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5. BRASIL, UM ESTADO TERRITORIAL E COMERCIAL: PERÍODO DA

5.1 PRIMEIRO PERÍODO: ESTADO TERRITORIAL E COMERCIAL (1822-1889).103

5.1.2 Comércio exterior extra-regional e intrarregional

Como é conhecido - com vasta literatura a respeito - que o Brasil, devido ao processo

de colonização, tem suas vilas, cidades e transportes desenvolvidos a partir do litoral. Desde o

início da colonização o país, ou a América Portuguesa, se desenvolve como diria o economista

Ignácio Rangel (1959), voltado para fora, para o exterior; isso não significa que não existia

comércio interno

56

, como o charque produzido no Sul que era destinado para alimentação dos

escravos na Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco, como mostra Westephalen (1999). Entretanto,

é o transporte via navegação - marítima, de cabotagem e fluvial -, que serão os meios mais

eficientes para comércio entre as províncias e comércio internacional.

Conforme os ciclos econômicos ou períodos (SANTOS; SILVEIRA, 2008; SILVA,

1949) vão se estabelecendo durante os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX - do pau-brasil, da

cana-de-açúcar e a reboque desta a pecuária, da mineração, do gado, da erva-mate, da borracha

e do café - se estabelecem com eles ou mesmo a frente deles as vias/caminhos de transportes.

Essa configuração inicial do Brasil, dos seus ciclos produtivos, faz jus à analogia que muitos

autores - Francisco de Oliveira (1981), Hervé Thery (2001), Santos e Silveira (2008) entre

outros -, em considerarem o país como um arquipélago com várias ilhas de prosperidade

desconexas entre si, por não haver um sistema de transporte integrado, porém que tinham vias

de acesso ao exterior. Travassos (1935), levando em consideração a questão física do território,

55 Essa tarifa marca o princípio de defesa da indústria nacional, ver Fonseca (2004). Assinada em 1844, estabelecia que cerca de três mil artigos importados passariam a pagar taxas que variavam de 20 a 60%. A maioria foi taxada em 30%, ficando as tarifas mais altas, entre 40% e 60%, para as mercadorias estrangeiras que já poderiam ser produzidas no Brasil. Para as mercadorias muito usadas na época, necessárias ao consumo interno, foram estabelecidas taxas de 20% (MULTIRIO, 2017).

56 O Brasil colonial já contava com um mercado interno expressivo, o qual, já por volta de 1800, movimentava mais dinheiro que o setor exportador. Essa revisão das ideias de ausência de mercado interno (Caio Prado Júnior) e de arquipélago econômico (Celso Furtado) se deu em função do levantamento empírico de dados sobre o comércio por vias internas que ainda não estavam disponíveis quando esses pesquisadores elaboraram suas pesquisas sobre o tema. Ver: CALDEIRA, Jorge. História do Brasil com empreendedores. São Paulo: Mameluco, 2009.

mostra a existência de dois antagonismos geográficos (vertentes platina e amazônica) que

resultam na existência de dois Brasis, o Amazônico e o Platino, sendo sua unidade só possível

pelos sistemas de transportes.

Durante o século XIX, no Brasil Império, os principais produtos de exportação

estiveram em torno dos produtos primários como o café e o açúcar. A TABELA 3 mostra

detalhadamente as principais mercadorias da pauta de exportação do período.

TABELA 3 − PRINCIPAIS MERCADORIAS DA EXPORTAÇÃO 1821-1890

Período Café Açúcar Algodão Peles e Couros Borracha TOTAL 1821/30 18,63% 32,21% 19,96% 13,77% 0,06% 84,63% 1831/40 43,78% 24,02% 10,98% 7,92% 0,35% 87,05% 1841/50 41,29% 26,74% 7,47% 8,62% 0,39% 84,51% 1851/60 48,78% 21,18% 6,21% 7,24% 2,24% 85,65% 1861/70 45,25% 12,04% 18,37% 6,01% 3,18% 84,85% 1871/80 56,44% 11,87% 9,51% 5,52% 5,49% 88,83% 1881/90 61,70% 9,96% 4,24% 3,19% 7,69% 86,78% FONTE: adaptado de Anuário Estatístico do Brasil (1952). MDIC (2019).

Com exceção, para o período de 1821/1830, durante todo o Império, o café se manteve

como o produto mais exportado do país, seguido do açúcar, algodão, peles e couros e borracha;

1881/1990 café, açúcar, borracha, algodão, peles e couro.

Os países com os quais o Brasil tinha maior relação comercial durante o século XIX

eram Inglaterra, França, Estados Unidos e Alemanha. Já o comércio com países da América do

Sul estava restrito ao Uruguai, Chile, Peru, Argentina e Paraguai, porém de maneira ainda

irrisória. Pode-se verificar melhor estes aspectos através dos GRÁFICOS 5 e 6.

GRÁFICO 5 − COMÉRCIO EXTERIOR DO BRASIL COM PAÍSES DE MAIOR INTERCÂMBIO: IMPORTAÇÃO: 1842/43, 1852/53, 1862/63 E 1872/73 (Valor em Libras ££).

