A lista de benefícios e de problemas originados pelas técnicas produtivas estimuladas pela revolução verde é longa. Todavia, uma conclusão é evidente: houve um incremento sem igual na produção de bens primários, propiciado pelo duplo efeito do aumento de produtividade e da expansão da fronteira agrícola.
2 PEA – População Economicamente Ativa: contingente populacional com idade entre 15 e 64 anos.
Finalmente, o período contemporâneo, dos anos 1990 aos dias de hoje, corresponde à desregulamentação da economia e ao reordenamento das funções do Estado. É justamente neste contexto que, no Brasil, com o fim do regime militar, os movimentos sociais pressionam o Estado para a implementação de políticas públicas voltadas aos “marginalizados” das políticas públicas precedentes. Neste novo período, de possibilidades reais de participação popular-democrática, o mundo rural da pequena produção agrícola se organiza em novas bases e passa a constituir um segmento social indispensável nas discussões sobre os rumos do desenvolvimento do país.
Em termos institucionais, os anos 1990 descortinam a enorme distância estratégica e socioeconômica entre os segmentos patronal (capitalista) e familiar do setor primário brasileiro. A evidência disso é que no início do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), em nível dos ministérios, ocorreu uma divisão de competências no que se refere aos assuntos rurais. De um lado, manteve-se o tradicional MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que passou a se encarregar exclusivamente da promoção de políticas de dinamização do agronegócio e do fluxo de exportações de produtos agrícolas. Por outro lado, criou-se o MDA - Ministério do Desenvolvimento Agrário, com funções de (1) zelar pela perenidade da agricultura familiar e (2) implementar políticas de reforma agrária.
Os ministérios respondem por políticas específicas e, portanto, dirigidas a populações rurais econômica e socialmente distintas. Assim, o citado MAPA festeja o fato de que o agronegócio representa 34% do PIB nacional, 37% de todos os empregos do País e é responsável por 43% do valor das exportações nacionais. Soma-se a isso a previsão do Ministério de que dos atuais 62 milhões de hectares cultivados no país se somarão outros 30 milhões de hectares nos próximos quinze anos(BRASIL, 2006).
Nos anos recentes, o Plano Agrícola e Pecuário 2004/2005 (MAPA, 2004), o atual governo brasileiro, presidido por Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2006), prevê aumentos de produção associados a aumentos de produtividade; “interiorização do
desenvolvimento”; apoio financeiro à modernização e à melhoria da infra-estrutura
destinada ao agronegócio (melhoria de portos, estradas, estruturas de armazenagem e de escoamento da produção); e incentivo às dinâmicas de interdependência entre o agronegócio e os mercados financeiro e de capitais. Percebe-se, portanto, que mesmo em um mandato que em seu início se pautava pela “ruptura” com o modelo econômico
precedente, há a prevalência dos imperativos ligados à busca de saldos comerciais positivos por intermédio do aumento das exportações do agronegócio.
Dirigido a diferentes segmentos da agricultura familiar e camponesa em 1996 é criado o PRONAF – Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Através desse programa, e segundo dados oficiais, mais de 800 mil indivíduos são atendidos com crédito, pesquisa e extensão. Uma inovação é a linha de crédito especial para mulheres e jovens produtores, que objetiva incentivar o empreendedorismo desses segmentos socais. Em termos de produção agrícola, a agricultura familiar é responsável por 40% do que é produzido no campo e gera sete de cada dez ocupações no meio rural. A atividade responde por 31% da produção de arroz, 77% de feijão, 52% do volume de leite e 60% da produção de frango e de suínos (Brasil, 2006).
Dado este quadro de referência econômico-institucional do setor primário brasileiro, nos parece importante indagar sobre as novas estratégias de compreensão da diversidade do tema do desenvolvimento rural. Como adequar o (necessário) crescimento da produção agrícola com os imperativos da reprodução social da agricultura familiar e dos camponeses? Nos parece inquestionável de que tal desafio pertence, particularmente, ao conjunto de países em desenvolvimento do planeta.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS: O CRESCIMENTO DA PRODUÇÃO E OS OBJETIVOS
“UNIVERSAIS” DO DESENVOLVIMENTO RURAL
A construção de um conceito que abarque a riqueza do termo desenvolvimento
rural não é tarefa simples. Todavia, nos parece superada a concepção que ligava o desenvolvimento como tributário direto e lógico do crescimento (econômico) e do
progresso. Portanto, indaga-se: há objetivos universais no desenvolvimento rural? Para responder a tal questão nos parece relevante problematizar a questão com quatro parâmetros uniformadores que se encontram na base da construção do termo desenvolvimento rural:
(i) o rural não é sinônimo de agrícola;
(ii) o rural é multissetorial (pluriatividade) e multifuncional (funções produtiva,
(iii) o espaço rural possui baixa densidade populacional; e
(iv) as dinâmicas urbanas interferem/definem/condicionam o espaço rural [Carneiro, 2006].
A análise do documento oficial Proposta de Programa do Governo para 2005 –
2009 (REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, 2005) permite justamente perceber que o Estado
moçambicano está atento às novas concepções do desenvolvimento rural. À página 78 do referido documento lê-se:
“O desenvolvimento rural, traduzido pela transformação social e econômica e conseqüente elevação do bem-estar nas zonas rurais, é o esteio fundamental do desenvolvimento social e econômico global do país”.
