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O sociólogo da ciência Bruno Latour é m uito conhecido por seu livro Science in action, obra esta que analisam os brevem ente no capítulo 3. Muito m enos conhecida é sua análise sem iótica da teoria da relatividade, na qual “o texto de Einstein é lido com o um a contribuição à sociologia da delegação” (Latour 1988, p. 3). Neste capítulo irem os exam inar a interpretação que Latour dá à relatividade e m ostrar que ela exem plifica perfeitam ente os problem as com que depara um sociólogo que tem por m eta analisar o conteúdo de um a teoria científica que não com preende bem .

Latour considera seu artigo um a contribuição ao, e extensão do, program a forte na sociologia da ciência, que declara que “o conteúdo de qualquer ciência é social do com eço ao fim ” (p. 3). De acordo com Latour, o program a forte teve “certo grau de sucesso nas ciências em píricas”, porém m enos nas ciências m atem áticas (p. 3). Ele lam enta que as análises sociais da teoria da relatividade de Einstein que precederam a sua “tenham evitado os aspectos técnicos da teoria” e m alogrado em fornecer algum a “indicação de com o a teoria da relatividade, ela mesma, poderia ser considerada sodal” (pp. 4-5, grifo do original). Latour se encarrega da am biciosa m issão de j ustificar esta últim a idéia, que ele se propõe cum prir redefinindo o conceito de “sodal” (pp. 4-5). Por brevidade, não entrarem os no m érito das conclusões sociológicas que Latour pretende tirar de seus estudos sobre a relatividade, m as m ostrarem os sim plesm ente que seu argum ento está corroído por diversos equívocos fundam entais sobre a própria teoria da relatividade.{155}

Latour baseia sua análise da teoria da relatividade num a leitura sem iótica de um livro de cunho de divulgação científica de Einstein, Relatividade: Teoria Geral e Teoria Restrita (1920). Depois de ter passado em revista noções de sem iótica com o “engate” {shifting in) e “desengate” {shifting out) de narradores, Latour tenta aplicar estas noções à teoria da relatividade restrita de Einstein. Porém , agindo assim , ele se equivoca sobre o conceito de “sistem a de referência” em física. Convém fazer um a breve digressão.

Em física um sistema de referência é um a form a de atribuir coordenadas espaciais e tem porais (x, y, z, t) a “eventos”. Por exem plo, um evento em Nova York pode ser localizado dizendo-se que ele teve lugar na esquina da 6ª Avenida (x) com a Rua 42 (y), trinta m etros acim a do solo (z), ao m eio-dia de 1° de m aio de 1998 (t). Em geral, um sistem a de referência pode ser visualizado com o um a estrutura retangular rígida de m etros e de relógios, que j untos perm item estabelecer as coordenadas de “onde” e “quando” para qualquer evento.

Obviam ente, m ontar um sistem a de referência im plica proceder a certa quantidade de escolhas arbitrárias: por exem plo, onde localizar o ponto de origem

das coordenadas espaciais (aqui a Avenida 0 e a Rua 0 ao nível do solo), com o orientar os eixos espaciais (aqui leste-oeste, norte-sul, para cim a-para baixo), e onde localizar a origem do tem po (aqui m eia-noite de Y de j aneiro, ano 0). Porém este arbítrio é relativam ente trivial, no sentido de que, se fizerm os qualquer outra escolha de origens e orientações, existirão fórm ulas bem sim ples para converter as anteriores nas novas coordenadas.

Um a situação m ais interessante surge quando se leva em conta dois sistem as de referência em movimento relativo. Por exem plo, um sistem a de referência pode estar relacionado à Terra, enquanto outro está ligado a um carro que se m ove a 100 m etros por segundo, no sentido leste, relativam ente à Terra. Muito da história da física m oderna desde Galileu está ligado à questão de saber se as leis da física são as m esm as com relação a cada um destes dois sistem as de referência, e que equações devem ser usadas para a conversão das coordenadas anteriores (x, y, z, t) nas novas (x’, y’, z’, t’). A teoria da relatividade de Einstein trata precisam ente destas duas questões.{156} Nas apresentações pedagógicas da teoria da relatividade, um sistem a de referência é, com frequência, equiparado vagam ente a um “observador”. Mais precisam ente, um sistem a de referência pode ser identificado com o um conjunto de observadores, que são posicionados um em cada ponto no espaço, todos em repouso uns em relação aos outros, e equipados de relógios adequadam ente sincronizados. Porém é fundam ental notar que estes “observadores” não precisam ser necessariam ente pessoas: um sistem a de referência pode perfeitam ente bem ser construído inteiram ente a partir de equipam entos (com o é rotina hoj e em dia no caso de experiências em física de alta energia). Na verdade, um sistem a de referência não precisa em absoluto “ser construído”: fará perfeito sentido im aginar um sistem a de referência ligado conceitualm ente a um próton em m ovim ento que sofre um a colisão de alta energia.{157}

