4.2 AS QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU, CONHECIMENTOS
4.2.1 O reconhecimento infraconstitucional das “terras tradicionalmente ocupadas” e
No decorrer dos debates, na pesquisa de campo, no contexto do Projeto
Pró-Cultura, fora possível observar que o interesse na proteção dos conhecimentos
tradicionais não se encontra dissociado dos direitos à proteção das “terras
tradicionalmente ocupadas” e do livre acesso aos babaçuais. O conhecimento tradicional
entra nas discussões de modo tangencial sempre ligado ao direito as “terras
tradicionalmente ocupadas” e o acesso ao recurso. As quebradeiras de coco
representadas pelo MIQCB presentes nos encontros demonstraram preocupação maior
com questões mais abrangentes como a dos territórios tradicionais e do livre acesso aos
recursos naturais por intermédio da criação das Leis do Babaçu Livre.
As “terras tradicionalmente ocupadas” para Almeida (2006, p.28) “representam
aquelas áreas voltadas para o extrativismo, a pesca, a pequena agricultura e o pastoreio,
que buscam reconhecer suas especificidades”. Almeida (2006, p.28) traçou um
panorama do reconhecimento jurídico infraconstitucional das especificidades de alguns
grupos sociais, conforme descrição abaixo:
- os dispositivos da Constituição Estadual no Maranhão falam em assegurar “a exploração dos babaçuais em regime de economia familiar e comunitária” (art. 196 Constituição do Maranhão de 1990);
- na Bahia falam em conceder o direito real de concessão de uso nas áreas de fundo e pasto (art. 178 da Constituição da Bahia de 1989);
- no Amazonas o capítulo XIII da Constituição Estadual é denominado “Da população ribeirinha e do povo da floresta”. Contempla os direitos dos
núcleos familiares que ocupam as áreas das barreiras de terras firme e as “terras de várzeas” e garante seus meios de sobrevivência (arts.250 e 251 da Constituição do Amazonas, de 1989);
As ambigüidades que cercam a denominação de população ribeirinha tendem a ser dirimidas. Assim, as distinções internas ao significado da categoria ribeirinhos – que muitas vezes é utilizada consoante um critério geográfico, em sinonímia com “habitantes das várzeas”, abrangendo indistintamente todos os que se localizam nas margens dos cursos d’água, sejam povos indígenas, grandes ou pequenos criadores de gado ou pescadores e agricultores – vão ser, todavia, delimitadas pelo Movimento dos Ribeirinhos do Amazonas, pelo Movimento de Preservação de Lagos e pelo Movimento de Mulheres Trabalhadoras Ribeirinhas. Estes movimentos tem os grandes pecuaristas, os criadores de búfalos e o s que praticam a pesca predatória em escala comercial como antagonistas, bem como os interesses envolvidos na construção de barragens, de gasodutos e de hidrelétricas. A mobilização política, própria destes conflitos, tem construído uma identidade ribeirinha, que é atributo dos que estão referidos a unidades de trabalho familiar na agricultura, no extrativismo, na pesca e na pecuária, a formas de cooperação simples no uso comum dos recursos naturais e a uma consciência ecológica acentuada.
A Lei Estadual do Paraná de 14 de agosto de 1997, que reconhece formalmente os faxinais como “sistema de produção camponês tradicional, característico da região Centro-Sul do Paraná, que tem como traço marcante o uso coletivo da terra para produção animal e conservação ambiental. “ (Art. 1); as Leis municipais aprovadas no Paraná que reconhecem os criatórios comuns. Estas Leis Municipais deste fevereiro de 1948, como aquelas reconhecidas pela Câmara de São João do Triunfo (Lei n.09 de 06/02/48) e pela Câmara Municipal de Palmeira (Lei n. 149 de 06/05/77), buscam delimitar responsabilidades inerentes ao uso das terras de agricultura e de pastagens, com as respectivas modalidades de cercamento.
- As Leis municipais aprovadas no Maranhão, no Pará e no Tocantins desde 1997, mais conhecidas como “Leis do Babaçu Livre”, que disciplinam o livre acesso aos babaçuais, mantendo-os como recursos abertos independentemente da forma de dominialidade, seja posse ou propriedade. Desde 1997 estão tramitando projetos de lei ou foram aprovadas mais de dez Leis Municipais no Estado do Maranhão (Municípios de Lago do Jungo, Lago dos Rodrigues, Esperantinópolis, São Luis Gonzaga, Imperatriz, Capinzal do Norte, Lima Campos), no Estado do Tocantins (Municípios de Praia Norte, Buriti) e no Estado do Pará (Município de São Domingos do Araguaia) defendendo o uso livre dos babaçuais.
- Na região onde prevalecem as comunidades de fundos de pastos , no Estado da Bahia, começam a ser reivindicadas também as chamadas “Leis do Licuri Livre”. Constituem um dispositivo análogo àquele reivindicado pelas quebradeiras de coco babaçu e a primeira lei foi aprovada aprovada pela Câmara de Vereadores do Município de Antonio Gonçalves (BA) em 12 agosto de 2005. Trata-se da Lei n.04 que protege os ouricuzeiros e garante o livre acesso e o uso comum por meio de cancelas, porteiras e passadores aos catadores do licuri e suas famílias, “que os exploram em regime de economia familiar e comunitária (Art.2º Parágrafo Primeiro). O ouricuri, também chamado licuri e ainda aricuri ou nicuri, possui uma amêndoa rica em nutrientes e serve de complemento alimentar para os pequenos agricultores de base familiar. (Almeida, 2006, p.28-31)
Observa-se com referência no estudo do antropólogo Alfredo Wagner Berno de
Almeida que há uma diversidade de formas de reconhecimento jurídico e diferentes
formas de concepção da natureza e dos recursos naturais dependendo do grupo, mas o
que parece uniforme é a disposição dos grupos em reivindicar o uso comum das
florestas, dos recursos hídricos e de campos e pastagens para o exercício de diferentes
modos de produção como extrativismo, agricultura, pesca, caça, artesanato e pecuária
(Almeida, 2006, p.31-32).
