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2 O BAIRRO DO RECIFE E O PROGRAMA MONUMENTA

2.3 OS MATERIAIS CONSTRUTIVOS

O subsolo do Bairro do Recife contêm ricas fontes de informações sobre o modo de vida cotidiana e sobre a circulação de mercadorias dos colonizadores europeus, especialmente os

11 Esse número e os tipos de materiais foram consultados no inventário geral do Núcleo de Estudos

Arqueológicos NEA-UFPE, Departamento de Arqueologia, 10o andar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE, constante em arquivo do tipo Planilha Microfoft Excel 97-2003(.xls), 484KB, que abre no Microsoft Excel, modificada em 22 de maio de 2013, com título Monumenta – 2 95-2003, contendo 3.290 etiquetas e dados sobre o nome do sítio, município, material, setor, nível, quadrícula, ponto topográfico, data (coleta) e observações (local da coleta) de objetos arqueológicos coletados, individuais e em conjuntos.

portugueses e holandeses. Durante as escavações no Polo da Alfândega, os vestígios de materiais construtivos distribuíam-se em camadas de aterros resultantes de reformas e reuso de estruturas nas construções

Os materiais coletados em campo foram acondicionados em sacos plásticos, contendo etiquetas com dados de localização, nível e especificação das camadas observadas durante a abertura das valas no sítio, tendo sido transportados para o Núcleo de Estudos Arqueológicos da UFPE (PESSIS et al, 2009, p.20).

Abaixo (Quadro1), foram descritas as principais características das estruturas evidenciadas durante as escavações no Bairro do Recife, suas cronologias relativas e os respectivos tipos de materiais arqueológicos coletados:

Quadro 1 - Principais características e materiais arqueológicos coletados nas estruturas arqueológicas escavadas no Bairro do Recife – Programa Monumenta – durante a instalação de tubulações de drenagem nas ruas.

Características das estruturas escavadas no Bairro do Recife (Programa Monumenta) – instalação de tubulações de drenagem nas ruas

Estrutura Datação relativa

Características Material arqueológico A - Quarteirão

holandês (Rua Madre de Deus)

Séc. XVII Local do Bairro Holandês, sofreu remodelação urbana com a construção da Igreja e do Convento da Madre de Deus e do Forte do Matos

Calçamento de paralelepípedos abaixo da rua atual, com traçado distinto desta; arranjos de

tijolos indicando estruturas de casas no

mesmo nível; um batente de porta em pedra cortada e polida com marcas de uso de ferragem (entrada de uma edificação); arranjo de pedras cortadas abaixo dos tijolos no nível natural da península; tijolos holandeses e fragmentos de cachimbos de pasta branca nos sedimentos; um fragmento de azulejo holandês.

B -Alicerces de alvenaria na Rua Madre de Deus

Séc. XIX-XX Apresenta camadas

estratigráficas alternadas por ações de terraplanagem e reparos de obras na infra-

estrutura urbana e

implantação do shopping Paço da Alfândega. Após a retirada de paralelepípedos graníticos, foram encontradas as camadas de materiais e sobreposições de estruturas arqueológicas diversas.

Concreto e/ou macadame; camadas de aterros; estruturas de alvenaria com tijolos

manuais, vermelhos, de grandes dimensões; estrutura de contenção, grosseira

e robusta, com pedras sem acabamento; alicerces dispostos em arranjos singulares, alternados, enfileirados e escalonados na sua base, com caliça clara (configurando casas emparelhadas, em ruas estreitas); arranjo de paralelepípedos graníticos diferentes dos atuais, abaixo do arranjo atual, na esquina da Rua Madre de Deus com a Rua Aloísio Periquito (esse arranjo antigo será encontrado na Rua da Moeda); 6 estruturas em pedras de cantaria e tijolos, paralelepípedos, indicando a limitação de uma rua e um poço, junto do alicerce de uma casa, na esquina da Rua Madre de Deus e a Rua da Moeda; com a remoção de solo, encontrou-se fragmentos de piteiras de cachimbos em pasta marrom, faianças e louças ornamentadas e com

marcas. C -Estruturas complexas, toras e estacas de madeira, na Rua Aloísio Magalhães

Séc. XIX-XX Partes de estruturas dos armazéns de mercadorias do cais e restos de demolição de um edifício neoclássico e

de estaqueamento do

baluarte do Forte do Matos (não construído)

Remanescentes de estrutura em toras e pranchas de madeira (arranjos horizontais) e estacas verticais (fixadores) seguindo a inclinação e locação da ponta do baluarte voltado para o rio (ficaram preservadas após a escavação).

