Capítulo 3 – A Consolidação da Hegemonia Norte-Americana e os Potenciais Rivais do Dólar
3.2 Os ‘potenciais rivais’ do dólar
3.2.2 Euro: a distant second
3.2.2.2 A busca pela autonomia
Diante a todas essas previsões, a pergunta que se faz é: seria o objetivo da formação do euro rivalizar com o dólar? Nos termos de Cohen (2006), o euro buscava alcançar somente a autonomia ou também exercer a influência? Assume-se aqui a hipótese de que desde a sua concepção o euro não foi um projeto voltado para rivalizar com o dólar e sim para se proteger das instabilidades provocadas pelo dólar no SMFI pós-Bretton Woods, o padrão dólar financeiro, flexível e fiduciário. Como supõe Eichengreen (1994), antes da moeda sair do papel, os países estavam preocupados com o mercado comum e com a estabilidade cambial: “EMU will happen if policymakers are convinced that currency stability is the only way to
solidify the single market and that monetary union is the only way to guarantee currency stability”
Essa hipótese foi elaborada a partir não apenas dos relatórios do Banco Central Europeu (BCE) sobre a internacionalização do euro, mas também por meio da análise dos momentos históricos em que a ideia de integração monetária ganhou mais força desde a concepção da Comunidade Econômica Europeia (CEE), como será apresentado a seguir.
Começando pelo BCE, a instituição assumiu desde sua formação uma postura neutra com relação à internacionalização do euro. Pode-se assumir ao analisar os relatórios do BCE que o seu entendimento da internacionalização monetária é análogo ao da Economia Convencional, ou seja, sanciona a visão baseada nos fatores de demanda:
[…] The development of the euro as an international currency will mainly be a market-driven process. In particular, the use of the euro by private agents as an
investment and financing currency, as well as a payment and vehicle currency, will play a prominent role. The decisions of private sector agents will be influenced to a large extent by the degree of integration, liquidity and diversification of the euro financial markets, and by the cross-border relationships of the euro area. Moreover, the international role of the euro will be affected by the economic conditions in the euro area, thereby highlighting the contribution of all economic policies to a sound and stable currency. The orientation of the Eurosystem’s monetary policy towards price stability will remain a major factor behind investors’ confidence in the euro. Conversely, the Eurosystem is aware of potential implications for the conduct of its monetary policy of the internationalisation of the euro, which will not impair its ability to maintain price stability. Since the internationalisation of the euro, as such, is not a policy objective, it will be neither fostered nor hindered by the Eurosystem
(EBC, 1999, p.31; grifo nosso).
Em 2002, um ano após o euro se tornar a moeda de curso legal nos países que o adotaram, a visão do BCE parece não ter mudado282:
You may wonder what are the immediate policy implications for the ECB. In reality, the world's major central banks know that their policy decisions have, at least in the short term, a limited impact on the international role of currencies. For the Federal Reserve, the international role of the dollar is largely an exogenous element. The dominant position of this currency in world markets basically reflects the size and strength of the US economy. (…) Also for the ECB, both the increase in the international role of the euro in some market segments (mainly debt securities) and the stagnation of the euro's share in international world reserves are largely exogenous factors. They are the direct consequences of decisions taken by private and public institutions outside the euro area. (EBC, 2002, p.1; grifo nosso).
Ao se analisar a história da Europa, percebe-se que não é uma novidade do século XX o desejo de uma maior integração (monetária ou não) entre os países da Europa Ocidental. Willis (1901) mostra que durante o século XIX foram realizadas diversas uniões monetárias na Europa, sendo a mais relevante delas a Latin Monetary Union283, firmada pela França, Bélgica, Itália, Suíça e, posteriormente (em 1867), a Grécia.
Arestis, McCauley e Sawyer (1999) observam que, desde o estabelecimento da CEE em 1957, a instituição da moeda única foi uma ideia intermitente e reaparecia quando os países buscavam se proteger de alguma instabilidade internacional: “[...] attempt at monetary
integration and, ultimately monetary union, have tended to assume importance only as a
282 Apesar desta postura explicita do BCE, Cohen (2011, p.22) afirma que existiam divergências quanto a isso
dentro da Europa, principalmente na França: “EMU has long been viewed in some circles, particularly in
France, as the European Union’s best chance to challenge the long-resented hegemony of the dollar”. De
acordo com Wyplosz (1999), para muitos europeus, a internacionalização do euro é considerada a “hidden
agenda” do EMS.