Assim, às identidades específicas dos povos tradicionais correspondem as
territorialidades específicas. Neste sentido, expõe Almeida:
Tais territorialidades, como já foram sublinhadas, não equivalem exatamente às manchas de incidências de espécies cartografadas no zoneamento ecológico-econômico. Para efeito de exemplo observe-se que a área de atuação do movimento das quebradeiras de coco babaçu não corresponde de maneira precisa àquela de ocorrência dos babaçuais estimada em 18 milhões de hectares. (2008, p.25)
Da mesma forma que a concepção de conhecimentos tradicionais não pode estar
dissociada do sujeito da ação, ou seja, os sujeitos que detêm o conhecimento, não se
podem reconhecer o direito à terra dissociada do direito ao reconhecimento dos
processos de territorialização, uma vez que tal categoria não retira o sujeito da ação
(ALMEIDA, 2008, p. 26).
Os processos de reconhecimento das territorialidades específicas implicam na
ressignificação do direito na medida em que as terras para a agricultura e residência das
quebradeiras não pode estar dissociada do direito das mesmas acessarem livremente a
área de ocorrência dos babaçuais que é muito maior do que as terras reconhecidas. Por
isso, a necessidade da adoção de uma categoria jurídica mais abrangente do que a terra,
em razão do babaçu ser um recurso natural encontrado de forma aberta e de uso comum.
Por conseguinte, o reconhecimento e a proteção dos conhecimentos tradicionais,
por envolver saberes históricos sobre o manuseio do babaçu, manejo e táticas de
preservação ambiental, estão vinculados ao direito de mobilização política das
quebradeiras em torno do livre acesso aos babaçuais para muito além das propriedades
coletivas destinadas ao grupo social para que os conhecimentos tradicionais caminhem
junto com a garantia do acesso às territorialidades, pois é nelas que se pratica o
conhecimento tradicional compartilhado coletivamente.
Por outro lado, no entender de Almeida (2006, p.22), apesar da saída da
invisibilidade dos povos e comunidades tradicionais, para o reconhecimento jurídico
formal na Constituição Federal de 1988 e em normas infraconstitucionais, verifica-se
dificuldade para efetivação desses dispositivos legais, haja vista que o reconhecimento e
a criação de alguns órgãos públicos
125dentro do aparelho administrativo do Estado,
voltados para a política de promoção da diversidade social, não significa a
implementação das reivindicações encaminhadas pelos grupos sociais baseadas no uso
comum dos recursos naturais, garantia das territorialidades específicas e respeito à
cultura intrínseca de cada grupo no âmbito dos modos de criar, fazer e viver previsto no
art. 215 e 216 da Constituição Federal.
A razão do reconhecimento jurídico formal não se harmonizar com a
implementação das políticas públicas e com o acatamento das reivindicações dos grupos
sociais organizados em movimentos sociais, segundo Almeida (2006, p.27) deve-se a
não alteração das estruturas burocráticas preexistentes a Constituição Federal de 1988,
em outras palavras a ausência de uma reforma de Estado em harmonia com os
dispositivos constitucionais pluriétnicos e multiculturais, faz com que importantes
setores do Estado tratem os grupos sociais de maneira autoritária, sem uma política
étnica adequada às especificidades de cada grupo social.
A ausência de uma relação democrática do aparelho administrativo e burocrático
do Estado brasileiro com os grupos sociais e de uma política étnica para implementar os
direitos de uso comum aos recursos naturais e aos territórios não é o único fator que
obsta o reconhecimento material desses grupos. As estratégias empresariais sobre as
terras dos povos e comunidades tradicionais, engendrados com projetos
desenvolvimentistas do Estado, unidos por interesses coloniais, que historicamente
monopolizaram a terra, e por interesses de grupos empresariais interessados nos
recursos naturais também são obstáculos à implementação dos direitos e reivindicações
dos movimentos sociais (ALMEIDA, 2006, p. 35).
Os conflitos socioambientais existem nas zonas dos babaçuais pela
implementação na região investigada no Médio-Mearim de um mercado de
“commodities”
126de produção agroindustrial de larga escala já citada no tópico 4.1, que
contrasta com o modo de vida de produção agroextrativista em baixa escala de
característica cooperativa e artesanal. Neste sentido, o avanço de grandes
empreendimentos na região fere os direitos voltados às territorialidades específicas, pelo
125 Dentre diversos órgãos públicos criados para tratar de políticas relacionadas a povos e comunidades tradicionais estão o Conselho Nacional de Populações Tradicionais, no âmbito do IBAMA, criado em 1992 pela Portaria /IBAMA. N. 22-N, de 10 de fevereiro de 1992 criado pelo Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais”. Em dezembro de 2004, o Governo Federal cria a Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Comunidades Tradicionais com objetivo de implementar uma política nacional a tais comunidades.
126
Termo utilizado por Almeida (2008, p.19) para designar produção mineral ou agrícola em larga escala praticada por grandes empreendimentos empresariais.