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5 A METODOLOGIA DE BETTELHEIM À SOMBRA DO LIVRO DE ESTER

5.2 A FORMAÇÃO ARTÍSTICA DA HISTÓRIA DE ESTER

5.2.1 Breve paralelo entre Literatura Fabular e a Religiosa

Apesar da indicação de Bettelheim de uma intricada base intertextual entre os Contos e as histórias religiosas, constituindo realidades paralelas e naturezas idênticas, o estudioso chega a indicar a origem histórica dos Contos na religião – apontando uma época em que ambos eram parte constituinte da vida social (Ver p. 65-66). Assinalar, especificamente, onde a religião origina a realidade dos Contos parece difícil e, infelizmente, não constituiu a tese de Bettelheim e, também, não foi proposto como objetivo desta dissertação. Porém, o que se percebe é que, historicamente, a história de Ester como literatura religiosa, tenha a mesma perspectiva dos Contos em relação a associações conscientes e inconscientes evocadas, dependendo das pressuposições pessoais, de cada leitor. Isso fica claro no incalculável trabalho analítico de comentários da história, das diferentes matrizes religiosas, para citar apenas uma forma de análise. Porém, é possível observar similaridades em relação à herança cultural e à moralidade entre as literaturas.

Para além de uma realidade artística, a história de Ester, semelhante aos Contos, também carregaria uma forma única de expressão da herança cultural, comunicada a uma mente infantil.

Claramente indicada na estrutura final da história, seu legado é indicado na coleção, redação e disposição do livro, contendo a trama de Ester, além da solicitação da leitura anual e exercício da festa de Purim como reforço constituinte da vida social futura (Ester 9:23-32), principalmente, das matrizes religiosas abraâmicas. Diretamente, sua temática molduraria a realidade judaica em seu calendário, rituais religiosos, festas nacionais, literaturas rabínicas e culinária, possivelmente, desde sua origem (cf. TELUSHKIN, 1997; BRENER, 2007), e de forma revisitada, influenciaria o cristianismo e o islamismo – muito embora, frequentemente, a história de Ester forçasse uma reconciliação entre persas muçulmanos e judeus, o antecedente cultural e religioso influenciaria na compreensão e recontagem da história, ao se escolher entre narrativas históricas conflitantes fornecidas por heranças religiosas e culturais islâmicas (cf.

SILVERSTEIN, 2018).

Além disso, contribuiria artística e popularmente na cultura ocidental em leituras e releituras, na musica: com Marc-Antoine Charpentier, em “Historia Esther”, H 396, para solistas, coro e cordas de 1675, ou George Frideric Handel, “Esther”, libretto de John Arbuthnot ao Papa Alexandre de 1718; teatro: com J. Edward Oliver e Nick Munns escrevendo

“Swan Esther”, um musical de 1962; pintura: com Ernest Normand criando o quadro “Esther Denouncing Haman” de 1888; poema: com Jean Baptiste Racine escrevendo “Esther”, uma tragédia, a pedido da esposa de Luis XIV, Françoise d'Aubigné, marquesa de Maintenon de 1689; livro: com Joan Wolf em sua recontagem ficcional “A Reluctant Queen” de 2011; filme:

com Stephan Blinn escrevendo “One Night with the King” de 2006; ópera: com Hugo Weisgall compondo Esther de 1990; e série: com Norman Lessing escrevendo os episódios de Ester em

“The Greatest Heroes of the Bible” de 1978 (cf. GEERINCK, 2011).

E, talvez, esse seja um ponto original de uma relação dependente entre a literatura religiosa e a fabular: a questão da moralidade. Pois, para Bettelheim o substrato moral dos Contos se baseia na ética da religião, o que claramente, numa realidade histórica, a trama de Ester se colocaria também como literatura precípua para todo um sistema ou teoria de interpretação e avaliação da moral, não somente bíblica, mas substancialmente universal em seus temas. Assim, na história de Ester pode-se encontrar um código moral, padrões, princípios, comportamentos, consciência, valores, regras de conduta ou crenças concernentes ao bem e ao mal, ao certo e errado, que também são objeto dos demais livros canônicos. A diferença em relação às outras teorias éticas ocidentais, é que raramente a literatura bíblica é abertamente filosófica – não apresentando um argumento ético dedutivo sistemático nem formal. Em vez disso, forneceria padrões de raciocínio moral que se encontram na conduta e no caráter, às vezes indicado como uma ética da virtude: raciocínio moral que faz parte de uma tradição normativa ampla, em que o dever e a virtude estão inseparavelmente ligados entre si, de maneira que se reforcem mutuamente (cf. DAVIES, 2007; GERICKE, 2012). Esse ponto é importante, pois parece seguir a mesma observação de Bettelheim sobre os Contos, em que não se teria um postulado enciclopedista da virtude e da moralidade nas histórias infantis, mas a polarização do bem e mal, as projeções do leitor e suas identificações através de atração, e os apelos indiretos das personagens através do exemplo e não da explicação que imprimiriam a moralidade (cf. p.

