3. Entre livros e apostilas: a formação dos agentes secretos da ditadura
3.1. Cursos e apostilas: o suspeito nas páginas dos livros
No ano de 1992 uma caixa contendo uma série de documentos foi deixada na porta do Arquivo Nacional na cidade do Rio de Janeiro. O entregador não quis se identificar e apenas pediu para que fosse repassada à direção da instituição. A grande quantidade de papeis tratava de cursos realizados pelo Serviço Nacional de Informações e de pessoas e entidades espionadas pelo órgão. Depois de arroladas todas as fontes, questionou-se o nome a ser dado ao fundo. O
277 A noção de trama elaborada por Paul Veyne nos mostra que os fatos históricos não devem ser pensados de forma isolada. Dessa forma, acreditamos também que o Serviço Nacional de Informações brasileiro deve ser pensado como produto de uma trama histórica muito mais ampla. VEYNE, Paul Marie. Como se escreve a história:
Foucault revoluciona a história. Trad. Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. 4ª edição. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. 1998. p. 42.
nome Informante do Regime Militar foi imediatamente aceito pelos pesquisadores, acrescentando o código X9 para a identificação.278 Uma importante contribuição à histografia sobre ditadura civil-militar é o estudo elaborado por Samantha Viz Quadrat, chamado A preparação dos agentes de informação e a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985)279, o qual analisa a formação dos agentes dos serviços de informação, tendo como base parte da documentação da coleção Informante do Regime Militar. Quadrat afirma que ainda caminhamos pouco em relação aos estudos sobre o treinamento dos agentes de informação, principalmente os que passaram pela Escola Nacional de Informações (EsNI) e o Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), com seus documentos ainda inacessíveis, criando assim um pacto de silêncio sobre suas atuações. Dentro do jargão militar, a palavra X9 tem também uma grande importância, pois significa informante, denunciante ou alcaguete. Não se pode esquecer que além dos agentes treinados nos cursos oficiais, a ditadura civil-militar contou com vários colaboradores espontâneos, que, devido à grande publicidade e incentivo para a denúncia, entregavam supostos subversivos280 ou ainda solicitavam aos serviços de informação ou de censura, medidas contra programas e autores considerados um perigo à nação281.
Era importante para o governo ditatorial criar no país, através de sua Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), criada em 1968, um clima de união e amor entre todos, demonstrando assim que a nação brasileira era marcada pela paz e solidariedade, bem como estaria caminhando para um novo tempo. Em meio a esses objetivos nobres, era necessário identificar os inimigos que almejavam atrapalhar o clima de concórdia e união. Segundo Carlos Fico, “os críticos estariam a serviço da discórdia e do desamor.”282 Para aqueles que apoiavam o regime autoritário vivido pelo país, existiriam:
278 ARQUIVO NACIONAL (BRASIL). COPRA/CODES. Equipe de Documentos Privados. Coleção Informante do Regime Militar – X-9. Inventário da Coleção Informante do Regime Militar. Rio de Janeiro: O Arquivo, 2008.
279 QUADRAT, Samantha Viz. A preparação dos agentes de informação e a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985). Varia História, Belo Horizonte, vol. 28, nº 47, p.21-41: jan/jun 2012. p. 28.
280 MAGALHÃES, Marion Dias Brepohl. A lógica da suspeição: sobre os aparelhos repressivos à época da ditadura militar no Brasil. Revista Brasileira de História. Vol. 17. Número 34. São Paulo, 1997.
281 FICO, Carlos. Prezada Censura: cartas ao regime militar. In Topoi: Revista de História. N. 05. Vol. 03. Rio de Janeiro, Julho-Dezembro de 2002.
282 FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro:
Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997. p. 124. Cabe ressaltar que a Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP) funcionou entre os anos de 1968 até 1973. Posteriormente, já no governo Geisel, no ano de 1976, foi criada a Assessoria de Relações Públicas (ARP), a qual cumpria a mesma função. O governo buscou criar uma agência de propaganda que enaltecesse os feitos do regime, mas que não tivesse os mesmos moldes do antigo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do período de Getúlio Vargas.
