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3 CONSTRUÇÃO ARGUMENTATIVA DE BRUNO BETTELHEIM COMO

3.1 O DESENVOLVIMENTO ATRAVÉS DA BUSCA POR SIGNIFICADO

3.1.2 Um olhar mais detido aos Problemas Humanos Universais

3.1.2.5 Sentido de obrigação moral nos Contos

E como último ponto da integração da personalidade, Bettelheim se debruça nos efeitos da aquisição da moralidade evocados pelos Contos. Considerando que a vida é com frequência desconcertante para a mente infantil, há necessidade de se compreender a complexidade de seu mundo e do exterior. E o sucesso dessa conquista só seria possível ao receber ajuda congruente de forma a dar sentido a suas relações interiores e exteriores, e criar a ordem e sentido na vida.

Nesse ponto, a necessidade seria de uma educação moral que, de modo perspicaz e velado, conduziria as crianças às vantagens do comportamento moral, não em abstrações conceituais, mas daquilo que pareça tangivelmente correto e significativo a uma mente em desenvolvimento (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 12).

E, aqui, retornamos à definição de Bettelheim, de que os Contos se caracterizam em colocar um dilema existencial de forma breve e categórica, simplificando as situações e permitindo à criança aprender de forma essencial. Duas dessas características seriam a apresentação dos personagens como típicos e não únicos, e o mal ser tratado de forma tão onipresente quanto a virtude. E assim, o bem e o mal receberiam corpo na forma de alguns vultos e de suas ações, emulando a realidade, já que bem e mal também são onipresentes na vida e nas propensões presentes em cada pessoa. E para Bettelheim seria essa dualidade que colocaria o problema moral e a requisição da luta para resolvê-lo. Além de que, curiosamente,

o mal não estaria isento de atrativos – principalmente, em seus simbolismos de um gigante, dragão, poderosas bruxas, astutas rainhas; e, com frequência, seriam vitoriosos temporariamente, embora a punição os acompanharia no final da história (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 16).

Mas, não seria o fato da punição que tornaria a imersão nos Contos uma experiência de educação moral – pois, semelhante à vida, a punição ou temor dela são fatores limitados na intimidação ao delito; e, sim, a convicção de que o crime não compensa como um meio de intimidação muito mais efetivo, razão de a personagem má nas histórias sempre perder no final.

Além disso, não seria o caso de a virtude vencer afinal, que se teria a promoção da moralidade, mas na identificação em todas as lutas do herói, e em sua figura altamente atraente à mente infantil – que na fantasia, a criança se identifica e imagina sofrer com o herói suas provações, e triunfa quando a virtude sai vitoriosa. E, para o psicanalista, a criança faria tais identificações sozinha, em que as lutas interiores e exteriores do herói é que imprimiriam moralidade à mente infantil (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 16).

Outra faceta dos personagens, que se compara à realidade infantil, é que as figuras dos Contos não são ambivalentes – bons e maus ao mesmo tempo como na realidade; mas polarizados – ou se é bom ou mau, sem meio-termo; como domina a mente pueril. E essa justaposição de personagens opostos teriam o propósito de estabelecer uma personalidade relativamente firme na base das identificações positivas, para que depois, as ambiguidades e complexidades que caracterizam as pessoas reais possam ser trabalhadas para distinguir comportamentos – exercício próprio da maturidade. O que habilitaria a criança a ter uma base para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, consequentemente, deve-se fazer opções sobre quem deve-se quer deve-ser. E para Bettelheim, toda essa decisão basilar, sobre a qual o desenvolvimento interior da personalidade se edificará, é facilitada pelas polarizações dos Contos (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 17).

Outro aspecto seria que as escolhas infantis não se baseariam tanto no certo e errado, mas sobre quem despertaria sua simpatia e antipatia – e aqui, quanto mais simples e direto for o bom personagem, mais fácil a criança se identificaria com ele e rejeitaria o outro mau.