Voltando ao texto de Latour, podem -se distinguir três erros em sua análise. Antes de m ais nada, ele parece pensar que a relatividade trata da posição relativa (em vez do movimento relativo) de dois sistem as de referência, pelo m enos nos seguintes trechos:

Utilizarei o seguinte diagram a, no qual dois (ou m ais) sistem as de referência m arcam diferentes posições no espaço e no tem po … (p. 6)

[N]ão im porta quão longe eu envie os observadores: eles enviarão relatos coerentes … (p. 14)

[O]u reafirm am os com o absolutos o espaço e o tem po, e as leis da natureza tornam -se diferentes cm diferentes/wgores … (p. 24)

[D]esde que as duas relatividades [restrita e geral] sej am aceitas, m ais sistem as de referência com m enos privilégios podem ser acessados, reduzidos,

acum ulados e com binados, observadores podem ser despachados para m ais alguns lugares no infinitam ente grande (cosm os) e no infinitam ente pequeno (elétrons), e as anotações que enviarem serão com preensíveis. Seu [de Einstein] livro bem poderia ser intitulado: “Novas Instruções para Trazer de Yalta Viaj antes Científicos de Longa Distância” (pp. 22-23)

(Os grifos são nossos.)

Este erro pode ser atribuído talvez à falta de precisão do estilo de Latour. Um segundo erro — que é em nossa opinião m ais sério, e que está indiretam ente relacionado com o prim eiro — provém de um a aparente confusão entre o conceito de “sistem a de referência” em física e o de “ator” em sem iótica:

Com o se pode determ inar se um a observação, feita do interior de um trem , sobre o com portam ento de um a pedra que cai pode coincidir com a observação da m esm a pedra feita da plataform a? Se há apenas um ou m esm o dois sistem as de referência, solução algum a poderá ser encontrada … A solução encontrada por Einstein considera três atores: um no trem , outro na plataform a e um terceiro, o autor [enunciador] ou um de seus representantes, que tenta reunir as observações codificadas devolvidas pelos outros dois. (pp. 10-11, grifo do original).

Na realidade, Einstein nunca levou em conta três sistem as de referência. As transform ações de Lorentz{158} perm item que se estabeleça um a correspondência entre as coordenadas de um acontecim ento em dois sistem as de referência, sem j am ais ter de passar por um terceiro. Latour parece atribuir a este terceiro sistem a um a im portância capital do ponto de vista físico, visto que ele escreve, num a nota de final de capítulo:

A m aior parte das dificuldades relacionadas com a antiga história do princípio de inércia está ligada à existência de dois sistem as som ente; a solução é sem pre incluir um terceiro sistem a, que colige as inform ações transm itidas pelos outros dois. (p. 43).

Não som ente Einstein nunca m enciona um terceiro sistem a de referência com o na m ecânica de Galileu ou de Newton, aos quais Latour provavelm ente alude quando fala da “antiga história do princípio de inércia”, este terceiro sistem a tam bém não aparece.{159}

Dentro do m esm o espírito, Latour atribui grande im portância ao papel dos observadores humanos, que são analisados em term os sociológicos, evocando a

suposta “obsessão” de Einstein

em transm itir inform ação através de transform ações sem deform ação; sua paixão pela exata sobreposição das anotações; seu pânico diante da idéia de que observadores enviados a pontos distantes possam trair, possam reter privilégios, e enviar relatos que não possam ser utilizados para expandir nosso conhecim ento; seu desej o de disciplinar os observadores enviados e de transform á-los em peças dependentes do aparato que nada fazem senão observar as coincidências de ponteiros e entalhes. (p. 22, grifo do original).

Mas para Einstein os “observadores” são um a ficção pedagógica e podem ser perfeitam ente substituídos por aparelhos; não há absolutam ente nenhum a necessidade de “discipliná-los”. Latour tam bém escreve:

A capacidade dos observadores encarregados de enviar relatos que se possam sobrepor tornou-se possível pela sua com pleta dependência e até estupidez. A única coisa deles requerida é olhar para os ponteiros de seus relógios atenta e obstinadam ente (…) Este é o preço a ser pago pela liberdade e credibilidade do enunciador. (p. 19).

