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Breves apontamentos sobre o conceito de hegemonia

No documento Carolina Alves Vestena (páginas 64-67)

2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS PARA A ANÁLISE

2.1 Bases teóricas e conceituais da análise política histórico-materialista

2.1.2 Breves apontamentos sobre o conceito de hegemonia

Uma questão-chave que se coloca entre os pressupostos da análise política histórico-materialista consiste em compreender sobre qual base um governo forja a estabilidade necessária para governar tendo em vista a tessitura conflitiva da sociedade. Para responder a este problema, o conceito de hegemonia, como desenvolvido por Antonio Gramsci nos Cadernos do Cárcere, exerce uma função analítica essencial (Opratko, 2014, p. 15).39 A problemática da capacidade de governar e a investigação sobre a tessitura do Estado foram discutidas diretamente na obra de Marx, mas não são objetivo de uma teoria analítica acabada.

Segundo Opratko, duas linhas interpretativas do conceito de hegemonia foram originadas a partir das obras de Marx. A primeira estaria baseada na ideia de “hegemonia como resultado de estratégias de manipulação das classes dominantes”. A segunda se vincularia com o caráter fetichista das mercadorias, ou seja, ao modelo de produção capitalista e sua ideologia.

Gramsci, na interpretação do autor, segue uma outra estratégia conceitual e política. Discute hegemonia a partir da questão da concordância das classes subalternas em relação ao projeto político das classes dominantes (Opratko, 2014, p. 30), nesse sentido, renova a própria concepção de Estado (Gramsci, 2014a, p. 41–56).

As preocupações teóricas de Gramsci estavam inseridas nos debates políticos da Itália e do socialismo. O autor, engajado no Partido Comunista Italiano (PCI), retoma as discussões

39 Segundo Opratko (2014, p. 15), antes dos trabalhos de Gramsci, o conceito de hegemonia já era debatido na tradição aristotélica a partir da ideia de “liderança sob iguais, para o interesse de todos”. Em seguida, na tradição liberal, o conceito é trabalhado de modo a explicar de forma abstrata e moral um modelo de liderança capaz de produzir ordem e garantir estabilidade para o exercício da liberdade individual. É apenas a partir da crítica à economia política desenvolvida por Marx que o sistema de produção econômico é visto como um elemento gerador de conflitos sociais e, assim, as classes e não os indivíduos passam a ser seus atores centrais. O conceito crítico de hegemonia irá se desenvolver desta perspectiva, que assume, por sua vez, o pressuposto de que os conflitos são inerentes à sociedade capitalista, e que esta possui aparatos que podem apenas processá-los, mas não conciliá-los.

do socialismo internacionalista do século XIX na Rússia, nas quais o conceito de hegemonia já era aplicado (Opratko, 2014, p. 32).40 No caso de Gramsci, o autor discutia a famosa questão meridional, na qual observava a realidade italiana em um contexto de aguda desigualdade para os padrões europeus. O país se dividia entre um norte em processo de industrialização acelerado pela indústria automobilista e um sul eminentemente agrário, no qual predominava uma população rural.41 Nesse sentido, a comparação se sustentava e a questão colocada era: como forjar uma aliança entre os trabalhadores de contextos tão distintos e desiguais? A perspectiva de análise de Gramsci, que viria a sistematizar suas reflexões durante o período do cárcere e após o fracasso do PCI em sua luta contra o fascismo, foca-se então no papel das classes subalternas. E assim pretendia compreender como a concordância dos subalternos é permanentemente reproduzida para manter de forma pacífica a reprodução do projeto de integração e compromisso das classes dominantes (Opratko, 2014, p. 30–35).

Contudo, o conceito de hegemonia vai sendo desenvolvido nos Cadernos do Cárcere de forma mais complexa. Hegemonia é alcançada tanto a partir da dominação (quase análoga à coerção), que inclui o uso potencial ou de fato da violência, ou é obtida a partir da liderança moral e intelectual, que significa uma dimensão moral-cultural de consenso (Gramsci, 2014b, p. 763–764; Opratko, 2014, p. 35).42 Gramsci (2014b, p. 764), nesse sentido, reinterpreta o conceito de hegemonia colocando-o analiticamente como parte da superestrutura. Assim, consequentemente sustenta que a luta por hegemonia deve se dar para além dos espaços de produção; deve considerar as dimensões espirituais, culturais e intelectuais de forma a abarcar os interesses da sociedade civil.43

40 Segundo o autor, naquele contexto, hegemonia era operacionalizada para analisar a estratégia de aliança do operariado incipiente com a burguesia e produtores agrícolas em prol de uma revolução burguesa socialdemocrata contra o czarismo.

