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C APITAL S OCIAL

No documento Porto Alegre, e-book (páginas 50-53)

Várias são as definições e as perspectivas de análise que existem em relação ao conceito de capital social. Desde a década dos 90, o debate sobre o conceito de capital social têm experimentado um importante renascimento nas diferentes disciplinas das Ciências Sociais, e especialmente no contexto do debate do Desenvolvimento. Nestes últimos anos, instituições como o Banco Mundial têm focalizado nos aspectos sociais do desenvolvimento: a country’s economic development is embedded in its social

organization, and adressing structural inequities requires not only economic changes but also societal transformation4 (Stiglitz, 1998). Assim para a análise dos aspectos

sociais do desenvolvimento uma das ferramentas actualmente mais utilizadas é o conceito de capital social.

A definição do conceito de capital social, segundo Narayan (1995), são as

normas e as relações sociais inseridas nas estruturas sociais da sociedade que permitem as pessoas actuar colectivamente para alcançar fins desejados.

Intuitivamente, a ideia básica do capital social é que os familiares, amigos e associações constituem um importante asset, na medida que proporcionam mecanismos para a

4 Stiglitz, Joseph; 1998. Towards a New Paradigm for Development: Strategies, policies and Processes. Given as the 1998 Prebisch Lecture at UNCTAD, Geneva (October 19, 1998)

resolução de problemas na situação de risco. Those communities endowed with a diverse

stock of social networks and civic associations are in a stronger position to confront poverty and vulnerability, resolve disputes, and take advantage of new opportunities (Moser 1996, Narayan, 1995 Schafft 1998Isham 1999 Varshney 2000)5. Da definição

aqui utilizada para o capital social depreende-se uma série de pontos. Por um lado a definição focaliza mais nas fontes do capital social do que nas suas consequências (Portes 1998) e por outro esta definição permite a incorporação de diferentes dimensões do capital social e reconhece que as comunidades podem ter acesso a mais ou a menos recursos.

Esta conceitualização, do papel das relações sociais no desenvolvimento, representa um importante ponto de partida para as perspectivas teóricas, por isso tem implicações importantes para a pesquisa e as políticas de desenvolvimento contemporâneo.

Mas, a perspectiva de análise do capital social que aqui aplicaremos é relacionada com os efeitos do capital social no desenvolvimento económico. Dito de outra maneira, pretendemos saber em que medida as redes e normas sociais que existem em uma comunidade determinada, podem significar um capital social positivo, ou, pelo contrário, significar um travão para o aumento dos rendimentos das famílias rurais.

A nossa perspectiva de análise é sobre o capital social e o desenvolvimento económico. Portanto esta perspectiva focaliza-se nos efeitos do capital social em relação ao aumento da riqueza. A evidência empírica em países em desenvolvimento demonstra como os níveis elevados de solidariedade social e dos grupos informais de auto-ajuda não levam necessariamente à prosperidade económica. Em muitos países africanos, nas comunidades rurais existem laços fortes de solidariedade e de ajuda entre os agregados familiares, mas vivem economicamente excluídos pela falta de recursos e de acesso ao poder, necessários para usar as regras do jogo ao seu favor.

Existem diferentes perspectivas no estudo do capital social e desenvolvimento económico. A perspectiva que nós utilizaremos aqui é a de redes, networks view. A perspectiva do capital social, neste trabalho opõe-se a aquelas perspectivas as quais consideram que o capital social contribui sempre positivamente para o bem-estar da comunidade e para a gestão do risco e da vulnerabilidade dos grupos sociais.

5 Extraído de Woolcock, Michael; Narayan, Deepa 2000; Social Capital: Implications for Development

A perspectiva aqui usada, das redes, considera que nem todo capital social beneficia de maneira igual todos os membros de uma comunidade, aliás, os benefícios de uns podem significar custos para outros e até a exclusão de certos grupos sociais. Portanto, as comunidades não são entidades homogéneas que automaticamente beneficiam por igual a todos os membros, senão que existem relações sociais verticais e horizontais no seio de uma comunidade.

Por outro lado também existem relações intra-comunidade ou extra- comunitárias. Por exemplo, as comunidades mais pobres são propensas a ter relações sociais ou redes mais fechadas e intensas, o que se denomina bonding social capital, e pouco participam em redes mais extensas e menos intensas, a que chamam bridging

social capital6. A perspectiva teórica nesta análise é a combinação do capital social bridging e bonding para explicar os efeitos diferentes do capital social no

desenvolvimento económico de certas comunidades rurais.

A perspectiva das redes tem em conta o potencial e os constrangimentos do capital social o desenvolvimento das comunidades rurais. Por um lado, as relações existentes numa comunidade determinada podem beneficiar unicamente determinados sectores, e portanto provocar processos de exclusão social para os outros, por outro, as relações sociais, que unicamente se limitam a ligações fechadas dentro da mesma aldeia,

bonding social capital, podem significar um recurso para o desenvolvimento de

estratégias de gestão do risco que simplesmente reduzem a vulnerabilidade a curto prazo, sem uma perspectiva de prevenção do risco a longo prazo e nem de aumento dos rendimentos familiares. Portanto, certas relações sociais podem proporcionar benefícios sociais mas também suscitar efeitos negativos economicamente.

Assim, nem todo capital social proporciona benefícios para todos, podendo por um lado, gerar processos de exclusão social e por outro, levar os agregados familiares à adopção de estratégias de gestão de risco, que só servem para redução da vulnerabilidade a curto prazo, sem perspectivas de aumento da riqueza a longo prazo.

Neste sentido, só da combinação de bridging e bonding social capital é que é possível falar de aumento da riqueza para as comunidades rurais. Granovetter (1995) argumenta que o desenvolvimento económico acontece através de um mecanismo que

6 Gittell & Vidal (1998), Extraído de Woolcock, Michael; Narayan, Deepa (2000); Social Capital:

Implications for Development Theory, Research, and Policy; The world Bank Research Obsrever, vol. 15

permite aos indivíduos desenhar inicialmente os benefícios da comunidade fechada, mas depois é necessário adquirir as ferramentas e os recursos para participar em redes para além da comunidade, e assim progressivamente integrar-se na estrutura económica. Por exemplo, camponeses pobres, inicialmente dependem dos seus familiares e amigos (bonding social capital) para iniciar um negócio, mas para a expansão dos seus rendimentos é necessário ampliar os seus contactos e acesso com os mercados e instituições.

A networks view tem sido utilizada na pesquisa recente em desenvolvimento com bons resultados. Kozel & Parkel (2000), na sua análise das comunidades rurais do norte da Índia, descobriram que aquelas redes sociais existentes dentro da aldeia servem essencialmente para funções de protecção, gestão do risco e solidariedade. Enquanto que aquelas redes mais extensas para além da aldeia, são utilizadas para estratégias vantajosas e interesses materiais, ou seja, as redes sociais intra-comunitárias são de defesa enquanto que as redes mais extensas são de expansão económica.

O desafio na perspectiva das redes para a aplicação das políticas da redução da pobreza é de identificar os aspectos positivos do bonding social capital nas comunidades pobres e ao mesmo tempo reduzir o efeito dos aspectos negativos (como por exemplo a exclusão de género) e promover o acesso dos indivíduos e agregados familiares aos mercados e às instituições formais, portanto o denominado bridging

social capital com o objectivo de fortalecer as redes entre comunidades rurais,

organizações da sociedade civil, sector privado e Estado.

4 QUESTÕES DE PESQUISA E HIPÓTESES

No documento Porto Alegre, e-book (páginas 50-53)