Nas passagens anteriores, assim com o no restante do seu artigo, Latour com ete um terceiro erro: ele enfatiza o pretenso papel do “enunciador” (autor) na teoria da relatividade. Todavia, esta idéia está baseada num a confusão essencial entre a pedagogia de Einstein e a teoria da relatividade em si. Einstein descreve com o as coordenadas espaço-tem po de um acontecim ento podem ser transform adas de qualquer sistem a de referência para outro por m eio das transform ações de Lorentz. Nenhum sistem a de referência desem penha aqui nenhum papel privilegiado; nem o autor (Einstein) existe — m uito m enos constitui “um sistem a de referência” — dentro da situação física que ele está descrevendo. Em certo sentido, o viés sociológico de Latour levou-o a com preender m al um dos aspectos fundam entais da relatividade, a saber, que nenhum sistem a de referência inercial tem privilégio sobre qualquer outro.

Finalm ente, Latour traça um a distinção altam ente sensata entre “relativism o” e “relatividade”: no prim eiro, os pontos de vista são subj etivos e irreconciliáveis; nesta últim a, as coordenadas espaço-tem po podem ser transform adas, sem am biguidade, entre sistem as de referência (pp. 13-14). Mas ele afirm a então que o “enunciador” desem penha papel central na teoria da relatividade, o que ele exprim e em term os sociológicos e até econôm icos:

conta é que a diferença entre relativism o e relatividade revela seu significado m ais profundo …. É o enunciador que tem o privilégio de acum ular todas as descrições de todas as cenas para as quais ele enviou observadores.

O dilem a acim a reduz-se a um a contenda pelo controle dos privilégios, pelo disciplinam ento de corpos dóceis, com o diria Foucault. (p. 15, grifo do original).

E ainda m ais nitidam ente:

[E]stas lutas contra privilégios na econom ia ou na física são literalm ente, e não m etaforicam ente, as m esm as.{160} (…) Quem irá se beneficiar com o envio de todos estes observadores para a plataform a, trens, raios de luz, Sol, estrelas próxim as, elevadores acelerados, confins do cosm os? Se o relativism o estiver correto, cada um deles se beneficiará tanto quanto os outros. Se correta estiver a relatividade, apenas um deles (isto é, o enunciador, Einstein ou algum outro físico) será capaz de j untar num único lugar (seu laboratório, seu escritório) os docum entos, relatos e m edições transm itidos por todos os seus enviados. (p. 23, grifo do original).

Este últim o erro é bastante im portante, um a vez que as conclusões sociológicas que Latour pretende extrair da sua análise da teoria da relatividade são baseadas no papel privilegiado que ele atribui ao “enunciador”, que, por seu turno, está relacionado com a noção de “centros de cálculo”.{161}

Assim , Latour confunde a pedagogia da relatividade com o “conteúdo técnico” da teoria em si. Sua análise do livro de divulgação científica de Einstein poderia, na m elhor das hipóteses, elucidar as estratégias pedagógicas e retóricas de Einstein — certam ente um proj eto interessante, em bora m uito m ais m odesto do que m ostrar que a teoria da relatividade é, ela própria, “social do com eço ao fim ”. Mas, m esm o para analisar a pedagogia proveitosam ente, é preciso entender a teoria subj acente, de m odo a desvencilhar as estratégias retóricas do conteúdo de física no texto de Einstein. A análise de Latour é fatalm ente viciada pela sua inadequada com preensão da teoria que Einstein tenta explicar.

Notem os que Latour repele insolentem ente os com entários dos cientistas sobre seu trabalho:

Prim eiro, as opiniões dos cientistas sobre estudos da ciência não são de m uita im portância. Os cientistas são inform antes para nossas investigações sobre a ciência, não nossos j uízes. A visão da ciência que nós desenvolvem os não

tem que refletir o que os cientistas pensam sobre ciência … (Latour 1995, p. 6).

Pode-se concordar com a últim a declaração. Todavia, o que se poderia pensar de um “investigador” que interpreta tão m al o que os seus “inform antes” lhe dizem ?