41 A partir do debate meridional travado por Gramsci, diversas linhas de pensamento foram derivadas. Além, por exemplo, dos Subaltern Studies, há um conjunto de trabalhos que analisam relações com a questão do “sul” da Itália de Gramsci e as desigualdades regionais brasileiras. Cf. p ex.: (Pereira, 2009). Sobre o debate dos Subaltern Studies, entre uma vasta produção, cf. (O’Hanlon, 1988).

42 Cf. também: (Buckel e Fischer-Lescano, 2007).

43 No debate brasileiro, um dos principais expoentes da tradição gramsciniana, Carlos Nelson Coutinho, apresentava uma interpretação da hegemonia fundada na ideia de contrato. O autor, cujos primeiros escritos foram marcantes no processo de redemocratização brasileira após a ditadura, argumenta que a estratégia socialista deveria se basear na chamada “guerra de posição”, ou seja, que as lutas deveriam se unificar em torno das liberdades democráticas e democracia política. Sua interpretação e o amplo debate intelectual a partir de sua obra não serão abordados nesse trabalho. Destacam-se apenas algumas obras centrais de sua autoria e interpretações de seu trabalho que sistematizam elementos fundadores de sua abordagem sobre a teoria gramsciniana. Cf.: (C. N. Coutinho, 1979, 2011a, 2011b; Meneses, 2013; Nogueira, 2013) .

Hegemonia encontra-se assim na sociedade civil, que, segundo o autor, é parte do próprio Estado.44 Isso significa uma leitura do Estado ampliado, composto pela sociedade política (agentes do Estado em estrito senso) e sociedade civil. Nesse sentido, para Gramsci, o Estado nada mais é do que a forma específica da dominação política existente na modernidade capitalista, que não é executada prioritariamente por meio de coerção e violência, mas principalmente por meio de liderança e organização do consenso. Esse consenso não significa, de forma alguma, concordância completa. Ao contrário, ele é permanentemente obtido por meio de instituições, aparatos e organizações sociais que, enquanto parte do Estado, atuam na produção da hegemonia (Opratko, 2014, p. 38).

Na leitura gramsciniana, cada dimensão da sociedade, seja ela material ou espiritual, faz parte da disputa por hegemonia. Enquanto projeto de intervenção política de sua teoria, a luta contra-hegemônica deveria, portanto, reconhecer essa dimensão e adotar estratégias de ocupação dos espaços políticos e discursivos de forma a alcançar sucesso na dinâmica de

“guerra de posição”, ou seja, a ocupação de tais espaços se daria com o objetivo de interferir na produção das relações de dominação colocadas. Nesse sentido, considerando o caráter de classes da socieade capitalista, a hegemonia é identificada pelo consenso e concordância, mas não deixa de conter um caráter limitado pela violência e coerção (Opratko, 2014, p. 43).

A teoria da hegemonia de Gramsci e o arcabouço conceitual desenvolvido pelo autor para compreender o Estado de forma complexa (especialmente o conceito de Estado ampliado ou integral) são incorporados nas discussões da teoria crítica de base marxista em distintas vertentes. Tratam-se de interpretações do Estado que criticam uma visão monocrática de que o poder se deslocaria de forma homogênea do topo para a base da sociedade. Na abordagem adotada pela HMPA, ao contrário, toma-se por pressuposto que, na sociedade burguesa, a aprovação e concordância em relação à ordem existente não podem ser impostas apenas por meio de medidas repressivas. Necessitam cada vez mais da hegemonia obtida por meio do consenso da sociedade civil (Forschungsgruppe Staatsprojekt Europa et al., 2014, p. 10).

44Ver também nos Cadernos do Cárcere, Caderno 6, §81, 88,138, Caderno 7, §1683, Caderno 8, §179, 185, Caderno 13, §7, 11, 14,, Caderno 14, §13, Caderno 15, §10, e 18 sobre Estado ampliado e Caderno 12, §1-3 sobre o conceito de intelectuais.

Os parágrafos indicados correspondem ao texto original do autor na edição crítica organizada por Valentino Gerratana em italiano (Gramsci, 2014a, 2014b, 2014c, 2014d). Na versão em português, os itens referidos podem ser encontrados conforme os temas específicos na edição organizada por Carlos Nelson Coutinho (Boitempo, vários anos).

No documento Carolina Alves Vestena (páginas 64-67)

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