2. Eles querem destruir o Ocidente: Assuntos gerais de Comunismo Internacional
2.5. Os interesses na desmoralização do inimigo
Uma das formas de desmoralizar o inimigo era mostrar além de suas estratégias violentas, costumes e hábitos que iam contra o próprio discurso marxista. Ou seja, os ditadores de países socialistas e comunistas possuíam um discurso de combate ao capitalismo e aos seus valores, mas, por outro lado, valiam-se do luxo e de formas autoritárias de governo. Nesse sentido, os comunistas, segundo Comunismo Internacional, buscavam incentivar o consumo de drogas e combater práticas de controle populacional, gerando assim o caos no mundo ocidental.
Aliado a isso, existiam as campanhas pró-paz e pacifistas que visavam desarmar os países, tornando mais fácil o seu domínio pelas potências comunistas. Um interessante texto, retirado da revista venezuelana “Elite” de dezembro de 1970 sobre o carro mais caro do mundo, afirma que
O automóvel mais fino e mais caro do mundo é construído na Alemanha Federal.
Somente 18 unidades foram fabricadas e todas vendidas para o exterior. Os multimilionários alemães consideram esse carro como sendo demasiado pomposo.
Entre os compradores desse luxuoso automóvel encontram-se pequenos reis, ditadores de países neocoloniais e chefes de Estados Socialistas. [...] Nem o papa e nem os fabricantes desta maravilha mecânica pensaram que o próximo cliente seria o Presidente Mao, o herói da Revolução Chinesa, autor de numerosos manuais sobre as virtudes, inclusive a modéstia, que devem caracterizar um dirigente comunista, o protagonista daquela 'Grande Marcha', onde esteve à frente de milhões de miseráveis camponeses encomendou dois carros superluxuosos, tipo Landaulet, que foram enviados via Hong Kong. Outros compradores vieram de regiões nem sempre ricas e poderosas: o rei da Tailândia; o presidente do Gabón e o Xá da Pérsia. [...] O penúltimo exemplar, feito totalmente a mão, foi mandado para Belgrado, onde Tito não podia gozar bastante das aclamações dos camaradas iugoslavos em seus dois Mercedes-Pulman, tipo standard. Sabe-se que o novo carro – um pequeno transatlântico sobre rodas – tem seu custo duas vezes superior ao Mercedes-Pulman. Tão exóticos como
267 Comunismo Internacional. Novembro 1970. p. 1.6.
os compradores, são também suas exigências: madeiras preciosas para a decoração interior e couro de chiva branca para forrar os assentos sobre os quais vão pousar tão eminentes dignatários. [...] Nenhuma ressonância encontrou o superluxuoso carro entre os multimilionários alemães, que tem preferido continuar usando seus tipos standard.268
Pode-se perceber uma lógica no discurso dessa publicação e dos sistemas de informações, mostrando aos seus leitores, através da repetição do mesmo conceito de diferentes formas, que os comunistas almejavam destruir o Ocidente. Aliado a isso, existe a busca incessante de mostrar o quanto os líderes comunistas tinham atitudes diferentes do que pregavam para sua população.
A Lei de Segurança Nacional de 1967269, assinada por Castelo Branco materializou em lei os conceitos de guerra interna e guerra revolucionária trabalhado dentro das Forças Armadas e da Escola Superior de Guerra, e o Conceito Estratégico Nacional de 1968 que responsabilizava toda a população pela segurança nacional e pela segurança interna. Este documento aprovado pelo Conselho de Segurança Nacional (CSN) na verdade constituiu-se em diretrizes para ação governamental e também foi a base para a implantação do sistema repressivo.270 Esse Conceito Estratégico Nacional estipulava uma transformação dos sistemas de segurança e repressão, como por exemplo o sistema CODI-DOI.271
Essa visão sobre o “outro” – o comunista e o “subversivo” – não estava presente apenas nos relatórios dos aparatos repressivos. Na legislação criada durante a ditadura civil-militar, a guerra revolucionária e psicológica supostamente iniciada pelos comunistas encontrava sua resposta na Lei de Segurança Nacional, demonstrando os meios que esses utilizavam para “influenciar ou provocar opiniões, emoções e atitudes e comportamentos de grupos estrangeiros, inimigos, neutros ou amigos, contra a consecução dos objetivos nacionais.”272 A luta contra esse inimigo que atravancaria o desenvolvimento nacional ganhava nesses decretos a sua pretensa legalidade jurídica: os agentes repressivos estavam assim do lado da lei. Porém, nesses decretos torna-se mais difícil obter uma descrição mais ampla do
268 Comunismo Internacional. Dezembro 1970.
269 Decreto Lei 314 de 13 de março de 1967.
270 FICO, Carlos. 1968: o ano que terminou mal. In FICO, Carlos; ARAÚJO, Maria Paula (Orgs). 1968: 40 anos depois, história e memória. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009. p. 233.
271 Sobre a implantação do sistema CODI-DOI e do aparato repressivo ver FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.
272 Lei de Segurança Nacional de 1967. Capítulo I, Art 3º, § 2º.
comportamento dos comunistas. Deve-se salientar que o comunismo e a subversão serviram para enquadrar todos aqueles que se colocavam na oposição ao regime, mesmo sociais-democratas ou liberais. Descrever a oposição como comunistas e integrantes de um plano maior para derrubar o ocidente justificaria, em partes, a ação repressiva contra parte da população.
A ditadura civil-militar brasileira produziu assim uma infinidade de relatórios e documentos que buscavam esquadrinhar o inimigo, mapear suas ações e seus comportamentos.