[...] obstáculos e inimigos que tentam impedir a toda força o restabelecimento das relações de convivência humana, na base da verdade e do amor, a serviço de todos os interesses malsãos que tentam impedir o melhor relacionamento entre o governo e o povo do Brasil a serviço de todos os descaminhos, cheios de todos os piores despropósitos.283
Além dessa agência de propaganda, a qual buscava mostrar os feitos positivos do governo, colaborando para uma imagem de otimismo e união, buscou-se também arregimentar informantes e colaboradores espontâneos, não em toda a população, mas em parcelas restritas, vistas como portadoras de confiabilidade. Segundo Adyr Fiúza de Castro, “há seis níveis de fontes e seis graus de veracidade do informe: A,B,C,D,E,F e 1,2,3,4,5,6. Um informante A1 é um informe de uma fonte sempre idônea e com grande probabilidade de verdade. [...] Se o informe é F6, significa que não pode se saber a idoneidade da fonte.”284 A afirmação de Fiúza de Castro consta no documento “O informe” de 1960, o qual era utilizado nos cursos de formação, relacionando a veracidade do fato e a idoneidade do informante.285
Existiam três tipos de colaboradores: aqueles que seriam recrutados no serviço público e que tinham sua vida analisada pelos órgãos de informação para comprovar sua idoneidade.
Outro grupo era identificado nas organizações ideologicamente próximas do regime civil-militar como a Tradição, Família e Propriedade (TFP) e o Comando de Caça aos Comunistas, pois eram a favor da “revolução” e anticomunistas. Por fim, apareciam aqueles espontâneos e voluntários e que atuavam individualmente, tendo, portanto, uma origem mais difícil de mapear, mas que mantinha vínculos ideológicos com o regime, ou ainda, buscavam obter alguma vantagem ou atingir um desafeto político.286 O medo do outro, presente na figura do comunista, atingia também esse informante. Segundo Magalhães,
[...] um medo que se demonstrou tão ou mais mobilizador do que suas convicções políticas. Ao lado de sua fidelidade a ideias, do comportamento arrivista quando estava em causa a possibilidade de uma ascensão profissional, ou, ao contrário, o receio de perder o emprego, não se pode desconsiderar os traços de medo que se refletiam em seus escritos: o medo da retaliação, de ser descoberto como delator, da desordem, do poder, enfim, o medo que o fantasma da subversão lhe provocava.287
283 Última Hora. 03/08/1970. Apud. FICO, Carlos. Op. Cit. 1997. p. 124.
284 D'ARAÚJO, Maria Celina et al. Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará, 1994. p. 62.
285 O informe. BR AN, Rio de Janeiro. X9.0.TAI.3/9.
286 MAGALHÃES, Marionilde Dias Brepohl. Op. Cit. 1997.
287 Ibidem.
A figura do informante contribuía para a atividade do agente dos serviços de informação e repressão, entregando supostos subversivos. A figura do informante seria também estudada nos cursos de informação.
Retomando a coleção O informante secreto do regime militar, ela aborda uma série de documentos e apostilas, alguns produzidos antes da instauração da ditadura civil-militar. Alguns desses documentos não possuem data de criação, mas sabe-se que foram usados nos cursos de formação na Escola Superior de Guerra e posteriormente na Escola Nacional de Informações.
A data estabelecida como limite inicial foi o ano de 1946, data de criação da Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. Contudo, o primeiro curso realizado no país referente à atividade de informações data do ano de 1958, com o curso piloto realizado pelo brigadeiro João Mendes da Silva na ESG. Não descartamos, todavia, a utilização dessa documentação em momentos anteriores, haja vista a preocupação dos órgãos militares com o comunismo. O arquivo foi separado em duas séries, Treinamento de Agente de Informação e Espionagem. Esta última possui duas subséries, Atividades Clandestinas e Atividades Clandestinas no Partido Comunista do Brasil.
Na série Treinamento de Agente de Informação são encontrados aproximadamente seis dossiês em um total de 1800 páginas. São apostilas que tratam da relação diplomática do Brasil com potências comunistas, da busca de informações e informes, defesa de embaixadas brasileiras no exterior, técnicas de criptografia, a prática da vigilância e contra-vigilância, a espionagem praticada pelos países comunistas, a utilização de equipamentos eletrônicos como microfones, gravadores, rádios e escutas telefônicas, a forma de se produzir a informação, os interesses, as matérias a serem buscadas nos jornais, etapas da produção da informação, bem como noções de combate à guerra revolucionária. Já a série Espionagem, dividida em duas sub-séries, é o resultado da ação de agentes treinados ou pessoas contratadas para exercer a busca de informes mediante uma recompensa qualquer.288 Essas atividades eram diversificadas e envolviam a infiltração em organizações e entidades, vigilância de pessoas, coleta de panfletos e elaboração de estudos de situação. Nessa série podem ser encontrados diversos documentos elaborados durante a atividade da espionagem de pessoas e organizações consideradas suspeitas.289
