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CAPÍTULO 2: LEGITIMAÇÃO

2.2 Bois-bumbás: legitimação e tomada de poder

O processo de legitimação dos bois-bumbás, aqui mencionado, se dá a partir

do momento que a comunidade passa a se sentir representada por estes, suas toadas,

seus itens, sua apresentação como um todo. Dentre vários fatores que podem ter

contribuído com esta ascensão dos bois-bumbás, um se destaca, pois há uma espécie

de consenso do público espectador que aponta a rivalidade entre Garantido e

Caprichoso como um fator chave para que se obtivessem o reconhecimento da

população, seus embates despertavam interesse da população da cidade de

Parintins. E, a partir do momento que são colocados em uma arena (bumbódromo),

rapidamente despontam como atração principal. Pois já estavam legitimados pelo

povo da cidade, reconhecidos por sua rivalidade, como atração popular mais querida

pelo povo.

Desse modo, os bois-bumbás já estavam legitimados antes mesmo de se

apresentarem no bumbódromo no ano de 1965, pelo próprio povo da cidade, todavia

o povo não é o único legitimador defendido por este trabalho como um elemento que

exerce grande influência direta na cultura popular, temos ainda o poder público

(agentes políticos), por estes foram legitimados definitivamente a partir do momento

que já havia um consenso de que eram a atração mais querida pela cidade.

Estes agentes políticos que já demonstravam interesse pelos bois-bumbás quando

ainda eram dirigidos por famílias comuns da cidade, acabaram por escolhê-los e

legitimá-los como festividade principal. Assim, esse momento histórico aqui chamado

de “tomada de poder e legitimação”, marca o processo que levou os bois-bumbás a

saírem do controle de famílias e a serem assumidas pelo poder público.

A tomada de poder destes, é percebida através da institucionalização dos

bois-bumbás Garantido e Caprichoso que antes concebidos e realizados por famílias

comuns da cidade pelas ruas de Parintins, passaram a estar sob o poder e domínio

da Prefeitura e posteriormente do governo do Estado, a contar com o apoio de agentes

externos à festa como patrocinadores de grande porte, que os ajudaram a ocupar sua

posição privilegiada dentro do campo cultural em que estão inseridos e a ganharem

destaque frente as outras festividades locais. Este processo pouco estudado pode ser

a chave para se chegar a um entendimento do que levou os bois-bumbás a

despontarem na cidade, transformando sua brincadeira em espetáculo.

A festa protagonizada pelos bois-bumbás, hoje intrinsicamente ligada a

identidade do povo parintinense

20

, passou no decorrer de sua história por altos e

baixos, de uma simples “brincadeira” até uma das maiores festas culturais

competitivas a céu aberto do mundo.

Esse tempo descrito, marca um período em que os bois-bumbás, por fim

legitimados pelo povo que se deleitava e se instigava com sua rivalidade,

destacaram-se cada vez mais dos demais movimentos culturais festivos da cidade de Parintins,

conquistando um festival que originalmente não era feito para eles. Dito de outro

modo, os bois-bumbás Garantido e Caprichoso eram personagens secundários

21

no

festival que hoje protagonizam. As cerca de 22 quadrilhas juninas outrora

protagonistas foram perdendo foco dado o crescimento colossal dos bois-bumbás as

graças do povo e posteriormente dos agentes de poder.

De fato, a mudança percebida nos bois-bumbás Garantido e Caprichoso é

notável, pela sua gênese, com as brincadeiras nas ruas, até o formato de espetáculo

e competição atual. A projeção alcançada desde a primeira transmissão televisiva,

levaram as toadas a ganhar maior aceleração, mudando sua estrutura organizativa, o

local das apresentações (das ruas da cidade, ao redor de fogueiras para o

bumbódromo).

O que parece-me, é que a partir de sua institucionalização estes movimentos

culturais festivos, ficam visíveis, aptos e passíveis a agentes externos de poder, com

autoridade suficiente para legitimar-lhes, ou seja reconhecê-las como a “menina dos

seus olhos”, (dignas de apoio ou de sua preferência e total atenção).

