• Nenhum resultado encontrado

2 O BJECTIVOS GERAIS E ESPECÍFICOS

No documento Porto Alegre, e-book (páginas 44-50)

O Programa de pesquisa tem como objectivos gerais:

• Documentar, analisar, e interpretar os aspectos relevantes de processos sociais associados à redução da pobreza nas suas diferentes dimensões em três aldeias do grupo linguístico Emakua localizadas nas três províncias do Norte de Moçambique.

• Contribuir para uma nova análise da pobreza ao nível micro: analisar as causas da distribuição desigual da riqueza na aldeia, no seio da família, e em relação a aldeia com o seu meio (recursos naturais, vias de comunicação e mercado). • Aprofundar a análise da pobreza e das assimetrias desde a perspectiva da

vulnerabilidade e a insegurança social das comunidades rurais do Norte de Moçambique.

• Analisar a dinâmica da pobreza nas comunidades rurais identificando o tipo de estratégias adoptadas na redução da vulnerabilidade e no aumento dos

rendimentos da família rural.

Os objectivos específicos da pesquisa centram-se em:

• Aferir da existência ou não de assimetrias na distribuição da riqueza no seio da família e das comunidades rurais.

• Explicar a razão de ser ou não dessas assimetrias e identificar as tendências de mudança.

• Identificar o tipo de estratégias utilizadas pelos agregados em face de situações de vulnerabilidade

• Analisar em que medida as estratégias adoptadas são só para reduzir o impacto da vulnerabilidade ou possibilitam também o desenvolvimento da capacidade de gestão de risco e eventualmente a saída da pobreza. Identificar a existência de tendências e propor medidas para a redução da pobreza.

O estudo envolve o uso de quatro componentes de análise da estrutura da distribuição da riqueza ao nível da aldeia. Com base nestas componentes tentaremos aprofundar o conhecimento da vulnerabilidade das comunidades rurais, começando pelo estudo das assimetrias na distribuição da riqueza nas aldeias, analisando as estratégias adoptadas face a situações de vulnerabilidade (agregados com pouco acesso aos recursos) e o papel das redes sociais existentes em situações de risco.

Na primeira componente, fez-se um levantamento quantitativo sobre bens e posses dos agregados familiares, que permitiu a construção de um indicador do nível de posse através do método estatístico Análise das Componentes Principais. Posteriormente foi analisada a forma de distribuição deste indicador de forma a identificar a existência ou não de assimetrias no acesso aos recursos dos agregados.

Na segunda perspectiva analisaram-se as redes sociais, como estratégias determinantes na redução da vulnerabilidade das famílias (ou da percepção da vulnerabilidade), a terceira envolve a exclusão social. Esta componente analisa a pobreza, do ponto de vista dos processos sociais que excluem certas pessoas do acesso aos recursos; e por último a componente espacial que analisa as condições dos recursos naturais e das infra-estruturas como factores determinantes dos níveis de pobreza dos agregados familiares.

3 ENQUADRAMENTO TEÓRICO

O estudo sobre Análise Multidmensional da Pobreza. em Três Aldeias do Norte de Moçambique enquadra-se na perspectiva da análise da Pobreza Dinâmica (Dynamics

Poverty), no sentido que considera que os indivíduos ou agregados familiares

desenvolvem estratégias para mudar a sua situação de pobreza. Deste modo, a perspectiva adoptada aqui é aquela que considera a pobreza como um processo, onde os

indivíduos ou agregados familiares reagem perante os choques ou os riscos que enfrentam.

Existe uma ampla literatura na área da pobreza dinâmica que está baseada no conceito de vulnerabilidade no sentido que a pobreza é reconhecida como um outcome de um processo dinâmico. Assim o estudo pretende analisar o comportamento da família rural, ou dito de outra maneira, como os agregados familiares se adaptam a uma situação de crise, quais as estratégias que adoptam para reduzir os efeitos dos riscos e gerar recursos adicionais, e quais são os constrangimentos que impedem as suas acções. Nesta perspectiva utilizamos o conceito de vulnerabilidade como conceito capaz de capturar os processos de mudança relativos à pobreza e das estratégias que desenvolvem os indivíduos ou os agregados familiares perante as mudanças em termos económicos, político e social.

