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Capítulo 3 – A Consolidação da Hegemonia Norte-Americana e os Potenciais Rivais do Dólar

3.2 Os ‘potenciais rivais’ do dólar

3.2.2 Euro: a distant second

3.2.2.1 Euro: o grande rival?

Em dezembro de 1991 foi estabelecido o Tratado de Maastrich, que criou a União Europeia e determinou as bases para a instituição do euro, que viria a ser a moeda única europeia274. Com o anúncio da sua data de nascimento, começaram a surgir opiniões em toda parte do mundo sobre a possibilidade de o euro superar o dólar como divisa-chave:

The process in the 1990s leading to the establishment of the euro is unique– there is nothing similar in monetary and political history. Of course, this made it difficult to judge and forecast the future of the European monetary integration. Still, US economists were attracted as eager commentators to the unfolding of the story of the single currency, applying their models and techniques, impacting on the views in the rest of the world as well (ECB, 2009, p.32).

produtos japoneses; e (iii) os custos crescentes com a mão-de-obra local e a compressão de margens de lucro por causa da valorização do iene tendiam a pressionar para baixo a própria parcela da produção japonesa nas redes de produção regional internacionalizada A expansão das economias emergentes espelhava enorme contestação da competitividade japonesa remanescente em segmentos intensivos em mão-de-obra qualificada” (CANUTO, 1999, p.3-4).

273 Sobre o Big Bang japonês: “In late 1996, the Japanese government announced its commitment to a wide-

ranging reform of Japan's financial markets--the so-called "Big Bang" reform. The main aim of the liberalization measures is to make the Tokyo financial market comparable in scale, and in the variety and sophistication of financial services offered to those of New York and London. To this end, the program seeks to ensure that Japan's financial system is based on market principles ("free"), is transparent and rules-based ("fair"), and operates under legal, accounting, and supervisory regimes consistent with international norms ("global")” (Dekle, 1998, p.237). Ver também Ito & Melvin (1999).

274 É importante deixar claro desde já que o objetivo desse tópico é coerente com objetivo do capítulo de analisar

a viabilidade do euro como rival do dólar. Para tanto, o foco não será a história da formação da Comunidade Europeia, assim como da zona do euro. Recorrer-se-á à história quando relevante para o entendimento do argumento aqui desenvolvido. Para a formação histórica do euro, ver Miranda (2014).

Cohen (2011, p.1) relata que o ambiente era de muito otimismo naquele momento, sendo comum afirmações do tipo: “[…] the day of the dollar is over, the era of the euro has

begun—such was the view of many well-informed observers when Europe’s new joint currency was born back in 1999. Entretanto, continua Cohen, ele próprio não compartilhava dessa

visão: “[…] not everyone agreed, however – and among the skeptics I may count myself”. Esses prognósticos eram divididos em dois grupos: os euro-enthusiasts e os euro-sceptics (EIJFFINGER, 2003).

No primeiro grupo estavam aqueles que afirmavam que o euro desafiaria - ou até mesmo superararia - o dólar. Bergsten (1997), dois anos antes da moeda se tornar unidade de conta, afirmou que a criação do euro seria o acontecimento mais importante do SMFI desde a adoção das taxas de câmbio flexíveis no início da década de 1970, uma vez que o dólar teria, pela primeira vez, um competidor a sua altura. O euro traria uma nova configuração para o sistema: “[…] a bipolar currency regime dominated by Europe and the United States, with

Japan as a junior partner, will replace the dollar-centered system that has prevailed for most of this century” (BERGSTEN, 1997, p.83).

