Q D chegou ao escritório na manhã seguinte, ligou para Skye. Enquanto ouvia o telefone tocar, o medo persistente no fundo de sua mente se recusou a ser acalmado.
— Mas que droga, Skye. Atenda o telefone!
Isso era tão estranho, mesmo para Skye. Um arrepio percorreu a espinha de Debbie. E se Skye tivesse saído para dar uma caminhada e caído ou ficado doente de repente? Poderia estar deitada em algum lugar por dias antes que alguém a encontrasse.
Bebeu um café com leite frio e pensou no que fazer a seguir. De repente, o telefone em sua mesa tocou. Ela o agarrou.
— Skye, é você?
— Sinto muito em te desapontar, Debbie, mas sou eu, John.
— Ah, oi, John. Tudo bem? Deve ser de madrugada em Londres. O que está fazendo acordado tão tarde?
— Estou bem. Trabalhando demais, ganhando mal - sabe como é quando um colega de trabalho sai de férias prolongadas. O que aconteceu com a Skye?
— Estou feliz que tenha ligado. Estou preocupada com a Skye e estava pensando em te enviar um e-mail. Não consigo falar com ela desde ontem à tarde. Não sei se sofreu um acidente, está doente ou o quê. Sabia que a cabana que ela alugou fica no meio do nada e o vizinho mais próximo está a quilômetros de distância?
— Ei, pare de se preocupar. Ela provavelmente saiu à noite e se esqueceu do que combinaram. Tenho certeza de que está tudo bem.
— John, liguei a cada hora até meia-noite e de novo hoje de manhã.
Ninguém atendeu. Não acha que isso é estranho?
— Não é típico dela dizer uma coisa e fazer outra. Ainda não acho que seja um motivo para chamar a Guarda Nacional. Vocês brigaram, por acaso?
— Tivemos um mal-entendido, mas já fizemos as pazes. Na verdade, tivemos uma longa conversa ontem sobre... sobre homens e outras coisas.
Ela finalmente concordou em falar sobre o que aconteceu com Michael. Mas agora que não consigo falar com ela, estou seriamente preocupada.
— Tenho certeza de que há uma explicação simples. Dê um pouco de espaço para ela. Sabe como Skye fica tensa quando mencionamos o nome do Michael. Se há uma coisa que aprendi nos últimos doze meses, é que não devo pressioná-la sobre isso. Se fizer isso, nossa garota se fechará mais apertado do que o traseiro de um pato. Ela vai falar quando estiver bem e pronta, não antes. Pare de entrar em pânico.
— Eu espero que esteja certo. Tenho a estranha sensação de que tem alguma coisa errada. Acha que Skye poderia ter ido para Bremerton?
— O que, de volta à base naval? Impossível ter ido lá. Além disso, Michael já deve ter sido realocado. Tenho certeza de que ela disse algo sobre ele estar esperando ordens antes de voar no ano passado.
— Tem razão, é um pensamento estúpido. Vou esperar mais vinte e quatro horas, mas se ainda não tiver notícias dela, vou voar até lá. — Então ela percebeu que John deveria ter seu próprio motivo para ligar. — Por que me ligou? Não me diga que está renegando nosso encontro tão esperado mais uma vez.
John riu com vontade.
— Você me pegou de surpresa. — Desde sua primeira visita à Inglaterra, Debbie tentou persuadi-lo a jantar com ela. Até agora, ele tinha conseguido se esquivar. — Na verdade, eu estava ligando para perguntar o número da cabana, pois Skye não respondeu ao meu e-mail. Estou tendo um problema com o nosso último projeto e preciso que ela verifique uma coisa para mim.
— Com certeza não está esperando que ela trabalhe durante as férias.
Estou morrendo de preocupação com a garota, mas você sabe que ela vai me matar se eu te der o número, não é?
— Nessas circunstâncias, não acho que Skye vá se opor. E isso significa que nós dois podemos tentar telefonar.
