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A tipologia de Esping-Andersen

No documento Carolina Alves Vestena (páginas 86-91)

2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS PARA A ANÁLISE

3.1 Estado de Bem-Estar Social e as categorias do debate no norte global

3.1.1 A tipologia de Esping-Andersen

Para Esping-Andersen, o desenvolvimento de sistemas de proteção social55 no contexto do modelo econômico fordista56 teria atuado de forma a liberar os indivíduos de ter acesso aos seus direitos mais básicos exclusivamente por meio do mercado. A conquista desses direitos teria possibilitado a descomodificação de certos bens e serviços (Esping-Andersen, 1991, p. 101). O autor investigou como os sistemas de proteção social foram desenvolvidos em países que compartilharam esse mesmo modelo de regulação de direitos e expansão econômica. Assim, construiu uma tipologia sobre as experiências de EBS com atenção especial aos países europeus e norte global, de forma a caracterizar os elementos específicos de cada caso. Seu ponto de partida é a análise da combinação dos seguintes fatores: organização institucional, dinâmica de classes e suas coalizões, bem como sua capacidade de mobilização e, consequentemente, quais os efeitos sobre o respectivo modelo de proteção social (Esping-Andersen, 1991, p. 100). Cada conjuntura específica determinou as possibilidades de convergência entre as pautas da classe trabalhadora organizada e as prestações institucionalizadas fomentadas pelo Estado. Todavia, o que unificaria tais modelos

55 Segundo Boschetti, seria possível falar em “ações assistenciais públicas” desde pelo menos o século XVII, e de seguros sociais compulsórios desde o século XIX. Contudo, a formação de sistemas públicos estatais de proteção social é mais recente e teve seu marco a partir da crise de 1929 deflagrada dos EUA, que exigiu uma ação intensa do Estado, de forma a aparar os efeitos da grande regressão econômica. Esses marcos representam o processo de desenvolvimento da proteção social como um sistema e não como a “mera justaposição” de programas e políticas. O que configura um sistema de proteção social é o “conjunto organizado, coerente, sistemático e planejado de políticas sociais que garantem a proteção social por meio de amplos direitos, bens e serviços sociais, nas áreas de emprego, saúde, previdência, habitação, assistência, educação”.Esses sistemas, certamente, variam de país para país, apresentando níveis de maior investimento em diferentes áreas. Todavia, a seguridade social, composta por previdência, saúde e assistência social, constitui um núcleo duro que pode ser observado em praticamente todas as nações (Boschetti, 2012, p. 757).

56 Este momento histórico de amplo crescimento econômico, centrado especialmente entre as décadas de 1940 e 1970, predominou nos países do norte global. As políticas sociais sustentavam-se na base Estado/mercado/proteção familiar. As transferências sociais providas pelo Estado tinham a função de “garantir a existência de um rendimento fora das relações de emprego,” o que liberava rendimentos de forma contínua para garantir o processo de desenvolvimento. O mercado geria e recebia tais impulsos estatais de forma a determinar as prioridades de investimento. E a proteção familiar, com diferenças sutis conforme as experiências específicas, exercia o papel do cuidado e do planejamento da economia doméstica. Esse período de amplo desenvolvimento econômico foi igualmente marcado por fatores externos que asseguraram sua expansão após a segunda guerra mundial, como a internacionalização da economia e o compromisso entre as classes fundamentais – o capital e o trabalho –, forjado a partir da garantia da proteção social e do acesso ao consumo de massa gerado pela produção crescente. Segundo Hirsch, esse momento da regulação fordista foi marcado pela “existência de grandes organizações sociais inclusivas, em um Estado intervencionista em amplas esferas da sociedade, partidos de massas burocratizadas, sindicatos, federações empresariais e agrárias, associações de médicos” e o conjunto de múltiplos interesses que atuavam politicamente em conjunto para garantir as negociações de melhores condições no sistema de proteção da época. Sua centralização e organização possibilitou também que pautassem melhores condições de proteção social que fizeram, por muito tempo, parte do patrimônio de direitos sociais conquistados no contexto do norte global. Cf.: (Boschetti, 2012, p. 756–758; Hirsch, 2010, p. 144).

de ação institucional seria o fato de que a presença de seguridade social e serviços sociais é uma condição fundamental para a descomodificação 57 das relações sociais. Por descomodificação, o autor compreende a oferta de serviços sociais básicos, relacionados aos bens mais primários que os indivíduos necessitariam para sua subsistência e garantia de participação na vida social, independentemente do mercado. Isso constituiria a “cidadania social” ou Estado de bem-estar social (Esping-Andersen, 1991, p. 101).

