2 O BAIRRO DO RECIFE E O PROGRAMA MONUMENTA
2.4 OS TIJOLOS RESGATADOS NO PROGRAMA MONUMENTA
Nesta pesquisa, a ênfase está em um tipo de produto cerâmico em especial: o tijolo. Os produtos cerâmicos em geral, segundo Raimundo (1975), podem incluir aqueles produzidos artificialmente, com argila cozida em forno. Estes compreendem os tijolos, as telhas, as tijoleiras e os ladrilhos para pisos e paredes, denominados azulejos. Os tijolos maciços de argila cozida (alguns denominados “tijolos batidos”, em referência ao modo de manufatura dos mesmos) constituem os vestígios arqueológicos analisados nesta dissertação.
Conforme a proposta de Stuart (2005), em arqueologia histórica, são importantes em relação ao estudo dos tijolos, a recuperação dos processos de manufatura e os atributos relacionados aos mesmos, métricos e não métricos, para descrever os tipos de tijolos. Esses dados podem ser recuperados pelas informações históricas das práticas tradicionais de confecção de tijolos durante o período estudado, artigos e catálogos de materiais construtivos arqueológicos já publicados13.
No âmbito da arqueologia histórica, a partir de escavações na área urbana do Recife, é possível estudar e analisar as provas materiais, e em especial este tipo de material, buscando contribuir para o desenvolvimento da prática arqueológica na área de catalogação e análise de tijolos. Assim buscou-se a identificação de métodos e técnicas de análise desse tipo de artefato em relatórios e trabalhos de pesquisa que puderam contribuir no estudo de tijolos arqueológicos, de modo específico ou de modo geral (p.ex. QUEIROZ, 2006; BENTO et al., 2014; RAMOS et al. 2010; ALBUQUERQUE, 2007a; MENELAU et al., 2008; PESSIS et al, 2006, 2007, 2009).
Esta dissertação busca respostas sobre a morfologia, época da produção dos tijolos e sobre a sua origem, sob a perspectiva da arqueologia histórica e as contribuições da arqueometria e conservação arqueológica. A análise dos tijolos extra situ foi identificada como parcela de uma análise mais ampla dos materiais de construções em geral e a cultura material representada por objetos de uso cotidiano e estruturas. Uma multietnicidade social existente no Recife entre os séculos XVII e XIX permeia a manufatura, tipos e uso desses artefatos.
13 Raros são os catálogos de materiais construtivos de proveniência arqueológica no Brasil. Os existentes sobre
tijolos estão inseridos em relatórios de escavações não publicados ou em curtos anexos de monografias. Análises físico-químicas podem ser mais encontradas, mas sem relações com a interpretação arqueológica de determinado sítio ou região.
Na Rua da Moeda, foram identificados os alicerces das casas do Quarteirão de Matos, tendo sido esquadrinhada em três setores, de onde provêm os materiais arqueológicos (Figura 3).
Figura 3 - Planta com as divisões da Rua da Moeda para a escavação e localização dos alicerces das casas do Quarteirão de Matos: setores M1 (Rua da Madre de Deus/Rua Mariz e Barros), M2 (Rua
Mariz e Barros/Rua da Assembléia), e M3 (Rua da Assembléia/Avenida Alfredo Lisboa).
Fonte: modificado de Pessis et al. (2009, p. 51, Figura 38).
Nesta mesma Rua da Moeda, no centro do Recife, também foram evidenciadas estruturas de poços em tijolos. A Figura 4 mostra uma vista oblíqua do poço 5, circular e construído com tijolos. Observa-se na fotografia extraída do Relatório final (PESSIS et al, 2009), o estado de desagregação dos tijolos mais superficiais que formam a borda circular da abertura do poço.
Figura 4 - Estrutura de tijolos vermelhos do poço no. 5, Rua da Moeda.
Nesta localidade, foram evidenciados os alicerces das casas do Quarteirão de Matos e em uma delas, um piso de tijoleiras (grandes tijolos de pequena espessura para revestir pisos), que pode ser observada na Figura 5. Esse tipo de tijolo, denominado tijoleira, apresenta dimensões maiores que os tijolos holandeses do tipo Frísia, com coloração vermelha. Dentro da relação dos tijolos pesquisada no Núcleo de Estudos Arqueológicos do Departamento de Arqueologia da UFPE, podem ser identificadas as amostras provenientes de alguns dos poços de tijolos, muito embora não seja possível identificar em croquis de campo ou fotografias, o local exato da estrutura de onde o tijolo foi coletado. Esse caráter de verificabilidade é importante no processo de construção do conhecimento científico. Ao longo da Rua da Moeda e arredores foram mapeados alicerces de antigas casas.
Figura 5 - Vista de tijoleira formando o piso de uma casa, Rua da Moeda, Quarteirão de Matos.
Fonte: Pessis et al. (2009, p. 55, Figura 42).
No caso do Bairro do Recife, os tijolos foram coletados de modo informal e visando o salvamento do maior número de objetos arqueológicos possível, mesmo por causa da fixação de muitos com argamassa em suas estruturas arquitetônicas e do peso e número dos tijolos avulsos que formavam pisos de casas. Os tijolos, de um modo geral, podem servir - uma vez observados in situ – para registrar camadas de demolição, indicar características estruturais de paredes e ter os seus dados integrados para uma análise total dos materiais de construções, conforme observou Stuart (2005).