24; 57-58).

E por temas morais, pode-se destacar na história de Ester a coragem, em que derivaria o auto sacrifício: quando se observa a decisão de Ester em se encontrar com o rei mesmo com o risco de vida (Ester 4:11, 16; 5:1-2; 7:8); e, a integridade: possivelmente, observada em Vasti ao não se postar perante Assuero e os demais convivas (Ester 1:11-12), também, em Ester, ao

manter sua promessa (Ester 2:10, 20), colocar-se no pátio interior do palácio real na espera pelo favor do rei (Ester 5:1-2), Mordecai ao não se inclinar a Hamã como definido por sua cultura judaica, mesmo sendo contrária à ordem do rei (Ester 3:2-4), no esforço de Mordecai, e depois de Ester pela inteireza do povo judeu sob ataque (Ester 4:1-3, 7-8, 13-14, 16-17; 7:3-6; 8:3-6, 16-17; 9:15-19, 29-32; 10:2-3) e, em Assuero se colocar em oposição a Hamã quando ele ataca Ester no segundo banquete, preservando a integridade da rainha (Ester 7:8).

A determinação: novamente, em Vasti se negar em ir à presença do rei (Ester 1:11-12), outra vez em Ester ao manter sua promessa (Ester 2:10, 20), em Mordecai, em não se curvar perante Hamã (Ester 3:2-4), na decisão de Ester ao escolher arrostar o rei (Ester 5:1-2), e nas respostas ao pedidos do rei quando, no segundo banquete e, pós batalha contra os inimigos dos judeus em Susã (Ester 7:3-6; 9:13); e, a disciplina: inferida na temporada em que Ester passa dentro da casa das mulheres, em preparação para o encontro com o rei (Ester 2:9, 12-15), e na preparação para o encontro com o rei através do jejum (Ester 4:16), e nas ações de Mordecai, inclusive, enquanto à espera da resposta de Ester (Ester 4:1-2, 17; 5:9; 6:12; 8:1).

A honestidade: nas palavras de Mordecai quanto ao conselho paterno feito no momento de hesitação de Ester (Ester 4:13-14); e, o respeito: no diálogo entre Mordecai e Ester quando às voltas com o trágico desfecho da trama de Hamã (Ester 4:2, 4-17), oferecido pelos demais povos em relação aos judeus e em relação aos príncipes para com Mordecai (Ester 8:17; 9:2-4;

10:3), entre Assuero e Ester em suas relações (Ester 5:1-8; 7:2-8; 8:1-8; 9:12-14), e entre Assuero e Mordecai nas mútuas relações (Ester 6:3, 6, 10; 8:1-2, 15; 10:2), dos judeus em não tocar nos despojos dos seus inimigos (Ester 9:15-16).

A justiça: em reconhecer a Mordecai pelos serviços prestados ao rei (Ester 6:3, 6, 10;

8:1-2, 15; 10:2-3), ao aplicar a pena capital sobre Hamã (Ester 3:6, 8-9; 5:10-14; 7:4, 8-10), e formular lei contrária ao decreto de morte aos judeus (Ester 8:7-14); e, a lealdade: de Mordecai para com Ester, ao adotá-la, e, em razão da temporada, na casa das mulheres ou no palácio, em sempre rodear e se informar sobre o seu estado (Ester 2:7, 11, 20-21; 3:2; 4:1-2; 5:9; 6:12; 8:1), de Ester para com Mordecai quando mantém a sua promessa até ser lhe solicitado o contrário (Ester 2:10, 20; 4:8), e também, ao buscar uma estratégia própria para salvar a Mordecai e o seu povo (Ester 4:16; 5:1-8; 7:2-6), de Mordecai para o seu povo com o pedido e influência sobre Ester e depois no trabalho de uma vida em prol do seu povo (Ester 4:1-2, 7-8, 13-14;

10:2-3), e de Mordecai e Ester em relação a Assuero ao desbaratarem a conspiração de Bigtã e Teres (Ester 2:21-23).

A paciência: de Ester em aguardar o melhor momento para revelar seu segredo e sobrepujar a trama de Hamã (Ester 4:16; 5:1-8; 7:1-6, 8), e de Mordecai ao aguardar Ester

solucionar os impasses da trama de Hamã (Ester 4:17; 5:9; 6:12; 8:1); e, o otimismo: de Mordecai, que mesmo com um decreto tão grave e fatal como o de Hamã, não perde a esperança do socorro (Ester 4:13-14), esperança que, também, é lançada para Ester e seu poder sobre a situação (Ester 4:7-8, 13-14, 17; 5:9; 6:12), e de Ester ao se lançar corajosamente na situação, trazendo para si a responsabilidade de agir (Ester 4:16; 5:1-8; 7:2-6).

