2 O BAIRRO DO RECIFE E O PROGRAMA MONUMENTA
2.2 BREVE HISTÓRICO DO PROGRAMA MONUMENTA
Entre 2000 e 2010, o Bairro do Recife sofreu intensa atividade de 15 pesquisas arqueológicas interventivas. Foram escavados: a) a Sinagoga Kahal Israel e Drenagem no Marco Zero em 2000, pelo arqueólogo Marcos Albuquerque; Luz Recife Antigo e Praça Tiradentes, em 2001, pelo mesmo arqueólogo; Av. Cais Alfândega e Arco da Conceição, em 2003 (idem); b) Fote Matos/Camarão, pela arqueóloga Ana Nascimento e Luiz Junior, em 2003; c) Baluarte Portal da Terra, pela arqueóloga Anne-Marie Pessis, em 2004; d) Polo da Alfândega e Rua Madre de Deus em 2006 e Cruz do Patrão em 2007, pela arqueóloga Gabriela Martin; e) a Igreja Madre de Deus, por Albérico Queiroz, em 2007; f) o Habitacional do Pilar por Anne-Marie Pessis e Gabriela Martin, em 2009; g) uma rede elétrica e de telefonia e a Bolsa de Valores de PB-PE, por Nuno José Rego e José Aylton Mello, em 2010; e h) a Caixa Econômica Federal, por Vera Lúcia Menelau, em 2010 (RUFINO, 2013).
Essas pesquisas indicam uma preocupação do Governo Brasileiro com a preservação do patrimônio histórico e arqueológico, o que vem ocorrendo dentro de um contexto de ações
descontínuas, desde a fundação dos primeiros órgãos oficiais de gerenciamento do patrimônio nacional nos anos 1930, iniciando com o SPHAN. Também indica a presença de empresas de arqueologia e de agentes financiadores e de guarda das coleções, formadas após as intervenções arqueológicas e a formação de uma significativa coleção arqueológica do Bairro do Recife. Uma das séries que compõem essa coleção está representada pelos materiais escavados entre 2006 e 2007 (PESSIS et al, 2006, 2007, 2009), onde está a amostra dos tijolos estudados nesta dissertação.
Entretanto, foi a partir de 2001, em decorrência da séria deterioração na qual se encontravam os monumentos das cidades brasileiras, que o governo federal angariou fundos para preservar esse patrimônio histórico nacional. A restauração desses monumentos, como um todo, estavam orçadas em U$65.000.000,00 a U$20.000.000,00 por ano para 20 anos de atividades. O Brasil teria disponível para isso, U$3.000.000,00 por ano. Darling (2001), a respeito desse processo, que envolveu a criação do Programa Monumenta, descreveu as ações do governo no período8.
O objetivo central do Programa Monumenta era desenvolver uma estratégia de preservação
sustentável para o patrimônio construído pelo desenvolvimento de prioridades e estruturas de
incentivo para os municípios e o setor privado para preservar o patrimônio, como também educar o público sobre a sua importância e cuidados. O contexto geral dos projetos de preservação integrada deste Programa inclui a restauração do patrimônio listado, a reparação de infra-estrutura que está causando a deterioração de edifícios (tais como sistemas de drenagem deficitários ou insuficientes ou muros de contenção), ruas de acesso, calçadas, melhorias no espaço público para tornar as áreas mais úteis e atraentes para moradores e visitantes, estacionamentos melhorados, iluminação pública e segurança (DARLING, 2001).