Esse momento histórico é fundamental para entendermos como se configura

hoje a festa, do que já foi, os padrões que teve de se encaixar, a retirada de elementos

de sua apresentação, a anexação de outros, o processo ocorrido que levou uma

brincadeira à um espetáculo de tamanho invejável em um panorama nacional.

20 Parintinense refere-se a toda pessoa natural do município de Parintins.

21 “A transposição para o ambiente do Festival Folclórico de Parintins em 1965 permitiu que ambos os

bois, que compunham a programação ao lado de outros folguedos como quadrilhas e pastorinhas, se destacassem a partir da forte expressão de rivalidade de suas torcidas nas arquibancadas. A disputa entre torcedores teria animado a adesão da população ao Festival” (IPHAN, 2018, p. 163.).

De fato, os bois-bumbás percorreram uma longa trajetória marcada pela

tomada de poder entre as pessoas que os criaram (fundadores) e posteriormente dos

indivíduos de poder como a Prefeitura e o Estado que passaram a assumir o festejo.

Esse processo de tomada de poder em que os bois trocam de direção,

transitando entre dirigentes religiosos à políticos encontra amparo no livro

“Boi-bumbá evolução: livro-reportagem sobre o Festival Folclórico de Parintins de

autoria de Allan Rodrigues. Neste podemos perceber que esse processo se deu de

modo inicial no boi-bumbá Garantido antes mesmo de seu criador Lindolfo

Monteverde vir a falecer, já com a idade avançada, este (Lindolfo) não pudera mais

estar tão presente como havia sido até então. Neste momento, seu filho João Batista

Monteverde substituiu o pai como amo do boi e como dirigente. Entretanto, com a

festa se tornando cada vez maior, o que determinou gastos cada vez maiores com os

bois a fim de manter a rivalidade e competição, estes viram aquilo que sempre fora de

família começar a escapar de suas mãos.

A tradicional família Farias que hoje conta com membros famosos dentro do

boi e na sua história, como o dirigente da Agremiação o sr. Zezinho Faria e o

ex-apresentador do boi Paulinho Faria, ambos com histórias vinculadas ao boi-bumbá

Garantido no decorrer de suas vidas. Foram um dos primeiros a assumirem o controle

do bumbá em meados da década de 1970. “Apesar da família jamais ter se afastado

do boi, ela perdeu o poder decisório na agremiação a partir da década de 1970, com

a chegada da família Faria” (RODRIGUES, p. 64, 2006). Visto que os gastos com o

bumbá aumentavam cada vez mais, eles, como conta Paulinho Faria assumiram a

agremiação, ajudando a levar para frente o legado da família Monteverde.

Quem bancava o Garantido era a nossa loja. E tinha muitas despesas! O papai abria o cofre e a gente tirava dinheiro para pagar as costureiras, alegorias. Inclusive os batuqueiros para tocar na batucada tinham de ganhar

presente.22 (RODRIGUES, p. 65, 2006).

O período da família Faria a frente do boi se estendeu até a década de 1980,

quando o Festival já estava sob o controle da Prefeitura da cidade e não mais da

Juventude Católica (JAC) que era quem geria o Festival desde sua concepção. Já que

em 1977, no mandato do então prefeito Raimundo Reis Ferreira assumiu o controle

22 O termo “contrário” é utilizado na cidade de Parintins por ambas torcidas para designar o boi que

por meio do Decreto 02/77 artigo 2º que diz: “Fica o Município responsável pela

Organização e realização anual do Festival Folclórico de Parintins, dele participando

os diversos cordões, quadrilhas, caipiras, danças folclóricas e grupos de bois-bumbás

mirins e adultos”.

Desse modo, com o apoio da direção dos bois-bumbás Garantido e

Caprichoso, a Prefeitura tomou as rédeas da direção do Festival Folclórico do grupo

religioso JAC com a justificativa de que este representava “a maior expressão cultural

do município e competia ao poder público zelar pela preservação da cultura de seu

povo” (RODRIGUES, p. 88, 2006).

Figura 6 – Decreto Municipal 02/77 da Prefeitura de Parintins.

Fonte: Allan Rodrigues, Boi-Bumbá Evolução, 2006.

O decreto deixa claro no art. 3º, que a partir daquele momento, a Prefeitura

passara a ser a nova responsável pela administração do Festival Folclórico de

Parintins, como pode ser constatado na figura 6, competindo a esta, a partir daquele

momento a gerência das “providências administrativas e legais”.