Os tijolos evidenciados durante as escavações no Bairro do Recife, foram descritos no relatório final do Programa Monumenta (PESSIS et al, 2009). Neste haviam sido identificados tipos básicos de tijolos, com cores distintas e em quantidades diferentes, relacionados a estruturas ou dispersos.
A Tabela 1 apresenta as estruturas A a F, evidenciadas no Bairro do Recife e a presença dos tijolos. Não foi possível quantificar as amostras por estrutura e as letras A a F não foram usadas para estruturar o código de cada tijolo – preferindo-se o código da etiqueta de campo:
Tabela 1 - Estruturas com presença de tijolos no Bairro do Recife (Programa Monumenta):
Estruturas com presença de tijolos no Bairro do Recife (Programa Monumenta) –Pessis et al (2009)
Estrutura Material arqueológico - tijolos
A - Quarteirão holandês (Rua Madre de Deus)
a) arranjos de tijolos indicando estruturas de casas no mesmo nível; b) tijolos holandeses.
B - Alicerces de alvenaria na Rua Madre de Deus
a) estruturas de alvenaria com tijolos manuais, vermelhos, de grandes dimensões;
b) 6 estruturas em pedras de cantaria e tijolos, paralelepípedos, indicando a limitação de uma rua e um poço, junto do alicerce de uma casa, na esquina da Rua Madre de Deus e a Rua da Moeda. C - Poços de abastecimento a) foram registrados 5 poços ao longo da Rua da Moeda;
b) poço confeccionado com tijolos, podendo ser observado o lençol freático no fundo; c) ocorrência de poços de pedra e de pedra e tijolos.
D - Alicerces de alvenaria dos armazéns do antigo Cais
a) uma tijoleira de piso (possivelmente coberta). E - Quarteirão de Matos, Rua da
Moeda
a) sedimentos de demolição de casas do séc. XVIII (demolidas em fins do séc. XIX) junto dos seus alicerces com tijolos, situadas perpendicularmente à Rua da Moeda, no quarteirão de Matos, proprietário da construção;
b) grande quantidade de tijolos de Frízia (trecho M1, em maior abundância, decaindo nos trechos M2 e M3), relacionados ao Bairro Holandês, próximo, demolido antes da construção do Matos. Houve reaproveitamento de todos os materiais de demolição em todas as ruas pesquisadas; soleiras, pisos, áreas de cozimento, poços e quintais.
F - Pacotes sedimentares: níveis de aterro e camadas sedimentares
a) extratos com sedimentos de aterros, naturais ou programados, com diferenciação estratigráfica perceptível, compactação, compostos de materiais de demolição – incluindo tijolos e argamassas, materiais arenosos escuros e claros (com objetos de cultura material, seixos rolados e conchas) e muito escuros ou com lama (lamarão, com estruturas mistas, madeiras e cordas);
b) alicerces do séc. XIX em níveis superficiais; registro das estruturas dos diferentes arranjos de tijolos, níveis de piso e camadas estratigráficas distintas.
Fonte: adaptado de Pessis et al (2009).
O estudo dos tijolos depende, além da sua contextualização arqueológica, isto é, a sua relação a uma ou outra estrutura ou unidade arqueológica específica, da disponibilidade dos mesmos na coleção formada a partir da escavação no Bairro do Recife, assim como das formas de registro adotadas. Nesse caso, foi possível o levantamento de uma lista de tijolos, conforme inventário do Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Departamento de Arqueologia da UFPE, que serviu como guia para a análise da coleção como um todo.
Entre as 8 estruturas evidenciadas e os 3.290 registros14 de objetos recuperados nas escavações vinculadas ao Programa Monumenta para o Centro do Recife, foi verificado que os tijolos compreenderam, cerca de 8 % das etiquetas dos artefatos recuperados (Gráfico 1).
Os registros de etiquetas de outros tipos de materiais arqueológicos no sítio apresentaram variações: as cerâmicas (22%), as louças (20%), os artefatos de metal (13%), os cachimbos (12%), os vidros (8%), ossos de animais (7%), os azulejos (5%) e outros materiais (5%). Esses percentuais representam não somente características dos subsistemas sociais, sua cronologia e as intensidades dos descartes no decorrer do tempo, no mesmo espaço, mas as escolhas e procedimentos de coleta dos arqueólogos envolvidos.
Os tijolos relacionam-se aos substratos nos quais foram encontrados. Nesse aspecto, foram observadas as seguintes proveniências: a) na Rua Madre de Deus, quadrículas E1, E2, C, meio fio, valas 225, 263, 268, calçada leste, poço 6, centro, esquina com Rua Tuiuti, em frente ao Chante Clair, canto 2, Itaú; b) na Rua da Moeda, setor M1, calçada sul; c) na Rua da Assembleia, em frente do Down Town; d) na Avenida Alfredo Lisboa, vala 33, elétrica; d) em superfície, nos setores M1, M2, M3, vala 50, calçada norte, vala transversal.
14 O n de 3.290 refere-se ao número total de etiquetas dos artefatos ou fragmentos de artefatos resgatados no
Bairro do Recife no Programa Monumenta. 22 20 13 8 12 8 7 5 5 0 5 10 15 20 25
Gráfico 1 - Percentuais de registros de etiquetas de materiais arqueológicos resgatados no Bairro do Recife, Programa Monumenta,
entre 2006 e 2007 constantes da RT, NEA-UFPE (n = 3290).