Latour conclui sua análise da teoria da relatividade perguntando m odestam ente:

Ensinam os algo a Einstein? (…) Minha tese é que, sem a posição do enunciador (oculto nas explicações de Einstein) e sem a noção de centros de cálculo, o próprio argum ento técnico de Einstein é incom preensível … (Latour 1988, p. 35).

Pós-escrito

Quase sim ultaneam ente à publicação do nosso livro na França, a revista am ericana Physics Today publicou um ensaio do físico N. David Merm in propondo um a leitura favorável do artigo de Latour sobre a relatividade e discordando, ao m enos im plicitam ente, da nossa análise, m uito m ais crítica.{162} Basicam ente, Merm in diz que a crítica aos equívocos de Latour sobre a relatividade não vai ao fundo da questão, que — de acordo com sua “filha diz, altam ente qualificada, por ter feito estudos culturais durante alguns anos” — é a seguinte:

Latour quer sugerir a transposição das propriedades form ais do raciocínio de Einstein para a ciência social, a fim de verificar o que os cientistas sociais podem aprender sobre “sociedade” e com o utilizam esse term o, e o que cientistas que trabalham com ciências fundam entais [física, m atem ática podem aprender sobre seus próprios pressupostos. Ele tenta explicar a relatividade só na m edida em que pretende obter um a leitura form al (“sem iótica”) dela que possa ser transferida para a sociedade. Ele busca um m odelo para entender a realidade social, o que auxiliará os cientistas sociais em suas discussões — que têm a ver com a posição e a im portância do observador, com a relação entre “conteúdo” de um a atividade social e “contexto” (para usar seus term os) e com os tipos de conclusões e norm as que podem ser extraídas por m eio de observação. (Merm in 1997b, p. 13).

Isto é m eia verdade. Latour, na sua introdução, parte para dois obj etivos:

[N]ossa intenção (…) é a seguinte: de que m odo podem os, ao reform ular o conceito de sociedade, ver a obra de Einstein com o explicitamente social? Um a questão relacionada a esta é: com o podem os aprender com Einstein a estudar a sociedade? (Latour, 1988, p. 5, grifo do original; vide pp. 35-36 para colocações sem elhantes).

Para serm os breves, nós nos abstivem os de analisar até que ponto Latour consegue atingir um a ou outra dessas m etas, e nos lim itam os a ressaltar os equívocos fundam entais sobre a relatividade que m inam ambos os seus proj etos. Porém , um a vez que Merm in trouxe à baila esta questão, vam os a ela: aprendeu Latour em sua análise da relatividade algo que possa ser “transferido para a sociedade”?

No plano puram ente lógico, a resposta é não: a teoria da relatividade não tem im plicações de tipo algum na sociologia. (Suponham os que am anhã um a experiência realizada no CERN [Centre Européen de Recherche Nucléaire] venha a dem onstrar que a relação entre a velocidade do elétron e sua energia é levem ente diferente da prevista por Einstein. Esta descoberta causaria um a revolução na física; m as por que deveria obrigar os sociólogos a alterar suas teorias sobre o com portam ento hum ano?) Obviam ente, a conexão entre relatividade e sociologia é, na m elhor das hipóteses, a da analogia. Talvez, ao interpretar os papéis dos “observadores” e “sistem as de referência” na teoria da relatividade, Latour possa deitar luzes sobre o relativism o sociológico e tem as afins. Mas a questão é quem fala e para quem . Suponham os, para argum entar, que as noções sociológicas usadas por Latour possam ser definidas tão precisam ente quanto os conceitos da teoria da relatividade e que alguém fam iliarizado com am bas as teorias possa estabelecer algum a analogia form al entre as duas. Esta analogia pode aj udar na explicação da teoria da relatividade para um sociólogo versado na sociologia de Latour ou na explicação de sua sociologia para um físico. Mas qual é o sentido de usar a analogia com a relatividade para explicar a sociologia de Latour para outros sociólogos? Afinal de contas, m esm o concedendo a Latour um dom ínio com pleto da teoria da relatividade,{163} não se pode presum ir que seus colegas sociólogos tenham o m esm o conhecim ento. Seu entendim ento da relatividade (a m enos que, por acaso, tenham estudado física) estará baseado em analogias com os conceitos sociológicos. Por que Latour não explica as novas noções sociológicas que quer introduzir usando com o referência a form ação sociológica de seus leitores?

Capítulo 6

INTERMEZZO: A TEORIA DO CAOS E A

No documento Imposturas Intelectuais - Alan Soka (páginas 95-102)