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Breves comentários à Lei de Alienação Parental – Lei 12.318/

4 ALIENAÇÃO PARENTAL

4.3 Breves comentários à Lei de Alienação Parental – Lei 12.318/

Com o crescimento dos casos de alienação parental no Brasil, fez-se necessária a criação de mecanismos de conscientização da população e da comunidade jurídica sobre esta prática que assolava inúmeras famílias. Muitas vezes sem ter conhecimento ou orientação necessárias, os genitores alienados e as crianças que sofriam a alienação não conseguiam encontrar uma maneira de ver a situação tão nociva e desesperadora solucionada.

Os mais informados, quando chegavam ao judiciário, esbarravam em decisões conflitantes e rasas, face à falta de legislação que delineasse mais concretamente o tema. O despreparo do judiciário era agravado, sobretudo, pela divergência existente na própria comunidade científica acerca das definições e características da alienação parental.

Com vistas a atender à crescente demanda de regulamentação do tema, foi promulgada em 27 de agosto de 2010 a Lei nº12.318/2010, conhecida como Lei de Alienação Parental, resultado do projeto de Lei nº4.053/2008, de autoria do Deputado Regis Fernandes de Oliveira, inspirado no anteprojeto do juiz Elizio Luiz Peres.

O deputado Dr. Pinotti, membro da Comissão de Seguridade Social e Família à época da votação do projeto de lei, ressaltou em seu parecer como relator que

O Projeto de Lei em epígrafe, de autoria do Deputado Régis de Oliveira, tem os seguintes objetivos básicos: a definição do que é alienação parental; a fixação de parâmetros seguros para sua caracterização; e o estabelecimento de medidas para inibir a prática de atos de alienação parental ou atenuar seus efeitos. (Parecer do Deputado Dr. Pinotti, Disponível em <http://www2.camara.leg.br>. Acesso em 03/10/2015).

Importa destacar que o projeto de lei – e, consequentemente, a própria lei – foi bastante feliz em apresentar não só uma definição legal para o que se considera alienação parental, mas também apresentar um rol exemplificativo para as condutas tendentes a afastar a criança ou adolescente de seu genitor. Neste sentido, interessante transcrever o art. 2º da Lei 12.318/2010:

Art. 2o Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua

autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este.

Parágrafo único. São formas exemplificativas de alienação parental, além dos atos assim declarados pelo juiz ou constatados por perícia, praticados diretamente ou com auxílio de terceiros:

I - realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade;

II - dificultar o exercício da autoridade parental;

III - dificultar contato de criança ou adolescente com genitor;

IV - dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar; V - omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;

VI - apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente;

VII - mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós.

Insta registrar que a referia lei não afastou qualquer norma ou instrumento de proteção à criança ou adolescente, chancelando, inclusive, a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Código de Processo Civil aos casos de alienação parental. Acrescenta-se aos mecanismos de proteção já existentes, os trazidos pela lei em comento, permitindo ao magistrado visualização mais célere e eficiente dos indícios da alienação parental. (Parecer do Deputado Dr. Pinotti, Disponível em <http://www2.camara.leg.br>. Acesso em 03/10/2015).

A lei de Alienação Parental formaliza o propósito de rechaçar e punir atitudes que inibam o convívio dos filhos com seus pais, afastando a utilização inadequada do poder familiar e da autoridade parental, extremamente prejudicial à saúde mental da criança e do adolescente. Neste sentido, a lei trata da alienação parental como forma de descumprimento do poder familiar, inferindo-se consequências jurídicas importantes, como a realização de perícia psicológica ou biopsicossocial para auxilio às decisões judiciais nos casos mais leves ou, até mesmo, a perda do poder familiar em casos mais complexos e severos. (Parecer do Deputado Dr. Pinotti, Disponível em <http://www2.camara.leg.br>. Acesso em 03/10/2015).

Interessante destacar que a Lei 12.318/2010 não utilizou o termo Síndrome de Alienação Parental. Observa-se, pois, a cautela do legislador no sentido de evitar críticas e descrédito à lei, o que poderia minar o fim para o qual foi intentada. Preferiu o legislador não utilizar a palavra síndrome que ainda é objeto de grande discordância na

comunidade científica, conforme se destacou em momento anterior deste trabalho, já que não há registro no DSM da síndrome ora tratada.

Vale ressaltar que no projeto de lei original, apenas constavam como agentes passíveis de praticar alienação parental o pai ou a mãe. No entanto, em uma brilhante e eficaz contribuição, o Deputado Pastor Pedro Ribeiro apresentou uma emenda propondo que a alienação parental fosse considerada presente também quando avós e detentores da guarda pratiquem atos de doutrinação ao repúdio. (Parecer do Deputado Dr. Pinotti, Disponível em <http://www2.camara.leg.br>. Acesso em 03/10/2015).

A lei tem caráter preventivo, almejando coibir o desenvolvimento da prática de alienação parental antes mesmo de sua ocorrência. Busca-se conferir maior celeridade às decisões judiciais, no sentido de evitar danos irreversíveis ao relacionamento pai- filho. Nesta perspectiva, o art. 4º da Lei em tela aduz que, havendo indício de ato de alienação parental, processos de ação autônoma ou incidente terão trâmite prioritário:

Art. 4o Declarado indício de ato de alienação parental, a requerimento ou de ofício, em qualquer momento processual, em ação autônoma ou incidentalmente, o processo terá tramitação prioritária, e o juiz determinará, com urgência, ouvido o Ministério Público, as medidas provisórias necessárias para preservação da integridade psicológica da criança ou do adolescente, inclusive para assegurar sua convivência com genitor ou viabilizar a efetiva reaproximação entre ambos, se for o caso.

A Lei de Alienação Parental tem caráter bastante educativo, apresentando, todavia, algumas sanções para o caso de prática de atos de alienação, que visam proteger a criança do abuso moral que esteja sofrendo. Neste viés, o art. 6º da lei apresenta os instrumentos processuais aptos a “inibir ou atenuar seus efeitos”, de acordo com a gravidade que o caso apresenta, in verbis:

Art. 6o Caracterizados atos típicos de alienação parental ou qualquer conduta que dificulte a convivência de criança ou adolescente com genitor, em ação autônoma ou incidental, o juiz poderá, cumulativamente ou não, sem prejuízo da decorrente responsabilidade civil ou criminal e da ampla utilização de instrumentos processuais aptos a inibir ou atenuar seus efeitos, segundo a gravidade do caso:

I - declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador; II - ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado; III - estipular multa ao alienador;

IV - determinar acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial;

V - determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua inversão;

VI - determinar a fixação cautelar do domicílio da criança ou adolescente; VII - declarar a suspensão da autoridade parental.

Nesse diapasão, Carlos Roberto Gonçalves entende que:

A lei em apreço deixou claro o que caracteriza a alienação parental, transcrevendo uma serie de condutas que se enquadram na referida síndrome, sem, todavia, considerar taxativo o rol apresentado. Faculta, assim, o reconhecimento, igualmente, dos atos assim considerados pelo magistrado ou constatados pela pericia. (GONÇALVES, 2011, p.306).

Por fim, nota-se que a lei em apreço não construiu algo novo, inexistente na realidade das famílias brasileiras, mas, ao revés, trata-se de “uma nova lei para um velho problema”. Esta lei surge no ordenamento com o intuito de facilitar a adoção de medidas que visam evitar ou parar o ataque a um dos genitores da criança, extinguindo o abuso moral que esses filhos sofrem. (DIAS, Disponível em: <http://www.mariaberenice.com.br>, acesso em 03/10/2015).