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Bruce Nauman (1966) A rose has no teeth Placa de chumbo em relevo 19,05 x 20,32x7,72 cm.

PARTE II: O PRIMADO E A INSUFICIÊNCIA DA LINGUAGEM

53. Bruce Nauman (1966) A rose has no teeth Placa de chumbo em relevo 19,05 x 20,32x7,72 cm.

University of California Berkeley Art Museum (BAM/PFA). Berkely

Tudo o que acabamos de enunciar incita: a conceder justiça ao mundo sensível, à compreensão de uma tradição ocidental que acredita no primado da Palavra e da Razão; à consciência que a linguagem se encontra no premente processo de transformação, que a arte não se subordina ao seu discurso e que, diante de uma obra de arte, o processo de interpretação não seria a ferramenta adequada, já que não há uma obra passível de ser descodificada. Se pensarmos com Lyotard, a arte – tal como acabamos de exprimir com a vida e com o mundo - não se submete ao modelo lógico-verbal. Deste modo, seguindo esta linha de reflexão, propomos a construção de um caminho, valorizando o sensível concedendo independência ao Figural, que permite iniciar o pensamento a propósito da miscigenação do texto – falado ou escrito – com a imagem.

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GLISSANT e OBRIST, 2013: 20. Tradução livre a partir de: laboratoires des langages. 165

Análise sobre as relações da linguagem e da imagem

Com a sua autonomização face a outros discursos (religiosos, sociais e/ou políticos), a arte procede a um trabalho experimental da sua própria identidade. Se nos posicionamos ao nível do Pluralismo de Friedrich Nietzsche,166 seria extremamente redutor assumir a existência de uma verdade e da verdadeira/derradeira interpretação de um objeto artístico. A arte contemporânea está marcada por uma multiplicidade de percursos e de investigações artísticas e assume-se como redutor tentar criar uma única definição ou um único modelo para essa riqueza. A obra de arte é um objeto sensível não submisso a um exercício de interpretação, encontra-se sim, no plano da experimentação, da interrogação, da construção, desconstrução e/ou da reconstrução. A experimentação afasta o artista e o espetador dos seus papéis de emissor e de recetor de uma mensagem enviada pronta a ser descodificada (como poderíamos pensar a partir da

Hermenêutica de Hans-Georg Gadamer167). Torna-se, então, legítimo pensar que a palavra e a imagem estabelecem relações, mas estas relações não se inscrevem na dominação. Quer isto dizer, que os dois se contaminam ou se encontram em território de contaminação. A escrita não se assume sempre como uma legenda nem como um complemento da imagem, ela integra-se. Neste sentido, a dicotomia entre imagem e linguagem dissolve-se e não estamos no domínio da imitação, nem da tradução, nem da transposição. Primeiramente, podemos pensar ao nível da Literatura, a partir das alegorias ou da utilização de recursos expressivos – como é o caso da comparação, da metáfora, da metonímia, da sinestesia ou da Ekphrasi (uma descrição precisa) – que se assumem como catalisadores de imagens ou que tornam visível uma imagem pela leitura de um texto. O texto tem, então, por associação de palavras e de ideias, capacidade de convocar, de produzir ou de estimular em nós imagens mentais. Estas imagens permanecem, de certa forma, livres, porque cada leitor se apropria do texto da sua própria maneira e pelo seu próprio imaginário e referências culturais. Este poder de produção de imagens mentais, associa-se à inscrição do não-dito no dito. Se Derrida em

A Disseminação falava de Disseminação168 enquanto penetração e subtração simultâneas de todo o sentido que um discurso pretende representar, poderíamos pensar que o dito está sempre atravessado pelo não-dito e que estes buracos no discurso ou na descrição, permitem ao não-dito contaminar a imagem mental.

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NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Madrid: Ediclube 167

GADAMER, Hans-Georg (1996). La Philosophie herméneutique. Paris: Puf 168

Se evocámos o facto que para Deleuze (e)screver é forçosamente forçar a

linguagem, e forçar a sintaxe, porque a linguagem é a sintaxe, é forçar a sintaxe até um certo limite,169 Antonin Artaud, por exemplo, vai experimentar a sintaxe, mas também os neologismos ou a tipografia, para tentar colocar a linguagem num constante exercício de experimentação. O contacto com a linguagem pode ser pensado diferentemente: pela sua mensagem (social, política, comprometida e/ou poética); pelo seu léxico; pelos seus fonemas; pelo seu ritmo; pelas suas acelerações e/ou suas desacelerações; pelas suas rimas; pela sua métrica; pela sua ordem; pelo modo como as palavras se distribuem ou se organizam (como é o caso da poesia de Ghérasim Luca, Mallarmé e/ou Carl André); ou por recursos expressivos. A propósito destes últimos, podemos enumerar alguns como as tautologias, por exemplo, como nas artes plásticas é o caso de One and three

chairs do artista concetual Joseph Kosuth. A obra é uma reflexão relativa à questão da

tradução que nos reenvia a uma problemática quase platónica: o objeto sensível, a imagem e a sua definição concetual e dicionarística. Os três fazem alusão a uma mesma realidade, a este conceito platónico de cadeira e às suas manifestações no nosso mundo: a definição, a imagem e o sensível, três elementos da mesma realidade. Tal como comprovamos na prancha Les mots et les images de René Magritte: Um objeto não tem

nunca a mesma função que o seu nome ou que a sua imagem170 (Fig. 54 e 55).

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DELEUZE, Gilles. Abécédaire – A de Animal [on-line]. [Consultado a 25/06/2015]. Disponível no endereço: https://www.youtube.com/watch?v=fNUG3G4zkbM. Tradução livre a partir de: (é)crire c’est forcément pousser le langage, et pousser la syntaxe, parce que le langage c’est la syntaxe, c’est pousser la syntaxe jusqu’à une certaine limite

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MAGRITTE, René.

http://store.artwiseonline.com/media/catalog/product/cache/4/image/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/a/w/aw91 58.jpg. Tradução livre a partir de: Un objet ne fait jamais le office que son nom ou que son image

54. René Magritte. Les mots et les images (1929). La Révolution surréaliste, nº12, p. 32

55. René Magritte. Detalhe de Les mots et les images