— Você está certo, como sempre. Ok, vou te dar, mas tem que me fazer um favor.
— Claro...
— Se conseguir contato antes de mim, seja um doce e diga que usou seu charme irresistível para me persuadir a te passar o número. Assim ela vai descontar em você e não em mim.
— Muito obrigado. — John riu. — Com certeza direi a ela.
John recolocou o fone no gancho. Recostou-se na cadeira e colocou os pés em cima da mesa. Agora que pensava sobre isso, Skye estava com um humor estranho ultimamente. Tinha apenas começado a acreditar que ela já tinha tirado Michael de seu sistema quando a amiga anunciou que estava voando para Seattle. Como se isso não bastasse, escolheu tirar férias no exato momento em que o projeto deles estava para ir ao ar.
Teria feito mais sentido se tivesse escolhido outro destino. No entanto, estava inflexível de que queria visitar as ilhas de San Juan. Não comprou a desculpa esfarrapada de que ela não poderia deixar o passado para trás até que voltasse para o noroeste do Pacífico. Isso era pura bobagem. Deveria tê-la persuadido a ficar em casa, em vez de concordar que viajasse meio mundo por capricho. Pelo menos poderia ter ficado de olho nela.
Fazia quase um ano que Skye telefonara de Heathrow e pedira que a buscasse. Nunca esqueceria a visão que o recebeu naquela fria manhã de maio. Sentada em sua mala fora do terminal, Skye estava esperando quando ele parou no meio-fio. Ficou chocado com sua aparência, pois a jovem feliz e sorridente que havia deixado lá apenas três semanas antes havia desaparecido, sendo substituída por uma mulher esquelética e desgrenhada com círculos escuros sob os olhos. Com um olhar selvagem e trêmulo, parecia horrível, lembrou John, e quando ele colocou o braço em torno de seus ombros, ela havia encolhido de seu toque.
Skye sentara-se curvada no banco do passageiro e não disse uma palavra. Era como se sua mente tivesse bloqueado tudo, exceto o instinto básico de sobrevivência. Quando estacionou em frente à sua casa, em vez da dela, não fez comentários. Ele meio que a carregou para a cozinha e fez um bule de chá, enquanto ela se sentava afundada na cadeira, olhando para a parede. Mais tarde, quando sugeriu que fosse descansar, não discutiu, mas, como uma criança pequena, permitiu que a conduzisse ao quarto de hóspedes, a despisse e colocasse na cama.
Skye ficou no quarto por dois dias e não comeu nada além de torradas.
Quando chegou em casa do trabalho, no terceiro dia, ela já havia partido.
Dirigiu como um lunático até a casa dela, onde a encontrou no jardim, agindo como se estivesse tudo bem. Era como se suas férias nunca tivessem acontecido, pois nunca a mencionou. Nenhuma vez.
Um músculo estremeceu em sua mandíbula. Debbie poderia estar certa?
Skye teria ido para Bremerton?
Ele ligaria para a cabana e continuaria fazendo isso até que Skye atendesse. Não se importava se ela ficaria feliz em ouvir sua voz ou não. Sua segurança e bem-estar eram tudo o que importava para ele.
A ̃ que havia causado em ambos os lados do Atlântico, Skye tomou um café da manhã tardio. Embora cansada, sua dor de cabeça havia diminuído para uma dor branda, e um par de analgésicos resolveriam o problema. A cabana parecia abafada e claustrofóbica, mas não tinha energia para uma longa caminhada. Como estava quente e ensolarado, carregou seu livro e a manta do sofá e abriu as portas de vidro que davam para a varanda. Sentou-se em uma cadeira de vime, colocou a manta sobre os joelhos e se acomodou para ler.
A floresta estava viva com o tagarelar dos pássaros, sua canção misturada com o som das ondas batendo suavemente na costa. Não demorou muito para que ela se sentisse sonolenta. Seu livro escorregou de suas mãos e caiu sobre seus joelhos quando adormeceu.