283 Ela foi uma resposta aos problemas do bimetalismo do século XIX, principalmente após as grandes
descobertas de ouro na Califórnia no final da década de 1840, que gerou bastante instabilidade entre as moedas cunhadas na Europa. Introduzida em 1965, perdurou até 1927, quando não conseguiu sobreviver à instabilidade do entreguerras (BAE & BAILEY, 2011).
result of financial crisis and becoming a vague objective as soon as the crisis recedes”
(ARESTIS, MACCAULEY & SAWYER, 1999, p.4).
A Figura 3 relaciona os principais momentos de instituição do euro aos eventos ocorridos com o dólar, na qual percebe-se a correlação entre os movimentos no dólar e a trajetória de institucionalização do euro, desde o Tratado de Roma (este tratado fundou a CEE, encarregado do estabelecimento da união aduaneira e do mercado comum) até o Tratado de Maastrich.
Figura 3 - Dólar X Euro
Fonte: elaboração própria, a partir de ECB (2007, p.2)
Assumindo ser a autonomia o objetivo dos europeus com a formação do euro, não faria muito sentido durante o estável sistema de Bretton Woods buscar uma moeda única, pois durante esse período as discussões na CEE priorizavam as relações comerciais entre os países, estabelecidas pelo Tratado de Roma (1957). Além da estabilidade do sistema de Bretton Woods, Arestis, McCauley e Sawyer (1999, s/p) acrescentam o fato de que as economias da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) apresentavam desempenhos econômicos parecidos naquele momento:
“At this stage, European monetary integration did not appear to be on the agenda, and this was for two main reasons. First, the Bretton Woods exchange rate system was functioning with stable exchange rates which were not under pressure during the 1950s. Second, many of the European economies which were at the centre of the ECSC were performing in a similar manner in terms of economic growth and inflation”
Como relatado no capítulo 2, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos condicionaram as ajudas do Plano Marshall (1947) concedidas à Europa a uma maior abertura comercial entre os países, condizente com o seu projeto de “economic multilateralism”. Para administrar esses recursos e conduzir a recuperação dessas economias, criou-se, em 1948, a Organização Europeia para a Cooperação Econômica (OECE). A adoção do sistema de Bretton Woods exigia a conversibilidade das moedas europeias, tendo como prazo limite para a eliminação das restrições o ano de 1958. A conversibilidade ficou sob responsabilidade da União Europeia de Pagamentos (UEP), cujo foco era alcançar a recuperação do emprego e da economia no pós-guerra através da ampliação das relações comerciais284. Para resolver os
problemas das contas externas europeias, seus membros optaram por caminhar juntos em direção à conversibilidade (EICHENGREEN, 2012).
Na medida em que no final da década de 1960 o dólar foi sendo questionado, começavam a surgir evidências de que o sistema de Bretton Woods não duraria para sempre. Na verdade, como foi sugerido no capítulo 2, o primeiro problema do dólar no sistema de Bretton Woods ocorreu logo no início da década de 1960, quando alguns países se uniram para defendê-lo, instituindo a gold pool em 1961. As contas externas norte-americanas foram se tornando cada vez mais problemáticas ao longo dessa década, o dilema de Triffin foi se revelando e, com isso, temores com relação à instabilidade do SMFI trouxeram de volta uma mobilização em torno da moeda única.
A instabilidade do dólar colocava em xeque o projeto de mercado comum europeu, que era o grande objetivo da União Europeia. Helmut Schmidt e Valéry Giscard d’Estaing, as principais autoridades monetárias na Alemanha e na França respectivamente, requisitam ao Cônsul da União Europeia um plano para uma integração monetária. A resposta veio na forma do Relatório Werner285, de outubro de 1970, sob a presidência do primeiro-ministro de Luxemburgo, Pierre Werner e estabelecia três estágios para se alcançar uma moeda europeia
284 O movimento de integração comercial começou com a CECA, de 1950, entre a Alemanha, a França, a Itália, a
Bélgica, a Holanda e Luxemburgo. Ele foi reforçado, em 1957, pelo Tratado de Roma, que criou a CEE que estabelecia a união aduaneira, na qual seriam removidas as barreiras internas aos participantes da comunidade, mantendo a barreira externa comum. Foi seguida de outras iniciativas de cooperação: a Política Agrícola Comum (PAC), em 1962, e a provisão de fundos para projetos de infraestrutura em regiões menos desenvolvidas (GUTTMANN & PLIHON, 2013).
285 “Aqui se iniciava um novo capítulo do processo europeu de integração. A partir daquele momento, toda a
discussão centrar-se-ia na eficácia de regimes cambiais alternativos para lidar com choques adversos, na harmonização de políticas macroeconômicas, em como construir um espaço financeiro europeu e em como pavimentar o caminho para uma área monetária comum” (MIRANDA, 2013, p.545). O Relatório Werner foi a primeira das negociações que desaguariam no euro, seguida pelo Relatório Delors (1989) e pelo Tratado de Maastrich (1991).