Comportando um conceito inovador, o Programa Monumenta buscava conciliar a ação de restauração de obras com a própria sustentabilidade dos sítios históricos. Essa motivação tornava-se possível pelo seu uso econômico, social e cultural, tanto quanto pelas lições
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Segundo Darling (2001, p. 195), grande parte do patrimônio construído do Brasil encontra-se em áreas urbanas e em mãos privadas. No período no qual o autor escreve, o governo federal administrava esse patrimônio, exigindo que todas as propostas de modificação fossem aprovadas antes da execução. No entanto, não existiam normas para a preservação, e as opiniões das autoridades reguladoras eram, muitas vezes, lentas e apareciam arbitrárias. Os moradores freqüentemente faziam modificações sem apresentar uma proposta, muitas vezes desfigurando o monumento. O Programa Monumenta, projetado pelo Ministério da Cultura e apoiado por meio de um empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), teria sido criado para tratar desses problemas.
obtidas sobre a gestão do patrimônio urbano nacional (DUARTE JÚNIOR, 2010; GIANNECCHINI, 2015). O Programa Monumenta destinava recursos para cursos de restauração, eventos culturais, atividades econômicas e turísticas relativas aos centros históricos. Por meio de editais, essas ações eram realizadas, somando-se às ações de estados e municípios de captação de financiamentos paralelos e a necessidade da cultura do zelo e cuidado pela sociedade do seu patrimônio representado pelos bens culturais e históricos.
Especialmente no Bairro do Recife, o Programa Monumenta realizou experiências na área de promoção de atividades econômicas, de educação patrimonial, de formação profissional e de capacitação de pessoas no âmbito de um conceito novo de preservação, de uma recuperação sustentável do patrimônio histórico brasileiro. O Programa pretendia atacar as causas da degradação dos sítios e melhorar a qualidade de vida das comunidades locais. O bem patrimonial tornava-se sinônimo de fonte de conhecimento e de rentabilidade financeira, pela inclusão social, simultaneamente.
Um exemplo desse Programa ocorreu no Shopping Paço da Alfândega, no Recife, mediante um projeto de educação para valorização do patrimônio histórico. Em formato de aulas, foram apresentadas informações históricas sobre a Congregação do Oratório de São Filipe Néri, do séc. XVII. Essa ordem religiosa, que representou um papel importante no âmbito religioso, educacional e político, foi extinta na primeira metade do séc. XIX, deixando o convento e a Igreja da Madre de Deus, construída no início do séc. XVIII. A Igreja da Madre de Deus havia passado por um incêndio em 1971, tendo passado por 13 anos de restauração. A importância do patrimônio deixado por essa ordem religiosa e a necessidade da sua
conservação foram temas tratados em forma de “Aula Patrimônio”9
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O Programa Monumenta/BID/ PPGARQ-UFPE e Prefeitura do Recife (PESSIS et al, 2006), faz parte de um mecanismo oficial de preservação urbana e salvaguarda das cidades históricas brasileiras, desenvolvido pelo Governo Federal e o BID, em conjunto com parcerias privadas e públicas no Brasil (DUARTE JUNIOR, 2010). Nas regiões norte, nordeste e centro-oeste, os sítios históricos e conjuntos urbanos de monumentos nacionais foram
9 O Projeto Aula Patrimônio – Alfândega e Madre de Deus foi financiado pelo Programa Monumenta/Minc,
realizado pelo Instituto Desenvolvimento Humano. Seu objetivo foi divulgar a importância da Igreja Madre de Deus e dos seus fundadores, os membros da Ordem dos Oratorianos de São Filipe de Néri, contribuindo para a história da cidade do Recife e da região na qual está localizada por meio de aulas presenciais. As atividades incluíam a pesquisa aos acervo da casa dos Oratorianos em São Paulo e na Itália, divulgação da importância do patrimônio nacional para diferentes públicos, mobilização da comunidade para a preservação do patrimônio cultural e a realização de aulas de educação patrimonial para cerca de 2500 alunos. Este projeto desenvolveu-se entre 02 de maio de 2005 a 29 de junho de 2006 (AULA PATRIMÔNIO Alfândega e Madre de Deus, 2007).
relacionados no texto Sítios Históricos e Conjuntos Urbanos de Monumentos Nacionais (BRASIL, 2005a).
