20.
O figurino do filme Blade Runner influenciou muito o mundo da moda, por apresentar uma convergência e um diálogo entre diferentes estilos, grupos sociais, e épocas, como visto anteriormente. Essa influência pode ter sido mais abstrata, influenciando as massas a passarem a ver a moda de uma maneira diferente, mais
maleável, ou a inovar e mudá-la, visando os gostos pessoais e também ideias e concepções futurísticas, no entanto, um elemento do figurino da personagem Rachael – o mais icônico de todo o filme – são as ombreiras utilizadas por ela. Praticamente todos os seus figurinos faziam uso de ombros estruturados, e isso muito evidentemente serviu de inspiração para muitos, considerando o tamanho da febre de ombreiras nos anos 80, após o lançamento do filme.
Ombreira utilizada por Rachael em Blade Runner e exemplo da moda muito grande dos anos 80, como vista nesse visual da princesa Diana em 1985.
Disponível em:
https://i.pinimg.com/originals/fa/b2/52/fab25273bc662f5d390d14f938b605c6.jpg e https://www.glamourmagazine.co.uk/gallery/princess-diana-best-dresses-fashion-style.
Acesso: 22/09/2020
Em vista disso, estas ombreiras são um grande exemplo do grande sucesso e influência no público do filme Blade Runner. A fama e o prestígio dele fizeram com que o seu figurino fosse ainda mais valorizado e respeitado. Os responsáveis por esse figurino tão ilustre e aclamado são Michael Kaplan e Charles Knode. Eles conseguiram essa função por meio do diretor do filme, Ridley Scott, que pediu para
o Costume Designers Guild, uma associação de figurinistas muito conhecida, se havia alguém jovem, com ideias diferentes e inéditas sobre a ficção científica, disponível para desenhar o figurino da obra.
Outrossim, tais expectativas do diretor a respeito da moda presente no filme foi o que fizeram dela tão notável. Kaplan e Knode conseguiram, através do figurino, atribuir ao filme fidedignidade, pois este era crível, mas, ao mesmo tempo, inovador, ousado e desafiador. O figurino do filme se tornou então algo icônico à parte, chegando a inspirar muitos em diversas épocas, e chegando até a trazer inspiração para designers e estilistas de muito renome que criaram diversas coleções e desfiles homenageando especificamente o filme, que serão abordados ao longo deste projeto. Michael Kaplan, que recebeu o prêmio de Melhor Figurino no British Academy Awards, atribui ao motivo da glória da moda de Blade Runner a fascinação do mundo da moda com aquilo que é novo e transformador, elementos incessantemente presentes no filme. Desse modo, as reformas e inovações da moda presentes em Blade Runner – O Caçador De Androides são o que deram ao seu figurino um legado que está armazenado na consciência criativa do mundo da moda até hoje.
Esboço de Michael Kaplan para a personagem Rachael
Disponível em: https://www.ft.com/content/803687a8-9a22-11e7-b83c-9588e51488a0. Acesso: 22/09/2020.
Esboço de Michael Kaplan para a personagem Rachael.
Disponível em: https://www.ft.com/content/803687a8-9a22-11e7-b83c-9588e51488a0. Acesso: 22/09/2020.