Nessas condições, os direitos sociais seriam invioláveis do ponto de vista legal e prático e estariam, portanto, desvinculados da condição prévia de serem adquiridos como serviços ou bens no mercado. Para Esping-Andersen, o processo de formação de um sistema de proteção social representaria uma contra-tendência em um sistema no qual os mercados se tornaram universais e hegemônicos, no qual o “bem-estar dos indivíduos passou a depender inteiramente de relações monetárias”. A garantia de direitos sociais teria permitido que relações sociais se fundassem em um sistema que representava muito mais do que pura mercadoria (Esping-Andersen, 1991, p. 102). Segundo o autor, quando “os direitos sociais adquirem o status legal e prático de direitos de propriedade, quando são invioláveis, e quando são assegurados com base na cidadania em vez de terem base no desempenho, implicam uma

"desmercadorização" do status dos indivíduos vis-à-vis o mercado” (Esping-Andersen, 1991, p. 101).

A construção de um modelo teórico que ressalta a ideia de independência do mercado para a garantia da capacidade de reprodução social é uma contribuição analítica que vem desde então sendo mobilizada para discutir sistemas de proteção social de forma crítica.

Esping-Andersen reconhece que “a mera presença da previdência ou da assistência social não gera necessariamente uma desmercadorização significativa se não emanciparem substancialmente os indivíduos da dependência do mercado” (Esping-Andersen, 1991, p.

102). Sustenta que as primeiras leis de assistência social para os pobres criaram, ao contrário do que poderia se esperar, um processo de atração de tais indivíduos para o mercado, a semelhança dos “primeiros programas de previdência social [que] foram deliberadamente planejados para maximizar a atuação no mercado de trabalho" (Esping-Andersen, 1991, p.

102).

57 O termo em inglês “decommodification” seria diretamente traduzido por “desmercantilização” no português.

Contudo, nos debates acadêmicos, é comum o uso de neologismos próximos ao original. As traduções de Esping-Andersen para o português utilizaram ainda “desmercadorização”, termo que ofereceria uma conexão direta com a explicação do próprio conceito, como se verá mais a frente. No entanto, devido a sua recorrência, opta-se pelo uso de “descomodificação” nesse trabalho, salvo quando artigos traduzidos utilizam outra expressão.

Para lidar com a permanente influência do mercado e com sua preponderância sobre a oferta de serviços a partir do Estado, diferentes ajustes ocorreram nos modelos de Estado social. Em países como Suécia e Noruega, por exemplo, medidas de previdência relacionadas com os ganhos específicos de determinadas classes foram incluídas, o que introduz desigualdade nos benefícios, mas, por outro lado, bloqueia a busca por serviços no mercado e assim “mantém o grau de consenso político necessário para conservar o apoio amplo e solidário aos impostos elevados que este modelo de welfare requer” (Esping-Andersen, 1991, p. 107–108). Em resumo, cada modelo apresentou uma combinação entre Estado, mercado e família, que na tipologia de Esping-Andersen foi analisada a partir dos modelos liberal, corporativista e social democrata.

No modelo liberal predomina a assistência aos comprovadamente pobres. As transferências universais e planos de previdência social são reduzidos e modestos. Os benefícios são predominantemente direcionados para a classe trabalhadora de baixa renda, ou à população com piores condições de vida que realmente depende do Estado. Predomina, assim, uma ética do trabalho entre as classes médias e as elites, e pouco se recorre à proteção social, que acaba por adquirir um caráter marginal. Esse modelo, devido à priorização do trabalho, acaba por fortalecer a estigmatização de parte da população que, por sua vez, recebe algum benefício, independente de seu valor muito modesto. O Estado, por outro lado, impulsiona ainda mais a integração do mercado, seja ao garantir apenas um mínimo muitas vezes insuficiente aos indivíduos, seja ao subsidiar processos de privatização da previdência.