288 ARQUIVO NACIONAL (BRASIL). Op. Cit. 2008. p. 21.
289 Ibidem. p. 21.
Cabe ressaltar que essa documentação dos órgãos de informações pode ser dividida em dois tipos. A primeira é uma documentação de circulação interna dos serviços de informação e produzida com o intuito de capacitar e treinar seus agentes. Outro tipo são aqueles em que os serviços de informação se faziam conhecer e repassavam a outros órgãos. Ambas as categorias de documentos estão intimamente ligadas e podemos perceber não apenas uma série de documentos técnicos relacionados ao modus operandi do sistema, aqui tanto o de informações quanto o repressivo, mas uma visão ideológica acerca desse trabalho. O agir era, dessa forma, impregnado de valores ideológicos e de uma visão de mundo. Há de se levar em conta que muitos desses agentes ingressavam no serviço repressivo e de informações, fossem civis ou militares, em busca de uma ascensão na carreira ou simplesmente de um trabalho com um salário.
O anticomunismo não pode ser visto como uma matriz ideológica comum a todos aqueles que trabalharam nos aparelhos repressivos e de informações. Porém, não se pode descartá-lo por completo, acreditando que todos agiam apenas porque cumpriam ordens ou encaravam o trabalho como uma tarefa a ser realizada. Dentro dos aparelhos repressivos e de informações poderíamos encontrar os dois extremos: o fanático paranoico que age com paixão à causa, bem como aquele que apenas cumpria ordens.
Taís Morais, no livro jornalístico Sem vestígios290, analisa o caso de um agente secreto, chamado por ela apenas de Carioca, preservando assim sua identidade. Nesse caso, o agente ao participar de atividades no serviço militar estava apenas cumprindo ordens. Segundo Morais,
[...] ele fazia estritamente seu dever: barrava e revistava todos os veículos que pareciam suspeitos. Tratava-se do fato mais natural do mundo. Para o soldado brasileiro, o governo central, do qual emanava a ordem era legítimo, não importava se havia resultado de golpe ou revolução. De uma forma bem elementar, aqueles homens tinham sido submetidos a uma lavagem cerebral. Eram digamos, os ‘inocentes úteis’ da autoridade ‘estabelecida’, não importava como.291
Carioca ingressaria futuramente na Escola Nacional de Informações e posteriormente no Centro de Informações do Exército (CIE). Com o passar dos anos, o agente secreto foi
290 MORAIS, Taís. Sem vestígios: revelações de um agente secreto da ditadura militar brasileira. São Paulo:
Geração Editorial, 2008. Segundo o editor da Geração Editorial, uma documentação foi encaminhada à editora por uma mulher que atendia ao pedido do ex-marido para publicar os documentos. Eram textos escritos em forma de diários, fitas, recortes de jornal e alguns capítulos de um livro que o autor estaria escrevendo durante o início dos anos 90. O material, porém, demandava pesquisa e confirmações, resultando no livro. Infelizmente a obra não indica o nome do agente secreto e a documentação permanece em sigilo.
291 MORAIS, Taís. Op. Cit. 2008. p. 52.
adquirindo paixão e adoração pelo seu trabalho, bem como foi sendo impregnado com os ideais anticomunistas da caserna. Participou de várias missões como a Guerrilha do Araguaia e da prisão de David Capistrano, desaparecido político e que nas memórias de Carioca aparece esquartejado na Casa de Petrópolis.292 Aposentado durante o período de redemocratização, Carioca guardava grandes traumas com os episódios de torturas e assassinatos que participou, sendo perseguido em sonhos e alucinações, como demonstram os textos de seu diário, por antigos subversivos que estariam em sua busca. Afirma que:
O cenário de terror não me deixa em paz. Vozes e rostos desconhecidos me atormentam. Surgem de repente. Essa mistura de imagens fantasmagóricas e sons desconexos me confundem mais ainda. Sufocam. Provocam sensações mórbidas. Não sou mais dono de mim. Sigo à deriva, em plena tempestade sem nenhum controle.
