3. TEÓRICOS DO PROJETO PARA UM BRASIL POTÊNCIA: GEOPOLÍTICA
3.1 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A GEOGRAFIA POLÍTICA E
político, ou melhor, às relações de poder que o Estado estabelece com o território, seja
internamente, com as políticas territoriais de integração, seja externamente, com as definições
de fronteiras e limites ou mesmo com o lugar que tenta ocupar no jogo de forças mundial, no
equilíbrio de poder. Já à Geopolítica cabe historicamente o papel que muitos autores chamam
de geografia política aplicada, chegando a se estabelecer como disciplina nos cursos de
Estado-Maior de muitos países. Em seus primeiros tempos, chegou a ser estratégia de dominação
fascista e nazista no período histórico das guerras mundiais.
A Geografia Política enquanto ramo da ciência geográfica, ou seja, quando é elaborada
a sistematização do conhecimento, de teorias e conceitos que marcaram a disciplina, foi fundada
pelo geógrafo alemão Fredrich Ratzel (1844-1904), que elaborou estudos que traziam a
compreensão política das relações entre Estado e território. Só anos mais tarde surge o termo
Geopolítica, cunhado por Rudolf Kjéllen. Embora a Geopolítica seja distinta da Geografia
Política, muitos geopolíticos renomados consideram que a obra de Ratzel funda a Geopolítica
(COSTA, 1992).
Conforme Vesentini (2015, p. 15), Kjéllen fazia distinção entre Geografia Política e
Geopolítica, a qual estaria na abordagem, “que seria geográfica no caso da geografia política,
com sua ênfase nas relações homem/natureza, e seria política no caso da geopolítica, a
perspectiva do Estado perante a dimensão espacial de sua atuação”. De acordo com o autor,
essa distinção foi bastante questionada entre muitos geógrafos (Thordike Jr, Lacoste, Claval e
outros) que “viram na geopolítica tão somente a geografia aplicada” (VESENTINI, 2015, p.
16).
Costa (1992) argumenta que essa distinção entre Geografia Política e Geopolítica pode
ser até mesmo inútil, mas que de fato existe, sendo a Geografia Política vista como o conjunto
de estudos sistemáticos mais relacionados ao espaço e Estado, posição, situação e características
das fronteiras, etc., enquanto a Geopolítica estaria mais próxima das ciências políticas
aplicadas. A esta última “caberia a formulação das teorias e projetos de ação voltadas às
relações de poder entre os Estados e às estratégias de caráter geral para os territórios nacionais
e estrangeiros” (COSTA, 1992, p. 16). Para o autor, o problema maior se constituiria quando
tais rótulos servem para camuflagem, dissimulações ou às artimanhas da estratégia, e mais
encobrem do que explicam a natureza do que está envolvido.
Entretanto, o autor enfatiza apenas dois autores da Geografia Política Clássica
“responsáveis pelas suas primeiras sistematizações, isto é, estudos e reflexões que formularam
pioneiramente conceitos e teorias fundamentais que marcaram profundamente o conhecimento
posterior desse ramo do conhecimento (COSTA, 1992, p. 29)”. Tratavam-se de F. Ratzel, com
o conjunto de sua obra, sendo a mais importante Geografia Política, de 1897, e o geógrafo
francês Camille Vallaux, com a obra O solo e o Estado, de 1910, por ser o primeiro estudo
crítico a respeito da obra de Rtazel e por firmar a posição do possibilismo no debate da geografia
política. Já para os autores que trabalham com a Geopolítica, Costa qualifica como discursos
geopolíticos os trabalhos de Kjéllen, Mahan e Mackinder, e faz a contextualização histórica das
formulações e teorias desses autores. Para Costa, a geopolítica, sendo um subproduto “e um
reducionismo técnico e pragmático da geografia política, na medida em que se apropria de parte
de seus postulados gerais, para aplicá-los na análise de situações concretas interessando ao jogo
de forças estatais projetado no espaço” (COSTA, 1992, p. 55, grifos no original).
Para o autor, Kjéllen teria tomado a ideia de Estado como um organismo territorial de
Ratzel em uma concepção reducionista e expansionista, reduzindo-o a um organismo biológico:
o “Estado nasce, cresce e morre em meio de lutas e conflitos biológicos, dominando por duas
essências principais (o meio e a raça) e três secundárias (a economia, a sociedade e o governo)”
(KJÉLLEN apud COSTA, 1992, p. 56). Considera sua obra como sendo um receituário
explícito do imperialismo que tanto assombraria a Europa e o mundo
11, pois não escondia sua
11 O autor vai mostrar o desenrolar e continuidade desse pensamento, com os novos geopolíticos (Haushofer) e as consequências no período das 1ª e 2ª Guerras Mundiais.
admiração pelo Estado-Maior e desejo que a Europa viesse a ser unificada sob o imenso império
germânico. Suas ideias repercutiram em vários países de regimes fascistas e também em
ambientes militares do Terceiro Mundo, que incluíram a geopolítica em seus cursos de
“Estado-Maior”
12.