Compartilhando a visão da Economia Convencional275 apresentada no capítulo 1, Bergsten (1997) afirmou que isso seria possível porque as duas economias (Estados Unidos e União Europeia) apresentavam tamanho e participação no comércio internacional similares276, embora ressaltasse que o mercado financeiro europeu ainda estivesse aquém do norte- americano. Um pouco mais tarde, em outro artigo, Bergsten (2004) denomina essa configuração como ‘G-2’ e identifica a necessidade da institucionalização dessa relação para que as duas economias pudessem exercer uma liderança internacional conjunta: “Euroland

and the US need to create a new ‘G-2’ mechanism to manage the dramatic change in their bilateral monetary relationship implied by this development and to exercise the cooperative leadership of the global monetary system for which they will now be jointly responsible”

(BERGSTEN, 2004, p.2).

Próximo à visão de Bergsten (1997) era o otimismo de Mundell (1998), que afirmou que a introdução do euro seria uma alteração ainda mais importante do que o fim do sistema de Bretton Woods, uma vez que este não mudou a configuração de poder entre as nações e as moedas, pois os Estados Unidos – e, portanto, o dólar - se mantiveram como líderes após o

275 “Five key factors determine whether a currency will play a global role: the size of its underlying economy

and global trade; the economy's independence from external constraints; avoidance of exchange controls; the breadth, depth, and liquidity of the economy's capital” (BERGSTEN, 1997, p.86).

276 “The global economic roles of the European Union and the United States are nearly identical. The EU

accounts for about 31 percent of world output and 20 percent of world trade. The United States provides about 27 percent of global production and 18 percent of world trade”. (BERGSTEN, 1997, p.89)

colapso daquele sistema277. Tomando como base também o tamanho da economia europeia, Mundell (1998) afirmou que o euro alcançaria a posição do dólar e o Japão manteria sua participação como o terceiro elemento nesse sistema: “[...] at first glance, it appears to be

dominated by the three main currencies, the dollar, the euro and the yen, with the dollar-euro rate the most important price in the world” (MUNDELL, 1998, p.1).

Já Chinn & Frankel (2007) realizaram um estudo econométrico que estimou o potencial do uso internacional do euro como uma função dos fatores de demanda278 e

concluíram que o euro superaria o dólar rapidamente: “[...] we find that if all 13 EU members

who are not currently in EMU join it by 2020, including the United Kingdom, then the euro overtakes the dollar a few years later”.

Além disso, Cohen (2013) menciona uma pesquisa feita em 2008, portanto quase dez anos após o estabelecimento da moeda única, na qual a maioria dos europeus esperavam que, no máximo em cinco anos, o euro ultrapassaria a moeda norte-americana: “[...] o paraíso da liderança compartilhada com a moeda dos Estados Unidos – talvez até mesmo o domínio global do euro – parecia iminente” (COHEN, 2013, p.85).

Existiam, por outro lado, aqueles que não apostavam no futuro do euro. Muitos deles, em especial os economistas americanos, desacreditavam do poder da nova moeda279: “[…]

although the EMU project attracted considerable interest in the United States, US economists

277 “How important will the euro be in the framework of world international monetary events? It certainly will

be as important as anything since the breakup of the Bretton Woods system in 1971 or the movement to floating exchange rates in 1973. But one can make a case that it will be much more important because, in fact, the shift from fixed to flexible exchange rates did not change the configuration of the international monetary system. Before and after that change, the dollar was the major international currency and, if anything, the dollar is more important in the international monetary system today than it was in 1973”

(MUNDELL, 1999, p.441).

278 “Significant factors include: size of the home country, inflation rate (or lagged depreciation trend), exchange

rate variability, and size of the relevant home financial center (as measured by the turnover in its foreign exchange market)” (FRANKEL & CHINN, 2005, p.1).