O Festival Folclórico ainda ficaria sob o controle da Prefeitura por longos 18

anos, quando este já se configurava como uma festa já consagrada, atraindo um

número considerável de visitantes todos os anos. Quando na década de 90 estes

passaram também a atrair a atenção de agentes com poder financeiro maior do que

a Prefeitura poderia dispor. Sendo este, talvez, um dos patamares mais importantes

que os bois-bumbás de Parintins já alcançaram no sentido de estabelecerem-se cada

vez mais como uma festa regional e não mais familiar ou municipal.

O ano de 1995 marca uma data ilustre e talvez diferente por assim dizer para

o Festival Folclórico que passou a estar sob o controle do Estado (governo) e para os

bois-bumbás que atraíram a atenção de patrocinadores de grande escalão como a

multinacional Coca. Entretanto, o fato mais interessante para este tópico, vem da nova

mudança de comando do Festival Folclórico, que de modo parecido ao que ocorreu

no ano de 1977, com a Prefeitura apenas comunicando ao grupo religioso JAC que

daquele momento em diante eles já não eram mais “necessários” no comando da

festividade, do mesmo modo, e, ironicamente, a Prefeitura provou de sua própria

medicina, quando o governo do Estado apenas comunicou o fato de que naquele ano

de 1995 o Estado, uma instituição política de maior poder hierarquicamente agora era

a responsável pelo Festival Folclórico da cidade de Parintins.

Ambas demonstrações de poder político implicam uma demonstração de

poder em que aqueles em posições privilegiadas hierarquicamente se utilizam de suas

posições para exercer dominância sobre aqueles em posições subalternas a estes.

O fato referido se deu no mandato do governo de Amazonino Mendes, através

do envio de uma representante a cidade. Em seu relato “Zeina Neves, à época, estava

à frente da Empresa Amazonense de Turismo (Emantur), e foi incumbida de

‘estadualizar’ o festival” (RODRIGUES, p. 92, 2006).

Eu cheguei em Parintins e me dirigi ao prefeito, e disse a ele que a partir daquele momento nós iríamos tomar conta da festa. Inicialmente, ele foi extremamente receptivo, mas depois ele começou a tomar algumas posições radicais, dizendo que não era daquela forma que as coisas iam melhorar (RODRIGUES, p.93, 2006).

O episódio, entretanto, marcou o início de uma rixa entre o chefe do executivo

municipal de Parintins frente ao governo do Estado, dada sua insatisfação com a

repentina perda de sua direção do Festival Folclórico. Inicialmente houve uma reação

negativa com a nova direção estatal sobre o Festival, em grande parte pelos esforços

do prefeito Raimundo Reis que “fez o que pôde para provocar na população um

sentimento de perda, como se alguém (Estado) estivesse tirando dela algo muito

precioso” (RODRIGUES, p. 93, 2006). Posteriormente, após o Festival Folclórico

daquele ano, os ânimos se acalmaram entre as agremiações que inicialmente

dividiram-se em apoiar a Prefeitura (Garantido) ou o Estado (Caprichoso) e da própria

população que viu o Festival Folclórico ganhar novas dimensões de espetáculo

através de um trabalho mais cuidadoso de organização imposto pelo governo do

Estado.

Ambos momentos históricos descritos, da perda de direção por parte do grupo

religioso JAC para a Prefeitura de Parintins, bem como a perda de direção da

Prefeitura para o governo do Estado do Amazonas, colocam em evidência o poder

político sobre a cultura popular.

Hans Joachim Morgenthau defende que o poder político é um poder legítimo

que ocorre sobre as mentes e ações dos homens, consistindo na relação de poder

entre aquele que exerce e aquele sobre o qual esse poder é exercido. Assim, esse

tipo de poder ocorre através da relação entre os “titulares de autoridade pública” para

com o povo,

Por poder político, nos referimo-nos às relações mútuas de controle entre os titulares de autoridade pública e entre os últimos e o povo de modo geral. O poder político consiste em uma relação entre os que o exercitam e aqueles sobre os quais ele é exercido (MORGENTHAU, 2003, p.51)

Esse poder segundo o autor, pode ser exercido “por meio de ordens,

ameaças, pela autoridade ou carisma de um homem ou de um órgão, bem como pela

combinação de quaisquer desses meios” (ibid, ibidem, p.52).