D - Poços de abastecimento

Séc. XVIII-

XIX

Dentro das estruturas de alicerces de pedras da primeira casa do Quarteirão

de Antonio Matos, na

esquina entre Rua da Moeda e a Rua da Madre de Deus.

Foram registrados 5 poços ao longo da Rua da Moeda; Poço confeccionado com tijolos, podendo ser observado o lençol freático no fundo; os poços estavam conectados com os alicerces , no quintal dos fundos, no interior das casas ou na frente das casas (?) . Ver registros em croquis das estruturas (topograficamente registradas). Os materiais coletados foram etiquetados; ocorrência de poços de pedra e de pedra e tijolos; quase todos os poços estavam preenchidos de lixo doméstico, exceto um, que possuía garrafas de vidro de diversas bebidas e de azeite; estruturas de pedras dos alicerces das casas do Quarteirão de Antonio Matos, com indicadores de pisos e parede (3 poços de secção circular); indicadores de pisos internos e externos, com soleira em pedra, com poço de secção quadrada e um poço circular.

E -Alicerces de alvenaria dos armazéns do antigo Cais

Séc. XIX Estruturas de alvenaria

danificadas por obras

anteriores.

Presença de alicerces com acabamentos e pintura do lado externo das paredes do armazém e no lado interno uma tijoleira de piso (possivelmente coberta). Todas as estruturas foram desenhadas, fotografadas e topograficamente registradas.

F - Quarteirão de Matos, Rua da Moeda

Séc. XVII,

XVIII - XIX

Localização dos alicerces das casas do quarteirão de Matos nas valas abertas pela Construtora. Divisão da rua no sentido longitudinal em trecho M1 (área entre a Rua da Madre de Deus e a Rua Mariz e Barros), M2 (área entre a Rua da Mariz e Barros até a Rua da Assembléia) e M3 (área da Rua da Assembleia até a Avenida Alfredo Lisboa.

Foram delimitados os

espaços das casas, sobrados e larguras das antigas ruas do Amorim e da Moeda.

Sedimentos de demolição de casas do séc. XVIII (demolidas em fins do séc. XIX) junto

dos seus alicerces, situadas

perpendicularmente à Rua da Moeda, no quarteirão de Matos, proprietário da construção; grande quantidade de tijolos de

Frízia (trecho M1, em maior abundância,

decaindo nos trechos M2 e M3), relacionados ao Bairro Holandês, próximo, demolido antes

da construção do Matos. Houve

reaproveitamento de todos os materiais de demolição em todas as ruas pesquisadas; soleiras, pisos, áreas de cozimento, poços e quintais.

G-Pacotes

sedimentares: níveis de aterro e camadas sedimentares

Séc. XIX Presença de aterros

sucessivos na maior parte da área estudada. Lençol freático a 1,20m. área alagada que demandou o uso de diques, aterros e

arrimo (dinâmica

construtiva específica). Os alicerces do séc XIX foram construídos com materiais dos níveis inferiores, mais profundos.

Extratos com sedimentos de aterros, naturais

ou programados, com diferenciação

estratigráfica perceptível, compactação, compostos de materiais de demolição, materiais arenosos escuros e claros (com objetos de cultura material, seixos rolados e conchas) e muito escuros ou com lama (com estruturas mistas, madeiras e cordas); alicerces do séc. XIX em níveis superficiais; registro das estruturas dos diferentes arranjos de tijolos, níveis de piso e camadas estratigráficas distintas.

Conforme Pessis et al (2009), a respeito dos materiais arqueológicos recuperados durante as intervenções para a instalação de tubulações de drenagem nas ruas acompanhadas pela equipe de arqueologia, haviam sido fixados os seguintes objetivos: a) identificar marcadores

cronológicos; b) estimar rotas de comércio; c) avaliar o status social na época; d) subsidiar

informações e documentações do Arquivo Histórico Ultramarino sobre a cidade do Recife e as diversas mudanças que ocorreram no desenvolvimento da sua configuração urbanística; e) fornecer dados sobre o uso e reutilização de materiais construtivos nacionais e importados, não comprováveis pela documentação e bibliografia; f) inferir diferenciação de status social por determinados tipos de materiais arqueológicos, mesmo que em refugo em estruturas de aterro.

No conjunto de estruturas descritas no Quadro 1, observaram-se na Rua Madre de Deus e Rua da Moeda (Figuras 1 e 2), a existência de poços construídos com tijolos e pedras.