FONTE: IBGE (1939/40).

NOTA: ¹De 1842/43, 1852/53 e 1862/63 estão incluídos no intercâmbio com o Uruguai. ²Os dados de todos os anos estão incluídos no intercâmbio com o Uruguai. ³Os dados de1842/43,1852/53 e 1862/63 estão incluídos no intercâmbio com a Suécia. ⁴Os dados 1842/43 estão incluídos no intercâmbio com o Chile.

GRÁFICO 6 − COMÉRCIO EXTERIOR DO BRASIL COM PAÍSES DE MAIOR INTERCÂMBIO: EXPORTAÇÃO: 1842/43, 1852/53, 1862/63 E 1872/73 (Valor em Libras ££)

FONTE: IBGE (1939/40).

NOTA: ¹ De 1842/43 e de 1862/63 estão incluídos no intercâmbio com o URY. ²Os dados de 1842/43 e de 1862/63 estão incluídos no intercâmbio com o URY. ³Os dados de1842/43, 1852/53 e 1872/73 estão incluídos no intercâmbio com a Suécia. ⁴Os dados 1842/43 estão incluídos intercâmbio com o CHL.

Conforme os GRÁFICOS 5 e 6, os países de que mais importavam, no geral, eram na

ordem decrescente, Grã-Bretanha, França, Estados Unidos, Alemanha e Portugal; já como

destino das exportações estavam Grã-Bretanha, Estados Unidos, França e Alemanha. Na

América do Sul, se destacam as importações juntas de Uruguai, Argentina e Paraguai, e depois

do Peru. Nas exportações estão juntos Uruguai, Argentina e Paraguai, depois Chile e Peru,

sendo no ano de 1842/43 incluso o Chile, no intercâmbio com o Peru.

Esse comércio é fruto da conjuntura da época, da Divisão Internacional do Trabalho

em que o país fazia parte, exportando produtos primários às potências europeias, no caso da

Inglaterra principalmente açúcar, algodão e borracha, e para os EUA crescia a exportação de

café, e importando produtos têxteis e manufaturados ingleses e dos EUA destacava-se o trigo e

a farinha de trigo, manufaturas de ferro e aço, madeiras e outros

57

. No caso da Inglaterra além

de ser a principal parceira comercial e manter o monopólio dos empréstimos, era a que tinha o

maior capital estrangeiro investido do país, de acordo com Carvalho (2002, p. 7-8), financiando

“os bancos comerciais que financiavam a indústria, o comércio e a agricultura, e eram também

inglesas a maior parte das linhas de navegação com o resto do mundo, além das firmas de

exportação e importação que controlavam o comércio brasileiro”. Cabe ressaltar que o Brasil

diferentemente da sua estratégia territorialista e tentativa hegemônica adotada na região platina,

a estratégia de inserção no cenário internacional extrarregional ocorria pela via do comércio e

da cooperação, mantendo a estratégia de um Estado Comercial nesse contexto.

Já no caso das trocas ocorridas entre os países sul-americanos, era sobretudo de

produtos primários (erva-mate, couro, gado em pé, entre outros)

58

no âmbito das vantagens

comparativas de cada país, e o maior intercâmbio com os países platinos do que com andinos.

Um esboço

59

geral do comércio entre províncias brasileiras e países sul-americanos ocorreu da

seguinte maneira:

x O Paraná a partir de 1820 exportava erva-mate para Argentina, Uruguai e para o Chile.

Posteriormente passou a exportar café e o fumo para a Argentina

60

.

57 Para dados de comércio exterior por produto com EUA, Inglaterra e Argentina ver Carvalho (2002) As relações comerciais brasileiras no final do século XIX até 1945.

58 Ver Westphalen (1999), Comércio exterior do Brasil Meridional.

59 Falamos em esboço devido à dificuldade em encontrar literaturas ou dados que abordem com exclusividade o tema do comércio entre as províncias brasileiras e países sul-americanos no século XIX, por isso um compilado a partir de diversos autores.

x Santa Catarina, na metade do século XX, exportava farinha e mandioca via cabotagem,

para os portos de Montevidéu (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina) e importava

produtos da bacia do Rio da Prata

61

.

x O Rio Grande do Sul exportava couro para os países do Rio da Prata e para o Chile e

importava produtos dos países platinos

62

.

x A Bahia importava alimentos do Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile e Peru,

principalmente carne dos países platinos

63

, comércio favorecido pelo breve momento de

estagnação econômica da província

64

.

x Pernambuco importava feijão, carne de charque, farinha de mandioca de países da

América do Sul

65

.

Essa maior aproximação com países platinos se justifica além de todo histórico da

política externa de intervenção, tentativa de se estabelecer como potência hegemônica e de

aproximação com tais países durante o século XIX, também pela proximidade geográfica com

as províncias sulinas que se destacavam no comércio com países platinos, facilitação dos

transportes pelo sistema de cabotagem, pelas hidrovias e pela via terrestre. O comércio só

estagnava em relação aos países da Prata nos períodos de guerra.