Analisar a vulnerabilidade implica identificar não só os riscos que enfrentam as comunidades rurais, mas também como estas desenvolvem estratégias para criar oportunidades e resistir aos efeitos negativos das mudanças em seu redor. Devereux constatou que o risco e a vulnerabilidade têm sido redescobertos como a chave da

análise dos meios de vida rural e da pobreza, sendo um novo enfoque de atenção para as políticas da redução da pobreza (Devereux 2001). Do mesmo modo Farrington

afirmou que a redução da vulnerabilidade está a ser vista como o aspecto central das

políticas do Desenvolvimento Rural (Farrington et al. 2002)

Através do conceito da vulnerabilidade abre-se uma nova abordagem para a análise da pobreza. Este conceito estabelece uma relação entre a pobreza, o risco e as

estratégias para a gestão do risco. Segundo Moser (1998) a vulnerabilidade é insecurity and sensitivity in the well being of individuals, households, and communities in the face of changing environment, and implicit in this, their responsiveness and resilience to risk that they face during such negative changes.

A capacidade para enfrentar os riscos por parte dos indivíduos, dos agregados familiares e das comunidades rurais está directamente ligada aos recursos que estes possuem. A perspectiva do asset-based para a análise da pobreza descreve a pobreza como um acesso inadequado aos recursos tangíveis como terra, trabalho, capital,

poupança e intangíveis como relações sociais, institucionais e políticas, infra-estrutura física e social (Siegel & Alwang 1999).

Por outro lado Carney (1998) considera que a capacidade para fazer face aos riscos não depende unicamente do acesso aos recursos mas também das estratégias de sobrevivência livelihood comprises the capabilities, assets (including both material and

social resources) and activities required for a means of living. A livelihood is sustainable when it can cope with and recover from stresses and shocks and mantain or enhance its capabilities and assets both now and in the future, while not undermining the natural resource base.

Assim, a vulnerabilidade de um agregado familiar ou de uma comunidade depende dos recursos que possui, gere e controla. Deste modo quanto mais recursos tiver o agregado familiar menor será a vulnerabilidade. Portanto a vulnerabilidade está claramente relacionada com a posse de recursos de um agregado familiar. Neste sentido ao nível da aldeia existem assimetrias na medida que existe diferenças no acesso aos recursos entre os agregados familiares, e consequentemente diferentes graus de vulnerabilidade.

A noção do acesso aos recursos ajuda, por um lado, a entender a maneira como as famílias e os indivíduos enfrentam a pobreza em termos materiais, por outro lado, perceber que a pobreza está relacionada com as escolhas de estratégias, e as capacidades e habilidades para fazer face às condições sociais e económicas que produzem pobreza. Assim os assets não são simplesmente recursos que os indivíduos usam para construir melhores condições de vida, são também os assets que proporcionam a habilidade de ser e actuar (Bebbington, 1999). Neste enquadramento teórico entende-se os recursos não só como os elementos que permitem sobreviver e reduzir a pobreza, mas também como veículos para actuar e transformar as condições de vida dos indivíduos ou agregados familiares.

Neste ponto é interessante desenvolver o conceito de matriz ou Livelihood

Framework onde se estabelece quais são os recursos ou capitais que têm incidência na

vulnerabilidade dos indivíduos ou agregados familiares no meio rural.

São vários os autores que analisam a pobreza através do conceito da vulnerabilidade. Porém, Moser (1998) e Bebbington (1999) são os autores que estabeleceram uma matriz com os recursos que incidem na vulnerabilidade dos indivíduos.

Segundo Bebbington (1999), na obra Capitals & Capabilities Framework, os recursos que são considerados para a análise da pobreza, para as áreas rurais, são os seguintes cinco capitais: capital produtivo que seria a soma do físico e o financeiro que inclui a terra, o trabalho, as fontes de rendimento, e os proxies. O capital humano que considera os recursos de acesso à saúde e à educação. O capital natural que considera a terra, a água, e as fontes de energia como recursos. O capital social, como o conjunto de relações sociais que se estabelecem entre os indivíduos para melhorar as condições de vida, e por último o capital cultural que seria a percepção da pobreza e o valor social que se proporciona aos recursos.