A bondade: de Mordecai para com Ester em razão da adoção (Ester 2:7), de Hegai para com Ester na primazia de seus cuidados (Ester 2:9, 15), de Ester e Mordecai em debelar a conspiração contra a vida do rei (Ester 2:21-23), no apoio de outros povos aos judeus quando da guerra contra os inimigos declarados (Ester 9:3), e no apoio constante de Mordecai ao seu povo (Ester 10:2-3); e, a alegria: num primeiro momento, no primeiro banquete de Assuero aos convivas, mas que foi reprimido pela resposta negativa de Vasti (Ester 1:1-4, 7-8), no banquete de Ester, onde o rei traz paz e presentes a todos (Ester 2:18), na recepção de todo o povo do novo decreto a favor dos judeus (Ester 8:16-17), e nas festas dos judeus em todo o reino em razão da libertação (Ester 9:17-19).

A gratidão: no reconhecimento tardio de Assuero com relação a Mordecai em relação a conspiração (Ester 6:3, 6, 10), e possivelmente, na publicidade de Ester de ser seu parente e pelos demais serviços prestados ao reino (Ester 8:1-2, 15; 10:2-3), e numa presumível aceitação, por parte dos judeus, da proposta de Ester e Mordecai em transformar o evento em memorial perpétuo, como reconhecimento aos heróis (Ester 9:23-28); e, a humildade: de Mordecai ao respeitar a ordem real de não adentrar ao palácio vestido de pano de saco e cinzas (Ester 4:1-2), nas exposições de Mordecai a Ester sobre suas limitações quanto a poder apoiar os judeus em relação ao decreto de Hamã (Ester 4:7-8, 13-14), de igual forma em Ester na primeira resposta a Mordecai em sua restrição a apoiar os judeus (Ester 4:11), e num segundo momento em buscar introspeção através do jejum para encontrar uma forma de ação junto ao rei (Ester 4:16), na forma escalonada de aproximação e apresentação de seus pedidos ao rei (Ester 5:1-2, 4, 7-8; 7:3-4, 6; 8:3-6).

A empatia: de Mordecai para com Ester quando na sua adoção (Ester 2:7), de Hegai e os demais comensais para com Ester na casa das mulheres (Ester 2:9, 15), de Mordecai e Ester para com o rei quando na conspiração (Ester 2:21-23), de Ester para com Mordecai quando em seu luto na porta do palácio (Ester 4:4-5), de Ester para com Mordecai e todo o seu povo quando aceita buscar uma estratégia para enfrentar o decreto real e de Hamã (Ester 4:16), e seguidamente por parte de Assuero com relação aos pedidos de Ester (Ester 5:3, 5-6; 7:2, 5); e, a honra: nos diversos momentos de Ester na casa das mulheres (Ester 2:8, 15), no encontro de Ester com o rei Assuero em núpcias (Ester 2:17-18), na disposição de erguer Mordecai das

cinzas por parte de Ester (Ester 4:4-5), e em atender aos seus pedidos quanto a agir em prol de si e de seu povo (Ester 4:7-8, 13-14), na forma como Ester se coloca em relação ao rei nos convites e banquetes (Ester 5:1-2, 4, 7-8; 7:3-4, 6), no reconhecimento tardio de Assuero para com Mordecai (Ester 6:3, 6, 10), nas ações de Assuero para com Ester e Mordecai entregando-os bens e poder (Ester 8:1-2, 7, 15), na saída de Mordecai pós promulgação do decreto a favor dos judeus e seu reconhecimento social (Ester 8:15; 9:3-4), e a aceitação dos judeus da festa de Purim indicada por Mordecai e Ester (Ester 9:23-28).

A hospitalidade: de Mordecai para com a órfã Ester (Ester 2:7), de Hegai e demais moradores da casa das mulheres para com Ester (Ester 2:8, 15), de Ester para com Hamã e Assuero nos banquetes (Ester 5:6; 7:1), e de Assuero para com Ester e Mordecai quando os premia (Ester 8:1-2); e, a laboriosidade: no ano de preparação de Ester para o encontro com o rei (Ester 2:8-16), no debelar a conspiração contra Assuero por parte de Mordecai e Ester (Ester 2:21-23), na sequência das ações de Ester para com Assuero em prol de Mordecai e seu povo (Ester 5:1-8), nos combates dos judeus contra os seus inimigos (Ester 9:5-11, 15-16), e no reconhecimento posterior da vida de Mordecai (Ester 10:2-3).

A independência: de Vasti em relação a Assuero (Ester 2:11-12), de Ester quando na casa das mulheres em relação a Mordecai e a qualquer objeto (Ester 2:8-9, 12-16), de Mordecai em relação à ordem real de se inclinar a Hamã (Ester 3:2-4), e de Ester para com Mordecai nas ações que culminaram com a morte de Hamã (Ester 4:16; 5:1-8; 7:1-6), e, por fim, perseverança:

de Ester enquanto na casa das mulheres (Ester 2:8-16), de Mordecai em nunca ter se inclinado a Hamã (Ester 3:2-4; 5:9; 6:12), e de Ester em sua estratégia para conseguir livrar seu povo (Ester 5:1-8; 7:1-6).