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3 OS MARCOS REGULATÓRIOS DOS CONHECIMENTOS

3.4 REFLEXÕES SOBRE OS DISPOSITIVOS JURÍDICOS

Pela análise do direito, além da cortina positivista proposta no estudo, pode-se

constatar assim como na CDB, que os acessantes do patrimônio genético e os detentores

de tais conhecimentos são tratados pela norma como partes nesse processo, como se as

partes comunidades locais e tradicionais e empresas ou entidades de pesquisa fossem

sujeitos iguais, possuindo uma série de obrigações mutuamente acordadas,

instrumentalizadas em um contrato que pressupõe a igualdade das partes, como se

empresas e entidades pudessem negociar com as comunidades de modo horizontal.

Shiraishi Neto (2011, p. 84) adverte para as enormes diferenças culturais, sociais

e econômicas existentes entre indivíduos e entre empresas e comunidades, mas o direito

insiste em tratar os sujeitos de forma universal, o que dificulta a compreensão do

significado dos povos e comunidades tradicionais e implica em não entendimento do

próprio direito, por ignorar a realidade e diversidade sociais.

Dessa forma, as normas jurídicas dos tratados internacionais acabam por

enquadrar a situação dos povos e comunidades tradicionais em modelos jurídicos

preexistentes como o contrato e a propriedade privada, assim como o direito ambiental

tem uma concepção de que as formas de se enxergar o meio ambiente e se apropriar da

natureza é a mesma para todos

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(SHIRAISHI NETO, 2007, p.29). A utilização de

modelos jurídicos ambientais preexistentes e universais pode ser visualizada quando da

criação de unidades de conservação extrativistas em moldes padronizados.

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A teor do dispositivo constitucional que disciplina em seu art. 225 que “Todos tem o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo essencial a sadia qualidade de vida...”

O exemplo da criação da reserva extrativista no Acre

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para beneficiar os

extrativistas é imposto para outros grupos que possuem particularidades diversas, como

é o caso do modelo implantado para as reservas extrativistas de babaçu. Entretanto, a

prática social sobre o acesso e uso do recurso é diferente entre os extrativistas e as

quebradeiras de coco babaçu.

As reservas extrativistas de babaçu somam 36.422 hac., para beneficiar 5.550

famílias de quebradeiras de coco. Na atividade das quebradeiras de coco babaçu o

essencial é o acesso ao recurso natural. As famílias fazem a coleta sob a premissa de

que não há dono ou donos das palmeiras de babaçu, pois concebem o recurso como

livre, uma vez que os frutos quando maduros caem no chão e são coletados pelas

mulheres nos cofos, ou seja, o uso do recurso é comum, e, encontram-se espalhados de

forma descontínua e condicionado a capacidade produtiva de cada família (SHIRAISHI

NETO, 2000, p.57)

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. No que concernem, as reservas extrativistas, as quais no ano

2000 somavam 2.162.989 ha., beneficiando 6.250 famílias de seringueiros, a

apropriação da terra é comum, mas o uso é privado por família, cada família possui suas

árvores de seringa. As reservas de extrativistas de seringueira foram importantes para

atender às reivindicações dos seringueiros; no entanto, para as quebradeiras de coco as

reservas

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não as beneficiaram, pois a maioria das áreas criadas pelo decreto não

encontra sob o domínio das famílias extrativistas de babaçu, mesmo porque os

babaçuais não podem ser plantados nos quintais das casas das quebradeiras, visto que

sua ocorrência é natural e encontra-se espalhada pela região do Médio-Mearim no

Maranhão.

Dessa forma, verifica-se que as normas e as políticas públicas para os povos e

comunidades no que concerne a formas de acesso ao recurso e de “proteção dos

conhecimentos tradicionais” são pensados de forma universal, deixando muitàs vezesde

se analisar as especificidades e diferenças entre os grupos.

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Em 30 de janeiro de 1990, o Presidente da República assinou o Decreto n.º 98.897, que dispôs sobre a criação de Reservas Extrativistas (RESEX), sob a responsabilidade do IBAMA. Segundo o art. 1º do Decreto: “As reservas extrativistas são espaços territoriais destinados à exploração autossustentável e conservação dos recursos naturais renováveis, por população extrativista. Em 1990, foram criadas as quatro primeiras reservas extrativistas: Chico Mendes e Alto Juruá, no estado do Acre, Cajari, no Estado do Amapá e Rio Outro Preto no Estado de Rondônia (SHIRAISHI NETO, 2000, p.52-53)

110 SHIRAISHI NETO, Joaquim. Babaçu Livre: conflito entre a Legislação Extrativa e Práticas Camponesas. ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de; SHIRAISHI NETO, Joaquim; MESQUITA, Benjamin Alvino

111 As Reservas extrativistas de babaçu criadas forma em Mata Grande, Município de Impetratiz, Ciriaco em Imperatriz MA, Quilombo do Frechal, em Mirinzal, Extremo Norte do Tocantins em Augustinópolis do Tocantins (SHIRAISHI NETO, 2000, p.54)

Do mesmo modo, as normas apresentadas supõem a utilização do contrato de

repartição de benefícios entre sujeitos de direito do mesmo modo para todos os grupos,

podendo homogeneizar as relações jurídicas, pois as normas tendem a serem impostas

pela empresa, parte mais forte economicamente no contrato. Assim, tais institutos,

podem ser modelos jurídicos insuficientes para atender às demandas de reconhecimento

jurídico e proteção de áreas coletivas comuns.

O estudo dos institutos acima mencionados, relacionando-os com os modos de

vida e as práticas sociais das quebradeiras de coco babaçu, é fundamental para a

compreensão das consequências do processo de repartição de benefícios e privatização

dos conhecimentos tradicionais dentro do discurso de proteção da biodiversidade.

O Estado por sua vez, quando não se retira desse processo contratual, age de

forma meramente homologatória, de modo a incentivar a negociação direta entre

empresa e comunidade, dentro da política de não-intervenção nas relações “privadas”. O

Estado positiva o direito desses povos buscando compatibilizar finalidades de difícil

harmonia, o interesse do capital nacional e internacional de empresas farmacêuticas e de

biotecnologia com a “proteção da diversidade biológica”, mediante o acesso ao

patrimônio genético e ao conhecimento tradicional, para potencializar as

matérias-primas naturais como um bem a ser transformado no processo produtivo sob o discurso

de bem-estar da humanidade com a descoberta de remédios e cosméticos. Compete ao

pesquisador pensar as conseqüências desse processo e as implicações para a reprodução

física, social e cultural dos grupos sociais.

4 O RECONHECIMENTO JURÍDICO E O MERCADO NO CONTEXTO DA