Para Moser (1999), o Asset Vulnerability Framework é mais adequado a análise da pobreza urbana. São também definidos cinco recursos que são nomeadamente o trabalho (o recurso mais importante), o capital humano, os recursos produtivos (incluindo habitação como o mais importante), as relações entre agregados familiares e por último o capital social.

Com base no conceito de Asset Vunerability Framework e no conhecimento da realidade rural moçambicana, estabeleceu-se uma matriz de capitais específica ao contexto. Através desta matriz analisa-se a pobreza em termos de acesso aos recursos em termos de uma análise das relações económicas, sociais e políticas que produzem pobreza e o bem-estar. Neste sentido, o acesso aos recursos e o capital social são os elementos centrais da matriz, na medida em que permite analisar as relações e transacções entre os membros do agregado.

Matriz de capitais

Tipos de Capitais O que se refere Capital humano

Refere-se à educação, saúde, habilidades, conhecimentos e acesso à informação.

Capita social

Refere-se às relações de confiança e ajuda mútua entre os agregados familiares, ou grupos formais e informais dentro da comunidade ou fora da comunidade que geram benefícios económicos ou sociais aos indivíduos.

Capital económico

Refere-se ao capital físico como terra, árvores, acesso água, lenha, trabalho, instrumentos de trabalho, acesso aos mercados e capital financeiro como fontes de rendimentos, remessas e poupanças.

Várias são as maneiras como os indivíduos ou os agregados familiares satisfazem as suas necessidades básicas. Entre elas está a gestão de uma complexa combinação de capacidades, recursos (materiais e sociais) e actividades.

Existem diferentes tipos de estratégias que os indivíduos e agregados familiares adoptam para ter acesso aos recursos, como económicos, sociais, físicos, humanos e políticos, (os denominados capitais). Um conhecimento profundo dos constrangimentos e as oportunidades enfrentadas por diferentes grupos no acesso aos recursos e na gestão destes, é uma perspectiva interessante para as intervenções políticas na redução da pobreza.

Os agregados familiares podem responder e gerir o risco de maneira formal ou informal dependendo do seu acesso aos recursos. Segundo Morduch (1998) existem dois tipos de estratégias. Por um lado as estratégias de auto protecção em que o indivíduo ou agregado familiar tenta fazer face ao risco através de acções como a compra ou venda de alguns recursos, a diversificação económica ou trabalhos temporais e por outro, existem as estratégias das relações entre agregados familiares em que a natureza destas relações pode ser de parentesco, étnicas, por religião, por idade, económicas ou profissionais. Estas redes de relações sociais são o que a literatura científica denomina de capital social.

Mas, existem estratégias a priori e a posteriori ao risco. Assim surge a matriz sobre as estratégias de resposta ao risco:

Estratégias a priori Estratégias a posteriori

Auto-protecção A C

Relações Sociais B D

A. Estratégias a priori de auto-protecção B. Estratégias a priori de relações sociais C. Estratégias a postriori de auto-protecção D. Estratégias a posteriori de relações sociais

Mas o nosso estudo não pretende só analisar em que medida existem assimetrias no acesso aos recursos (tangíveis e intangíveis), e portanto detectar aqueles grupos sociais que estão em situação de maior vulnerabilidade, pretende também estudar as estratégias

adoptadas em face da vulnerabilidade coping strategies. Considerando que as estratégias para fazer face ao risco dependem das relações sociais que se estabelecem entre os indivíduos ou os agregados familiares, neste estudo pretende-se analisar também em que medida essas relações sociais ou capital social contribuem na redução da vulnerabilidade, no aumento dos rendimentos das famílias rurais ou são um travão ao desenvolvimento.

Deste modo uma das perguntas da pesquisa é: até que ponto o capital social, ou as redes sociais existentes nas aldeias, são capazes não só de reduzir a vulnerabilidade das famílias, mas também de gerar estratégias para a redução da pobreza e portanto do aumento dos rendimentos da família.

Assim, apresenta-se a seguir uma revisão da literatura relacionada com capital social.

No documento Porto Alegre, e-book (páginas 44-50)