2. Eles querem destruir o Ocidente: Assuntos gerais de Comunismo Internacional
2.2. Boletins Informativos
Comunismo Internacional foi precedida por outra publicação, chamada Boletim Informativo209, produzida a partir de 1969. Esses boletins possuíam o mesmo nome de uma documentação antes produzida pelo DEOPS/SP durante o governo de Castelo Branco. Com o objetivo de centralizar a produção e circulação de informações, esses boletins passaram a ser produzidos em 05 de setembro de 1969 pela agência estadual de São Paulo do SNI, em meio a um contexto de tensão dentro e fora do governo civil-militar. O primeiro Boletim Informativo foi produzido, segundo Carla Reis Longhi, logo após dias intensos, quando
(...) Costa e Silva foioficialmente considerado inapto no dia 31/08/69 e numa rápida
se passasse fora das vistas e longe dos ouvidos, nas celas imundas de fedor e de sangue, porém fechadas e bem guarnecidas por isopor à prova de som, sempre seria possível sustentar que os excessos eram ignorados e a sociedade inocente.” REIS FILHO, Daniel Aarão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2005. p. 53.
209 Esta documentação encontra-se no Arquivo Público do Estado de São Paulo no dossiê 20.C.043.
movimentação foi formada a junta provisória tríplice, respaldada pelo AI-12, impedindo a posse de Pedro Aleixo. Em 1.º de setembro o Brasil foi recepcionado pela mais nova conquista tecnológica: a 1.ª edição do Jornal Nacional da Rede Globo;
nesta, o jornal anunciava a doença do presidente e indicava que ele se encontrava em recuperação. O movimento de radicalização já havia se iniciado; foi apaziguado pelas novidades tecnológicas e pelo anúncio do seqüestro do embaixador americano, ocorrido no dia 04 deste mês. Esta sobreposição de fatos foi lida de maneiras diversas e, apesar de não parecer, foi a justificativa ideal para o recrudescimento.210
Para Longhi, a data do boletim demonstra uma mudança já em curso dentro da estrutura governamental, pois não haveria tempo hábil para a produção logo no dia seguinte ao sequestro do embaixador, se isso já não fosse uma decisão tomada anteriormente. Essa documentação visava dar uma visão mais ampla e geral da situação atual, diferentemente do outro boletim, produzido pelo DEOPS/SP, que concentrava-se em temas locais do estado de São Paulo. Ela estava dividida em quatro itens: 1. Político, que se subdividia em política interna, administrativa, externa, atividades subversivas; 2. Psisco-Social, que se dividia em trabalho, educação e cultura, assistência e previdência social, opinião pública; 3. Economia e 4. Militar.
Esses boletins eram produzidos diariamente e eram, em sua maioria, recortes de textos de jornais referentes ao governo e aos temas acima relacionados. Estes eram reproduzidos sempre nessa mesma ordem e reafirmam preocupações presentes na própria Doutrina de Segurança Nacional. Serviam de base aos boletins os jornais Folha de São Paulo, Diário da Noite de São Paulo, Estado de São Paulo, Notícias Populares e o Jornal da Tarde. Dessa forma os boletins visavam não demonstrar que essas informações eram produzidas pelo governo, mas antes retiradas de jornais de circulação nacional. Por outro lado, o SNI não necessitava retirar essas informações dos jornais, pois teria acesso a elas, inclusive previamente, caso fosse realmente necessário. Segundo Carla Longhi
Excetuando-se o terceiro exemplo, os membros dos órgãos de Informação não teriam a necessidade de retomar os jornais, todos os dias, para extrair informações como as colocadas acima, pois se referem às informações sobre a ação do próprio governo.
Além disso, estas informações poderiam ser adquirida através de comunicação interna, contendo, inclusive, muito mais detalhes. Um aspecto, contudo, é indicativo:
a maior parte dos trechos presentes nos B.I(s) reforça uma atitude positiva sobre o governo, demonstrando agilidade [...], controle e centralização [...], através do qual demonstra a força e poder do SNI e, também, capacidade de agregação.211
Como exemplo desses recortes, na seção Atividades Subversivas, encontra-se: “A
210 LONGHI, Carla Reis. O boletim informativo: documentação institucional ou discurso reapropriado? In Anais do XVIII Encontro Regional de História – O historiador e seu tempo. ANPUH/SP – UNESP/Assis, 24 a 28 de julho de 2006. p. 2.
211 Ibidem. p. 3.
Polícia descobriu e desmantelou anteontem, em São Sebastião, no litoral paulista, um
‘aparelho’, onde se reuniam grupos subversivos. (JT).” 212 O objetivo, como se percebe, não era o de trazer informações de fato importantes e que alimentassem a ação da atividade repressiva, pois essa já havia ocorrido, tampouco entender como o desmantelamento ocorreu e de que forma a polícia agiu ou como ela conseguiu informações para essa operação. Essas informações não eram veiculadas, inclusive por conta da reformulação da Lei de Segurança Nacional, através do Decreto-lei 898 de 29 de setembro de 1969, o qual definia os crimes contra a Segurança Nacional, bem como as penas, afirmava que as mensagens trocadas entre os serviços de informação deveriam ser sigilosas, proibindo a circulação de informações referentes às operações militares contra revolucionários.213
Segundo esse decreto, em seu artigo 31, um dos crimes cometidos por funcionários públicos seria:
(...) Revelar segredo obtido em razão de cargo ou função pública que exerça, relativamente a ações ou operações militares ou qualquer plano contra revolucionários, insurrectos ou rebeldes:
Pena: reclusão, de 5 a 12 anos.
Parágrafo único. Se o segredo revelado causar prejuízo às operações militares ou aos planos aludidos:
Pena: reclusão, de 12 anos até a prisão perpétua.214
Dessa forma, os funcionários públicos estavam impedidos de revelarem informações referentes a essas operações, bem como seu funcionamento e detalhes mais aprofundados. A divulgação dessas notícias através dos BI's está muito mais relacionada a uma ação de convencimento. Segundo Longhi, essa circulação diária de informações recortada de jornais, visava criar uma rede de convencimento e de retroalimentação a qual favorecia a união, criando assim um sentimento de pertença e de potência entre a comunidade de informações. Para a autora, “esta teia só se mantém se os seus nós continuarem interligados e isto seria garantido pela manutenção contínua do ato comunicativo, então, da circulação de informação.”215 Esse boletins seriam produzidos, segundo Longhi, até julho de 1970, quando seriam substituídos por uma documentação mais abrangente, chamada Comunismo Internacional. Porém, a informação de Longhi não condiz com a própria publicação Comunismo Internacional. Em algumas edições
212 Apud. LONGHI, Carla Reis. Op. Cit. 2006. p. 3.
213 LONGHI, Carla Reis. Op. Cit. 2006. p. 4.
214 Decreto-lei 898 de 29 de setembro de 1969.
215 LONGHI, Carla Reis. Op. Cit. 2006. p. 13.
do ano de 1970, existem citações de números anteriores, como, por exemplo, aos meses de maio e abril de 1970, demonstrando assim que a publicação do SNI é anterior ao mês de julho.