Nem chorar eu consigo. Lágrimas talvez ajudassem a tirar essa pressão do peito, do cérebro. Mas sou incapaz de me entregar ao choro. Fico à mercê das emoções terríveis que me invadem em ondas sucessivas. Gume afiado a cortar o peito. Melhor que uma lâmina de verdade me rasgue o ventre. [...] Mas, quem sabe, se isso tudo vier à tona provoque uma reflexão mais profunda. Minhas anotações constituem apenas um lembrete, uma forma de não esquecer os companheiros que lutaram comigo contra a subversão e o avanço do comunismo no país. Acreditávamos piamente no que fazíamos.293
No entender de outros integrantes do sistema repressivo, porém, a violência praticada durante a ditadura era legítima e os atos cometidos vêm à tona no presente como um feito heroico, pois, segundo eles, vivia-se uma guerra contra o comunismo.294 Carioca afirmou em suas memórias que o sistema ensinava como matar, mas não ensinava como lidar com as consequências emocionais dos atos, os quais, por certo, nunca passam sem deixar algum vestígio. Eles não recebiam um treinamento para autopromoção mental. Aprendiam isso no cotidiano com outros colegas, criando personagens, vestindo máscaras. O papel ao receber uma missão era o do repressor. Fim do trabalho, fim do ato e retirava-se a máscara. As cortinas desciam e tudo continuaria de forma normal. Para ele e para outros agentes, ao longo dos anos
292 A Casa de Petrópolis foi um local clandestino mantido pelo CIE na cidade de Petrópolis, a qual foi alvo de inúmeras denúncias de torturas e execuções de presos políticos.
293 Apud MORAIS, Taís. Op. Cit. 2008. p. 217.
294 A grande maioria dos militares não confirma casos de tortura sendo usados de forma sistemática e como prática comum da ditadura civil-militar. Apontam, por outro lado, que ela ocorreu de forma ocasional e sem o consentimento dos superiores. Por outro lado, afirmam que agiram sempre contra o comunismo que seria implantado com o governo de João Goulart, bem como, contra a posterior guerrilha urbana e rural que marcaria os anos sessenta e setenta. As memórias de alguns militares que exerceram cargos importantes no aparelho repressivo e de informação presentes na coletânea organizada por Maria Celina D’Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro são reveladores dessa visão militar da repressão, justificada como salvação da pátria e da liberdade. ARAÚJO, Maria Celina et al. Op. Cit. 1994.
tal estratégia se mostraria ineficaz. A esse respeito, Martha Huggins constatou, ao entrevistar alguns, por ela denominados, “operários da violência”, um grande desgaste emocional vivido por esses agentes, pois,
[...] sentiram-se usados e abusados pelo sistema e acabaram por dar-se conta de que haviam renunciado a grande parte de sua vida pessoal e profissional em favor de suas funções infinitamente exigentes, sem reconhecimento ou recompensa adequados.
Seus casamentos foram atingidos, assim como a relação com filhos e amigos.
Sintomas psicossomáticos atormentaram sua saúde, assim como também a fadiga crônica e a insônia. Manifestaram extenso uso de mecanismos de autodefesa em última análise danosos, como racionalização, negação e compartimentalização.295
Huggins entrevistou alguns policiais envolvidos com a repressão e constatou inúmeros casos de problemas emocionais e envolvimento com drogas. Para ela existe uma grande dificuldade em se pesquisar o impacto da violência naqueles que seriam os perpetradores.
Segundo ela
[...] a recusa de se realizar pesquisas com perpetradores da violência por motivos de
‘sensibilidade moral’ está relacionada ao pressuposto de que não se pode esperar que os infames digam a verdade – porque esse tipo de gente está em um nível muito baixo em uma ‘hierarquia de credibilidade’ para que se acredite neles. Assim, há mais argumentos contra levar-se em consideração o possível impacto da atrocidade sobre os próprios perpetradores. Em última análise, o pesquisador que estuda a possibilidade de que perpetradores de atrocidades sejam, eles próprios, ‘vítimas’ pode provocar acusações de viés. Pode parecer que os perpetradores de atrocidades estão sendo desculpados de sua violência quando, na verdade, a pesquisa sobre burnout serve de advertência aos que perpetrariam atrocidades: você só pode fazer isso com risco físico e psicológico para você mesmo, sem garantia alguma de que, no fim, aqueles a quem você serviu irão apoiá-lo. [...] Algumas das interpretações promovidas a partir da perspectiva dos direitos humanos sobre a violência dos perpetradores de atrocidades a explicam como resultado das suas predisposições sádicas inatas.296
O estudo das práticas de violência, mas também compreender as motivações ideológicas desses agentes, se fazem necessárias dentro dos estudos sobre a ditadura civil-militar.