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5 A METODOLOGIA DE BETTELHEIM À SOMBRA DO LIVRO DE ESTER

5.1 EXPERIÊNCIAS PROMOTORAS DE SIGNIFICADO À CRIANÇA NA

5.1.4 Problemas Humanos Universais

5.1.4.2 Rivalidades Fraternas

Os traços fraternos (Ver p. 42-45) com a história de Ester parecem se destacar na relação entre Ester e Mordecai quando se postam como primos, apesar de, textualmente, Mordecai assumir uma prerrogativa paterna (Ester 2:7) – fato curioso para esta análise, que pode antever ligações interpretativas semelhantes a versão do antigo Conto dos dois irmãos egípcio, como destacado aqui por Bettelheim (Ver p. 42-43). Apesar de romper com a linha genérica de dois irmãos, Bettelheim chega a apontar que os motivos básicos permaneceriam mesmo em uma relação irmão-irmã (cf. BETTELHEIM, 2013, p. 132).

Há, também, uma clara alusão de que Mordecai representa a variação fraterna do irmão mais aventureiro e destemido, ou aquele que permanece mais em ambientes externos, em razão de criar Ester (Ester 2:7), passear todos os dias diante do átrio das mulheres para se informar do estado de Ester (Ester 2:11), postar-se sentado à porta do rei (Ester 2:19, 21; 3:2), confrontar Hamã (Ester 3:2-6), posicionar-se à porta do rei vestido de pano de saco e cinza (Ester 4:2),

responder corajosamente diante da rainha Ester (Ester 4:13-14), ajuntar todos os judeus que se achavam em Susã para um jejum completo de três dias (Ester 4:17), confrontar novamente Hamã (Ester 5:9), aceitar ser homenageado publicamente por Hamã (Ester 6:10-11), postar-se novamente à porta do rei (Ester 6:12), apresentar-se perante o rei mesmo sob a lei de morte (Ester 8:1), recepcionar o cargo de superintendente da casa de Hamã (Ester 8:2), aceitar a exaltação pelo rei Assuero com vestes finas (Ester 8:15), ser reconhecido por nobres e cidadãos através do temor de seu poder (Ester 9:3-4), enviar cartas a todos os judeus para a comemoração de Purim (Ester 9:20-21, 29-31), e a indicação textual do renome de Mordecai (Ester 10:2-3).

A contrapartida ficaria a cargo de Ester, como a que permanece em casa, ou em ambientes mais internos. Apesar da análise de Mordecai ter sido ampla – ao considerar toda a sua trajetória na história de um “irmão destemido”, no caso comparativo, a análise de Ester se sujeita aos começos de sua biografia narrativa: Ester é tomada de sua casa para a casa do rei (Ester 2:8). O desenrolar da narrativa parece confirmar essa mesma perspectiva, mesmo que a liberdade de Ester fosse limitada num primeiro momento (Ester 2:9, 12), observa-se a permanência de Ester em ambientes fechados majoritariamente mesmo quando rainha (Ester 4:4, 11, 13), ou uma aparente mobilidade passiva quando muito (Ester 2:15-16), ou mesmo, relegando-se ao envio de seus servos (Ester 4:5, 10).

Em paralelo, a leitura de Bettelheim sobre os Contos de dois irmãos parece possível a compreensão da dicotomia, num primeiro momento, do impulso pela independência e autoafirmação de Mordecai (Ester 2:7, 11, 19, 21; 3:2-6; 4:2, 13-14, 17; 5:9; 6:10-12; 8:1; 8:2, 15; 9:3-4, 20-21, 29-31; 10:2-3) versus a tendência de Ester de permanecer segura em casa (Ester 2:8, 9-12, 15-16; 4:4-5, 10-11, 13). Mas, também, indicou-se o desejo de Mordecai e Ester (Ester 2:10, 20; 3:2, 6) de ficarem ligados ao passado frente ao impulso de atingirem um novo futuro, tanto Mordecai (Ester 4:8, 13-14) quanto Ester (Ester 4:16, 7:3-4). Porém, no enredo de Ester, também, é verdade que cortar inteiramente o próprio passado pode levar a ruína, mas que, também, existir apenas em função do passado impede o desenvolvimento – ao mesmo tempo em que é seguro e não provê vida própria; o que parece ficar claro na forma como Ester se relaciona frente à conversa com Mordecai no momento crítico do decreto de morte de Assuero, quando o rompimento do passado é uma ameaça real, embora para Ester pareça ser uma resposta segura (Ester 4:11, 13-14). E como destacou Bettelheim, apenas a integração completa dessas tendências permitiria uma existência bem-sucedida, fato que se percebeu em Ester quando assumiu a realidade passada e caminhou em direção a um futuro desenvolvimento pessoal (Ester 5:1, 4, 7-8; 7:3-4; 8:3, 5-6; 9:28-32).

Um ponto curioso é que, na história de Ester, diferente da maioria das versões dos Contos de dois irmãos – o irmão que deixa o lar se coloca em perigo e é salvo pelo irmão que ficou em casa; a ruína parece descrever o irmão que permanece em casa – onde Ester é colocada na argumentação de Mordecai como estando em perigo iminente, apesar de ocultar sua identidade, em relação ao povo com a sua identidade nacional franqueada (Ester 4:13-14).