única ao longo de dez anos. Como argumenta Miranda (2013), o movimento que se inicia foi uma resposta para se proteger das instabilidades do dólar:
A maior sensibilidade de pequenas economias abertas à volatilidade cambial (...) levaram os europeus a procurar novos mecanismos institucionais comunitários capazes de isolá-los dos efeitos da desvalorização do dólar e dos choques assimétricos da política monetária alemã. Aqui se iniciava um novo capítulo do processo europeu de integração. A partir daquele momento, toda a discussão centrar- se-ia na eficácia de regimes cambiais alternativos para lidar com choques adversos, na harmonização de políticas macroeconômicas, em como construir um espaço financeiro europeu e em como pavimentar o caminho para uma área monetária comum (MIRANDA, 2013, p. 545).
Guttmann e Plihon (2013) concordam que paralelo a todo o movimento de integração que já vinha acontecendo na Europa desde 1950, a iminência do colapso do sistema de Bretton Woods conduziu o continente na direção de uma moeda única. E, quando em 1971, confirmando o cenário de instabilidade que o mercado já vinha esperando, Nixon rompeu com o compromisso da conversibilidade ouro-dólar, a desvalorização do dólar se mostrou ainda mais provável. Isso poderia trazer uma valorização indesejada para as moedas europeias, reduzindo a sua competitividade:
The only way to avoid such internal differentiation tearing apart the community was to maintain collectively fixed exchange rates among its members, an undertaking made much easier by the Smithsonian Agreement of December 1971 re-setting fixed exchange rates between the EC, Japan, and the United States at more realistic levels
(GUTTMANN & PLIHON, 2013).
Isso ocorreu menos de um ano após a apresentação do Relatório Werner, que postulava a fixação das taxas de câmbio com relação ao dólar americano, de forma que a flutuação do dólar acabou inviabilizando essa proposta. Entretanto, ainda em 1971, foi realizada uma nova tentativa de coordenação cambial mundial: o Acordo Smithsoniano286.
Buscando mais uma vez se proteger da volatilidade cambial287, os países da União Europeia estabeleceram neste Acordo a Serpente288, um mecanismo que conectava as moedas da Europa em uma banda de flutuação em relação ao dólar ainda menor do que a definida pelos outros países no Acordo Smithsoniano. Enquanto se permitiu uma flutuação de 9%
286 Sobre o Acordo Smithsoniano, ver o Capítulo 2.
287 Como afirmam Flassbeck & Lapavitsas (2013, p.39), “with highly integrated markets most members of the
EU had a strong interest in avoiding short-term exchange rate instability between their currencies”
288 Eichengreen (2012) identifica que as instituições da Serpente eram inspiradas nos Acordos do sistema de
Bretton Woods: 1) o câmbio era fixo, mas ajustável; 2) estabeleceu-se linhas de financiamento de curto e curtíssimo prazo, que disponibilizava créditos aos países de moeda fraca e 3) criação do fundo europeu de cooperação monetária, que reproduzia na Europa o papel que o FMI tinha no mundo.
frente ao dólar, os membros da CEE limitaram a flutuação de suas taxas bilaterais em 4,5%, flutuação que se dava em torno do marco alemão (EICHENGREEN, 2012; MIRANDA, 2013; ECB, 2015). Eichengreen (2012, p.202) descreve a racionalidade por trás da Serpente:
Os países da Europa trilharam o outro caminho, procurando criar um arcabouço institucional sobre o qual eles pudessem estabilizar suas moedas umas em relação às outras. O fato de os países europeus estarem mais abertos ao comércio do que os Estados Unidos deixavam aqueles mais sensíveis às flutuações no câmbio. A Europa, e não os Estados Unidos ou o Japão, era onde a flutuação das moedas tinha sido associada à hiperinflação na década de 20. A Europa era o lugar onde as desvalorizações da década de 30 tinham corroído a maior parte das boas relações econômicas.
A Serpente embasou o mecanismo cambial que viria a ser empregado no euro: “This
arrangement, called the “snake”, was the forerunner of the famous Exchange Rate Mechanism (ERM) of the European Monetary System (EMS), and antedated most of its institutional settings” (FLASSBECK & LAPAVITSAS, 2013, p.39). O sistema começou a
funcionar em abril de 1972, mas foi logo atingido pela sequência de perturbações da primeira metade da década 1970: o primeiro choque do petróleo (1973), a elevação do preço das commodities (1974) e a desvalorização do dólar em 1973, que provocou uma onda de recessão e inflação no mundo todo – a estagflação da década de 1970, levando à saída de alguns países da Serpente (MIRANDA, 2013), Por fim, a Serpente acabou reduzida a uma zona do marco alemão, participando a Alemanha, a Dinamarca e os países da Benelux289 (ARESTIS, MCCAULEY, SAWYER, 1999).