Ainda segundo o documento, as ações estratégicas do Estado no espaço rural para atingir-se tal objetivo se concentrarão sobre (i) a reabilitação e desenvolvimento de infra-estruturas econômicas e sociais; (ii) criação de ambiente favorável à constituição de instituições de microcrédito; (iii) fomentar o ambiente legal e institucional que possibilite a autogestão comunitária; (iv) promover a gestão sustentável dos recursos naturais (água e solo); (v) promover a rede de comunicação audiovisual; (vi) ensejar a participação das comunidades rurais no processo de tomada de decisão; e, (vii) reforçar a capacidade de coordenação de ações que permitam o desenvolvimento integrado de zonas rurais (REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, 2005, p. 79).
Portanto, à luz dos objetivos Proposta de Programa do Governo para 2005 –
2009 acima elencados para o desenvolvimento rural moçambicano, pode-se inferir que a
complexidade que envolve a construção e a implementação de políticas públicas em áreas rurais não é tributária direta de metas de crescimento da produção agrícola. Critérios multissetoriais e dependentes de outras esferas dos Estados nacionais – brasileiro e moçambicano – devem ser levados em conta.
Enfim, os desafios para que emergem Proposta de Programa do Governo para
2005 – 2009 não são distintos daqueles enfrentados pelo Estado brasileiro. Ademais, e
apesar do consenso de que o desenvolvimento rural é um tema mais amplo e, por isso mesmo, mais complexo que o simples crescimento da produção agrícola, nos parece importante salientar duas indagações emergem dos tópicos elencados ao longo deste
absorção tecnológica? E, (2) em um ambiente com alta dependência na produção de
REFERÊNCIAS
ANDA – Associação Nacional para Difusão de Adubos (2003) Anuário estatístico do
setor de fertilizantes 1992-2002. São Paulo, Anda, 96 p.
ANFAVEA – Associação nacional dos fabricantes de veículos automotores (2002)
Anuário estatístico da indústria automobilística brasileira / Statistical yearbook of the Brazilian automotive industry (disponível em www.anfavea. com.br (05/02/2002)), 140
p.
BACEN – Banco Central do Brasil (2005) Estatísticas econômicas do Brasil (disponível em www.bcb.gov.br).
BENNETT, A. J. (2000) Environmental consequences of increasing production: some
current perspectives. Agriculture, Ecosystems & Environment, vol. 82, nº 01-03, pp. 89- 95.
BRASIL (2006) www.brasil.gov.br
CARNEIRO, Maria J. (2006) “Pluriatividade da agricultura no Brasil: uma reflexão
crítica”. In: Schneider, Sérgio (org.) A diversidade da agricultura familiar. Porto Alegre, Ed. da UFRGS, pp. 165-185.
CASTEL-BRANCO, Carlos N. (2002) Economic linkages between South Africa and Mozambique, 22 p. (mimeo.).
CRAMER, Christopher (1999) “Can Africa industrialize by processing primary
commodities? The case of Mozambican cashew nuts”. World Development, vol. 27, nº 07, pp. 1247-1266.
DORWARD, Andrew;KYDD, Jonathan; MORRISON, Jamie &UREY, Ian (2004) “A policy
agenda for pro-poor agricultural growth”. World Development, vol. 32, nº 01, pp. 73-89. DUMONT, René (1962) L´Afrque noire est mal partie. Paris, Seuil, 287 p.
ELLIS, Stephen (2005) “How to rebuild Africa”. Foreign Affairs, vol. 84, nº 05, pp. 135-
141.
FILIPPI, Eduardo E.; REQUIER-DESJARDINS, Denis & BLANC, Marie-Odile (2004) Corridors to regional integration: an evalution of the Maputo Corridor. ONU/PRUD,
The World Bank, Washington D.C., 6 p.
FRY, Peter (org.) (2001) Moçambique: ensaios. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 340 p.
HANLON, Joseph (2000) “Powr without responsability: the World Bank & Mozambican
cashew nuts”. Review of African Political Economy, vol. 27, nº 83, pp. 29-45.
KANJI, NAZNEEN ET AL. (2004) Liberalização, género e meios de sustento: castanha de caju em Moçambique. Relatório Resumo (mimeo.), 30 p.
LACHARTRE, Brigitte (2000) Enjeux urbains au Mozambique : de Lourenço Marques à Maputo. Paris, Karthala, 320 p.
LE MONDE (2006) “L´Afrique agricole”, 08/06/06 (www.lemonde.fr).
MAY, Peter & Bonilla, Olman S. (1997) The environmental effects of agricultural trade
liberalization in Latin America: an interpretation. Ecological Economics, vol. 22, pp. 05-18.
MAZOYER, Marcel & Roudart, Laurence (1997) Histoire des agricultures du monde. Du néolithique à la crise contemporaine. Paris, Seuil, 543 p.
MWABU, Germano &THORBECKE, Erik (2004) “Rural development, growth and poverty
in Africa”. Journal of African Economies, vol. 13, suppl. 01, pp. i16-i65.
REDCLIFT, Michael (1989) The environmental consequences of Latin America's
agricultural development : some thoughts on the Brundtand Commission Report. World
Development, vol. 17, nº 03, pp. 365-377.
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE (2005) Proposta de Programa do Governo para 2005 – 2009, 117 p.
ROMEIRO, Ademar R. (1994) Reforma agrária e distribuição de renda. In : Stédile, João
P. (org.) A questão agrária hoje. Porto Alegre, Ufrgs / Editora da Universidade, pp. 105-136.
Workshop internacional: Políticas públicas e desenvolvimento rural: percepções e
perspectivas no Brasil e em Moçambique
[Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 24-25/agosto/2006]
PAINEL 5: ENSINO E PESQUISA EM DESENVOLVIMENTO RURAL: QUEBRANDO BARREIRAS E VALORIZANDO CONHECIMENTOS