Figura 1 - Planta com localização de algumas estruturas arqueológicas encontradas ao longo da Rua Madre de Deus, no Bairro do Recife, Programa Monumenta

(Fonte: Pessis et al., 2009, p. 23, Figura 7)

Em geral, nesse caso, os vestígios encontrados apresentam alto nível de fragmentação devido aos processos culturais e naturais envolvidos na formação do registro arqueológico.

Conforme Pessis et al (2009), uma dificuldade encontrada foi a questão da cronologia, pois as camadas estratigráficas não possibilitavam um acompanhamento cronológico sequencial devido ao processo de revolvimento e reaproveitamento de estratos mais profundos em períodos de tempo mais recentes: “após cada aterro de contenção das águas para aproveitamento do solo, a área imediata após as estruturas virava lixeira.

Não foi possível, nesse caso relacionar a cronologia com as fundações das diversas intervenções” (PESSIS et al, 2009, p. 59).

Figura 2 - Planta da Rua da Moeda com os poços para abastecimento de água evidenciados nas escavações, Bairro do Recife, Programa Monumenta

(Fonte: Pessis et al, 2009, p. 45, Figura 31).

A quantidade elevada de vestígios foi associada à densidade da ocupação humana neste núcleo de povoamento. Foi verificada a concentração de vestígios arqueológicos, distribuídos ao longo da Rua Madre de Deus, em frente do edifício Chanteclair e no cruzamento das ruas Aloísio Magalhães, da Moeda e Madre de Deus (PESSIS et al, 2009).

Segundo Pessis et al, 2009), os vestígios recuperados durante as intervenções no Bairro do Recife entre 2006 e 2007 foram identificados, separados por classificação, limpos e numerados. Sobre o potencial informativo dos vestígios isolados, fora das estruturas, interessavam: a) dados indicadores de cronologia; b) dados indicadores do lugar de origem; c) dados indicadores de formas de utilização (marcas, inscrições, decoração, coloração e outros).

Esses dados são fundamentais para a construção da interpretação arqueológica e histórica dos vestígios coletados das estruturas e isoladamente, resolvendo um problema sobre a cronologia, origem e uso dos materiais arqueológicos encontrados. Em especial, no Recife, os materiais construtivos, ou estruturais, estavam representados por tipos essenciais para estruturas de paredes, poços, muros de sustentação nas cidades. Sobre materiais construtivos, por outro lado, na região de Abreu e Lima e Igaraçú são encontrados chaminés, igrejas e fornos para cal do período colonial e republicano construídos com tijolos vermelhos em contextos rurais. As estruturas arquitetônicas variam nesses dois contextos de ocupação humana do espaço.

Existe uma variedade de materiais construtivos nas cidades e vilas coloniais no Brasil como: a) as pedras naturais ou rochas (como o granito, arenito e calcário); b) os produtos cerâmicos, entre os quais estão os tijolos, as telhas, as tijoleiras e os ladrilhos para pisos e paredes (azulejos); c) os aglomerantes (cal comum, cal hidráulica, cimento), que incluem os agregados (as areias, britas ou pedregulhos, água); d) as argamassas (de assentamento, chapisco, emboço, reboco); e) concreto; f) madeiras, metais e ligas.

Os elementos construtivos, distintos do conceito de materiais construtivos (pois são formadores de tais elementos), estão representados por: a) fundações ou alicerces; b) muros, paredes; c) suportes; d) arcadas; e) abóbadas; f) fachadas; g) estruturas de madeira; h) estruturas metálicas; i) estruturas de concreto. Entre os acabamentos das edificações, podem ser destacados: a) os pisos; b) os revestimentos; c) os telhados; d) os forros; e) as escadas; f) as esquadrias; g) as ferragens; h) a pintura (RAIMUNDO, 1975). Alguns destes últimos, os elementos construtivos e acabamentos, foram evidenciados e documentados durante as

escavações no âmbito do Programa Monumenta para o Recife12.

Os tijolos mereceram atenção específica neste projeto, considerando que possuem um potencial de análise e de interpretação que possibilita a obtenção de dados morfológicos, cronológicos, de origem geográfica e de uso e função. Observou-se a presença de tijolos com características morfológicas diferentes, podendo indicar diferentes usos, cronologias e origens no Recife.

12 Ver inventário do Núcleo de Estudos Arqueológicos de 2013, Planilha do Microsoft Excel 97-2003, contendo

3.290 etiquetas e os respectivos tipos de artefatos, incluindo os diversos materiais construtivos. Esta Planilha encontra-se disponível no NEA do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no 10 andar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), em Recife, PE.