Um pequeno barco de pesca entrou na enseada e lançou âncora. Os homens a bordo eram bem pagos por seu trabalho. A única tarefa era descartar sua carga. Haviam escolhido a enseada porque a água sob o casco do navio era profunda o suficiente para o seu propósito, não que isso importasse para eles.
Mas deveria importar.
Um simples erro de cálculo na navegação significava que estavam despejando a carga mortal em águas muito mais rasas do que o pretendido. O conteúdo do primeiro contêiner já estava vazando para o mar. Se tivessem vigiado a cabana, teriam notado que uma mulher estava muito interessada em suas atividades.
Skye se endireitou na cadeira e observou dois homens rolando algo para fora do convés. Estava muito longe para ver exatamente o que despejaram na água, ou o nome da embarcação pintado na proa. De repente, o passo do motor mudou quando a embarcação puxou a âncora e navegou para fora da enseada. Ela considerou o incidente como nada demais, mas fez uma nota mental para mencioná-lo a Walker se e quando ele ligasse.
Pegou seu livro novamente e começou a ler. Chegou ao final do capítulo, assim que o telefone tocou. Com certeza seria Walker, correu para atender.
— Alô.
— Olá, Doce Ervilha. Curtindo suas férias?
— John! Como conseguiu esse número? E por que está me ligando?
Está tudo bem? — Perguntou sem parar.
John pensou com cuidado antes de responder. Não queria assustá-la.
— Eu que deveria estar fazendo essas perguntas. Tem ideia do quanto Debbie e eu estávamos preocupados? Estamos tentando entrar em contato com você nas últimas trinta e seis horas. Você está bem?
— Desculpa. Tive uma forte enxaqueca e desmaiei. Posso não ter ouvido o telefone. Vou ligar para Debbie mais tarde e colocá-la em paz.
— Bem, é melhor ligar mesmo. Ela estava quase chamando a milícia do estado de Washington, se houver uma ou pior, voar até aí para verificá-la pessoalmente.
Skye gemeu.
— Vou ligar para ela assim que terminarmos de conversar, prometo. Por que está ligando?
— Eu não te incomodaria a menos que fosse importante. Pedi esse número a Debbie, porque não estava respondendo seus e-mails. Então não brigue com ela, não é culpa dela.
— Tudo bem, mas isso não responde à minha pergunta.
— Há um problema com o software. Funcionou bem por um tempo e depois falhou. Não tem nenhum problema com o hardware. Verifiquei a existência de vírus e similares, e estamos limpos. Deve haver um bug no código, mas não consigo encontrar nada de errado. Poderia ver se perdi algo
óbvio? E não me diga que não pode, porque eu sei que está com seu notebook.
— Eu farei isso, mas me deve uma.
— Eu sabia que não ia ser de graça.
— Se eu localizar o problema, acrescentarei dois dias às minhas férias para cada dia que demorar. Caso contrário, meu notebook continuará na maleta e terá que esperar até eu voltar.
— Apenas lembre-se de que faremos a apresentação três semanas depois de sua chegada em casa. Não nos deixa muita margem de manobra para resolver os bugs e completar o teste.
— Não esqueci. Ah, e como eu vou trabalhar, pode ligar para Debbie e dizer a ela que sob nenhuma circunstância deve voar até aqui e me perturbar?
John gemeu.
— Você é durona. Preciso mesmo ligar para a Debbie? Você sabe que ela só me quer pelo meu corpo.
Skye riu.
— Sim, você precisa.
— Ok, vou ligar para ela.
— Me envia os detalhes por e-mail e entrarei em contato com você assim que encontrar alguma coisa. Nos falamos depois, tchau.
Droga! A última coisa que queria era Debbie montando uma equipe de busca e resgate. Bem, Debbie teria que esperar — ligaria para ela assim que resolvessem seus problemas técnicos.