Dentre os efeitos desse modelo menciona-se a comodificação e o dualismo entre as classes que podem acessar os serviços privados no mercado e aquelas às quais resta apenas a garantia das modestas prestações do Estado. Exemplos de países que teriam se desenvolvido nessa dinâmica seriam os EUA, Canadá e Austrália (Esping-Andersen, 1991, p. 108).

O segundo modelo, observado em países da Europa central como Áustria, França, Alemanha e Itália, é chamado conservador ou corporativista. Este foi fundado a partir do pressuposto de que seria necessário privilegiar a estrutura de classes pós-industrial, compreendida como o conjunto de trabalhadores públicos responsáveis pelo funcionamento das engrenagens do Estado. Estes deveriam ser premiados por sua fidelidade e, por isso, a proteção social baseava-se em um modelo de diferenciação de status entre trabalhadores, o que faz com que a concessão de direitos sociais permaneça vinculada às especificidades dos grupos sociais. Ao mesmo tempo, a previdência privada e os benefícios extras ficam

relegados a um papel secundário.58 Outra característica desse modelo é sua vinculação a uma concepção tradicional de família. Encorajava-se a maternidade e a permanência das mulheres em casa para o exercício do papel do cuidado. Nesse contexto, certos benefícios permaneceram secundários por muito tempo, como o acesso a creches, por exemplo. O Estado, nesses casos, atuava apenas como subsidiário à família, incentivando um modelo que era altamente negativo para a inclusão das mulheres nas atividades produtivas.59 Esse modelo, devido ao seu caráter corporativista, também pode ser interpretado como uma estratégia do Estado para combater os crescentes movimentos de trabalhadores, que, ao receber prestações diferenciadas do Estado, alimentavam suas hierarquias e diminuíam seu potencial de mobilização social (Esping-Andersen, 1991, p. 109).

O terceiro modelo, por fim, é o chamado de social-democrata, no qual os princípios do universalismo e descomodificação dos direitos sociais também teriam sido estendidos às novas classes médias. Nesses países, Estados regidos por partidos sociais-democratas teriam tido força dominante para determinar as características dos processos de reforma social e, sendo assim, buscaram promover um welfare state com melhores padrões de igualdade e superação da ideia de que a atuação do Estado deveria se restringir apenas às necessidades mínimas. Ao contrário, a igualdade deveria alcançar a todos e, assim, superar o dualismo entre Estado e mercado e entre classes trabalhadoras e classe média. Essa modelagem garantiu que os trabalhadores tivessem acesso a benefícios elevados, inclusive que pudessem ter acesso àqueles que os mais ricos desfrutavam. Criou-se uma noção forte de que todos são beneficiados, todos são dependentes e, portanto, todos são obrigados a garantir a sustentabilidade do sistema (Esping-Andersen, 1991, p. 109).

Dentre os modelos apresentados, este seria o de maior capacidade de descomodificação. Além disso, no que diz respeito à relação entre Estado e família, já previa a antecipação e socialização dos custos sociais, o que consequentemente liberou as mulheres

58 É comum chamar o modelo no qual se inclui a Alemanha de bismarckiano em referência ao ministro de Estado do processo de unificação alemã. As características reforçadas nesse período de seletividade e corporativismo são uma marca do modelo que se desenvolveu à época. Os objetivos centrais da concessão e seguridade social concentravam-se sobre a necessidade de promover paz social entre os trabalhadores industriais e o Estado em formação, representante também dos interesses do capital. Nesse sentido, conclui-se que valeria mais a pena prover certos direitos aos trabalhadores do que investir na repressão contínua. Nesse processo, o modelo de EBS que se forma induz ao isolamento dos trabalhadores, cujos benefícios são concedidos conforme o mérito, além disso são completamente focados nos interesses dos trabalhadores, deixando aqueles sem emprego estruturalmente desprotegidos (Faria, 1998, p. 51; Zimmermann e Andrade, 2008, p. 67). Ainda deve-se mencionar que neste período são criadas leis contrárias aos movimentos socialistas na época (Logue, 1979, p.