Indicando que a identificação infantil com o bom herói não seria a priori pela bondade, mas pela condição de herói, num profundo apelo positivo; e definindo que a pergunta da criança não se baseia em se ela quer ser boa, mas com quem ela quer se parecer – em sua calorosa projeção a um personagem, e se este é uma pessoa muito boa, a criança decide que quer ser boa também (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 17).

E, num dos poucos pontos de toque entre Bettelheim e as histórias bíblicas, ao analisar a história de Jonas e sua fuga das exigências do superego, é o de que ele luta muito contra a maldade dos ninivitas. O psicanalista ressalta que a prova teste da fibra moral do profeta, semelhante aos Contos, foi uma viagem perigosa onde ele tinha que se provar. Por viagem, Bettelheim se refere a passagem de Jonas no ventre do peixe, e que de lá, em grande perigo, o herói descobre sua moralidade mais elevada, seu eu mais alto, renascendo, espantosamente, pronto para enfrentar as exigências rigorosas de seu superego (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 76).

Se, por um lado a ideia fantástica dos Contos evoque o caminho para a moralidade como sendo uma viagem, por outro, algumas histórias deixariam bem claro que a obtenção de um reinado equivaleria a se ter atingido a maturidade moral e sexual. E isso fica nítido para Bettelheim, por exemplo, em “As três penas”, onde um filho nunca tira o reinado de seu pai, mas deve conquistá-lo, encontrando primeiro para si a mulher mais desejável. E, no contexto edípico da menina, o rei dá sua filha em casamento ao herói e compartilha com ele o reinado ou o coloca como sucessor eventual. Assim, a obtenção do reinado pela união amorosa com o parceiro mais apropriado e desejável – união aprovada pelos pais e que conduz a felicidade de todos, menos dos vilões, simbolizaria a resolução perfeita dos desafios edípicos, bem como a obtenção da verdadeira independência e completa integração da personalidade (cf.

BETTELHEIM, 2013, p. 183-184).

E, como exposto na argumentação de Bettelheim sobre “A moça dos gansos” (Ver p.

50-54), outra forma indicada nos Contos da prova de virtude moral, pode ser o fato de, apesar dos grandes esforços, a princesa manter sua promessa de não publicidade a nenhuma pessoa sobre o que lhe sucedera, fato que lhe traz uma retribuição e um final feliz – e apresenta que a mesma heroína deve controlar seu interior, enfrentando o perigo de não ceder à tentação de revelar seu segredo (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 195).

Bettelheim observa que, em determinado momento, na trama de “Cinderela”, uma das tarefas exigidas à heroína pareça sem sentido, chegando a madrasta a se convencer de que tal exercício seria impossível, degradante e sem significado. A referência seria que Cinderela deveria recolher dois pratos de lentilhas esparramadas entre as cinzas, em uma hora – fato que a garota consegue com a ajuda de pássaros, mas a madrasta não lhe permite ir ao baile. O próprio enredo leva a se pensar que Cinderela sempre soube ser possível retirar algo bom de qualquer coisa, quando se lhe atribui significado, mesmo o de se remexer as cinzas. E de fato, para o psicanalista, este conceito parece saltar para a mente infantil quando encoraja uma criança na convicção de que morar em lugares desvalorizados, brincar neles ou com a sujeira, pode ser de grande valia, se souber extrair disso valor. E, demonstrando essa habilidade, Cinderela

consegue fazer a separação das lentilhas boas das ruins – numa descoberta clara de que aprendeu a necessidade de separar o bom do ruim e o imperativo de se eliminar o mau, ao transformar a tarefa em um problema moral de bom versus o mau. Assim, o processo interior de separação do bom e do ruim precederiam a obrigação de ater-se ao melhor do passado, cultivar o sentido de moralidade, permanecer fiel ao próprio valor apesar da adversidade e não ser derrotado pela malícia e insolência de outros (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 354-355).