3 OS MARCOS REGULATÓRIOS DOS CONHECIMENTOS
3.3 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROTOCOLO DE NAGOYA
O Protocolo de Nagoya sobre acesso e repartição de benefícios foi adotado em 29
de outubro de 2010, na décima reunião da Conferência das Partes na Convenção sobre a
Diversidade Biológica (COP-10), celebrada em Nagoya, no Japão. O Protocolo possui
natureza jurídica de tratado internacional que, para entrar em vigor, necessita da
ratificação de pelo menos 50 (cinquenta) países. O Brasil assinou o Protocolo sobre
Acesso a Recursos Genéticos e a Repartição Justa e Equitativa dos Benefícios advindos
de sua Utilização, na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, no dia 02
de fevereiro de 2011.
101O Brasil, embora tenha sido um dos maiores articuladores do Tratado e um dos
primeiros signatários, ainda não ratificou o Protocolo. Trata-se de um instrumento
jurídico internacional de cuja adesão participaram mais de 90 (noventa) países. Tem
como objetivo principal a implementação do terceiro objetivo da Convenção sobre a
Diversidade Biológica, qual seja, garantir efetividade de uma repartição justa e objetiva
dos benefícios do acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais
associados. É cediço que a CDB possui outros 02 (dois) objetivos que é a conservação
da diversidade biológica e o uso sustentável dos recursos naturais.
102Em seu discurso introdutório, o Protocolo almeja proporcionar uma maior
transparência jurídica tanto para os provedores quanto para os usuários de recursos
genéticos no que tange à repartição de benefícios econômicos e da transferência de
tecnologias dos países avançados aos países megadiversos por meio de financiamento
adequado.
103Entende, dessa forma, o Protocolo estar contribuindo para a conservação
da diversidade biológica e a utilização sustentável de seus componentes.
104O Protocolo sobre a repartição justa e equitativa dos benefícios dispõe que cada
parte, tanto a que concede seus recursos naturais, quanto a que deles se apropria, deve
obedecer às condições mutuamente acordadas, bem como adotar as medidas
legislativas, administrativas e políticas para assegurar que as comunidades indígenas e
comunidades tradicionais tenham garantido seu direito à repartição dos benefícios.
O Protocolo de Nagoya, assim como a CDB, previu o consentimento
fundamentado prévio da parte que conceder a utilização dos recursos genéticos e
conhecimentos tradicionais de seu país, mas com notáveis diferenças. O Protocolo
disciplina a obrigatoriedade de regulamentação das leis nacionais em relação ao aludido
consentimento, orientando o país a adotar uma série de medidas legislativas,
administrativas e política necessárias à validade do consentimento.
101
NOTÍCIA PROTOCOLO DE NAGOYA. Disponível em
http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2011/fevereiro/brasil-ratifica-protocolo-de-nagoya-sobre-acesso-e. Acesso em: 04.05.2012
102Secretariat of the Convention on biological Diversity United Nations Environmental Programme. Nagoya Protocolo on Access to Genetic Resources and the Fair and Equitable Sharing of Benefits Arising from their Utilization to the Convention on Biological Diversity: text and annex. 2011. Introduction.
103
Secretaria Del Convenio sobre La Diversidad Biológica. Programa de Las Naciones Unidas para El Medio Ambiente. Publicado em 2011. Protocolo de Nagoya.
104
As medidas acima mencionadas que, obrigatoriamente, deverão constar na
regulamentação do consentimento prévio, são: a) claridade e transparência da
regulamentação nacional; b) proporcionar normas e procedimentos justos e não
arbitrários sobre o acesso aos recursos genéticos; c) proporcionar informação sobre
como solicitar o consentimento prévio; d) conceder uma decisão por escrito clara e
transparente de uma autoridade nacional competente, de maneira eficiente em relação
aos custos dentro do prazo razoável; e) prever que seja emitida uma permissão como
prova da decisão de outorgar o consentimento fundamentado prévio e notificar o Centro
de Intercâmbio de Informação sobre Acesso e Participação dos benefícios; f) estabelecer
critérios aos processos para obter o consentimento fundamentado prévio com a
aprovação e participação das comunidades indígenas e locais para o acesso aos recursos
genéticos; g) estabelecer condições mutuamente acordadas que contemplem uma
cláusula sobre resolução de controvérsias
105, condições sobre a participação nos
benefícios inclusive em relação a direitos de propriedade intelectual.
De conformidade com a regulamentação nacional que deve ter por base o
Protocolo de Nagoya, o consentimento prévio necessita conter uma série de requisitos,
muito mais disciplinador que a CDB, que previu o consentimento prévio de forma
simples, podendo as partes, até mesmo abrirem mão do consentimento fundamentado,
neste caso bastando um Termo de Anuência Prévia, de acordo com a definição das
partes.
106Em outras palavras, não é um simples consentimento fundamentado prévio como
previa a CDB, mas um consentimento fundamentado prévio disciplinado e
regulamentado com uma série de premissas legais, sem as quais o consentimento se
torna legalmente insuficiente.
O Protocolo ainda não está em vigor, o Brasil é signatário, mas ainda não
efetuou o depósito. O Brasil assinou
107o Tratado em fevereiro de 2011, mas ainda está
tramitando no Congresso o Decreto Legislativo de aprovação do tratado no direito
interno brasileiro. O Protocolo, após a tramitação e a assinatura do decreto, entrará na
105 Sobre a resolução de controvérsias entre as partes o Protocolo de Nagoya estabeleceu em seu artigo 18 a necessidade das partes deliberarem no contrato a jurisdição a que submeterão os processos de resolução de controvérsias, a lei aplicável e opções de mediação e arbitragem.
106
Vejamos o que aduz a CDB sobre o consentimento prévio fundamentado, no item 05 do Art.15 da CDB: “O acesso aos recursos genéticos deve estar sujeito ao consentimento prévio fundamentado da Parte Contratante provedora desses recursos, a menos que de outra forma determinado por essa Parte.”
107
A assinatura do Tratado é uma fase imprescindível da sistemática dos atos internacionais para configurar a adesão do país e expressar o consentimento da parte signatária.