70).

59 A reprodução social é um aspecto central da produção, como já destacaram inúmeras teóricas a partir de Rosa Luxemburgo, como Silvia Federici, Maria Mies e Heleieth Saffioti. Destaca-se aqui a problemática da fixação dos papéis sociais de gênero que um projeto de Estado inclusivo contém em si mesmo. Cf.: (Federici, 2012;

Mies, 1988; Saffioti, 2013).

do trabalho doméstico. Nas palavras de Esping-Andersen, este tipo de Estado social promoveria uma fusão entre o serviço social e o trabalho, pois está, ao mesmo tempo,

“genuinamente comprometido com a garantia do pleno emprego e inteiramente dependente da sua concretização" (Esping-Andersen, 1991, p. 110). A proteção do trabalho é uma parte fundamental da proteção da renda e da manutenção de um sistema de bem-estar solidário e universalizante. Este último modelo, segundo a tipologia do autor, foi observado historicamente nos sistemas de proteção social dos países escandinavos (Esping-Andersen, 1991, p. 110).60

Para além da tipologia, Andersen já afirmara que o que se observa é uma mistura das características principais de cada modelo em seu respectivo contexto concreto.61 Assim, seria importante analisar como as dimensões decisivas para a formação das redes de proteção social, principalmente a natureza de mobilização de classe, as estruturas de coalizão política e o histórico da institucionalização do regime e suas relações entre mercado e Estado se configuram. Sua tipologia assumiu rapidamente o papel de oferecer credenciais para exercícios de política comparada, como afirma Andrenacci (2012, p. 37). No caso dos países do sul europeu, reformulações da tipologia foram realizadas para atender às características dos regimes chamados “familistas”, nos quais a organização familiar desempenha um papel comparável com a força dos sindicatos para prover proteção social. Ou mesmo nos Estados do leste asiático, nos quais se identifica uma mistura de elementos conservadores e liberais, ou a limitação do modelo em relação a assimetrias de gênero ou clivagens étnicas (Andrenacci, 2012, p. 02).

Contudo, para além das críticas e reformulações, o debate sobre o EBS oferece parâmetros presentes na base da formulação de projetos concretos. Além de tudo, no que diz respeito às categorias internas da análise, elementos centrais destacados por Esping-Andersen são recorrentemente mobilizados para defender um ou outro paradigma de proteção social no caso latino-americano. Três dimensões podem ser destacadas. A primeira é a descrição do processo de descomodificação de direitos atribuído ao modelo social-democrata de EBS, constituído a partir de uma interação forte entre políticas de emprego e políticas sociais. A segunda diz respeito ao processo de liberação da força de trabalho feminina frente à

60 Segundo o autor: “Por um lado, o direito ao trabalho tem o mesmo status que o direito de proteção de renda.

De outra parte, os enormes custos de manutenção de um sistema de bem-estar solidário, universalista e desmercadorizante indicam que é preciso minimizar os problemas sociais e maximizar os rendimentos. A melhor forma de conseguir isso é, obviamente, com o maior número possível de pessoas trabalhando e com o mínimo possível vivendo de transferências sociais.”

61 Como resultado das críticas recebidas e desenvolvimento dos seus trabalhos, Esping-Andersen deu continuidade às suas pesquisas de forma a inserir o debate sobre as economias pós-industriais e também sobre o papel das mulheres frente às políticas de welfare. Cf.: (Esping-Andersen, 1999, 2009).

responsabilização do Estado sobre as políticas de cuidado. E a terceira e última diz respeito à necessária base política de sustentação de um sistema amplo de proteção social que é alcançada a partir da integração de participação política e corresponsabilidade coletiva pelos resultados da política implementada.

Os elementos da tipologia construída por Esping-Andersen, se tomados como chaves de análise e não como tipos ideais normativos, deixam linhas de reflexão crítica para a análise dos sistemas de proteção social atuais. Para dar continuidade à reconstrução das duas concepções centrais de política social anteriormente apresentadas, o trabalho de Theda Skocpol será analisado.

No documento Carolina Alves Vestena (páginas 86-91)

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