279 O estudo “The euro: It can’t happen, It’s a bad idea, It won’t last. US economists on the EMU, 1989 – 2002”,

realizado por dois economistas do BCE, analisou 170 publicações de economistas norte-americanos – acadêmicos e funcionários do Fed – em dois momentos diferentes: em 1993, quando entrou em vigor o Tratado de Maastrich e em 1997, quando estavam sendo realizadas as medidas para a introdução do euro em 1999. O estudo se supreendeu com o ceticismo dos norte-americanos com relação ao potencial do euro: “We

find it surprising that economists living in and benefiting from a large monetary union like that of the US dollar were so sceptical of monetary unification in Europe. We explain the critical attitude of US economists towards the single currency by several factors: first, the strong influence of the original optimum currency area theory on US analysis, leading to the conclusion that Europe was far from an optimal monetary union; second, the use of a static ahistorical approach to study monetary unification by comparing the full-fledged US monetary union with Europe prior to monetary unification, in this way failing to see monetary unification as an evolutionary process; third, the failure to identify pegged exchange rate regimes in Europe as the alternative to a single European currency; and fourth, the belief that the single currency for Europe was primarily a political project that ignored economic fundamentals, thus dooming the single currency to collapse”(JONUNG & DREA, 2009, p.i).

continued to regard European monetary integration as a minor field of research” (ECB, 2009,

p.3). Grande parte dos euro-sceptics, ao fazerem suas previsões, focavam em dois fatores de demanda enfatizados pela economia convencional - o poder da inércia e os custos de transação - para explicar porque o dólar manteria seu papel como a divisa-chave, como mostra Eijffinger (2003, p.5):

[…] the euro-sceptics […] have the opinion that the euro will need to establish a track record before investors move their portfolios into euros. This process would take at least one decade because of inertia in (reserve) diversification. The dominance of the US could be maintained for many years. (...) They state that if the euro proves to be a strong and expensive currency, only the amount of euros necessary for portfolio diversification will be bought.

Esses dois fatores (a inércia que favorece o dólar e os custos de transação de fazer negócios em euro são maiores do que em dólar são também apontados) também são apontados por Cohen (2011) como obstáculos enfrentados pelo euro, ao lado do viés anti- crescimento do euro280. Nos diversos artigos sobre a rivalidade entre o dólar e o euro reunidos no livro “The Future of Global Currency: the Future of Global Money”, esse autor se mostrou cético com relação à possibilidade do euro superar o dólar. Todavia, além dos fatores de demanda o autor inclui um fator que pode ser entendido como um argumento da Economia Política Internacional: a relação de poder entre os Estados Unidos e a União Europeia. Ele afirma que se a Europa optasse por promover o papel internacional do euro, ela poderia entrar em conflito com os Estados Unidos:

In doing so, however, the EU would also pose a direct threat to the global role of the dollar—and thus put itself on course for an open confrontation with the United States, which still values the privileges and benefits derived from the dollar’s international use. Policy initiatives from Brussels could provoke defensive countermeasures from Washington, as each side strives to defend or promote the competitiveness of its own money (COHEN, 2011, p.57).

A Europa se depara, na sua visão, com um trade-off: ou os países da zona do euro aceitam a inércia do dólar que favorece os ganhos dos Estados Unidos em detrimento dos seus ou arriscam aumentar as tensões nas suas relações com os norte-americanos, buscando esses ganhos para si. Cohen (2011) sustenta que os europeus evitarão qualquer movimento na direção da segunda opção. Diante desses elementos, o autor afirma que “Europe’s new money

will not become a global currency anytime soon” (COHEN, 2011, p.55).

Ademais, havia os euro-scpetics de cunho pós-keynesiano, que, embora não utilizem todos os argumentos da Economia Política Internacional, estão mais próximos às suas concepções do que às daqueles da Economia Convencional. As ideias desses autores serão aprofundadas quando forem apresentados os determinantes da crise do euro, mas é relevante incluí-los nesse grupo, uma vez que seus estudos já apontavam, desde a concepção dessa moeda, as falhas que os levava a desacreditar no seu sucesso. Entre eles está Arestis (1999) 281 que aponta as falhas nas características institucionais do Banco Central Europeu (BCE), afirmando que “[...]under these circumstances EMU could actually damage, rather than

enhance, the long-term prospects for European unification” (ARESTIS, 1999, p.6).