Conforme Costa, o contexto do nascimento da Geografia Política no pensamento de
Ratzel era o da fase imperialista do capitalismo. “O quadro das relações internacionais de fins
de século XIX foi examinado pela Geografia Política de Ratzel, por exemplo, a partir de certa
‘ótica alemã’” (COSTA, 1992, p. 69). Já o realismo geográfico surgiu no pensamento de
Mahan, no contexto de ascensão de uma nova potência dos Estados Unidos, e na preocupação
de Mackinder e Inglaterra com relação aos russos e alemães. Em seu nascimento, a Geopolítica
e Geografia Política estavam focadas na relação de poder do Estado com o território em um
contexto de potência econômica e militar. A geopolítica surge para afirmar esses interesses e
uma resposta efetiva de defesa ou agressão desses interesses geoeconômicos do Estado
moderno.
Existem vários conceitos sobre a Geopolítica, pois cada autor vai adaptá-lo segundo o
território do país sob consideração. Para o Instituto de Geopolítica de Monique:
A Geopolítica é a ciência das relações da terra com os processos políticos. Baseia-se nos amplos fundamentos da geografia, especificamente da geografia política, que é a ciência do organismo político no espaço e, ao mesmo tempo, de sua estrutura. Ademais, a Geopolítica proporciona os instrumentos para a ação política de diretrizes para a vida política em conjunto. Assim a Geopolítica se converte numa arte, arte de guiar a política prática. A Geopolítica é a consciência geográfica do Estado (MATTOS, 1975, p. 5).
É interessante o conceito elaborado por Mattos (1975), para o qual a Geopolítica é a
aplicação da política aos espaços geográficos; aplicação de política é poder. Mas
independentemente do conceito adotado, a análise e elaboração de estratégias geopolíticas
sempre levará em conta três aspectos essenciais do território dos Estados, sendo estes, conforme
Mattos, forma ou espaço geográfico que ocupa, fronteira e posição (sua localização no planeta).
“A forma do território de um Estado representa o seu corpo físico. A Geopolítica estuda a
influência dessa forma em relação aos seus habitantes” (MATTOS, 1975, p. 13).
12 Tais são os exemplos das atividades do general-geógrafo alemão K. Haushofer no Instituto de Geografia de Munique e na Revista de Geopolítica, dirigida por ele, E. Obst, O. Maull e seu filho Albrecht, a mais famosa e controvertida publicação do gênero; caso também do Centro de Geopolítica da Universidade de Trieste, durante o período de Mussolini na Itália. Na América Latina, essa influência é notável nos estudos do coronel A. B. Rattenbach (Argentina); general A. Pinochet (Chile); dos generais Mário Travassos, Golbery e Meira Mattos, além do brigadeiro Lysias Rodrigues (Brasil) (COSTA, 1992, p. 57-58).
Em relação às formas territoriais, existem a forma compacta (Brasil, Espanha, França
e Venezuela), alongada (Chile, Estados Unidos, Itália), recortada (Grécia, Canadá, Suécia), e
fragmentada (Reino Unido, Indonésia, Japão)
13.
Sobre a posição do território, é entendida como o lugar que o território do Estado
ocupa no planeta e algumas características geográficas como latitude, continentalidade ou
maritimidade, situação relativa aos países vizinhos e altitude.
Conforme Meira Mattos (1975, p. 22):
“A política brasileira viveu até bem poucos anos quase que indiferente ao seu destino de país de tipo misto, esquecida das imensas áreas interiores, acentuando-se nos esforços da administração pública apenas o lado de sua maritimidade. Percebida essa distorção desde a Independência, por José Bonifácio [...], o corretivo só começou a se fazer presente por meio de uma política executiva nos últimos 15 anos, com mudança da capital para o centro do território, visando o despertar das forças mortas da continentalidade e, nos últimos anos, através do enorme esforço desenvolvimentista das áreas Norte e Oeste”.
O outro aspecto a ser levado em conta pela geopolítica são as fronteiras, que podem
ser as fronteiras Estados (Estados Tampões), as fronteiras naturais (mar, aérea, rios, montanhas,
deserto), as fronteiras antropogeográficas (linguísticas, raciais ou étnicas, religiosas, culturais),
fronteira linha e fronteira faixa.
Nesse sentido, Travassos traz uma geopolítica para o contexto do Estado e território
brasileiros e, embora utilize-se de sínteses e formulações a partir dos geógrafos e geopolíticos
clássicos, procura entender a realidade brasileira.
13 As compactas se aproximam de um círculo, com vantagem que dentro do mesmo perímetro abrangem maior área, favorecem a integração nacional, com menores fronteiras e maior território, favoráveis à coesão do Estado. Em relação às alongadas, quanto maior seu alongamento, maior será seu perímetro e distância entre os pontos extremos no sentido do alongamento, agravando problemas de fronteiras e aumentando a diferenciação entre grupos regionais, se o território for estreito, aumenta a vulnerabilidade podendo ser cortado em dois na zona mais estreita. Se o alongamento for no sentido Norte-Sul, oferece vantagens em relação a diversificação climática e de alimentos. As formas recortadas em contiguidade com o mar, na antiguidade (Grécia) favoreceram intercâmbio quando a navegação costeira não era de longo curso, em desvantagem contêm extensas linhas de fronteira. A forma fragmentada é desvantajosa, como mostra o território arquipélago, além da descontinuidade terrestre, há dificuldade para o exercício da soberania, a força de coesão é imposta pelo poder naval com Inglaterra e Japão; em termos estratégico-militares, e a defesa é mais difícil. A descontinuidade pode ser terrestre ou marítima (MEIRA MATTOS, 1975).