Obter o maior número de informações possíveis, descrições de seus hábitos e rotinas, facilitaria o serviço da repressão. A imensidão de documentos produzidos pelo SNI, DOPS, CIE, CISA, CENIMAR, DSI's, polícias civis e militares, demonstram justamente essa preocupação e essa paranoia contra o comunismo e a subversão. Maria Aparecida de Aquino, ao analisar a documentação produzida pelo DOPS de São Paulo, afirma que
A riqueza que esses documentos apresentam dá-nos uma pequena amostra da importância dessa documentação, do papel desses agentes infiltrados e de seus relatórios pormenorizados. Ao mesmo tempo, demonstram uma infiltração cuidadosamente construída a ponto de conhecer os meandros dos locais sobre os quais exercem vigilância, resvalando em opiniões pessoais acerca do evento e de seu transcorrer, bem como apontam para uma quantidade de informações oferecidas, dependendo das circunstâncias, minuto a minuto, que podem redundar em pouca consistência para os objetivos do órgão, dada sua inutilidade estrutural.273
Essa documentação dos aparatos repressivos e de informações, alguns dos quais anteriores a 1964, sofreram a “mutação do tempo, dos objetivos governamentais e da própria noção de 'suspeição', que varia de acordo com os interesses desse ou daquele período.”274 A verdadeira riqueza dessa ampla documentação não se encontra somente nos “furos” e dados reveladores possíveis de serem encontrados, antes em um processo que se tornou rotineiro, que transformou-se em norma na ditadura civil-militar brasileira. Como um burocrata que carimba papéis todos os dias, o agente de informações produzia uma infinidade de dados sobre o andamento do comunista e do comunismo. Em muitos desses relatórios, deixa escapar, ou o faz intencionalmente, a sua visão da situação presenciada. Essas observações e opiniões são também um reflexo dessa mentalidade autoritária da ditadura brasileira, mesmo que num primeiro olhar possam demonstrar uma grande inutilidade aos verdadeiros interesses do regime.
273 AQUINO, Maria Aparecida de; MORAES, Maria Blassioli de; MATTOS, Marco Aurélio Vannucchi Leme de, e SWENSON JR, Walter Cruz (Orgs.) O dissecar da estrutura administrativa do DEOPS/SP- O Anticomunismo: Doença do aparato repressivo brasileiro. Famílias 30 e 40. São Paulo: Arquivo do Estado, Imprensa Oficial do Estado, 2002. p. 32.
274 Ibidem.
Nessa amplitude de papeis, muitos dos quais ainda sigilosos em nosso país, é pouco provável a existência de alguma informação que relate a localização de corpos dos desaparecidos políticos, bem como relatos oficiais da prática de tortura. Isso por uma simples razão: os agentes repressivos não costumavam deixar esse tipo de registro.275 Por outro lado, essa documentação pode nos ser de grande valia para compreendermos a lógica desse pensamento autoritário, bem como a forma pela qual os militares e agentes de informação percebiam o inimigo, construindo assim não uma caricatura dele, mas um retrato fiel, segundo sua ótica, daquele que colocaria em risco a segurança nacional.
Em certa medida, a presença de um inimigo a ser combatido, o qual atrapalha a ordem e paz social, ainda persiste em nossa sociedade. A construção desse “outro” associado ao mal e o clima de paranoia implantado nesse período, se estendeu no imaginário social, o qual é sempre reforçado e retrabalhado em momentos de crises e tensões sociais. O inimigo a ser combatido apenas mudou sua face, estando inserido em uma construção discursiva semelhante. A construção desse inimigo e do mal são disparadas sempre que determinados grupos sentem-se ameaçados, buscando suas razões em um passado de paz, no qual estariam os verdadeiros valores, ligados a uma tradição que está se perdendo. Esses grupos têm dificuldades em lidar com movimentos de pressão, tendendo a caracterizá-los pela ótica do mal, ganhando assim ressonância e popularidade na sociedade.
Além de demonstrarem grande preocupação com os hábitos comunistas, os quais poderiam ser sentidos no Brasil em meio as mudanças culturais do período, os sistemas de informações mapearam não apenas os hábitos, mas também as táticas e os planos dos comunistas para, supostamente, destruírem o mundo ocidental. Era fundamental para esse sistema, principalmente para o SNI, obter informações sobre as ações do comunismo em todo o mundo e como esse movimento estava atuando em diversos países, em todos os continentes.
A atividade desses agentes produtores, fechados dentro da Agência Central em Brasília, consistia em uma busca incessante de informações sobre o comunismo e os comunistas, sobre a atuação de brasileiros no exterior, sobre as táticas utilizadas em outros países, as vitórias comunistas na Ásia, Europa Oriental, África e o grande avanço pela Europa e pela América. Se podemos interpretar um trabalho de coleta de inúmeras informações como paranoico, ele atendia a um plano muito maior de desconstrução do comunismo perante o sistema de informações e os aparelhos repressivos.
275 FICO, Carlos. A ditadura documentada: acervos desclassificados do regime militar brasileiro. Acervo. Rio de Janeiro, v. 21, nº 2. Jul/Dez 2008. p. 68.
Cabe aqui o questionamento sobre a formação do agente da ditadura civil-militar.
Como eram moldadas, se isso for possível, as consciências daqueles que trabalhavam dentro do Serviço Nacional de Informações? Recebiam um treinamento especial, esses homens e mulheres vistos como agentes de informação, para que pudessem ingressar nos serviços de inteligência e espionagem da ditadura civil-militar? A forma de ver o outro era, em alguma medida, influenciada por esses treinamentos e cursos? Tais conceitos serão tratados no próximo capítulo, buscando compreender como eram formados esses agentes secretos e de que forma isso influenciou na produção de documentos, como Comunismo Internacional.