Mas o esforço na busca da estabilidade cambial continuou. Foi criado o EMS –
European Monetary System290, em 1979, com três características básicas: 1) o ERM (Exchange Rate Mechanism), que estabeleceu, assim como na Serpente, as taxas de câmbio fixas entre os países, em bandas de flutuação bastante apertadas291; 2) a ECU (European
Curreny Unit), que se tornou a unidade monetária de referência para essas moedas; 3) o
EMCF (European Monetary Cooperation Fund), um mecanismo interno à EMS para gerenciar o sistema.
289 Eichengreen (2012) sustenta que esses choques produziram impactos assimétricos nos países participantes da
Serpente, porque eles dependiam em intensidades diferentes da importação do petróleo e de matérias-primas. Além disso, os seus governos não tinham as mesmas concepções quanto à eficiência da política monetária expansionista, fazendo com que não reagissem da mesma forma.
290 Participaram todos os Estados-membro da União Europeia, menos a Inglaterra.
291 O ERM manteve as bandas de flutuação da Serpente de 4,5%, mas a Itália teve permissão para exercer uma
Percebe-se que a criação da EMS no final da década de 1970 se deu em um momento no qual o dólar novamente estava sendo ameaçado e o resultado foi o Choque do Volcker de elevação dos juros292. Neste momento, mais uma vez, Mundell identifica que a suposta fraqueza do dólar estava por trás desse impulso:
[…] the impetus for Europe to find an alternative to the dollar has been strongest when the dollar is weak […] the weak dollar in the late 1970s provoked the Bremen Summit and the EMS; and the weak dollar in the late 1980s led to the Delors Report, the substance of which was implemented by the Maastricht Treaty
(MUNDELL, 1998, p.1).
Indo ao encontro da hipótese do euro como uma medida de autonomia, Eichengreen (2010), assim como Mundell (1998), afirma que não haveria um incentivo à criação do euro se o dólar não trouxesse problemas:
[…] but it is equally unlikely that the transition to the euro would have occurred as it did absent the problems created by the dollar. […] The instability of the dollar thus encouraged Europeans to contemplate a single currency to insulate themselves from these disruptions. Indirectly, then, the dollar’s troubles led to the creation of an alternative, the euro, with the capacity to rival it on the world stage.
(EICHENGREEN, 2010, p.70-71)
A partir da metade da década de 1980, os Estados Unidos voltaram a promover a desvalorização da sua moeda, nos acordos do Plaza (1985) e do Louvre (1987) 293. Começou a ficar urgente a necessidade de uma moeda única para se defender da política cambial norte- americana: “(...) o dólar voltou a cair na segunda metade de 1989 e os Estados Unidos simplesmente assumiram uma política de vistas grossas em relação ao câmbio, introduzida pela administração Carter” (EICHENGREEN, 2012, p.201).
Isto posto, instituiu-se em 1989 o Relatório Delors que definia como objetivo da união monetária “a total liberalização da circulação de capitais, a total integração dos mercados financeiros, a convertibilidade irreversível das moedas, a fixação irrevogável das taxas de câmbio e a possível substituição das moedas nacionais por uma moeda única” (ECB, 2007, p.3)294. Da mesma forma que o Relatório Werner, estabelecia 3 fases para a adoção da moeda
292 Como visto no item 3.1 deste capítulo.
293 “In 1986 the EU amended the Treaty of Rome with the Single European Act and set the end of 1992 as a
target date for the removal of all remaining barriers to the free flow of goods, services, and resources”
(ARESTIS E SAWYER, 2003, p.1). Isso tornou mais difícil operar dentro do EMS, de forma que “mudanças controladas nas paridades se tornaram praticamente impossíveis” (EICHENGREEN, 2012, p.185).
294 Como destaca Sifakis-Kapetanakis (2012), a liberalização dos fluxos de capitais foi um dos objetivos
estabelecidos no Ato Único Europeu de 1986, tendo se iniciado antes do Relatório Delors. Assim, esse ato teve um papel fundamental na integração dos países da CEE no processo de globalização financeira.
única ao longo de dez anos, que foram incorporadas no Tratado de Maastrich, em dezembro de 1991. Ele aprovou o Tratado da União Europeia (TUE), que estabelecia que a Europa deveria ter uma moeda forte e estável.
A partir daí, retorna-se para o início da história apresentada neste tópico, a assinatura do Tratado de Maastrich, que estabeleceu as três etapas para a adoção do euro.