Sobre as atividades do Programa Monumenta no Recife, foram consultados 4 documentos produzidos pela equipe de arqueologia da UFPE e pelo IPHAN: 1) o Projeto Processo de
urbanização do Bairro do Recife nos séculos XVII e XVIII, de 2006; 2) o Relatório Parcial das Pesquisas Arqueológicas do Acompanhamento das Obras de Urbanização do Bairro do Recife, Pólo Alfândega/Madre de Deus, de março de 2007; 3) o Relatório das Pesquisas Arqueológicas do Acompanhamento das Obras de Urbanização do Bairro do Recife, Pólo Alfândega/Madre de Deus, de novembro de 2009; e 4) o Processo IPHAN 01498.000156/2006-11 sobre o assunto Acompanhamento Arqueológico das Obras na Rua da Moeda, trecho da Av. Alfredo Lisboa, Rua Madre de Deus, Rua Vigário Tenório, rua Alfândega, Rua Aloísio Magalhães, Aluizio Piquito, procedente da 5ª SR-IPHAN/PE.
Outros textos foram selecionados nas referências dos projetos e relatórios acima citados e artigos posteriores aos mesmos.
2.2.1 Materiais e estruturas evidenciadas
Entre os tipos de materiais escavados no Bairro do Recife durante o Programa Monumenta estão aqueles provenientes de estruturas construtivas arruinadas ou até então enterradas e de níveis de aterro10. As principais estruturas identificadas incluíram: a) as estruturas em cantaria no quarteirão holandês; b) as estruturas de alvenaria dos alicerces na Rua Madre de Deus; c) estruturas complexas, toras e estacas de madeira na Rua Aloísio Magalhães; d) poços de alvenaria de tijolo e pedra; e) os alicerces de alvenaria dos armazéns do antigo cais; f) quarteirão de Matos, na Rua da Moeda; g) estruturas de contenção dos aterros e h) alicerces do século XIX (PESSIS et al, 2009).
10 Os aterros na planície aluvional do Recife, uma baixada ampla caracterizada como enseada, foi aterrada ou
preenchida sob a ação conexa de vários processos, destacando-se a ação dos rios (Capiberibe e Beberibe), do mar, do vento, da importante vegetação dos mangues (principal fixadora de detritos) e pela ação humana. A estruturação antrópica do solo do Recife ocorreu através dos aterros e drenagens ao longo dos séculos, para a obtenção da consistência, declividade, forma e extensão mais apropriadas para a ocupação do homem (CASTRO, 2013).
Segundo Pessis et al (2009), em um total de 3.29011 objetos plotados e fragmentos, o maior percentual é composto de materiais construtivos. Isso se justifica, segundo as coordenadoras do projeto de pesquisa,
[...] pelo momento de expulsão dos holandeses, onde há a estabilização das vilas, que fora favorecida pelo processo de consolidação da presença efetiva do Estado Português, juntamente com a Igreja, o comércio e as suas redes de abastecimento, que possibilitou o surgimento da demanda por uma mão-de- obra qualificada, capaz de executar as construções dos mais diversos tipos como capelas, igrejas, residências, palácios, pelourinhos, chafarizes, pontes e calçamentos, das vias mais importantes da vila, marcada por uma arquitetura de cantaria. Substituir materiais, adequar projetos e técnicas construtivas e treinar a principal força de trabalho disponível na Colônia, os escravos, foram alguns dos desafios lançados aos pedreiros, canteiros e carpinteiros portugueses (PESSIS et al, 2009, p. 62).
Também, o traçado urbano colonial teria sido remodelado pela reforma urbana do início do século XX, que resultou na destruição de uma parcela significativa das construções arquitetônicas e a geração de grande quantidade de materiais de demolição dessas edificações, como telhas, azulejos, tijolos, soleiras de mármore, argamassas e dobradiças metálicas de portas (PESSIS et al, 2009, p. 62).
Os materiais escavados e recuperados, em parte nas estruturas arqueológicas e os avulsos, ou não, associados a elas diretamente, mas de natureza construtiva, - aqui não foram incluídos os artefatos em louça, grés, cachimbos, vidros, entre outros que não tenham feito parte de estruturas dos bens imóveis da área, cujos primeiros registros históricos datam de 1537 – foram qualificados e quantificados após as escavações.