Outro foco interessante ficou por conta de uma possível conexão edípica que se construiu entre Mordecai e Ester no começo da história (Ester 2:7): trazendo uma realidade paterna a Mordecai e uma de filiação a Ester. Apesar de pequena porção da história narrar essa relação entre os personagens (Ester 2:5-8), pode-se indicar Mordecai como iniciador da relação edípica em razão de tomar Ester por filha (Ester 2:7, 15). Curiosamente, a trama da História rompe com esse lar infantil criado por Mordecai para Ester (Ester 2:8-9, 11, 15-17), desenvolve tanto a Mordecai (Ester 2:21-23; 3:2, 4:17; 5:9; 6:11; 8:1-2, 15; 9:3-4, 20-22, 29-31; 10:2-3) como Ester (Ester 2:17; 4:16; 5:1, 4, 7-8; 7:3-4, 6; 8:3, 5-6; 9:13, 29-32), e cria uma existência independente entre eles (Ester 2:8-9, 17, 22; 3:2; 4:4-17; 5:1, 3, 6, 9; 6:11; 7:2-4; 8:1-3, 5, 15;

9:3-4, 12, 32; 10:2-3) – libertando-os naturalmente das destrutivas conexões edípicas e fraternas, ao apoiarem um ao outro (Ester 2:11, 21-23; 4:4-17; 8:1-2, 9:2-31).

Apesar de parecer possível indicar uma breve rivalidade ou ciúme fraterno entre Ester e Mordecai, por ocasião da discussão entre ambos sobre quais ações Ester deveria ter em relação ao decreto real e a morte de todo o povo, inclusive seu “irmão” Mordecai (Ester 4:7-17), o texto de Ester sempre buscou a integração das personagens (Ex: Ester 4:16-17); outra interessante aproximação, em relação aos Contos de dois irmãos, está em que ao menos Ester seja retratada como estando na adolescência (Ester 2:7-9, 15-17) – o que reforça o ponto de uma possível relação edípica com Mordecai; e ainda mais, uma identificação maior com o leitor/ouvinte infantil em relação a personagem em vivenciar sua história dentro dos conflitos próprios da adolescência. Ester estaria no dilema de decidir passar de um estado menos diferenciado da mente e personalidade para um mais diferenciado, aparentemente, afrouxando laços antigos com Mordecai (Ester 2:17-19; 4:4-17), para formar laços novos com Assuero (Ester 5:1-8; 7:2-8).

Um primeiro ponto interessante, que parece tocar na realidade dos Contos de dois irmãos, especialmente, “Os dois irmãos” dos Grimm, e a narrativa de Ester, está na figura de um pai adotivo oferecer aos gêmeos do Conto um objeto mágico – o que, no caso de Ester, parece Mordecai fazer esse papel, quando em sua breve conexão edípica, de pai adotivo que oferece não um objeto, mas uma promessa de não publicidade da linhagem e povo de Ester (Ester 2:10, 20). Esse ponto é particularmente interessante, em razão de que o sentido dentro

dos Contos de dois irmãos para o objeto é o de ser um símbolo da identidade dos dois personagens – e um elo de ligação entre os irmãos, além de um indicativo de quando um corre perigo ao outro. Na história de Ester, a linhagem de Ester e Mordecai fazem a vez de símbolo identitário, onde há a integração das personalidades de cada uma das personagens (Ester 3:2, 6;

4:16; 5:1-2; 8:7, 15; 9:3-4, 13, 20-22, 29-32; 10:2-3), e de seu coletivo também (Ester 2:6; 4:3, 16-17; 8:16; 9:2, 5-10, 15-19, 23, 26-28).

Apesar de cada um deles se separarem na história, o símbolo os une: um indicativo semelhante dos Contos de dois irmãos, e em que, na narrativa de Ester, Mordecai passa por um momento simbólico de morte e desintegração da personalidade – onde se veste de pano de saco e se cobre de cinzas como se revestindo de luto/morte, numa clara indicação de que corre perigo (Ester 4:1-2); momento em que Ester vai em seu resgate (Ester 4:4-5, 7-8, 16). Esse encontro entre Ester e Mordecai, extravasado nos demais encontros entre judeus em todas as cidades do reino (Ester 4:3, 16-17, 8:16-17; 9:2, 5-10, 15-19, 23-24, 26-28; 10:3) e nos encontros entre os povos que ajudam os judeus (Ester 2:18; 3:15; 8:15, 17; 9:3; 10:1-2) parece coadunar com a ideia de irmãos se reunirem, e viverem felizes para sempre; o que para Bettelheim simboliza a integração das tendências discordantes dentro de cada pessoa, psicanaliticamente, ponderado.

Um segundo ponto, também, importante aparece na relação transgeracional das histórias: enquanto as relações do Conto se passam entre pai, filhos e tio, em Ester, a relação se passa entre primos unicamente, mesmo que distantes. O texto destaca a filiação de cada personagem, evocando uma origem comum a todos: Mordecai é benjamita, filho de Jair, filho de Simei, filho de Quis (Ester 2:5); Ester, cujo pai e mãe estão mortos, seria sobrinha de Jair, portanto, prima de Mordecai, e também benjamita (Ester 2:7) – Benjamim foi filho de Jacó/Israel (Gênesis 35:18); já Hamã, é filho de Hamedata, agagita (Ester 3:1) – da linhagem de Agague (1 Samuel 15:8), de Amaleque (Gênesis 36:12) e de Edom/Esaú – irmão gêmeo de Jacó/Israel (Gênesis 25:25-26). Esse ponto é curioso em razão da rivalidade fraterna vista, principalmente, entre Hamã e Mordecai/Ester, parecer um desenrolar de uma rivalidade muito mais primitiva, entre Jacó e Esaú (cf. Gênesis 25:27-34). Hamã parece ser aquele que se perde em razão de não compreender as más propensões de sua natureza (Ester 3:5, 8-9; 5:9; 6:12) e, consequentemente, não pode se libertar de suas implicações (Ester 6:13; 7:10). O contraste está em Ester e Mordecai, que apesar de levarem vidas diferentes, auxiliam-se, num simbolismo de aquisição de uma integração interna, que os leva a uma vida feliz (Ester 9:18-19, 29-32; 10:2-3).