Desse modo, podemos entender que se trata de um poder que jaze sobre a

persuasão para ser exercido e para existir, tomemos como exemplo campanhas

políticas, em que o candidato que “convencer” melhor (um maior número de eleitores)

sobre suas propostas, ou simplesmente conquistá-los com seu “carisma” ganha o

direito de governar sobre estes (povo), por um determinado período de tempo.

Dagnaisser disserta, que a espetacularização dos bois trouxe consigo uma

ressignificação no elemento folclórico de Parintins. Os bois-bumbás, já firmados no

seio da cultura popular da cidade, agora passam a ser encarados também como

elementos da cultura de massa.

[...] os bois-bumbás de Parintins passaram por diversas modificações ao longo do percurso histórico, social e cultural. O que se mostrou mais significativo com a instituição e espetacularização do Festival Folclórico que trouxe consigo muitas ressignificações e que fez com que o boi que já era um ícone local de folclore e cultura popular viesse a ser visto como cultura de massa. Entretanto, essas transformações ocorreram não apenas no âmbito material do boi, mas também no contexto imaterial, elementos esses que convergem para o boi ser considerado patrimônio cultural imaterial do Amazonas e para ele estar em processo de registro junto ao IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro (DAGNAISSER, 2018, p. 11 a 12).

Souza (2011, p. 56), salienta que a partir do rumo tomado pelo Festival

Folclórico da cidade, este fez sua transição, entre brincadeira altruísta até espetáculo

quando foi se apresentar em arena própria.

Essa forma atual do brincar de boi foi um divisor de águas para a cidade, pois o Festival foi tomando uma proporção tão grandiosa que se tornou necessária a criação de uma sede própria para a realização e apresentação da festa. Pouco a pouco, os bumbás conquistaram prestígio na cidade, assumindo seu caráter atual, tornando-se uma organização, administrada por uma diretoria e inserindo componentes indígenas à festa, isto é, o índio da floresta presente no folclore amazônico.

Quando se olha para as festividades locais de Parintins, o que se percebe, e,

também é definido por Falcão (2010), é que o movimento folclórico trilha um caminho

de “institucionalização”, e isto por sua vez o aproxima cada vez mais da esfera das

decisões políticas uma vez que só pode agir mediante os recursos governamentais

disponibilizados, se acentuando portanto, uma relação de dependência, entre os

movimentos culturais festivos para com os agentes de poder.

Válido pontuar ainda, que de acordo com o IPHAN, existe diferença entre

bois-bumbás que se apresentam em arenas (como fazem atualmente o Garantido e

Caprichoso) daqueles que seriam bois de terreiro ou bois de rua. Assim, entende-se

por boi de terreiro ou boi de rua:

aqueles bois que nascem ligados a uma família, comunidade, bairro, executam a brincadeira nestes espaços públicos abertos, a partir da organização e envolvimento da comunidade local; e não possuem a preocupação de disputarem com outro boi um festival de arena regido por um regulamento, onde os bois são julgados e premiados. Além disto, para os brincantes, a performance do boi de rua está diretamente vinculada a representação da narrativa mítica da Catirina e do Pai Francisco, que nesta estrutura parecem ser os elementos centrais dentro da brincadeira de boi (IPHAN, 2018, P.66).

A partir do exposto, entende-se que os bois-bumbás Garantido e Caprichoso,

outrora configurados como bois de terreiro ou bois de rua por terem vínculo afetivo e

direcional por famílias comuns da cidade, hoje já se afastam dessa definição, desde

a perda do domínio dos bois-bumbás citados pelas famílias que os dirigiam e os

fundaram. Argumento reforçado pelo fato de os bois-bumbás hoje levarem sua disputa

para a arena conhecida por bumbódromo, para serem apreciados pelo público que ali

está presente, ou se faz presente através de televisões, computadores etc.,

disponíveis graças (primeiramente) ao apoio da mídia e (secundariamente) pelo

avanço da tecnologia.